Ordem indirecta

Porque é a nossa

      «Em quanto á sintaxe de construção ou de colocação dos Novíssimos Estudos, observa o meu crítico que sou inclinado ás inversões, naturalmente porque não escrevo em francês traduzido, que parece ser o que por aí se denomina escrever hodierno, mas, imitando os bons modelos da língua, fujo da construção directa francesa, que é quási a única empregada por alguns escritores jóvens. Não vou com certa tendência que actualmente se observa, e a meu parecer funesta, para a introdução em nosso idioma da ordem directa da frase francesa, o período do agente, verbo e complemento, —­ estrutura fraseológica de uma pobreza e monotonia supremas — em substituição da construção indirecta que ilustraram tão gloriosamente os nossos antepassados» (Fatos da Língua Portuguesa, Mário Barreto. Rio de Janeiro: Presença Edições, 3.ª ed., facsimilada, 1982, p. 27).

[Texto 1199]
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Ficha clínica

Sexo: outro

      Na ficha médica, o campo destinado a indicar o sexo do doente pode deixar o clínico perplexo, pois há cinco — cinco, santo Deus! — hipóteses: 1. Masculino; 2. Feminino; 3. Indeterminado; 4. Inaparente; 5. Outro. Só por isto, os médicos merecem ser bem pagos.
[Texto 1198]
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O verbo «haver»

Definitivamente

      A propósito do Dia Internacional da Mulher, a repórter da RTP Cláudia Viana foi ontem entrevistar quatro sócias de uma agência de conteúdos (seja lá isso o que for). Uma delas resumiu a opinião das quatro: «Houvessem mais mulheres em postos de poder, em postos determinantes, e o nosso país era mais feliz, era mais feliz. O mundo era definitivamente melhor, muito melhor.»
[Texto 1197]
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«Que compara com»?

Vagamente português

      «Alexandre Soares dos Santos foi o único milionário português que aumentou o seu património no último ano. Segundo a lista dos mais ricos do mundo, ontem divulgada pela revista Forbes, o dono das cadeias Pingo Doce e Biedronka (Polónia) tem actualmente uma fortuna de 2,5 mil milhões de dólares (1,9 mil milhões de euros), que compara com os 2,3 mil milhões de dólares apurados para o ranking de 2011» («Dono do Pingo Doce foi o único milionário que aumentou a sua fortuna», José Manuel Rocha, Público, 8.03.2012, p. 16).
[Texto 1196]
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«Sociopoliticoeconómico»?

Tenham lá paciência

      «Helena Vasconcelos é crítica literária. Lançou em Fevereiro Humilhação e Glória (ed. Quetzal), um fresco sobre as mulheres das artes, letras e ciências que, ao longo dos séculos, marcaram as suas áreas. Nesta obra, as escritoras, artistas e investigadoras portuguesas, muitas das quais pouco divulgadas ou mesmo estudadas, surgem enquadradas nos sucessivos contextos sociopoliticoeconómicos internacionais, olhando-se para trás até nomes como Hipácia de Alexandria e Leonor de Aquitânia» (Público, 8.03.2012, p. 27). 
      Eh lá! O novíssimo Público anda a exagerar. Tudo fundido? Vá lá com um hífen: sociopolítico-económico. Ou mesmo, por respeitar mais a natureza dos elementos, com dois: sócio-político-económico.

[Texto 1195]
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«Passagem hidráulica»

Agora somos engenheiros

      «Nos dias 9 e 10 de Março, dezenas de cidadãos de Vila Real vão construir um muro com 40 centímetros de altura, dos dois lados da estrada nacional EN313 – que liga Vila Real a Lamas de Olo –, num troço de 1400 metros. “Esta estrada já tem uma série de passagens hidráulicas por baixo da estrada. Aquilo que vamos fazer é construir um murete que conduza os anfíbios até essas passagens, para diminuir a mortalidade acidental por atropelamento, que no ano passado foi muito elevada”, disse ao PÚBLICO Carlos Lima da Divisão de Planeamento da Câmara Municipal de Vila Real» («Voluntários vão ajudar salamandras e sapos do Alvão a atravessar a estrada», Helena Geraldes, Público, 8.03.2012, p. 29).
      É o nome que se dá às estruturas, de secção circular, rectangular ou arqueada, que permitem a drenagem transversal das estradas.

[Texto 1194]
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Sobre «presidenta», de novo

A propósito

      «O famigerado cronista da ordem dominicana [Fr. Luís de Sousa] empregou a palavra presidente como comum aos dois géneros. Hoje por analogia com os biformes em o, a, dá-se a forma feminina com a desinência a a alguns dêsses vocábulos, primitivamente uniformes, terminados em nte, em sua maioria derivados verbais, particípios activos que fazem de nomes e adjectivos. Assim é que infante e parente, que eram invariáveis, admitem hoje as formas infanta e parenta. Quanto a presidente, que o frade de Bemfica empregou como comum, outro esmerado escritor português, A. F. de Castilho, trá-lo como variável, mudando-lhe o e por a na formação do feminino. No Novo Dic. de Cândido de Figueiredo, 2.ª ed., já se consigna a terminação feminina de presidente: o termo vem assinalado com asterisco, o que quer dizer que inda não corria autorizado pelos dicionaristas portugueses, e cita-se um exemplo que eu já citara nos Novos Estudos (Rio, 1911), em que o Castilho concedeu terminação feminina ao nome em questão, estampando presidenta a páginas 128 das Sabichonas» (Fatos da Língua Portuguesa, Mário Barreto. Rio de Janeiro: Presença Edições, 3.ª ed., facsimilada, 1982, p. 203).

[Texto 1193]
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Aviso para o presente

Barbaridades dos revedores

      «Em Lisboa tem a Parceria António Maria Pereira reeditado muitas obras do célebre romancista Camilo Castelo Branco. Reedições são estas que não podem merecer a estima nem a confiança dos estudiosos por estarem lastimávelmente inçadas de erros tipográficos que revelam uma revisão nada acurada; por nelas se encontrar a cada passo desordem de paginação, e ainda porque, confrontando estas novas edições com as da vida do autor, falecido em 1890, se notam não poucas inexactidões na reprodução do texto, o que tudo representa, alêm do mais, grave irreverência á memória do autor reeditado, a quem assim atribuem tipógrafos e revedores as suas próprias barbaridades» (Fatos da Língua Portuguesa, Mário Barreto. Rio de Janeiro: Presença Edições, 3.ª ed., facsimilada, 1982, p. 149).

[Texto 1192]
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Como se fala na televisão

E em todo o lado

      Dez Estados norte-americanos escolhem o candidato republicano para defrontar Barack Obama. A jornalista da RTP Márcia Rodrigues está lá. «É uma data especial. Chamam-lhe Superterça-Feira, em regra o dia onde se conhece o candidato do Partido Republicano à Casa Branca.» «O dia onde»! O meu favorito é Mitt Romney, porque o homem tem muitíssimo dinheiro, muito humor e algumas ideias: «Preciso do vosso voto, votai as vezes que vos deixarem...»
[Texto 1191]
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Agora que não é agora nem logo

Now

      Joana Rombert, terapeuta da fala, esteve ontem no Bom Dia Portugal. Ah, sim, porque ontem foi Dia Europeu da Terapia da Fala. E deve-se ir ao médico de família ou directamente ao terapeuta da fala? «Pode ser directamente à terapia da fala. Agora, muitas vezes a criança pode ter que fazer um despiste auditivo.»
[Texto 1190]
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Léxico: «mediclina»

Astrolábio náutico

      «Queria dizer: medicina, declina, l=declina, medulina?» Nada disso, Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Eu queria mesmo dizer medeclina ou mediclina. O Dicionário Houaiss responde: «alidada que gira em torno do centro do astrolábio».

[Texto 1189]
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Sobre «fronda»

Anne d’Autriche e Mazarin!

      «Não sou economista, nem partilho do optimismo da casta. Mas há qualquer coisa nesta fronda anti-económica [sic] em 2012, unindo sectores à esquerda e à direita, que neste momento me parece leviana e primária» («A economia», Pedro Lomba, Público, 6.03.2012, p. 52).
      Para o Dicionário Houaiss, na versão em linha, a etimologia de «fronda» é o «fr. Fronde (1651) ‘revolta que estourou no início (1648) do reinado de Luís XIV (1638-1715) dirigida contra Anne d’Autriche e Mazarin; o nome do partido que a originou’». Anne d’Autriche e Mazarin! (Caro Paulo Araujo, é preciso corrigir o verbete.) Para três homónimos franceses, temos nós três vocábulos diferentes: «funda», «revolta» e «fronde».
[Texto 1188]
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«Omissão de cadáver»

Claro que «omissão» é «falta»

      «O enfermeiro e militar da Marinha que confessou ter morto [sic] um director dos CTT, em 2007, foi ontem condenado por homicídio qualificado a 20 anos e seis meses de cadeia – por homicídio qualificado e omissão do cadáver – e terá de indemnizar os familiares da vítima» («Condenado autor do homicídio de director dos CTT», Público, 6.03.2012, p. 10). 
      Em Portugal, não é essa a expressão por que é designado o crime, pelo menos habitualmente. No Código Penal, art. 254.º, o verbo usado é «ocultar». No Brasil sim, é «omissão de cadáver», expressão corrente pelo menos na jurisprudência.
[Texto 1187]
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«Racionar/racionalizar»

Raciocinemos

      «Mais de metade das culturas da Cova da Beira estão destruídas por causa da falta de chuva. A seca extrema faz com que as pastagens estejam secas. Os agricultores estão desesperados, as únicas reservas que tinham estão esgotadas», diz a repórter Sandra Salvado, da RTP. O agricultor Carlos Batista, por sua vez, diz: «Tenho um poço já seco, tenho controlado a água para as minhas necessidades, mas tem-se [sic] perdido algumas coisas. Tenho de racionalizar a água. Tem sido muito difícil.»
      Racionalizar significa submeter ao domínio da razão, tornar racional. Racionar é limitar a quantidade, distribuir ou usar de forma regrada.

[Texto 1186]
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Ora toma: «Uso capitão»!

O novíssimo Público

      Sim, gosto do novo grafismo do jornal Público. Tem, porém, como os outros jornais, de mudar em aspectos muito mais importantes. Por exemplo? Idálio Revez escreveu hoje, e não parecia que estivesse a brincar: «No caso de Armação de Pêra, quando estão em causa equipamentos públicos, há dezenas de anos sob administração do Estado, “o que há fazer é o recurso ao uso capitão”, a legislação que confere a posse do [sic] parcela a quem lhe dá uso e cuida há mais de 15 anos. A proposta de compra, sublinha, “é mais uma negociata”» («Investigador da Universidade do Algarve defende que compra da praia não se justifica», I. R., Público, 5.03.2012, p. 54).
[Texto 1185]
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Consoantes mudas

Já cansa repetir

      «Se a Comissão [da reforma ortográfica] encarregada de preparar a simplificação da ortografia portuguesa mantêm [sic] a letra p na escrita do vocábulo recepção, não há ofensa da pronúncia, nem para o Brasil onde soa a dita letra, nem para Portugal, onde não se pronuncia o p, mas se conserva a letra nula pela razão, que já cansa repetir, de que a consoante muda influi no som da vogal precedente, e assim tanto o brasileiro como o português reconhecerão na escrita a pronunciação que dão ao vocábulo» (Fatos da Língua Portuguesa, Mário Barreto. Rio de Janeiro: Presença Edições, 3.ª ed., facsimilada, 1982, p. 323).

[Texto 1184]
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Sobre «exorável»

Desde o século XVI

      «É tambêm de notar que nos ficaram e subsistem no uso corrente vocábulos compostos cujos simples não são de nosso idioma. Dizemos inulto (de in e ultus, vingado), e não dizemos o primitivo ulto, e, como êste, outros muitos exemplos: invicto, immundo (de in e mundus, limpo). De uso freqùente é inexorável, mas dá-se o caso de que exorável, de exorabilis, o que se deixa vencer com rogar (de os, oris), se emprega pouco ou nada» (Fatos da Língua Portuguesa, Mário Barreto. Rio de Janeiro: Presença Edições, 3.ª ed., facsimilada, 1982, p. 229).
      Espanta que ainda subsista nos nossos dicionários.
[Texto 1183]
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