Disparates na televisão


Burradas

      Na redacção. Várias televisões ligadas. Todas sem som, felizmente. Numa delas, passavam os Jogos Surdolímpicos (ah, nunca tinham lido a palavra… Fiquem também com a correspondente inglesa: Deaflympics), em Taipé. Noutra, o concurso Jogo Duplo, apresentado por esse ícone — ts, ts, ts — cultural que é José Carlos Malato. Em rodapé, uma pergunta: «Um rebanho asinino é composto por: búfalos, carneiros, burros.» Então o colectivo rebanho não designa o grupo numeroso de animais domésticos herbívoros (em especial, gado lanígero) que, em regra, é guardado por um pastor? Bem faz D. Duarte Pio, que não tem televisão em casa, e não há-de ser por isso que não ascenderá ao trono.

Léxico: «leixão»

Explicado

      «Após a queda do leixão da praia Maria Luísa, Albufeira, a 21 de Agosto, que provocou a morte de cinco pessoas, o Ministério do Ambiente ordenou novas inspecções de Norte a Sul [sic] do País» («Litoral em risco», João Tavares, Correio da Manhã, 8.09.2009, p. 20). Leixão, termo que raramente se vê, designa o penedo destacado na costa marítima. Ah, sim, agora já sabem de onde vem o topónimo Leixões.


Léxico: «microempresário»

Não percebo

      «A curto prazo 5190 pequenos e microempresários vão abandonar a actividade e sair do mercado, engrossando as fileiras do desemprego» («5190 empresários saem do mercado», Diana Ramos, Correio da Manhã, 7.09.2009, p. 20). Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, se há microempresas, não há microempresários. Mas há microengenharia e microengenheiros. Incoerências. O Dicionário Houaiss, em contrapartida, não apenas regista microempresário, como também o colectivo microempresariado e o adjectivo microempresarial.

Léxico: «financista»

Por aí


      «Uma Thurman não dispensou a pompa para se casar com o financista milionário Arpad Busson», lia-se na página 49 da edição de ontem do Correio da Manhã. Já em Abril o Diário de Notícias assegurara que «a actriz terá dado o nó com o multimilionário». Milionário ou multimilionário, o empresário suíço aparece na imprensa de língua inglesa como financier, que se pode traduzir por «financeiro» ou por «especialista em finanças». E financeiro, já aqui vimos, tanto significa o indivíduo versado em finanças como banqueiro. Financista, finalmente, é a pessoa especialista em finanças. É vocábulo muito pouco usado.

Máster, masterizar, remasterizar

Máster como póster

      Num texto datado de 2001, «Estrutura de Graus do Ensino Superior em Portugal», da autoria de José Novais Barbosa, ex-reitor e professor jubilado da Universidade do Porto, lê-se: «Aceitação da designação de “licenciatura” (embora se preferisse a de “bacharelato”) para o grau obtido no primeiro ciclo de estudos e introdução de um neologismo — que se propõe seja “máster” para não ser confundido com o mestrado — designando o grau obtido no final do segundo ciclo de estudos.» Esta questão está relacionada com a da distinção major/minor,aqui tratada, que se revelou matéria pouco consensual. Entre as acepções do termo aportuguesado (registado, por exemplo, no Dicionário Houaiss) máster não se encontra a do texto citado. E a propósito, lia-se na edição de ontem do Jornal de Negócios: «Beatles re-masterizados e em vídeojogo» (JN/«Investidor Privado», 7.09.2009, p. 2). Claro que é remasterizados que deveriam ter escrito, como se lia no Correio da Manhã: «O catálogo completo de gravações dos Beatles será reeditado em CD a 9 de Setembro, estando as canções remasterizadas digitalmente pela primeira vez.» O Dicionário Houaiss regista masterizar, masterização e remasterização.

Natural de Trindade e Tobago


Imagem: http://coastalcruzn.files.wordpress.com/


Feio como um trombone


      Na redacção: «Trindade e Tobago. Já há muito tempo que não aparecia. Como se chamam os naturais?» Silêncio de largos segundos. «Trinitários.» Pois é… e Tobago? O Dicionário Houaiss regista Trinitário-Tobagense. Já sabemos que Tobago é corruptela, mas veja-se o que acontece com Pompeia. É bem escusado tentarmos impor a forma Pompeios. Ninguém leva a sério (mas sim: a ignorância é risonha). No romance Em Nome da Terra, de Vergílio Ferreira, o narrador, João, viúvo e reformado, anota: «Olho o fresco de Pompeia. Ou não bem de Pompeia mas de Estábias que fica logo a seguir e ao sul. Ou talvez não de Pompeia mas de Pompeios que é um nome feio como um trombone (trombone?)»

Cara a cara/cara-a-cara

Acho eu

      «Já dentro da papelaria, e cara-a-cara com o funcionário da Esegur, a dupla efectuou mais um disparo» («Invadem papelaria a tiro», Miguel Curado, Correio da Manhã, 4.09.2009, p. 1). Sendo locução adverbial de modo, escreve-se cara a cara, tal como frente a frente, ao passo que os respectivos substantivos se grafam cara-a-cara e frente-a-frente.aqui vimos a diferença. Se no primeiro semestre deste ano o Correio da Manhã é o diário generalista com mais vendas, com 115 094 exemplares vendidos diariamente, todos — jornalistas, editores e revisores — deviam ter ainda mais cuidado com a forma como escrevem.

Léxico: «tram-train»

Decerto que sim

      «Os novos veículos tram-train do Metro do Porto vão estar em exposição nas estações da Trindade, da Senhora da Hora e da Póvoa de Varzim, com visitas guiadas a partir de hoje» («Tram-train expostos», Correio da Manhã, 6.09.2009, p. 27). São várias as publicações que usam o vocábulo. Na página da Internet da RTP, lê-se que o «Sistema de Mobilidade do Mondego prevê a circulação de um metro ligeiro de superfície do tipo “tram-train” — com capacidade para circular nos eixos ferroviários, urbanos, suburbanos e regionais — no Ramal da Lousã (Coimbra-Serpins), e na cidade de Coimbra». Pergunto-me é se não haverá um termo português para designar este tipo de transporte híbrido.

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