«Com ser»

Que cada um diga (II)


      «Confieso también que me engañaba, y que podría ser que hacer ahora la experiencia me pusiese la verdad delante de los ojos el desengaño; y, estando desengañada, fuese, con ser honesta, más humana» — Cervantes. Espanhol até ao tutano? «E porque el-rei tem tanto cuidado do governo de seu reino e o traz tão bem regido, com ser tão grande como é, o sustenta e conserva unido em paz há muito número de anos, sem nenhuns reinos estranhos entrarem a possuir nada na China, antes a China sujeitou e teve muitos reinos e muitas gentes sujeitas pelo seu singular governo» — Fr. Gaspar da Cruz. Português de lei?

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3 comentários:

R.A. disse...

Este senhor Montexto é de uma petulância que assusta!
Será que ele não se apercebe (talvez voltando a ler os clássicos, de que tanto se arroga conhecedor, a coisa resultasse!) de que este blogue é pedagógico e não apologético!
Ele que vá fazer apologias para outro lado e nos deixe desfrutar as suas (do Helder Guégués) preciosas lições, ironias e pistas bem-humoradas! (com hífen?)

Anónimo disse...

Muito bem; da discussão nasce a luz (dizem).
Ora pois, como eu vinha a explicar, atente-se só em mais um exemplo das «coisa espantosa» dos clássicos:
Estava eu a seguir religiosamente o estrito récipe de Herculano tomando um caldo de Vieira pela recente edição de 2008 da Leya, S.A., Sermões, quando no de Santo António no Maranhão, II, pág. 101, se me depara a seguinte pérola da compreensão que hoje se tem dos clássicos, a saber: «Vede, peixes, quão grande bem é estar longe dos homens. Perguntando um grande filósofo qual era a melhor terra do Mundo, respondeu que a mais deserta, porque tinha os homens mais longe.»
Assim, segundo esta nova apresentação ou «modernização» do texto, o próprio filósofo teria perguntado e depois respondido: perguntando um grande filósofo ..., respondeu que ...
Sucede que não foi isto que o pregador quis dizer, nem o que realmente disse e escreveu. O que deveras escreveu e quis significar foi, como o atestam todas as outras edições: «Vede, peixes, quão grande bem é estar longe dos homens. Perguntado um grande filósofo qual era a melhor terra do Mundo, respondeu que a mais deserta, porque tinha os homens mais longe.» Note-se: «Perguntado um grande filósofo», e não «Perguntando um grande filósofo». Ou seja, o filósofo não perguntou; foi, sim, interrogado, foi perguntado, alguém o interrogou, alguém lhe perguntou a ele, filósofo, que depois, sim, respondeu. Portanto, não perguntou e respondeu, como se assentou na edição da Leya (perguntando um filósofo), senão que foi perguntado, interrogado (perguntado um filósofo), e depois respondeu.
Mas, como ao apresentador ou «modernizador» do texto do Imperador da Língua Portuguesa não lhe soou aquele «perguntado um filósofo» por «interrogado um filósofo», zás! toca a emendar Vieira (emendar Vieira, meu Deus! Perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem) acrescentando o «n» que, lá na ideia do apresentador ou «modernizador», teria sido deixado no tinteiro.
Concluindo: só para salientar que, se o tal estivesse mais abeberado nos clássicos, não lhe faria espécie nem engulhos o uso de perguntado naquele caso e acepção.
Para rematar, uma cereja em cima do bolo para... amargar a boca e exaltar o ânimo de algum leitor mais... atrabiliário: conste que também está dito e redito, cuido que até por Vasco Botelho de Amaral no seu Dicionário de Dificuldades, que «aperceber-se de» em bom português significa «munir-se de, prover-se de, apetrechar-se de», e não «reparar em, atentar em, advertir em, dar fé de, dar tento de, dar conta de» ou «dar por», acepções em que empregar «aperceber-se de» é nada mais que render-se ao influxo do francês «s’appercevoir», como se tem rendido e continuará a render o vulgo profano e a turba insensata, ainda mais esta do que aquele.
- Montexto

Anónimo disse...

Concordo. «Error facit ius», e na língua ainda mais. Mas cabe-nos ir pondo os pontos nos is, quanto em nós couber. Quem facilite já há de mais, e em Portugal nunca faltará. Com isto podemos contar.
- Montexto

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