Grafia dos nomes próprios

Questão homérica

Ao ler agora o texto «Ruy, a Águya de Haya», que faz parte da obra What língua is esta?, de Sérgio Rodrigues (Gradiva, 2009), não pude deixar de pensar no leitor Pedro Bingre e na acusação de que eu também dormitei, qual Homero. Quandoque bonus dormitat Homerus. Felizmente já estou habituado a elogios, caso contrário poderia fazer-me mal ser comparado a um génio. Só uma coisa me desagrada na comparação: Homero, e Pedro Bingre, professor na Escola Superior Agrária de Coimbra, não há-de ignorá-lo, poderá nunca ter existido. Mas voltando a Sérgio Rodrigues. Resumo o texto: os descendentes de Rui Barbosa (este sim, um génio) querem recuperar o ípsilon que ele perdeu na reforma ortográfica de 1943. Escreve Sérgio Rodrigues: «Como se sabe, a lei de 1943, regulamentada por decreto presidencial dois anos e meio depois, foi prontamente acatada nos dicionários, nas escolas, na imprensa, por todo lado. Nos cartórios é que não houve jeito de pegar. O professor Celso Pedro Luft admite, em seu Novo guia ortográfico, que “a tradição entre nós (…) tem contrariado a lei”. Tem mesmo, e como. Uma discreta mas tenaz desobediência civil acabou se impondo na questão dos nomes próprios. Vez por outra, algum escrivão radical ainda tenta fazer valer o manual, mas a causa parece perdida. Luiz Inácio Lula da Silva, para citar um exemplo ilustre, se insere nessa tradição de contrariar a lei de 1943, segundo a qual todo Luís deveria ser escrito com s e acento» (p. 180).

Aplicação do AO

Espectáculo

      «“Os professores, jornalistas e tradutores serão os grandes obreiros da mudança com a entrada em vigor do AO, que vai permitir ao português dispor de uma única ortografia a nível internacional”, afirmou aos jornalistas João Malaca Casteleiro, que participou, nos Açores, numa sessão de esclarecimento sobre o tema na Escola Básica Integrada da Maia», leio no Diário de Notícias. Esqueceu-se, é claro, dos obscuros revisores (obreiros menores). Mas isso agora não interessa. Estou de novo, e por uns dias, no Record. Até agora, o jornal, que está a aplicar as novas regras ortográficas, apenas recuou numa opção. Tinha decidido escrever «espetador», e num jornal desportivo escreve-se milhares de vezes a palavra, e logo a indignação de alguns leitores se fez ouvir. Confunde-se, argumentam, com espetador, aquele que espeta. Parece que José Pedro Gomes e António Feio, na Conversa da Treta, já brincaram com esta alteração trazida pelo acordo ortográfico. Como se fosse novidade na língua. E os falantes não sabem distinguir entre «pregar», fixar ou segurar com prego, e «pregar», anunciar ou desenvolver um assunto em prédica ou sermão? Este último até já se escreveu prègar, mas a verdade é que a ortografia actual não impede a realização fonética considerada correcta. Por vezes, porém, em relação a algumas palavras a distinção fonética tem-se vindo a perder, como no caso de «bordo» (do frâncico bord), interior de navio ou avião, e «bordo» (do latim alburnu), árvore da família das Aceráceas. A brincar, costumo dizer que /bôrdo/ em relação a aviões só no caso do aeromodelismo, em que se usa essa madeira.

Transcrição da fala


Calma lá

«Na tentativa de dar um exemplo, Isaltino começa a explicar um negócio passado na década de 70, mas dá a entender uma fuga ao fisco. “O soutôr gosta de confessar crimes prescritos”, comenta o procurador» («Notas no bolso e crimes prescritos na mira do MP», Luís Galrão, Diário de Notícias, 28.03.2009, p. 12). Pode dar uma nota de graça ao texto fazer aquela transcrição da fala, mas é um caminho potencialmente perigoso. Imagine-se agora que o repórter tinha um ataque de fidelidade semelhante quando ouvisse, por exemplo, o procurador-geral da República, Pinto Monteiro, com a sua pronunciadíssima pronúncia regional com todas as sibilantes a transformarem-se em chiantes.

«IV República»?

Ora contemos

      «O ex-secretário-geral do PSD, Ribau Esteves, disse ontem estar em preparação um movimento para fazer “uma boa revolução” para implantar “a IV República”» («Ribau diz que fala na IV República», Diário de Notícias, 28.03.2009, p. 16). Quando um dia revi um livro da autoria do Dr. Mário Soares, levantei esta questão da contagem das repúblicas: estávamos na II ou na III Repúblicas? O Dr. Mário Soares mandou dizer que o Estado Novo não foi uma república, mas sim uma monocracia, uma ditadura. Logo, estamos na II República. Realmente, pensei depois, até o nome é uma indicação. O Estado Novo não foi uma república, como Vichy também o não foi. Nem a República de Saló. Nem o III Reich, que nunca aboliu formalmente a República de Weimar. Mas também formalmente, contudo, estamos na III República.

«Bairros “sensíveis”»

Sensibilidades



      «A intervenção policial, de acordo com as informações oficiais da PSP, incidiu especialmente nos interfaces de transportes públicos, em alguns bairros “sensíveis” e nas áreas envolventes aos estabelecimentos de diversão nocturna» («PSP faz operação musculada para combater criminalidade», Paula Sanchez, Diário de Notícias, 29.03.2009, p. 23). Este eufemismo, «sensível», para designar os bairros de habitação social problemáticos começou a ser usado há mais de vinte anos em França, quartiers sensibles. Lá como cá, o adjectivo está carregado de conotações negativas. Em Portugal ainda se vai envolvendo, pudicamente, o adjectivo em aspas.


Insustentável


      «Na realidade, apesar de o sol poder conduzir aos mesmos efeitos nocivos, o solário “é mais pernicioso porque concentra raios ultravioletas do tipo A de altíssima intensidade, enquanto na luz do Sol são mais dispersos”, sustém o dermatologista» («ASAE fechou 132 solários que não cumpriam a lei», Sara Gamito, Diário de Notícias, 29.03.2009, p. 18). Não nego: são parecidíssimos. Ainda assim, uma jornalista tem a estrita obrigação de saber o que significa sustentar e o que significa suster. Se, durante a entrevista, o dermatologista tivesse sustido nas mãos a página de um dicionário com o verbete «suster», a jornalista poderia ter visto que significa: «segurar para que não caia, sustentar, amparar; fazer face a; fazer parar; alimentar, nutrir; refrear, moderar; manter-se, conservar-se; recuperar o equilíbrio, equilibrar-se; conter-se».

«Ex situ»/«in situ»

Latim

«As instalações de Silves, construídas pela Águas do Algarve ao abrigo das medidas de compensação relativa à barragem de Odelouca, vão integrar a rede destes centros ibéricos do programa de conservação ex situ da espécie (fora do seu habitat natural), que se iniciou em 2004, com a reprodução em cativeiro, em Espanha» («Lince-ibérico reintroduzido em Silves esta Primavera», Filomena Naves, Diário de Notícias, 29.03.2009, p. 66). Não é todos os dias que se vê esta locução latina, convenientemente explicada pela jornalista, na imprensa. Opõe-se à muito mais conhecida in situ, também usada no artigo: «“A verdadeira prioridade é a conservação in situ (no habitat natural)”, esclarece o investigador português [Rodrigo Serra].»

«Descobertas/Descobrimentos»

Imagem: http://www.licoresabadia.com/pt/

Até um licorista



      «Cristo-Rei, Ponte 25 de Abril, Torre de Belém, Mosteiro dos Jerónimos, Castelo de São Jorge, Padrão das Descobertas, Centro Cultural de Belém, Museu da Electricidade e os Paços do Concelho serão os pontos da capital que ficarão às escuras em prol daquela campanha global de alerta para a necessidade de adopção de medidas eficazes na luta contra as alterações climáticas» («Apagão global», Vera Mendão Costa, Visão, 12.03.2009, p. 96). Mesmo para quem passa ao lado da questão relativa à vernaculidade de «Descobertas», e são milhões, uma coisa é certa: o nome oficial do monumento é mesmo Padrão dos Descobrimentos. Até um licorista de Alcobaça sabe isso.

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