«De maneira a que»?
26.3.11
Gálica e anti-sintáctica
«— Vou pôr o alarme do meu despertador para as onze — anunciou Filipe a João, em voz baixa, para que Gustavo não ouvisse. — Ponho-o debaixo da minha almofada, de maneira a que só me acorde a mim. Ena! Estou cheio de sono!» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 79).
Praticamente nenhum estudioso da língua deixou de exprobrar a expressão. Um dos primeiros terá sido José Leite de Vasconcelos, que escreveu nas suas Lições de Filologia Portuguesa que era galicismo intolerável e que só um francês diria com propriedade «de manière à». «Alguns escritores modernos até somam as duas sintaxes uma com a outra, e dizem de maneira a que, não ficando pois nem português nem francês.» Vasco Botelho de Amaral, que disse que era expressão resultante do cruzamento da boa com a má construção. Mário Barreto afirmou que era locução gálica e anti-sintáctica. Nada de ilusões, contudo: actualmente, as gramáticas ignoram ou aceitam estas formas de dizer, e os professores de Português nunca ouviram falar de tal.
[Post 4616]
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1 comentário:
Mas, deuses imortais, o que não aceitam as gramáticas actuais, e do que ouvirão falar os professores em matéria de língua? E, no entanto, o caro Kupo contou-nos em anterior comento que a sua professora o alertou para o contrabando de «como sendo». Mas há-de ter sido no tempo em que nas aulas se ouvia falar de gramática, e estas ainda se atreviam a prescrever e a proscrever, o que já agora não costumam.
— Montexto
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