Tradução: «exercise boy»

Altas cavalarias


      «Gordon», fiquei a saber, «was an exercise boy at the yearling training center.» Muito prazer. «Moço de exercícios», querem que seja? Faz lembrar o ferro-guia... É uma das dificuldades da tradução, a falta de correspondência entre léxicos, decorrente, também, da ausência de correspondência nas realidades. Eu bem gostava que houvesse corridas de cavalos e apostas em Portugal, mas não há. Já no Brasil, existe o turfe, mas não descola muito, em termos linguísticos, da realidade anglo-saxónica. Creio que entre as tarefas dos cavalariços não se conta esta de levar os cavalos a fazer exercício. No México, dão o nome de poniador a estes profissionais.

[Post 4168]

Fraccionários

Pergunto


      «He raced the seven-eighths of a mile in a sizzling 1:21⅗, three-fifths of a second faster than the old mark.» Podemos, na tradução, representar o tempo da mesma forma? Lia-se na tradução: «Correu os sete oitavos de milha num escaldante minuto e 21 ⅗ segundos, três quintos de segundo mais rápido que a velha marca.» Não seria mais correcto representar o minuto por numeração árabe? E a parte fraccionária não tem de estar junto, sem espaço, da parte inteira?

[Post 4167]

Como se fala na televisão

Coitados de nós


      Um dos convidados de ontem do programa Prós e Contras foi o escritor José Luís Peixoto. Uma das frases que lhe ouvi: «Eu tive oportunidade de publicar recentemente um romance em que acabei por, ao escrevê-lo, por me debruçar sobre a questão da emigração portuguesa, nesse caso, especificamente, para França, e ter oportunidade de perceber que se tratam de pessoas que construíram dois países, de certa forma, com o que fizeram.» Fátima Campos Ferreira quis ainda saber se o escritor achava que somos um povo resignado. «Eu penso que nos querem resignar», respondeu, violentando a gramática, o autor do Livro. Esgotada a gramática e a inspiração com este convidado, Fátima Campos Ferreira virou-se para Salvador Mendes de Almeida, e perguntou: «O que é que denota hoje, que sinais vê na sociedade?»
      Não me perguntem mais nada, pois fui-me deitar com esta frase (salvo seja).

[Post 4166]

Tradução: «lead shank»

Não pega


      Mais cavalos. No original lia-se que John «takes hold of the lead shank and brings them into the circle», que o tradutor quis que fosse John «pega no ferro-guia e leva-os para o círculo». Só que nenhum dicionário bilingue inglês-português que eu conheça regista a locução lead shank. Sei o que é, sim, mas desconheço o termo correspondente em português. Num dicionário de inglês-espanhol que aqui tenho, vejo-a traduzida por cuerda e cadena. (E também confirmo que sweet feed está traduzido por comida dulce.)

[Post 4165]

Ortografia: «bola-de-berlim»

Mil por dia


      No Diário de Notícias, as bolas-de-berlim saem a preceito, com hífenes e minúsculas. Graças, talvez, a Paulo Julião. «A bola-de-berlim do Manuel Natário é o seu produto mais conhecido, e dos fornos da pastelaria podem sair mais de mil, para uma fila de espera que, como é hábito, chega a contornar, sobretudo na “fornada da tarde”, quase toda a rua. É por tudo isto que o Prémio Mérito Comercial, atribuído pelo Conselho Empresarial dos Vales do Minho e Lima (CEVAL), pretende sublinhar, “pela antiguidade, notoriedades regional, nacional e internacional”, além da “constância e qualidade dos seus produtos”» («Mil bolas-de-berlim por dia e com amigos no Facebook», Paulo Julião, Diário de Notícias, 6.12.2010, p. 18). Não sei o que é pior: haver grávidas que vão a Viana do Castelo para comer uma bola-de-berlim ou esta confeitaria estar no Facebook.

[Post 4164]

Ortografia: «Uagadugu»

Não é para gagos


      Ferreira Fernandes também está de parabéns, pois escreve Uagadugu e não — quelle horreur !Ouagadougou: «Lembrei-me do episódio quando, com as fugas do WikiLeaks, se discutiu agora a impertinência americana de pôr os seus diplomatas a fazer espionagem. Esqueçam a palavra feia, espionagem, dêem-lhe nome de nouvelle cuisine, “dados avulsos no seu leito de coisas da vida local”, mas a função dos nossos homens em Havana ou em Uagadugu foi sempre saber quantos enfermeiros há em N’giva ou se a Cristina Kirchner é maluca. Provavelmente o papel de um governante saudita (que passa por não permitir que o Grande Satã americano ataque um país islâmico) é não dizer ao embaixador dos americanos que gostaria de vê-los a bombardear Teerão» («Servir chá ou trabalhar», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 6.12.2010, p. 52).

[Post 4163]

«Nortista»

Ouattara, um nortista


      Vá lá, na Costa do Marfim não há nortenhos, mas nortistas: «O Chefe do Estado não aceitou a derrota nas eleições presidenciais, cujo resultado foi anunciado na quinta-feira, dando a vitória a Ouattara, um nortista, com 54%. Mas o veredicto da Comissão Eleitoral foi anulado pelo Conselho Constitucional e Gbagbo foi proclamado presidente, tendo já tomado posse. Horas depois, Ouattara também se autoproclamou presidente» («Um país cada vez mais dividido agora com dois presidentes», Luís Naves, Diário de Notícias, 6.12.2010, p. 21).

[Post 4162]

Falsos cognatos

Reincidência


      O leitor Francisco Agarez chamou-me a atenção para este trecho de um artigo do Diário de Notícias de ontem: «Independentemente do que isso, a ser verdade, diz sobre a relação de Assange com a liberdade de imprensa e o seu apego à transparência, teremos de concluir que os outros jornais, os escolhidos, podem ter sido mais lenientes com Assange?» («Os famosos cinco jornais e a aventura da WikiLeaks», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 5.12.2010).
      Parece português e do melhor, mas não é: — leniente é má tradução do inglês lenient. Este significa «brando», que é o que a jornalista pretendia dizer. Em português, «leniente», ou «lenitivo», diz-se do que suaviza ou acalma. Já vimos aqui que esta jornalista é muito atreita a usar anglicismos, o que só lhe deslustra os textos. Por quem é, deixe-se disso.

[Post 4161]

Arquivo do blogue