Sobre «comercial»


Palavras cruzadas


      «Participa em todos os fóruns da TSF e da Antena 1 (pl.).» Com dez letras? Hum… Uma ajudinha: a acepção nem sequer está registada nos dicionários… Desistem? Comerciais. «E o António o que faz?» «Como?» «A sua profissão.» «Sou comercial.»
      É como afirmei: tanto quanto sei, nenhum dicionário regista esta acepção da palavra «comercial». E há centenas e centenas de profissionais que se dizem «comerciais». Será redução do inglês commercial traveler? Ou será por se deslocarem num comercial: automóvel ligeiro destinado ao transporte de mercadorias, também designado utilitário? Embora comercial tenha vindo substituir vendedor, categoria a que pertence caixeiro-viajante, e um comercial pode estar confortavelmente instalado num gabinete de uma empresa e não andar a percorrer o País.

Registos de língua

Uma ideia de ênfase


      A comentar o caso Freeport, ontem à noite na Sic Notícias, Luís Delgado estava tão bem instalado, tão relaxado, que já lhe saíam coisas como estas: o Serious Fraud Office «funciona à séria, funciona muita bem». Que terão a dizer, neste caso, os guardiões da lei ortográfica? Há infracção?

«O que ele é é…»

Agora que o diz…


      A questão da repetição do verbo fez-me lembrar de outra. Quem é que ainda nunca leu uma frase com a estrutura «O que ele é é…»? Por exemplo: «O que ele é é arrogante.» Quantas vezes é que tiveram a sorte de não verem ali uma virgulazinha entre as duas formas verbais, digam lá? Contar-se-ão pelos dedos. É mais um erro abundantíssimo. Vejo-o em livros, jornais e blogues.



Destacar prefixos

In-coerente?


      Caro C. T.: se é recorrente, tem de manter. Há-de ser, concorde ou discorde, estilo do autor. De contrário, deverá sugerir alteração. No século XVIII é que Filinto Elísio escrevia, para acentuar mais a ideia de negação, in-consolado, separando com hífen o prefixo da palavra, a fim de lhe dar mais relevo.

Acordo Ortográfico


Sem mais tardança


      Espero que não andem distraídos a ponto de não terem visto que o desportivo Record adoptou as regras (todas?) do Acordo Ortográfico de 1990. Fica uma amostra: a capa revela que já não temos selecção, mas seleção. É caso para dizer que vai correr menos tinta a propósito do futebol. E mais: «Em direto na Sport TV.» E ainda: o leitor ganha um cupão para um «filme de ação».

Verbos repetidos


Que estude


      Santo Deus! Mas onde é que essa gente aprendeu português? Pergunte-lhe, cara Luísa Pinto, se quer corrigir Camões: «Este [o dinheiro] a mais nobres faz fazer vilezas» (Os Lusíadas, Canto VIII, 98). Quando se tornam editores, pessoas assim são bem capazes de expurgar obras cimeiras destes «erros».

Uso de estrangeirismos


Assim não vamos lá
     


      «Em 2007, o GPIAA [Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves] recebeu 126 notificações de casos de bird strikes registados nos aeroportos portugueses. Só na Portela foram 51» («Pombais na Portela são ‘bateria antiaérea’», Global, 26.1.2009, p. 4). Por qualquer razão insondável, o jornalista achou que ficava bem usar aquela locução inglesa — sem a traduzir nem explicar. E para quê? Ainda que se designem daquela forma os incidentes de colisão de aves com aeronaves, não há motivo para usar a expressão inglesa, pois não se trata de um relatório científico, mas de uma notícia de um jornal lido maioritariamente por pessoas semianalfabetas que, tirando estes jornais gratuitos, só lêem os talões do Multibanco.

Bordões da linguagem

Perspectivas erradas


      O leitor R. A. escreveu sobre alguns bordões usados incorrectamente nos meios de comunicação social: «Ouvem-se muito as expressões “desse ponto de vista” e “do meu ponto de vista” sem que os seus emissores se dêem/deem conta do seu real significado ou sentido. É exemplo flagrante o de Luís (desse ponto de vista) Delgado, comentador residente na SIC Notícias.
      Creio bem que a equivalência entre “na minha opinião” e “do meu ponto de vista” não é exacta/exata, nem unívoca: muitas das minhas opiniões não dependem da posição onde me encontro! Por outro lado, responder à opinião do meu interlocutor com um “desse ponto de vista” pode ser interpretado como um “isso é o que tu dizes, por estares aí ou por seres o que és”, quando, muitas vezes, o contexto em que é usado esse bordão é manifestamente outro.
      Outros bordões são também curiosos por parecerem revelar, inconscientemente, que, até ao momento em que são ditos, não se estava a ver bem: é o caso de Mário (vamos lá a ver) Crespo, também da SIC Notícias.»
      Se o recurso, quase sempre inconsciente, a bordões linguísticos empobrece a comunicação, o uso de bordões inadequados é o cúmulo da falta de reflexão sobre os limites e significados da linguagem. Em pessoas que todos os dias entram em nossas casas pela televisão ainda é mais censurável essa irreflexão. É uma agravante.

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