Pronúncia: «ressurreição»

Bem nos parecia

      Já uma vez, no Assim Mesmo, aqui, tratei da pronúncia do vocábulo «ressurreição», assunto de que o padre Américo F. Alves não pôde fugir: «Ressurreição deve pronunciar “ressurreição”, com “e” mudo. Nada justifica que o digníssimo vocábulo se aproxime, fonologicamente, de “rèpública” (com e bem aberto). Enquanto re de república vem do substantivo res-rei, o re de ressurreição é apenas um prefixo, muito frequente na formação de palavras, como: repetição, ressurgir, relembrar, recomeçar, recolher, etc., etc. Não existe o verbo rèssurgir nem o substantivo rèssurgimento; mas ressurgir, ressurgimento, ressuscitar, ressurreição» (Nem Tanto Erro!, de Américo F. Alves. Edição do autor, Braga, 1993, p. 80).

[Texto 1294]
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«Porque/por que»

Fenda gratuita

      «Porque hão-de alguns portugueses escrever por que (em duas palavras), se não há lógica nem análise possível? Que palavra é aquele “que”? Se responderem que é um pronome, tem de estar em vez de um nome, isto é, há-de ter um antecedente ou referente. Qual é, então, esse nome ou referente, tão íntimo, implícito, subjectivo, que ninguém descortina e serve apenas, como fenda gratuita, para se perpetuarem dúvidas e confusões no ânimo de alguns redactores?» (Nem Tanto Erro!, de Américo F. Alves. Edição do autor, Braga, 1993, p. 33).
[Texto 1293]
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«Nem Tanto Erro!»

Do ioga e da gramática

      Ontem descobri este livrinho: Nem Tanto Erro!, de Américo F. Alves. Conhece, Fernando Venâncio? Foi publicado em 1993. O que me intrigou durante uns segundos foi esta nota: «Os maiores destinatários são os agentes do culto religioso.» Ora, e porquê, erram mais? O cólofon, ou seja, nem é preciso ler a obra, desvenda o mistério: «Fotocomposto e impresso nas oficinas gráficas da Editorial Franciscana Montariol – Braga – 1993». Ah, assim já percebemos. E do prefácio retemos isto: «Pessoalmente, quero praticar mais este humílimo gesto de solidariedade, visto o exercício do ensino ser a melhor escola para o docente continuar a aprender... e porque é “misericórdia corrigir os que erram”.» Tudo verdades, especialmente no que diz respeito a os docentes aprenderem. Ainda recentemente, o grande mestre do ioga Jorge Veiga e Castro afirmava que é obrigação de quem ensina ioga (mas aplica-se a todas as áreas, naturalmente) praticar tantas horas quantas aquelas que lecciona.
[Texto 1292]
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«Aparelhístico», «truquismo»

Como falam os nossos políticos

      «Outro dirigente do partido, José Lello – o mais “socrático” dos deputados do PS –, resumiu ao DN numa palavra o que pensa da proposta: “Uma loucura!” Segundo acrescentou, a proposta “não garante diversidade” e permite “controlo aparelhístico”. Outra proposta debaixo de fogo é aquela que alarga o mandato do secretário-geral (e dos órgãos nacionais do partido) de dois para quatros anos, de forma a fazê-lo coincidir com as legislaturas da Assembleia da República. “Cheira-me a truquismo”, disse Lello. “É sinal de um líder fraco com medo do partido”, sublinha Pedroso» («Seguro acusado no PS de “golpe aparelhístico”», João Pedro Henriques, Diário de Notícias, 28.03.2012, p. 8).
      «Aparelhístico» e «truquismo»! Se o revisor antibrasileiro leu isto, não se aguentou: atirou com os aparelhos ao ar. Ainda se lembram do muito mais inócuo «clubístico» e do que ele dizia? Vejam aqui.

[Texto 1291]
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Homonímia

Azar

      «Muitos franceses chamados Mohamed Merah estão a ser alvo de insultos e ameaças. Devido à circunstância de os nomes árabes terem mais homónimos do que é habitual na tradição europeia, há centenas de pessoas com o mesmo nome que o terrorista que atacou em Toulouse. A AFP conta a história de um pugilista de 24 anos, muito promissor, mas que tem o azar de se chamar Mohamed Merah. O atleta enchia salas com mil espetadores, conta o seu treinador. Agora, tal como aconteceu a muito [sic] outros franceses, Merah, o inofensivo boxeur, foi alvo de ameaças de morte» («O azar de se chamar Mohamed Merah», Luís Naves, Diário de Notícias, 28.03.2012, p. 25).
      Também Apolónio, se se lembram, fala da homonímia com nomes próprios, que exemplifica com nomes a que se acrescentaram os epitéticos: Dião, o filósofo. Em meios pequenos, vilas, aldeias, é que é motivo de constrangimentos e incómodos.

[Texto 1290]
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Lloret de Mar

Ainda dizem que 
são todos iguais

      Ela sabe e até ensina: «Praia, piscina, álcool, drogas e discotecas. Há quem não durma e teste os limites. Estudantes são unânimes: estes dias são únicos. O maior defeito de Lloret de Mar (que se diz lhuréte, já agora) é que a noite “acaba cedo”» («“Estamos aqui para apanhar um esgotamento”», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 28.03.2012, p. 28). Mas o que ouvimos no Forvo não pode ser transcrito como «Lhuréte».
[Texto 1289]
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Sobre «cante»

Ora, não se percebe

       «A reunião no MNE foi acompanhada no exterior do Palácio das Necessidades pela actuação de meio milhar de cantadores alentejanos. Entre os temas interpretados, ouviu-se Grândola, Vila Morena. Antes, numa conferência de imprensa na Casa do Alentejo em Lisboa, a comissão executiva lamentou a decisão do embaixador António de Almeida Ribeiro de adiar a entrega da candidatura, alegadamente por ela ter sido questionada por alguns dos membros da comissão científica que colaborou na sua elaboração. Na sessão, o actor alentejano Nicolau Breyner deu voz à “indignação” dos seus conterrâneos: “A candidatura está pronta, tem qualidade inquestionável e é tecnicamente inatacável”» («Cante alentejano insiste na candidatura», Sérgio C. Andrade, Público, 29.03.2012, p. 27).
       O vocábulo, de que cheguei a tratar no Assim Mesmo duas vezes (numa delas referi que o revisor antibrasileiro o desconhecia), continua a não estar registado nos dicionários. E agora sobre a substância da notícia: é já a segunda vez que leio ou ouço, escrito ou dito por não especialistas, que esta candidatura é tecnicamente inatacável. Se não são especialistas que o dizem, não estarão apenas a repetir o que ouvem? Donde lhes vem a autoridade para darem estas opiniões?
[Texto 1288]
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Como se escreve nos jornais

«O próprio De Cantos»?!

      «Terminaram há dias, na Oporto, as Jornadas Cantianas. Dito assim, poder-se-ia pensar que uma instituição portuense acolheu um colóquio sobre o filósofo da Crítica da Razão Pura. Mas “cantianas” refere-se a Paulo de Cantos (1892-1972) e Oporto é um espaço lisboeta dirigido pelo artista plástico Alexandre Estrela. O próprio De Cantos, tão apreciador do siso como do riso, apaixonado por jogos de palavras, teria achado graça ao potencial equívoco» («Paulo de Cantos: a redescoberta de um gráfico de vanguarda», Luís Miguel Queirós, Público, 29.03.2012, p. 27).
[Texto 1287]
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Ordem indirecta

Porque é a nossa

      «Em quanto á sintaxe de construção ou de colocação dos Novíssimos Estudos, observa o meu crítico que sou inclinado ás inversões, naturalmente porque não escrevo em francês traduzido, que parece ser o que por aí se denomina escrever hodierno, mas, imitando os bons modelos da língua, fujo da construção directa francesa, que é quási a única empregada por alguns escritores jóvens. Não vou com certa tendência que actualmente se observa, e a meu parecer funesta, para a introdução em nosso idioma da ordem directa da frase francesa, o período do agente, verbo e complemento, —­ estrutura fraseológica de uma pobreza e monotonia supremas — em substituição da construção indirecta que ilustraram tão gloriosamente os nossos antepassados» (Fatos da Língua Portuguesa, Mário Barreto. Rio de Janeiro: Presença Edições, 3.ª ed., facsimilada, 1982, p. 27).

[Texto 1199]
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Ficha clínica

Sexo: outro

      Na ficha médica, o campo destinado a indicar o sexo do doente pode deixar o clínico perplexo, pois há cinco — cinco, santo Deus! — hipóteses: 1. Masculino; 2. Feminino; 3. Indeterminado; 4. Inaparente; 5. Outro. Só por isto, os médicos merecem ser bem pagos.
[Texto 1198]
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O verbo «haver»

Definitivamente

      A propósito do Dia Internacional da Mulher, a repórter da RTP Cláudia Viana foi ontem entrevistar quatro sócias de uma agência de conteúdos (seja lá isso o que for). Uma delas resumiu a opinião das quatro: «Houvessem mais mulheres em postos de poder, em postos determinantes, e o nosso país era mais feliz, era mais feliz. O mundo era definitivamente melhor, muito melhor.»
[Texto 1197]
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«Que compara com»?

Vagamente português

      «Alexandre Soares dos Santos foi o único milionário português que aumentou o seu património no último ano. Segundo a lista dos mais ricos do mundo, ontem divulgada pela revista Forbes, o dono das cadeias Pingo Doce e Biedronka (Polónia) tem actualmente uma fortuna de 2,5 mil milhões de dólares (1,9 mil milhões de euros), que compara com os 2,3 mil milhões de dólares apurados para o ranking de 2011» («Dono do Pingo Doce foi o único milionário que aumentou a sua fortuna», José Manuel Rocha, Público, 8.03.2012, p. 16).
[Texto 1196]
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«Sociopoliticoeconómico»?

Tenham lá paciência

      «Helena Vasconcelos é crítica literária. Lançou em Fevereiro Humilhação e Glória (ed. Quetzal), um fresco sobre as mulheres das artes, letras e ciências que, ao longo dos séculos, marcaram as suas áreas. Nesta obra, as escritoras, artistas e investigadoras portuguesas, muitas das quais pouco divulgadas ou mesmo estudadas, surgem enquadradas nos sucessivos contextos sociopoliticoeconómicos internacionais, olhando-se para trás até nomes como Hipácia de Alexandria e Leonor de Aquitânia» (Público, 8.03.2012, p. 27). 
      Eh lá! O novíssimo Público anda a exagerar. Tudo fundido? Vá lá com um hífen: sociopolítico-económico. Ou mesmo, por respeitar mais a natureza dos elementos, com dois: sócio-político-económico.

[Texto 1195]
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«Passagem hidráulica»

Agora somos engenheiros

      «Nos dias 9 e 10 de Março, dezenas de cidadãos de Vila Real vão construir um muro com 40 centímetros de altura, dos dois lados da estrada nacional EN313 – que liga Vila Real a Lamas de Olo –, num troço de 1400 metros. “Esta estrada já tem uma série de passagens hidráulicas por baixo da estrada. Aquilo que vamos fazer é construir um murete que conduza os anfíbios até essas passagens, para diminuir a mortalidade acidental por atropelamento, que no ano passado foi muito elevada”, disse ao PÚBLICO Carlos Lima da Divisão de Planeamento da Câmara Municipal de Vila Real» («Voluntários vão ajudar salamandras e sapos do Alvão a atravessar a estrada», Helena Geraldes, Público, 8.03.2012, p. 29).
      É o nome que se dá às estruturas, de secção circular, rectangular ou arqueada, que permitem a drenagem transversal das estradas.

[Texto 1194]
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Sobre «presidenta», de novo

A propósito

      «O famigerado cronista da ordem dominicana [Fr. Luís de Sousa] empregou a palavra presidente como comum aos dois géneros. Hoje por analogia com os biformes em o, a, dá-se a forma feminina com a desinência a a alguns dêsses vocábulos, primitivamente uniformes, terminados em nte, em sua maioria derivados verbais, particípios activos que fazem de nomes e adjectivos. Assim é que infante e parente, que eram invariáveis, admitem hoje as formas infanta e parenta. Quanto a presidente, que o frade de Bemfica empregou como comum, outro esmerado escritor português, A. F. de Castilho, trá-lo como variável, mudando-lhe o e por a na formação do feminino. No Novo Dic. de Cândido de Figueiredo, 2.ª ed., já se consigna a terminação feminina de presidente: o termo vem assinalado com asterisco, o que quer dizer que inda não corria autorizado pelos dicionaristas portugueses, e cita-se um exemplo que eu já citara nos Novos Estudos (Rio, 1911), em que o Castilho concedeu terminação feminina ao nome em questão, estampando presidenta a páginas 128 das Sabichonas» (Fatos da Língua Portuguesa, Mário Barreto. Rio de Janeiro: Presença Edições, 3.ª ed., facsimilada, 1982, p. 203).

[Texto 1193]
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Aviso para o presente

Barbaridades dos revedores

      «Em Lisboa tem a Parceria António Maria Pereira reeditado muitas obras do célebre romancista Camilo Castelo Branco. Reedições são estas que não podem merecer a estima nem a confiança dos estudiosos por estarem lastimávelmente inçadas de erros tipográficos que revelam uma revisão nada acurada; por nelas se encontrar a cada passo desordem de paginação, e ainda porque, confrontando estas novas edições com as da vida do autor, falecido em 1890, se notam não poucas inexactidões na reprodução do texto, o que tudo representa, alêm do mais, grave irreverência á memória do autor reeditado, a quem assim atribuem tipógrafos e revedores as suas próprias barbaridades» (Fatos da Língua Portuguesa, Mário Barreto. Rio de Janeiro: Presença Edições, 3.ª ed., facsimilada, 1982, p. 149).

[Texto 1192]
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Como se fala na televisão

E em todo o lado

      Dez Estados norte-americanos escolhem o candidato republicano para defrontar Barack Obama. A jornalista da RTP Márcia Rodrigues está lá. «É uma data especial. Chamam-lhe Superterça-Feira, em regra o dia onde se conhece o candidato do Partido Republicano à Casa Branca.» «O dia onde»! O meu favorito é Mitt Romney, porque o homem tem muitíssimo dinheiro, muito humor e algumas ideias: «Preciso do vosso voto, votai as vezes que vos deixarem...»
[Texto 1191]
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Agora que não é agora nem logo

Now

      Joana Rombert, terapeuta da fala, esteve ontem no Bom Dia Portugal. Ah, sim, porque ontem foi Dia Europeu da Terapia da Fala. E deve-se ir ao médico de família ou directamente ao terapeuta da fala? «Pode ser directamente à terapia da fala. Agora, muitas vezes a criança pode ter que fazer um despiste auditivo.»
[Texto 1190]
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Léxico: «mediclina»

Astrolábio náutico

      «Queria dizer: medicina, declina, l=declina, medulina?» Nada disso, Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Eu queria mesmo dizer medeclina ou mediclina. O Dicionário Houaiss responde: «alidada que gira em torno do centro do astrolábio».

[Texto 1189]
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Sobre «fronda»

Anne d’Autriche e Mazarin!

      «Não sou economista, nem partilho do optimismo da casta. Mas há qualquer coisa nesta fronda anti-económica [sic] em 2012, unindo sectores à esquerda e à direita, que neste momento me parece leviana e primária» («A economia», Pedro Lomba, Público, 6.03.2012, p. 52).
      Para o Dicionário Houaiss, na versão em linha, a etimologia de «fronda» é o «fr. Fronde (1651) ‘revolta que estourou no início (1648) do reinado de Luís XIV (1638-1715) dirigida contra Anne d’Autriche e Mazarin; o nome do partido que a originou’». Anne d’Autriche e Mazarin! (Caro Paulo Araujo, é preciso corrigir o verbete.) Para três homónimos franceses, temos nós três vocábulos diferentes: «funda», «revolta» e «fronde».
[Texto 1188]
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«Omissão de cadáver»

Claro que «omissão» é «falta»

      «O enfermeiro e militar da Marinha que confessou ter morto [sic] um director dos CTT, em 2007, foi ontem condenado por homicídio qualificado a 20 anos e seis meses de cadeia – por homicídio qualificado e omissão do cadáver – e terá de indemnizar os familiares da vítima» («Condenado autor do homicídio de director dos CTT», Público, 6.03.2012, p. 10). 
      Em Portugal, não é essa a expressão por que é designado o crime, pelo menos habitualmente. No Código Penal, art. 254.º, o verbo usado é «ocultar». No Brasil sim, é «omissão de cadáver», expressão corrente pelo menos na jurisprudência.
[Texto 1187]
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«Racionar/racionalizar»

Raciocinemos

      «Mais de metade das culturas da Cova da Beira estão destruídas por causa da falta de chuva. A seca extrema faz com que as pastagens estejam secas. Os agricultores estão desesperados, as únicas reservas que tinham estão esgotadas», diz a repórter Sandra Salvado, da RTP. O agricultor Carlos Batista, por sua vez, diz: «Tenho um poço já seco, tenho controlado a água para as minhas necessidades, mas tem-se [sic] perdido algumas coisas. Tenho de racionalizar a água. Tem sido muito difícil.»
      Racionalizar significa submeter ao domínio da razão, tornar racional. Racionar é limitar a quantidade, distribuir ou usar de forma regrada.

[Texto 1186]
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Ora toma: «Uso capitão»!

O novíssimo Público

      Sim, gosto do novo grafismo do jornal Público. Tem, porém, como os outros jornais, de mudar em aspectos muito mais importantes. Por exemplo? Idálio Revez escreveu hoje, e não parecia que estivesse a brincar: «No caso de Armação de Pêra, quando estão em causa equipamentos públicos, há dezenas de anos sob administração do Estado, “o que há fazer é o recurso ao uso capitão”, a legislação que confere a posse do [sic] parcela a quem lhe dá uso e cuida há mais de 15 anos. A proposta de compra, sublinha, “é mais uma negociata”» («Investigador da Universidade do Algarve defende que compra da praia não se justifica», I. R., Público, 5.03.2012, p. 54).
[Texto 1185]
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Consoantes mudas

Já cansa repetir

      «Se a Comissão [da reforma ortográfica] encarregada de preparar a simplificação da ortografia portuguesa mantêm [sic] a letra p na escrita do vocábulo recepção, não há ofensa da pronúncia, nem para o Brasil onde soa a dita letra, nem para Portugal, onde não se pronuncia o p, mas se conserva a letra nula pela razão, que já cansa repetir, de que a consoante muda influi no som da vogal precedente, e assim tanto o brasileiro como o português reconhecerão na escrita a pronunciação que dão ao vocábulo» (Fatos da Língua Portuguesa, Mário Barreto. Rio de Janeiro: Presença Edições, 3.ª ed., facsimilada, 1982, p. 323).

[Texto 1184]
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Sobre «exorável»

Desde o século XVI

      «É tambêm de notar que nos ficaram e subsistem no uso corrente vocábulos compostos cujos simples não são de nosso idioma. Dizemos inulto (de in e ultus, vingado), e não dizemos o primitivo ulto, e, como êste, outros muitos exemplos: invicto, immundo (de in e mundus, limpo). De uso freqùente é inexorável, mas dá-se o caso de que exorável, de exorabilis, o que se deixa vencer com rogar (de os, oris), se emprega pouco ou nada» (Fatos da Língua Portuguesa, Mário Barreto. Rio de Janeiro: Presença Edições, 3.ª ed., facsimilada, 1982, p. 229).
      Espanta que ainda subsista nos nossos dicionários.
[Texto 1183]
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Léxico: «montícola»

Semelhante, sem dúvida

      «A modernização levada a cabo no Douro terminou com muitas práticas agrícolas já testadas ao longo das décadas ou até séculos anteriores. Uma das mudanças foi a opção por porta-enxertos mais vigorosos e produtivos, em detrimento do porta-enxerto tradicional, o montícula, muito mais resistente. Outra foi a introdução do sistema de condução da vinha em cordão, que é mais fácil de trabalhar, mas que é mais exigente para a videira» («No Douro recuperam-se práticas antigas para enfrentar os desafios climáticos», Pedro Garcias, Público, 4.03.2012, p. 6).
      Não encontro em nenhum dicionário, somente «montícola», que, contudo, só está dicionarizado na acepção de que é criado ou vive nos montes ou montanhas. Vejo aqui, contudo, que ao porta-enxerto (termo que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não acolhe) de nome Rupestris du Lot (Rup. du Lot) também se chama montícola.
[Texto 1182]
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«Para lá disso»

Para lá disso, pra lá disso, 
palradiço...

      «A diferença de Mounier estava em que, para lá disso, propunha simultaneamente uma espécie de “socialismo cristão”, com o objectivo missionário de regenerar o proletariado, horrivelmente oprimido por um capitalismo sem alma, e o reconduzir a uma associação amigável de produtores (de patrões, claro, e de trabalhadores), ou seja, de uma forma qualquer de corporativismo» («Obra meritória», Vasco Pulido Valente, Público, 4.03.2012, p. 56).
      «Para lá disso». Não é lá muito eufónico, valha a verdade. Podia ser pior, olá se podia: «para além disso». Contudo, o simples mérito relativo não chega.

[Texto 1181]
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«Em boa verdade»

Pois é

      Repórter José Ramos e Ramos, no Telejornal de anteontem: «Cortam-se os legumes, pica-se a cebola, mas não estamos num restaurante. Em boa verdade, estamos no Mercado Municipal de Alvalade, em Lisboa.» As expressões em boa verdade e na verdade são sinónimas? Então porque é que eu não me vejo a usar a primeira, deveras curiosa, no contexto acima?
[Texto 1180]
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AOLP90: um mal-entendido

Desgosta de algumas regras?

      «O novo acordo ortográfico», disse a jornalista Diana Palma Duarte no Telejornal de anteontem, «abala agora a Associação de Professores de Português. Não gostaram de saber que o secretário de Estado da Cultura desgosta de algumas regras e admite ajustamentos em alguns casos. Para Francisco José Viegas, as palavras geraram um mal-entendido. “Há uma leitura abusiva das declarações que eu fiz, e uma descontextualização clara dessas declarações. Aquilo que para nós é evidente é que existe um acordo ortográfico que está em vigor, e portanto, está em vigor desde 2012, e isso não está em causa, nunca esteve em causa nem poderá estar em causa.” O período de adaptação ao acordo termina em Dezembro. Portugal não vai rever as regras e se ajustamentos estivessem nos planos teriam de passar por todos os países lusófonos.» Por isso é que é um acordo, pois claro.
[Texto 1179]
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«Perdão/com licença»

Pardon me

      Às 8 da manhã, a minha filha já me estava a dar lições. Arroto (é do Penicillium roqueforti) e digo «com licença». «Não se diz “com licença”, papá, diz-se “perdão”.» «Neste caso, é igual», digo-lhe, mas ela tem uma teoria — ou mesmo uma tese, sei lá, Da Eructação e Formas Correlatas de Cortesia — e não se deixa convencer. Não hoje, pelo menos.
      «Parecia mais calmo, tornou a arrotar, até disse um “com licença” de bom agouro. Graças, meu Deus!» (O Pão não Cai do Céu, José Rodrigues Miguéis. Lisboa: Editorial Estampa, 1982, p. 154).

[Texto 1178]
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Pronomes de tratamento

Vossa Beatitude

      No cartoon de Jeff Danziger que vem hoje na Pública, intitulado «Teologia moderna», o papa pergunta: «Que história é esta de o grande Presidente católico, John F. Kennedy, ter tido um caso com uma rameira de 19 anos?» «Bom», respondem-lhe, «é só a palavra dela sobre o caso, Vossa Senhoria». No original, «Well, there’s only her word that it happened, Your Grace...» Bem, quem traduziu não se preocupou em pensar nem em investigar. A forma de tratamento adequada é Vossa Santidade. Vossa Senhoria, que em Portugal não se usa, é de emprego praticamente residual, para autoridades não contempladas com tratamento específico.
      «A 19-year old trollop», lê-se no original. O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora dá como tradução de trollop, um termo ofensivo, «prostituta; mulher desleixada». É pouco e fraco.
[Texto 1177]
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«Lourinhanense»

Toma lá com a hapaxépia em cima

      «Carlos Lobo, da consultora Ernst & Young, e que foi secretário de Estado dos Assuntos Fiscais do Governo de Sócrates, é um lourinhanense por adopção. É ele quem tem dado apoio à autarquia no desenvolvimento deste projecto» («Lourinhã quer parque temático dedicado aos dinossauros em 2013», Carlos Cipriano, Público, 3.03.2012, p. 25).
      «Lourinhanense»? Isto não está a precisar que se lhe suprima uma sílaba? Não chega «lourinhense»? Imaginem: bondadoso, caridadoso, estendedal, idadoso, maldadoso, piedadoso, saudadoso, vaidadoso...

[Texto 1176]
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Itálico

É claro que não é preciso

      «As leis memoriais abriram uma corrida entre “memórias concorrentes”, exacerbando velhos conflitos históricos ou de identidade. Acusa Assouline: “Os lobbyistas e políticos de todas as áreas, que atiraram azeite para o fogo com a ajuda dos velhos combustíveis da demagogia por motivos eleitoralistas, deverão responder por esta nova restrição das liberdades intelectuais.”» («Políticos, juízes e verdade histórica», Jorge Almeida Fernandes, «P2»/Público, 3.03.2012, p. 12).
      Se a palavra está aportuguesada, caro Jorge Almeida Fernandes, para quê o itálico?

[Texto 1174]
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Aspas, para que vos quero

Nunca se sabe, não é?

      «O Conselho Constitucional francês “chumbou” a lei sobre o genocídio arménio aprovada pelo Parlamento no dia 23 de Janeiro. Essa lei sancionava penalmente (multa e prisão) a contestação ou a minimização de um “genocídio reconhecido pela lei francesa”. O Conselho declarou-a inconstitucional por atentar contra a liberdade de expressão, “cujo exercício é uma condição da democracia”» («Políticos, juízes e verdade histórica», Jorge Almeida Fernandes, «P2»/Público, 3.03.2012, p. 12).
      Jorge Almeida Fernandes, autor próvido, pensou que o melhor seria usar aspas, não fosse o indígena ignorante julgar que o Conselho Constitucional francês tivesse soldado ou tapado ou guarnecido ou selado com chumbo a lei.

[Texto 1173]
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Tradução: «redneck»

Por andarem a moirejar ao sol

      «O resultado desta experiência sociológico-humorística deu pelo nome de The Muslims Are Coming! [Os Muçulmanos estão a chegar!] e invadiu como uma praga alguns dos recantos mais redneck (fechados e conservadores) dos EUA» («Combater a islamofobia com uma gargalhada de cada vez», Susana Almeida Ribeiro, «P2»/Público, 3.03.2012, p. 7).
      O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora dá como tradução de redneck, um termo depreciativo, «(agricultor branco) atrasado». É mesmo? Não será antes um norte-americano branco, pobre, agricultor ou não, das zonas rurais? Mas como traduziremos para ter o mesmo registo? «Labrego»?

[Texto 1172]
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«Norte-americano»

E no entanto

      «De pé, mãos nos bolsos, calças, colete e gravata preta e camisa branca: é esta a nova imagem de cera de Justin Bieber no museu Madame Tussauds. A nova figura do cantor pop norte-americano faz jus à actual fase da vida de Justin, que fez 18 anos na quinta-feira» («Bieber mais adulto no Madame Tussauds», «P2»/Público, 3.03.2012, p. 13).
      De facto, que país poderia ser geograficamente mais norte-americano que o Canadá? E, no entanto, Justin Bieber é canadiano.

[Texto 1171]
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«Trilho/trilha»

Não sabem o que dizem

      «Espero que o mesmo não me aconteça com os trilhos, a que os cariocas chamam trilhas, porque dizem que trilhos são os do comboio, aliás trem» («O arrastão», Alexandra Lucas Coelho, «P2»/Público, 3.03.2012, p. 8).
      Alguns — considerados inteligentes e que ganham a vida a escrever — consideram que o Acordo Ortográfico de 1990 não é bom porque não acaba com estas diferenças. Estão a falar, sem o saber, de outro acordo, esse sim impensável, ou pelo menos impossível de concretizar, para uniformização lexical. Ou seja, não sabem o que dizem.

[Texto 1170]
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«Safe House»

Entre aspas?

      As Irmãs Oblatas sugeriram a criação de uma cooperativa gerida por prostitutas («trabalhadoras do sexo», disseram a repórter da RTP e a coordenadora do grupo de rua daquela congregação) e a Câmara Municipal de Lisboa pondera concretizar o projecto. É um prostíbulo, pois então, mas já macaquearam o que dizem os frandunos e é uma safe house. («Casa das safadas», dirão depois os moradores do bairro.) João Meneses, responsável do programa de requalificação da Mouraria, disse: «Veja, isto distancia este projecto claramente, tem muitíssimas mais valências do que um projecto de natureza meramente sexual, e de facto não tem o primado do lucro, e de facto não tem o indivíduo, que é o empresário, que explora, entre aspas, essas mulheres.» Mas a CML vai mesmo apoiar? Hum... A repórter só conseguiu arrancar isto ao presidente, António Costa: «Não vou antecipar a análise sobre esta ou aquela medida isoladamente, por muito sexy que possa ser o título de algumas propostas.»

[Texto 1169]
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«Fazer “pendant”»

‘Tá mal

      No Reino Unido, a rainha, a duquesa da Cornualha e a duquesa de Cambridge foram de Rolls-Royce visitar uma loja. O jornalista da RTP Luís Filipe Fonseca disse que iam «todas vestidas de azul, a fazer pendant». A indumentária da rainha atirava mais para o verde, isso é que eu vi, e que o jornalista usou desnecessariamente uma palavra francesa. Ah, sim, já há dicionários — dada a estonteante frequência de uso da palavra — que a aportuguesaram para «pandã».

[Texto 1168]
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Como falam os médicos

‘Tá bem?

      Uma repórter da RTP, Margarida Neves de Sousa, foi assistir a três operações cirúrgicas para remoção de implantes mamários da marca PIP, em Lisboa e em Vila Nova de Gaia. Numa delas, o médico ia dizendo o que estava a fazer, com direito a legendas (pouco fiéis) e tudo: «Vamos fazer uma biopsiazita, ‘tá bem?, porque é mandatório.» A jornalista, contudo, disse o mesmo mas em linguagem de gente: «A notificação ao Infarmed deveria estar a ser feita em tempo real, até porque é obrigatória, tal como a retirada de amostras para análise.»

[Texto 1167]
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No rio Minho

Safra da lampreia

      Centenas de pescadores portugueses e galegos do rio Minho estão a ter grandes prejuízos com a falta de chuva. A repórter da Antena 1 Ana Gonçalves foi logo topar com um português atravessado: «E este ano tem-se notado, é muita sequia, não é, e tem-se notado, este ano.» Azar: não falava português nem galego. Sequía: «Non se atopou o termo.»

[Texto 1166]
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Como se fala na rádio

Mal, muito mal

      Pedro Lomba escreveu, na sua crónica de hoje no Público, «dicionário Houiass». Uma gralha, de que ninguém está livre. Pior foi à tarde, na Antena 1, um jornalista ter dito que o «Dicionário /Uísse/» ia ser proibido ou algo semelhante (ver texto «Estáquio vs. D’Elboux», aqui).
[Texto 1165]
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«Mapa anamórfico»

Mais lacunas

      Hoje de manhã a minha filha perguntou-me se os mapas existem. Tentei aprofundar a dúvida para responder. E agora mesmo, em contrapartida, acabo de conhecer o conceito de mapa anamórfico, ou cartograma. Que, incompreensivelmente, nem todos os dicionários registam.

[Texto 1164]
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Isso pergunta-se?

Anda cá que eu já te conto

      E a criatura perguntou-me então, olhos nos olhos, se isso dos audiolivros era ainda literatura. Ah, depende! Acabei de comprar na Boca o audiolivro Memórias de Um Craque, de Fernando Assis Pacheco. Da Boca para o ouvido.

[Texto 1163]
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Sobre «fumo»

Já não se vê

      Ontem ouvi na Antena 1 que não sei que jogadores iam usar, num certo jogo, fumo em sinal de luto pela morte do treinador. Há muito que não ouvia a palavra, e há mais ainda que não vejo a «faixa, tarja de tecido preto liso, geralmente baço, que se usa na cobertura da cabeça, na lapela, no braço esquerdo, em sinal de luto» (como o define a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira).
      «Quando apareceu assassinado na Poça das Feiticeiras tinha um fumo preto no chapéu e usava gravata preta» (Eugénia e Silvina, Agustina Bessa-Luís. Lisboa: Guimarães Editores, 1989, p. 134).

[Texto 1162]
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Pedro Lomba e o AOLP90

Tem razão

      «Nunca alinhei especialmente nas brigadas pró ou contra a unificação da ortografia. Por falta de competência não iria acrescentar nada ao debate», escreve Pedro Lomba na sua crónica de hoje. Muitos leitores julgarão que isto é modéstia ou falsa modéstia, e bem pode ser, mas o diagnóstico está perfeito, como se comprova pelo que escreveu antes: «Como foi que surgiram entre nós os vocábulos ‘autoclismo’ e ‘retrete’, enquanto os brasileiros escolheram os termos ‘bombeiro’ e ‘privada’? Eu sei que a troika não trata destas coisas. Etimologicamente, aprendo no Houiass [sic], autós significa em grego “por si mesmo” e klusmós “acção de lavar”. Privada entrou mais tarde e sem este amparo clássico. É produto duma outra civilização» («Eterno desacordo», p. 40). Sobre bombeiro/canalizador, descarga/autoclismo, alvitra como o homem da rua: «O que posso dizer é que nenhum acordo de escrita entre Brasil, Portugal e a África lusófona irá erradicar estas diferenças de vocabulário. E muitas outras existem, como toda a gente sabe.» Pois é, mas como se trata de um acordo ortográfico, isso não interessa.

[Texto 1161]
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O VOP e o «tato»

Sic, sic, sic

      Só um parágrafo do texto de Francisco Miguel Valada no Público de ontem: «A propósito, se para este desfecho me tivesse alicerçado na plataforma adoptada pelo Governo português, o Vocabulário Ortográfico do Português (VOP), desenvolvido pelo Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), a “base de legitimação científica” (p. 11) das Autoras, ter-me-ia deparado com mais uma das disparidades entre português europeu e português do Brasil criadas pelo AO90. Contudo, o que se passa é bem mais grave. Diz-nos o VOP do ILTEC que tacto e olfacto apenas se escrevem com cê no Brasil. Isto é francamente estranho. Olfacto e tacto não surgem no Dicionário Houaiss (edição de 2009) e no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (2001), organizado por Malaca Casteleiro, co-autor do AO90, aparece a pronunciação do cê no olfacto do português europeu. As Autoras podem repetir até à exaustão que “a aproximação [?] ortográfica não interfere com (...) a ortoépia” (p. 13), mas, a partir de olfato [sic] AO90, quem tira legitimidade à pronunciação daquele cê? Um vocabulário ortográfico» («Dermatologia e resistência silenciosa», p. 39).

[Texto 1160]
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Sobre «crítico»

Falta pouco

      «Quantas vezes já lhe aconteceu estar a usar o computador e, por alguma razão, a ligação sem fios à Internet se perder? Se o sistema estiver bem montado, isto é raro acontecer. E, em princípio, as consequências não serão graves, pelo que podemos lidar com estas falhas ocasionais. Mas se tecnologia de transmissão sem fios for usada em sistemas críticos, estas falhas não podem acontecer» («Travões sem fios», João Pedro Pereira, «P2»/Público, 29.02.2012, p. 3).
      Nesta acepção, é anglicismo semântico ainda não acolhido por todos os dicionários. É só esperarmos.

[Texto 1159]
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