Hipérbole

Oooops!

      No último Herman Sic, Herman José disse, duas vezes e de forma enfática, «hipérbola». As Produções Fictícias têm de começar a escrever os «improvisos» do mestre, sob pena de o programa descambar ainda mais.


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Iliteracias

Jovens passam o Rubicão?

      Eu não queria falar aqui dessa coisa assaz vulgar que é o dinheiro, mas não posso deixar de me espantar com o custo da campanha da Danone, a tal do «testemunho Actimel»: 5,5 milhões de euros! Toda a campanha esteve a cargo da agência Young & Rubicam, com os resultados que se podem ver. Estou mesmo a ver: os criativos são demasiado novos para conhecerem a frase de Roger Ascham, tutor régio inglês, que disse: «Quem quer escrever bem deve falar como as pessoas comuns e pensar como as sábias.» Tiveram logo de usar o tabeliónico «testemunho», confundindo, de forma inepta, a coisa criada com o criador.

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Estrangeirismo: «portfolio»

Teima mas não apostes

      Agora os professores têm de fazer umas fichas para os alunos escreverem nelas vários textos ao longo do ano. O conjunto irá constituir o chamado «portfolio». Assim mesmo, à inglesa, que é mais sofisticado. O Grande Dicionário de Língua Portuguesa regista apenas «porta-fólio», enquanto o magnífico Dicionário Houaiss regista o par «porta-fólio» e «portefólio». O Dicionário da Academia, por sua vez, ignora completamente o vocábulo. Ora, podendo o Ministério da Educação ter escolhido entre porta-fólio e portefólio, e este último apresenta a vantagem de ser a forma como normalmente se pronuncia, recaiu logo a escolha num estrangeirismo. E lá estão as criancinhas deste país a escrever e a ler «portfolio». A quem incumbe então a defesa da língua?
      A verdade é que eu não sabia se a palavra assim escrita tinha origem no Ministério da Educação. Era um argumento indutivo, o que não passava de uma generalização construída a partir de uma determinada amostra: comprovei que a palavra fora usada por três professores de três localidades diferentes. Para não correr o risco de a minha afirmação ser uma falácia da estatística insuficiente, resolvi contactar a Associação de Professores de Português (APP). Que sim, responderam-me, o Ministério da Educação escreveu e «mandou» escrever desta maneira.


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Provérbio

As minhas palavras

      Gostei muito de ouvir a jornalista Maria Flor Pedroso, na última edição do programa Clube de Jornalistas, na 2:, usar o provérbio «Elogio em boca própria é vitupério», a que lanço mão de vez em quando e que nunca ouvira ninguém usar. «Vitupério», só por si, é uma palavra magnífica, plena de ressonâncias terríveis. Lembro-a do episódio de D. Inês de Castro, d’Os Lusíadas, onde pode ler-se esta estância, em que se justifica o cognome atribuído a D. Pedro:

  • Este, castigador foi rigoroso
    De latrocínios, mortes e adultérios;
    Fazer nos maus cruezas, fero e iroso,
    Eram os seus mais certos refrigérios.
    As cidades guardando, justiçoso,
    De todos os soberbos vitupérios,
    Mais ladrões, castigando, à morte deu,
    Que o vagabundo Alcides ou Teseu.

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Plural de vaivém

O desafio da gramática
      
      No Jornal Nacional da TVI, ontem, a propósito dos vinte anos da explosão do Challenger, a pivô lembrou-nos que «os Estados Unidos já perderam três vaivém». Tal dislate só seria admissível se a jornalista estivesse a falar de improviso; mas não é assim: as notícias estão escritas. O plural de «vaivém» é «vaivéns».

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Paralisar/milhares/mozartiano

Três erros no DN (28.1.2006)

      «Paralizar». Texto de Susana Salvador, «Republicanos catalães retiram apoio a Zapatero», p. 14. Se o substantivo tem s, nunca o verbo poderia ter um z, ou não? Erro comum, mas imperdoável num jornalista.

      «Dezenas de milhar». Texto de Luís Naves, «Funeral de Rugova lança transição política complexa», p. 16. Alguém diz ou escreve «dezenas de milhão» ou «dezenas de homem»? Então porque se continua a dizer e a escrever «dezenas de milhar»? Tem dúvidas? Consulte as páginas 164 e 165 do Dicionário de Erros e Problemas da Linguagem, de Rodrigo de Sá Nogueira, Clássica Editora.

      «Mozarteano». Texto de Isabel Lucas, «Hoje todos os sinos tocam em Salzburgo», p. 29. Embora se escreva «comtiano», de Conte, «dantiano», de Dante, e «nietzschiano», de Nietzsche, a verdade é que em relação a Mozart o adjectivo dicionarizado é «mozartiano», tal como «freudiano» para Freud.


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Pronúncia: equidade e equitativo

Última lição presidencial

      No discurso de abertura do ano judicial, o Presidente da República cessante usou as palavras «equidade» e «equitativas», não pronunciando o u. Tal pronúncia é, ao contrário da que se ouve habitualmente, a correcta, pois estes vocábulos enquadram-se na regra de não se pronunciar o u quando a este se segue um e ou um i. A maioria dos dicionários de língua portuguesa da actualidade — a começar pelo Dicionário da Academia e passando pelo Dicionário Houaiss — porém, indica uma pronúncia incorrecta. Já o Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora, nas suas 5.ª e 6.ª edições, as que tenho à mão, indicam a pronúncia correcta. O Vocabulário Ortográfico Resumido da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa (Imprensa Nacional, 1947), que fixa a ortografia aprovada pelo acordo ortográfico de 1945, na página 185, regista a pronúncia correcta destes dois vocábulos.
      A meio do discurso, Jorge Sampaio disse «perca de qualidade». Deveria ter dito «perda», já que «perca» é a forma popular (embora seja correcta). Para mim, percas só as do Nilo (Lates niloticus). Cozidas em água e um pouco de vinho branco, uma pitada de sal e umas ervas aromáticas, servem-se com um fio de azeite genuíno.
 

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Léxico: gergelim

Abre-te, sésamo!

Posso estar enganado, mas julgo que a palavra portuguesa «gergelim», semente mais conhecido por sésamo, é a que tem mais variantes. Vejamos:
— gerzeli
— gerzelim
— gergelim
— zirzelim
— jorgelim.


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Preposições trocadas

Coisas simples

      No Diário de Notícias de hoje, particularmente afectado por erros e gralhas, podia ler-se na revista 6.ª, página 3: «250 anos depois, Mozart é um dos mais evidentes casos de imortalidade conquistada. O génio e a sua obra, a sua rara capacidade em seduzir ouvintes em todas as latitudes e gerações, uma mão cheia [sic] de melodias que entraram no domínio da familiaridade comum […].» Esta tendência para utilizar a preposição em em vez da preposição de (ou para, como também é admissível neste caso) vem-se acentuando em vários domínios. Proponho a seguinte redacção: «O génio e a sua obra, a sua rara capacidade para seduzir ouvintes em todas as latitudes e gerações […].»


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Erramos e errámos

O texto do DN

      Eu tenderia a crer que o editor do Diário de Notícias queria dizer que erramos sempre, isto é, somos falíveis e reconhecemo-lo, e não que pontualmente, no caso em apreço, errámos. Há, porém, uma objecção a fazer: o editor afirmava que aquele era um exemplo de uma falha que poderia desencadear uma ligação mais forte com os leitores. Uma falha concreta. Logo, seguindo este raciocínio, deveria ter sido usado o pretérito perfeito do indicativo: «errámos». Repare, contudo, que neste caso que nos ocupa a compreensão da frase não fica comprometida por se usar uma ou outra forma.
      Quanto à boa prática do The Guardian, que cita, julgo que é a que o DN deverá seguir — prestando dessa forma, em simultâneo, um verdadeiro serviço público e formação contínua aos seus jornalistas. O que o Público faz tem um interesse muito restrito, e, no que respeita à língua, totalmente irrelevante.


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Iliteracias

Revistas da moda (2)

      Ainda que a frase possa ser interpretada como o fez, a minha afirmação permanece intocável: aquela é a regra, frequentemente ignorada em Lisboa, mas não no Sul, por exemplo. O contexto da frase, parece-me, autoriza mais a minha interpretação, pois se «dantes brincávamos com bonecas» e agora «queremos brincar com bonecos», algo aconteceu entretanto. Não acontece, aconteceu: mudámos. Concordo, contudo, que noutros contextos pudesse ser como diz.
      Quanto à grafia de «make up», tem toda a razão, como eu a tenho — limitei-me a transcrever o que se pode ler na capa e no miolo da citada revista, provando assim que os jornalistas daquela publicação estropiam qualquer língua em que escrevam.


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Pronúncia: arguido

Liberdades poéticas

      Perguntaram-me ontem como se deve pronunciar a palavra «arguido». Quem me perguntou afirmou ter ouvido Manuel Alegre, durante a campanha eleitoral, pronunciá-la como se não tivesse aquele u. Contudo, o correcto é pronunciar o u, o que se pode ver pelo facto de na variante brasileira do português se grafar com trema: argüido. Trata-se, é bem verdade, de uma excepção, a par de outras, como aguentar, cinquenta, equestre, frequência, frequentar, sequência, etc., à regra de não pronunciar o u quando a este se segue um e ou um i. No acordo ortográfico ainda em vigor, o de 1945, na sua Base XXVII, o trema foi, infelizmente, abolido. «O trema, sinal de diérese, é inteiramente suprimido em palavras portuguesas ou aportuguesadas.» E, a confundir Manuel Alegre, acrescenta o acordo: «Nem sequer se emprega na poesia.» Verdade seja dita que na Faculdade de Direito de Lisboa, onde se usa milhares de vezes, também ouvia, espantado, o Prof. Doutor Pedro Romano Martínez, e outros de que agora não me recordo, pronunciar esta palavra erradamente. «Ex ore tuo te judico», ou em tradução livre e recorrendo a um provérbio, pela boca morre o peixe.


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Advérbios

Portuguesmente

      Referi, num dos últimos posts, o advérbio «portuguesmente», que por vezes ainda se vê mal grafado com acento circunflexo. Ora, de acordo com o estabelecido pelo Decreto n.º 32/73, de 1973, não se põem acentos (graves ou circunflexos) nas sílabas subtónicas dos vocábulos derivados com o sufixo -mente (ex.: cortesmente, portuguesmente, rapidamente). Da mesma maneira, e foi ainda o mesmo decreto a estatuí-lo, para as formas derivadas com sufixos iniciados por z (ex.: avozinha, chapeuzinho, heroizito, mazinha, pezinho). Por serem erros tão vulgares, parece-me que nunca é excessivo referi-los.


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Semântica

Pau seco não mata cabra

      A mediática subcomissária Paula Monteiro, da PSP, a prestar protecção policial aos trabalhadores que estão a demolir algumas barracas na Azinhaga dos Besouros, questionada por uma repórter da SIC sobre o uso da violência, responde: «A polícia nunca usa a violência; quando muito, usa a força física.» Pois é, e quem é que estabelece a fronteira entre uma coisa e outra? A partir de quantas costelas contundidas se pode afirmar que estamos perante violência? Uma moradora afirmou ter sido «puxada pelos braços» e «empurrada pelas costas» por agentes da PSP para sair da barraca onde se barricara: foi usada a força física.


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Iliteracias

Revistas da moda

      Veio ter-me às mãos um exemplar da revista Gente Jovem, relativa a Dezembro de 2005. Sem estar bem paginada, tem contudo o atractivo das imagens, com muito make up, muito design, cool things, muita fashion. É caso para dizer que, tendo muitas, deveria ter mais, pois quanto menos escreverem mais preservados ficarão os leitores. Abstraindo de tudo o resto, na última página publica uma banda desenhada, da autoria de Alexandre Algarvio, com erros que se vão incrustar no cérebro do leitor, sobretudo tendo em conta que se dirige a um público jovem. Comecemos por esta fala de uma das personagens: «Vá minhas amigas podem pedir aqui à Mãe Natal o que querem no sapatinho!» E acabemos nesta: «Pois, mudamos muito… Dantes brincávamos com bonecas hoje queremos brincar com… bonecos!!!»
      Meus meninos, já deviam saber que o vocativo («minhas amigas») vem sempre isolado por vírgulas: «Vá, minhas amigas, podem pedir aqui à Mãe Natal o que querem no sapatinho!» Como não deveriam ignorar que a primeira pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo dos verbos da 1.ª conjugação (de tema em -a) se escreve com acento agudo (pronunciando-se com o a tónico aberto: /falámos/) para a distinguir da mesma pessoa do presente do indicativo (que se pronuncia com o a tónico fechado: /falâmos/). «Pois, mudámos muito… Dantes brincávamos com bonecas; hoje queremos brincar com… bonecos!!!»


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Lapsos da língua

Vejam como é fácil

      Marta Crawford, no AB… Sexo de ontem, a propósito do alongamento do pénis por meios mecânicos, avisava: «Muito cautela, muito cautela.» E mais: «Não deve pôr os burros à frente dos bois.» É verdade: ao fim de três tentativas acertou no provérbio. Admito que não há-de ser fácil falar com naturalidade com um bacamarte daqueles nas mãos. E ainda não dizia coisa com coisa quando entrevistou Virgílio Castelo, coitada. Estava um tanto ou quanto atarantada.


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Gralhas

Com domínio ou com desleixo?
      
      Seja por ignorância, seja para tentar eludir a responsabilidade, há quem confunda erros com gralhas. O caso que vou referir, ao que tudo indica, configura uma gralha, e só por excepção aqui tratarei destes casos ornitológicos. Num anúncio de página inteira no Correio da Manhã (17.12006), a Escola Superior de Actividades Imobiliárias (ESAI) publicitava dois cursos: «Curso Prático de Gestão e Administração de Comdomínios» e «Curso de Gestão e Administração de Comdomínios». Se foi assim escrito na ESAI, e logo duas vezes e num corpo muito grande, o revisor do Correio da Manhã e o paginador estavam muito ensonados.


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Peru

Imagem: http://www.scml.pt

Santa mas falível

      A possidente Santa Casa da Misericórdia anda agora a propinar dislates ao bom povo. Em doses homeopáticas, é certo. Nos bilhetes da 4.ª extracção da Lotaria Popular (26 de Janeiro de 2006), lê-se: «Sabia que o perú selvagem consegue voar a 50 km/h?» E a Santa Casa sabia que existem uns livros em que se encontram por ordem alfabética ou por outra convencional todas ou a maior parte das palavras de uma língua com a respectiva significação na mesma língua ou noutra?
      Quem escreveu desconhece a palavra e a respectiva regra da acentuação. Para o que interessa, acentuam-se as palavras agudas ou oxítonas que terminam em i e u, seguidos ou não de s, e precedidos de vogal com que não formem ditongo, tais como baú, Esaú, Luís, país, saí, etc. Onde se encaixa aqui o vocábulo «peru», não querem dizer-me?


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Acento circunflexo

Altos voos

      Sempre considerei a banda desenhada do Calvin & Hobbes, de Bill Watterson, de grande qualidade e mais do que uma vez a recomendei a pais e avós que queriam ver os netos a ler mais. Mesmo sem recomendação, é óbvio que para uma criança poderá ser dos poucos motivos de interesse num jornal generalista. Em Portugal, tem sido publicada pelo jornal Público, que, se está bem traduzida, está mal corrigida. Na tira publicada na edição de 31.12.2005, num balão de fala estava escrito: «Sim, decidi curtir os meus vôos e ver o que acontece.»
      O Acordo Ortográfico em vigor, datado de 1945, estabeleceu «a omissão do mesmo acento [circunflexo] nas formas verbais e nominais que têm o hiato oo: abençoo, voo, Aqueloo, Eoo».


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Colocação dos pronomes átonos

As intermitências da gramática

      Já me ocupei aqui («Todos se estatelam. Estatelam-se todos.») da colocação do pronome pessoal reflexo em frase começadas por pronomes indefinidos, como alguém, todos, muitos, etc. Desta vez, o erro é do Diário de Notícias (18.1.2006), na página 34, que escreve: «Ambos dedicavam-se à apanha da amêijoa.» Nestes casos, em que o numeral «ambos» inicia a frase, a gramática obriga a pôr o pronome «se» em próclise, isto é, a antepô-lo à forma verbal: «Ambos se dedicavam à apanha da amêijoa.»



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Provedoria da Língua Portuguesa

Algo de novo

      Nunca vi nenhum político a defender a criação de uma Provedoria da Língua Portuguesa e, escusado será dizê-lo, a sua existência não carece de grandes justificações. Deveria ser uma entidade pública constituída por personalidades de reconhecido mérito e independência com competência para fazer recomendações a entidades públicas e privadas sobre o uso da língua portuguesa, dedicando especial atenção a todos os meios de comunicação social e aos manuais de todos os níveis de ensino. Deveria manter relações privilegiadas com outros organismos que se dedicam ao estudo da língua, tendo assim condições para contar também entre as suas competências a fixação da ortografia de centenas de vocábulos que são escritos ao sabor da vontade e do acaso, assim como o estudo de alternativas viáveis para alguns estrangeirismos. Não lhe faltará trabalho nem razões para existir.
      Talvez o futuro presidente da República, que será, provavelmente, eleito hoje, tenha sensibilidade e vontade para sugerir ao Governo a criação deste organismo. Afinal, está em causa um património intangível mais maltratado e incompreendido do que as próprias tradições nacionais.


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Estrangeirismo: «body language»

Hey, people! Eu também sei inglês

      Laurinda Alves entrevistou, numa edição de antes do Verão (n.º 308, de 14.5.2005) da revista Xis, o comunicador Paulo Carvalho, que anda por empresas a ensinar a comunicar e a falar em público. Numa das respostas, quando o entrevistado afirmou que «o acto de falar não envolve só as palavras que se usam mas toda a linguagem corporal», Laurinda Alves sentiu-se irresistivelmente impelida a acrescentar: «A chamada body language.» Ainda bem que há quem se preocupe com as minorias linguísticas no nosso país. Estou mesmo a ver: na modorra pós-prandial, um incauto reformado americano, no Clube Americano, folheia ― a fazer tempo sabe-se lá para quê ― a revista Xis, e, azar, é logo ali, naquela «linguagem corporal», que vai tropeçar. «Damn!»


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Antropónimos



Imagem: http://www.uni-mannheim.de
Todos os nomes

      Certamente por ter um apelido tão singular (estultamente impronunciável para alguns professores universitários), não sou nada dogmático em relação à escrita dos nomes próprios. Lembro isto a propósito de um comentário deixado num dos posts, em que se lê «Hélder». Tenho em muito boa conta o pároco que exarou o meu assento de baptismo, o padre Vinagre, que aceitou o nome escrito sem acento agudo. Sendo um nome estrangeiro, não me repugna que se grafe como no original. Já não acharia bem que tivesse aceitado «Juão» ou «Miguele», por exemplo. Por outro lado (há sempre outro lado, como nas moedas), as pessoas que tão heroicamente pugnam pela pureza da língua não levam a sua coerência até ao fim. Vejamos. O diplasiasmo está banido da nossa norma linguística actual. O diplasiasmo consiste, e lanço mão da definição, insuspeita nesta questão, de um dicionário, na «injustificada duplicação de letras». Ora, tirando o caso de alguns advérbios — que por coincidência já foram referidos neste blogue —, como «comummente», «ruimmente» e possivelmente outros que agora não me ocorrem, e vocábulos que, por razões etimológicas, se escrevem com duplicação de letras, vogais ou consoantes, como «ecciese», por exemplo, e muitos outros, só encontramos exemplos inequívocos de diplasiasmo em apelidos: Mello, Motta, Netto, etc. Atrever-se-ão esses puristas a alterar estes apelidos para Melo, Mota, Neto? Não me parece.


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Iliteracias

Igualdade

      O outro administrador do condomínio deixou-me um recado ― um post-it numa folha branca! ― a comunicar-me que, depois de uma pesquisa que fizera sobre empresas de limpeza, faltava apenas «chegarmos a contra-senso». Os serviços da empresa serviriam para substituir a empregada de limpeza, que se despedira, e que um dia me dissera, sempre achacosa nos seus 29 anos, que tinha uma «dor asiática» e que, por causa de o marido pretender abandoná-la, só se tinha de pé com «acalmantes». O administrador, bem-parecido e ultraperfumado, que arrasta atrás de si o olhar (maldito!) de algumas mulheres, tem a mesma idade da ex-empregada.


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Léxico: paralelepípedos

Imagem: http://img.photobucket.com
Falemos de pedras…

      Outra consulente quer saber se se pode dar o nome de «paralelepípedos» às pedras da calçada. Eu diria que sim — se o forem. Para nos certificarmos que estamos a falar da mesma coisa, suponha que estamos a falar da calçada à portuguesa da placa central do Rossio. Não se trata de paralelepípedos, mas sim de pedra calcária, branca, rosa ou preta, a que se dá o nome de vidraço. Os paralelepípedos, também conhecidos como paralelos, são blocos de granito com essa forma geométrica, muito usados na pavimentação das ruas e das estradas. Realcei as palavras «granito» e «essa forma» justamente porque essas são as características que definem o que é um paralelepípedo. Se reparar, as pedras da calçada não apenas habitualmente não são de granito, como a forma não é a do sólido com seis faces paralelas duas a duas e cuja base é o paralelogramo. Têm antes formas irregulares, pelo menos no aparelhamento conhecido como «malhete», pois que há também o aparelhamento a «quadrado» e a «sextavado». Contudo, estas formas, regulares ou irregulares, referem-se sempre à face que servirá de pavimento, pois que a face cravada de todos estes tipos de aparelhamento é sempre irregular.


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Léxico: questiúncula

Questiúnculas

      Vamos lá arejar o vocabulário. A palavra «questiúncula», se é pouco usada em português, é geralmente conhecida, mas já não é assim com outras acabadas em -úncula, que aqui deixo.

— ambiciúncula
— fracciúncula
— historiúncula
— patriúncula
— porciúncula
— reformúncula
— religiúncula
— revolunciúncula
— sentenciúncula.


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Erros ortográficos

Além-Atlântico

      Na cidade de Bauru, no Brasil, os moradores passam a vida a reclamar da grafia errada das placas toponímicas. De acordo com o responsável municipal por esta área de actuação, em média são trocadas por mês 12 placas por causa dos erros de grafia. Tendo em conta que este serviço é responsável por cerca de oito mil placas, e admitindo que estão quase todas erradas (nunca fui optimista acerca destas coisas…), só daqui a mais de 50 anos estarão todas corrigidas, isto se entretanto não atribuírem nomes errados a novos arruamentos.
      Só a grafia dos nomes derivados do tupi-guarani dá volta à cabeça dos responsáveis pelo «emplacamento»: Ipauçu ou Ipaussu? O Dicionário Aurélio, porém, resolve a questão de uma penada: estes vocábulos grafam-se sempre com ç e não com ss. Também não seria má ideia terem uma comissão municipal de toponímia, digo eu. Ou um exemplar do dicionário.
      Fundada no fim do século XIX por dois garimpeiros, e antes dominada pelos índios Caigangs, Bauru vê também a etimologia do seu nome envolta em controvérsia: de «Upaú-r-ú», sim, mas com o significado de «cesta de fruta» ou de «lagoa escura»?

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Advérbios e adjectivos

É o entusiasmo (3)
 
      A propósito da formação dos advérbios de modo, um leitor diz-me que me esqueci de que há em português advérbios de modo em -mente derivados de adjectivos masculinos, e cita «portuguesmente», que se formou de «português». Para lhe chamar alguma coisa, é uma falsa excepção, pois que no português antigo o adjectivo «português» era comum. Logo, a excepção é constituída somente pelos adjectivos uniformes: comum+mente; feliz+mente; liminar+mente; ruim+mente; salutar+mente, etc.
      A propósito destes adjectivos uniformes quanto ao género — o português, a português —, devo mencionar o fenómeno contrário, que é o de adjectivos, hoje uniformes, que até ao século XVIII tinham duas formas (biformes), como é o caso de comum e comua (ou comûa, como variante), ainda hoje em dia presente, como substantivo, na língua. No Alentejo ainda se ouve o ofensivo «Fecha essa comua!» (Fecha a boca, não digas asneiras) e noutras zonas do País também se usa na acepção de latrina, retrete. O Grande Dicionário de Língua Portuguesa e o Dicionário Houaiss registam este vocábulo.


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Advérbio, novamente

É o entusiasmo (2)

      Caro amigo F. V. Ramos: cita bem, é isso justamente que diz o dicionário online da Priberam. O contexto da minha afirmação era, porém, claro: falava de advérbios de modo de sufixo em -mente, pois que o advérbio em apreço era «liminarmente», lembra-se? Mantenho, pois, o que afirmei nesse post. Por outro lado, nunca a definição que cita poria em causa a minha afirmação, já que nada refere sobre a formação dos advérbios. Como sabe, a fonte mais produtiva dos advérbios em português é a derivação por meio do sufixo -mente, e na base desta está sempre um adjectivo feminino: pura → puramente. Mas com excepções, pois há adjectivos que não têm feminino, e nesse caso o sufixo -mente é acrescentado ao adjectivo uniforme: liminarmente.



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Tratar-se de

Bem me parecia

      Leio na página 74 revista Única de 14.1.2006: «Tratam-se de duas salas, sendo que uma delas está preparada para provas de vinho e a segunda para almoços ou jantares.» Tratar-se, na acepção de «estar em causa», é um verbo defectivo e impessoal, pelo que se usa sempre na 3.ª pessoa: «Trata-se de duas salas.» Trata-se de um erro muito comum, mas já vai sendo tempo de todos o sabermos conjugar. Claro que me importa muito menos que as peixeiras do Mercado de Benfica não o saibam fazer do que um jornalista, mesmo que se trate de um estagiário.

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O testemunho da testemunha

Imagem: http://www.actimel.pt

Ah, pois é…

      Eu posso dar o meu testemunho dos dislates que se escrevem em publicidade, se quiserem. A Danone, contudo, pede outra coisa: «Seja o próximo testemunho Actimel.» E como é que isso pode ser, querem fazer o favor de elucidar-me? A testemunha é que dá o testemunho, este se dá alguma será dar de si. Explicado aos pequeninos: o testemunho é a declaração feita pela testemunha, é o depoimento que esta faz. O substantivo «testemunha» é sobrecomum, isto é, um substantivo uniforme, pertencente a um único género (masculino ou feminino), apesar de referir entidades de um e outro sexo, tal como a criança, a pessoa, o algoz, o apóstolo, o carrasco, o cônjuge, o ídolo, o indivíduo, o músico, etc.



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Léxico: «mupi»

Quem diria

      Uma consulente (sim, porque eu também já tenho consulentes) pergunta-me o que são «mupis», porque não vê o vocábulo registado em nenhum dicionário. Sim, tem toda a razão: não se encontra dicionarizado, e seríamos tentados a afirmar que é uma palavra do tupi-guarani, designando algum animalejo da Amazónia, mas não. «Mupi» é o acrónimo de «mobiliário urbano para informação». São os expositores, iluminados, de publicidade que vemos espalhados pelas nossas cidades, ultimamente providos de um motor para mostrar mais do que um anúncio.



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Advérbio: «liminarmente»

É o entusiasmo

      Notícias do meio-dia da Antena 1 (14.01.2006): «A Procuradoria desmente limiarmente o jornal 24 Horas.» Cai-me a pena da mão… o rato, digo. Amigo, em português os advérbios são formados a partir dos adjectivos, deveria ter dito «liminarmente», isto é, de forma total, absoluta, sem mais exame. O étimo é o mesmo, é verdade, é o latino liminaris, que é a nossa soleira da porta. Logo, quem faz qualquer coisa liminarmente fá-la logo à entrada, logo no começo e, daí, de forma total.

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Estrangeirismo: «rendez-vous»

Com a língua na maca

      Há dias, ouvi na Antena 1 um bombeiro de Óbidos a falar a propósito das dificuldades de acesso ao casco antigo da vila, dizendo que os bombeiros têm de fazer o «rendez-vous» das vítimas. Confirmo agora na Internet que também o INEM usa o termo rendez-vous para designar o transbordo de uma ambulância para outra. Tranchons le mot(1): é mesmo preciso usar o francesismo ou estão somente a armar-se? Afinal não é mesmo de um transbordo que se trata? Ça me dépasse(2).

(1) Falemos com franqueza.
(2) Isto ultrapassa-me.


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Ir de encontro/ir ao encontro

Como disse?

      No Diário de Notícias de ontem (12.1.2006), uma jornalista escreveu que, no seu périplo pelo País, as «queixas das pessoas vão de encontro às questões que Louça levanta». A verdade, intuímos pela frase e concluímos pela leitura de todo o artigo, é que os cidadãos não discordam do candidato, pelo que as suas queixas vão ao encontro das questões que Louça levanta, isto é, harmonizam-se com estas. Este é um dos erros mais frequentes, tanto na escrita como na oralidade. O pior é que, como nem sempre acontece, o sentido das expressões se opõe.


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Maldisposto

Prof. Diabo

      Já o padre António Vieira dizia, no «Sermão dos Cativos», que até com o Diabo se tem de aprender. Lembro isto a propósito da crónica de Vasco Graça Moura no Diário de Notícias (11.1.2006), absolutamente virulenta, ácida, desproporcionada — mas dada numa escrita muito vernácula, sobrecarregada, retorcida — contra Mário Soares. Tudo sem nunca o nomear. A verdade é que, sendo VGM um grande escritor, por vezes um autêntico prestidigitador verbal, também desliza para as inépcias, pois escreve várias vezes, ou não fosse o título «A má disposição», «mal disposto». «Ele acordou muito mal disposto», escreve. Erro o dele: a começar pelo Vocabulário de Rebelo Gonçalves, todos os dicionários registam «maldisposto», que é o particípio passado do verbo maldispor.
      Claro que, nos jornais, os revisores se genuflectem perante o mestre, acatando-lhe mui respeitosamente os sagrados erros. Imbuídos da filosofia de Ortega y Gasset, que definiu o estilo como «la peculiar manera que en cada autor hay de desrealizar las cosas», suspeitam que é ou uma liberdade poética ou uma busca de sentido que lhes escapa inteiramente, escapando à gramática. Ajoujados pelo peso da estarem a rever um texto do génio, nunca suspeitam que o homem não é perfeitamente infalível. Sacrificam a ortografia à humildade, prestando assim um péssimo serviço à língua e aos leitores.


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Vírgula nos numerais

É mais ou menos isso

      A Câmara Municipal de Lisboa andou cá no bairro a distribuir um folheto intitulado «Segurança e Bem-Estar Comunitário ― a Responsabilidade de Todos». Tirando a publicidade, desde cangalheiros a empresas de catering (e estas últimas, no aspecto da segurança, são imprescindíveis em caso de guerra ou catástrofe, pois não dá jeito sair à rua), os conselhos sobre segurança é o que menos avulta, e mesmo assim com muitos erros gramaticais, que por ora não me ocuparão. Excepto a afirmação, na Introdução, de que «este livrete abrange 259,000 domicílios e organizações públicas de Lisboa». Serão mesmo só 259?! Mas isso é apenas uma rua, e das mais pequenas, aqui de Benfica!


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Governadora vs. governanta

Governess ≠ governadora
      
      Ainda o Público (edição de 31.12.2005): na sinopse que fez do filme Música no Coração, põe o capitão Georg von Trapp a procurar «uma governadora para cuidar dos seus sete filhos». Governadora da ínsula prometida por D. Quixote de la Mancha ao seu escudeiro Sancho Pança, deve ser.


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Léxico: galheteiro

Mais uma para o galheiro

      Neste momento difícil que o galheteiro está a atravessar no nosso país, queria deixar aqui umas palavras sobre este tão útil e antigo objecto. Claro, nunca pensamos muito no que as palavras significam. Sendo o galheteiro o «utensílio de mesa em que se põem as galhetas do azeite e do vinagre», é manifesto que a palavra primitiva é «galheta», o pequeno vaso de vidro com gargalo usado para diversos fins. E «galheta» vem do espanhol «galleta», não a galleta comestível, isto é, a bolacha, porque essa provém do francês gallete, mas de origem desconhecida. Pouco faltará para, à menção da expressão «servir de galheteiro», o nosso interlocutor encolher os ombros, ignorante. Isso constitui algum problema, perguntar-me-ão? Também ninguém sabe o que são os escarpes e olha como as pessoas parecem felizes, vão aos saldos, comem hambúrgueres e estão sempre agarradas ao telemóvel. E com razão — os escarpes não são coisa digna de evocação.


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Léxico: espectatório

Espectatório

      Há poucos anos, vi num anfiteatro do Hospital de Santa Maria a inscrição «espectatório». Mais uma palavra perdida para a vida. Quantas gerações de estudantes a terão pronunciado? Tem razão: é uma palavra feia e talvez desnecessária, além de lembrar coisas tétricas ou desagradáveis (ora deixem-me cá ver entre as mais de 500 palavras portuguesas terminadas em -ório…), como vomitório, espulgatório, crematório, dejectório, entre outras.


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Léxico: estouvado

Entomologia política

      A propósito de uma questão que não interessa para aqui, o primeiro-ministro usou há dias a palavra «estouvado», que sempre achei deliciosa. Registada na língua portuguesa quase no início do século XIX, já se usava antes sob as formas «estabanado» e «estavanado». Esta última ajuda-nos a ver melhor ali o étimo, que estará ligado à palavra «tavão», que é o moscardo que persegue o gado, o tabanus latino. «Estavanado» é o que foi mordido, aguilhoado pelo tavão, e por isso age irreflectidamente, de forma leviana ou inconsequente.

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Léxico: «arruada»

Escreva quem quiser, leia quem souber

      É impressão minha ou, pela primeira vez numa campanha eleitoral, a comunicação social está a usar a palavra «arruada»? Claro que só alguns candidatos têm direito a «arruada», enquanto outros se ficam com arruaças ou arremedos disso. Noutras campanhas, usava-se e abusava-se do mais hiperbólico «banho de multidão».
      Leio no Diário de Notícias: «[…] durante a concorrida arruada de Cascais». Afigura-se-me que há aqui uns fumos de pleonasmo. Então a «arruada» não é o tal «banho de multidão»? Bem, a verdade é que não vejo dicionarizado o vocábulo. Vamos esperar.
      Afinal, a coisa é mais antiga, pois leio no fabuloso corpus CETEMPúblico: «a arruada, como a CDU gosta de chamar às acções de campanha junto das populações».


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Hífen: extrema-direita

Sai uma palete de hífenes para o DN!
      
      O renovado Diário de Notícias (9.1.2006) escreveu, duas vezes no mesmo texto, «extrema direita». Mas não; se consultarmos, e é bom que o façamos com alguma regularidade, um dicionário de língua portuguesa, lá está: «extrema-direita» e mesmo, que nisto são iguais, «extrema-esquerda». Para terminar a questão, ministro-lhe (usurpando funções?) um dos sete sacramentos da Igreja Católica: a extrema-unção.


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Siglas: TAC

aTACar
      
      Na TSF, há dias, uma jornalista dizia que «Ariel Sharon irá hoje fazer novos exames médicos, um TAC». Hoje, o renovado Diário de Notícias também escrevia «após ter sido analisado o TAC». Sendo TAC acrónimo de Tomografia Axial Computadorizada, deveria ter dito «uma TAC». Há linguistas que consideram aceitável atribuir-se-lhe o género masculino, quando se subentender que está a ser feita uma referência ao exame complementar de diagnóstico que é a TAC, mas tal argumentação não me convence. Com subentendidos ou sem eles, diz-se e escreve-se «a CIA», «a SIDA», «a OPEP», «a NATO», «a ONU», etc.


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Há anos

Défice de dicionários
      
      O Diário de Notícias está, sem qualquer dúvida, muito melhor. E não é só o aspecto gráfico que mudou. Contudo, ainda se aninham nele, quais insidiosos parasitas, erros. Num texto da autoria da jornalista Paula Martinheira, lá vem, entre outros erros que me ocuparão mais tarde, o malfadado «há anos atrás», imitação do «years ago» inglês: «[…] emigrantes que há algumas décadas atrás partiram para a Venezuela […]». Se é compreensível no discurso de um político, já não o é num texto de um jornalista, cuja ferramenta de trabalho é precisamente a língua.


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Escolha do léxico

Fora dos eixos

      Leio num texto publicado no Expresso (17.12.2005): «Luís é o inventor do Mundo T, um mundo que se materializou numa campanha publicitária eixada na figura de Cristiano Ronaldo […].» Eixada? O afã de ser-se diferente leva por vezes a estas barbaridades. Para o jornalista, «centrada» era demasiado banal, correndo mesmo o risco de ser compreendido por toda a gente.


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Apóstrofo



The idiot box

      Num documentário, emitido ontem, sobre os vários filmes King Kong, na 2:, numa legenda podia ler-se «nas décadas de ’60 e ’70». O apóstrofo está ali para quê? Escreva-se: «décadas de 60 e 70» ou «décadas de 1960 e 1970».


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Símbolo @

Arrobas de razão      

      Madalena Balça, que apresenta o programa 1001 Escolhas na Antena 1, acaba sempre por apelar para a participação do ouvinte através do correio electrónico, dizendo: «Mil e Uma Escolhas, em dígitos, 1, 0, 0, 1, at, rdp, ponto, pt.» Porquê a preposição inglesa «at»? Causa estranheza, tanto mais que já entrou nos hábitos portugueses o uso da palavra «arroba» para o símbolo @. Sendo puramente convencional, é muito mais natural que tenha o nome «arroba», porque é esse o nome do símbolo que já conhecíamos. Os Italianos dão-lhe o nome chiocciola (caracol), os Suecos, snabel (tromba de elefante), os Holandeses, apestaart (rabo de macaco), os Israelitas, shtrudel, os Austríacos, strudel, os Franceses, arobase, etc. Deixemo-nos de subserviências e macaqueações, já basta todo o manancial de palavras inglesas a que não podemos escapar.


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Elemento ciber-

Cibertudo


      No suplemento Mil Folhas, do jornal Público, há uma rubrica intitulada «Ciber-escritas», da autoria da jornalista Isabel Coutinho. Contudo, a forma correcta seria «ciberescrita», à semelhança de «ciberespaço», abundantemente utilizado e já dicionarizado. Recomendo a leitura de um excelente trabalho sobre o elemento ciber na formação de palavras portuguesas, da autoria de Manuel Leal, do Conselho da União Europeia («a folha», números 16 e 17, «Cibernologia (1.ª parte» e «Cibernologia (2.ª parte)»).



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Estrangeirismo: «budget»

Não havia necessidade

      Na Antena 1 (6.1.2006), a actriz Lia Gama, a propósito dos sucessivos governos, afirma, com ênfase, que simplesmente não tem havido «budget» para a cultura. O português «orçamento» é demasiado singelo, e havia mesmo o risco de o ouvinte poder confundir com essa coisa vil que é o dinheiro. Vade retro, Satana!


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Pronúncia: beco

Nas ruas da amargura

      Entrevistado no programa Fátima (6.1.2006), na SIC, o responsável das ludotecas João de Deus, um projecto extraordinário de ajuda às crianças vítimas de exclusão social, disse que era preciso tirar aquelas crianças «do beco [/béco/] em que as lançámos» (cito de cor). A verdade é que o vocábulo «beco» se pronuncia com e fechado /bêco/, à semelhança de besta (/bêsta/).


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Colocação do pronome pessoal reflexo

Todos se estatelam. Estatelam-se todos.

      Num artigo publicado ontem (5.1.2006) no Público, podia ler-se: «Todos os planos de edição da Palavra para 2006 mantêm-se.» Ora, o que a gramática exige é que o pronome pessoal reflexo se anteponha ao verbo em frases começadas por pronomes indefinidos: alguém, ambos, muito, pouco, qualquer, todos, tudo, vários, etc. Diz-se, nestes casos, que o pronome está em próclise. Logo, o jornalista deveria ter escrito: «Todos os planos de edição da Palavra para 2006 se mantêm.»


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Mal-estar, mal-estares

O Expresso errou

     Se é comum ouvir «mau estar», será raro lê-lo. Contudo, na última edição da revista Única (30.12.2005), era assim mesmo que estava escrito, na secção «Gente», coordenada pela jornalista Isabel Lopes. Em causa estava o estádio de futebol de Graz, na Áustria, que voltou a ter o antigo nome de Estádio Libenau, depois do «mau estar causado por Schwarzenegger não ter concedido clemência a Stanley Williams». Eu compreendo que a notícia tenha perturbado o jornalista, mas a ortografia não tiraria autenticidade às suas palavras.


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Pronúncia: Sabor

Língua-de-trapos

      Da comunicação social aos políticos, tem-se ouvido nos últimos tempos, a propósito da construção da barragem do Baixo Sabor, o nome do rio ser pronunciado como palavra grave, que não é. É aguda, com a primeira sílaba aberta e a última fechada: /Sàbôr/. José Neves Henriques, consultor do Ciberdúvidas, afirma que no século XII se pronunciava /Saabor/, e que é a contracção dos dois aa que explica o a aberto.


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Verbo haver

Agora já percebi

      Foi Mário Castrim, numa das suas inesquecíveis críticas televisivas, que lembrou o caso do parlamentar que dizia: «Haviam muitos problemas…» E Brito Camacho, num aparte, acrescentar: «Haviam e hão, senhor deputado.»


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Miniférias

Imagem: http://app.shop-control.com/

Língua de muletas

      O Diário de Notícias de hoje mostra uma fotografia de José Sócrates de muletas e escreve que o primeiro-ministro apareceu assim «na sequência da lesão sofrida no joelho nas recentes mini-férias numa estância de esqui na Suíça». Ora, o elemento mini liga-se directamente à palavra seguinte, sem hífen, excepto no caso de esta começar por h, em que se usa o hífen, ou por r ou s, em cujo caso dobra a consoante. As melhoras ao primeiro-ministro e ao jornalista.
      Assim: minibiblioteca, minidisco, minigolfe, mini-hospital, minifestival, mini-inquérito, minimercado, minimota, minirreactor, minissaia, minissérie, minissubmarino, minitrampolim… Sigo o Dicionário Houaiss.


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Estrangeirismo: «teaser»

Desnudamentos

      Respigado no Diário de Notícias (27.12.2005): «Em Janeiro, a SIC vai exibir uma nova série produzida por Teresa Guilherme, cujo teaser já está no ar.» A sério!? A propósito, o que significa teaser, ao certo? Pego num qualquer dicionário de inglês-português e leio: «Pessoa que gosta de arreliar ou de brincar com os outros; maçador; (coloq.) coisa importuna; problema difícil; cardador.» Mete ovelhas ou reinação, já percebi, mas o que significa? Num assomo de intelectual preparado, lanço mão do Webster’s e lá vem: «Anything tempting or whetting the appetites.» É só isto, um engodo, um chamariz?
      Claro que o jornalista pode usar estrangeirismos, se lhe apraz, mas atenção: está a escrever para ser entendido. Ou não?

      Leio num dicionário publicitário online: «TEASER — Mensagem curta que antecede o lançamento de uma campanha publicitária, gerando expectativa para ela. Pode ou não ser identificada (ou seja, ter o nome da empresa ou marca).»


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Tamanho dos caracteres

Gros caractères

      Recebi há dias em casa a programação da Culturgest para o primeiro trimestre de 2006. Em termos estéticos, nada a opor. Erros, há-os. O que me preocupa, desta vez, é o tamanho da letra. Não é para toda a gente ler, e o facto de os textos em inglês estarem grafados num azul cerúleo piora tudo. Atenção: nada de discriminações baseadas nas dioptrias.


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Acento circunflexo

Imagem: www.samnorkin.com/
Coco simples

      Não é raro encontrar a palavra «coco» mal escrita, mas recentemente (2.1.2006) num cartaz no hipermercado Feira Nova, vi-a escrita com dois acentos circunflexos! «Côcô», nem mais. Mais parece um emoticon, tão na moda. Talvez uma expressão de espanto, as sobrancelhas de Groucho Marx a arquearem-se sobre os óculos. Se naquele hipermercado, como em todos, só desmancha os porcos quem sabe, só faz a contabilidade quem sabe, só concebe campanhas de marketing quem sabe, porque é que todos escrevem, se poucos sabem?
      Se tivesse acento, seria apenas um. Todavia, pelo Acordo Ortográfico de 1945, foi eliminado o acento circunflexo em homógrafos heterofónicos (isto é, palavras com fonia diferente, mas com as mesmas letras), «como cerca, substantivo, com e fechado, e cerca, verbo, com e aberto; força, substantivo, com o fechado, e força, verbo, com o aberto. Há excepções, nas formas verbais, mas para o caso em apreço não interessa.

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Todo-poderoso

Renda-se. Está cercado

      Isto é o que exige a prestigiada Bang & Olufsen num anúncio que se pode ver na imprensa. Não devemos, porém, ter qualquer receio, porque afinal é para apresentar «o todo poderoso BeoVision 7 & Beolab 5». Admito: na Dinamarca não abundarão os dicionários de língua portuguesa ou sequer um mero prontuário. Mas, caramba, e na agência criativa onde foi concebido o anúncio ninguém ainda vira a palavra «todo-poderoso» escrita? Não usam dicionários? Não lêem nada? Se se obstinarem a usar armas destas, não me rendo.
      Escreva-se: todo-poderoso, todo-poderosos, todo-poderosa, todo-poderosas. Uma fonte online fiável é a Base de Dados Morfológica do Português.


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Hífen

A bem-dizer, dispenso os dicionários

      Ao traçar o perfil de David Cameron, o carismático líder do Partido Conservador britânico, a Pública (edição de 31.12.2005) chama-lhe posh, que traduz por «menino bem». Ora, tal como «menino-prodígio» e «menino-bonito», deveria ter escrito «menino-bem». Curiosamente, as palavras inglesas que a jornalista escreveu estão todas correctamente grafadas.


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Verbo haver

Madalena Iglésias
      
      Numa entrevista ao Diário de Notícias, em 11 de Dezembro, o ícone do nacional-cançonetismo afirmou que nos anos 60 «todas as estações de televisão eram mais ou menos iguais, haviam três ou quatro câmaras que serviam para quinhentas mil coisas». Mas talvez Madalena Iglésias não tenha dito exactamente assim, porque afinal a jornalista Paula Mourato é que escreve «meio termo» e «nacional canconetismo», entre outros erros menores. Dizem-me que os jornais já não têm revisores.


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Sob e sobre: a batalha continua

O mundo às avessas

      O Público (edição de 31.12.2005) inventou uma «ponte pedonal sob o rio Clark Fork». O erro oposto, que consiste em trocar «sob» por «sobre», é muito mais comum. Não tem conta o número de vezes que já li e corrigi «sobre a égide», «sobre escolta», «sobre os auspícios» e «sobre a tutela» para «sob a égide», «sob escolta», «sob os auspícios» e «sob a tutela».

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Superego

Era um belo mito

      Em entrevista à revista Pública, de 11 de Dezembro, Helena Abreu, perita em orientação escolar e profissional, com currículo internacional, reconhece que se escreve pouco na escola portuguesa, em todos os níveis. Reconhece ainda que a geração a que pertence (tem 61 anos) tem tendência a considerar que saía da escola a saber escrever bem. Mas não é assim, acrescenta, porque só se aprende a escrever escrevendo. A jornalista, vergada ainda ao peso do lugar-comum, diz-lhe que «pelo menos não davam erros ortográficos». Realista, Helena Abreu afirma que «isso é outro mito». O que a geração dela tinha era uma «espécie de superego ortográfico», que actualmente não existe. A prová-lo, a jornalista escreveu duas vezes «super-ego». Afinal, talvez se justificasse a genuflexão.


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Léxico: camauro

Fonte: http://news.bbc.co.uk
Chapéus há muitos

      O Papa Bento XVI retomou o costume, interrompido pelos últimos três papas, de usar um barrete chamado camauro, que o Grande Dicionário de Língua Portuguesa dá como tendo etimologia latina e significando «barrete usado pelos papas e que chega a cobrir as orelhas». De alguma maneira, devemos a palavra a Bento XVI, pois que sem a realidade a palavra de pouco valia. Na imagem em que o vi com o camauro, de veludo vermelho-púrpura, o papa parecia um doge.


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