«Candahar»?

Porque não?


      Caro M. L. Bem, não sei o que está na edição dos Livros do Brasil (de 1985), mas no volume da colecção «9 mm», do Público, e o tradutor é o mesmo, Silveira de Mascarenhas, lê-se «Candahar». «Tomei o mesmo caminho, com muitos outros oficiais que estavam em idêntica situação, e consegui chegar são e salvo a Candahar, onde encontrei a minha unidade e imediatamente assumi as novas funções» (p. 7). Agradam-me mais certas opções de tradução de Hamílcar de Garcia, o tradutor brasileiro (cuja tradução pode ler aqui). Digo-lhe apenas isto: se vejo também em inglês Candahar, por que diabo não escrevemos assim em português? Como revisor, pelo menos, não altero. Em qualquer dos casos, estamos de acordo, nenhum leitor deixará de saber a que cidade se refere o oficial-médico Dr. John H. Watson.

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Sobre «director»

Nem mais


      Pouco há, falei aqui do uso do vocábulo «dirigente» numa acepção que me pareceu pouco comum. Leio agora no conto «Perdão», que faz parte dos Contos Bárbaros de João de Araújo Correia, a seguinte frase: «O director de montaria, chegando a uma clareira, fez alto» (Lisboa: Editorial Verbo, 1972, p. 132). É o mesmo, pois director também é o indivíduo que organiza uma qualquer tarefa.

 
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Ortografia: «bem-cheiroso»

Pura anarquia? Não!


      Escreve-se mesmo assim, cara Olga Pereira. Estou a ler o livro de contos Pura Anarquia, de Woody Allen (publicado pela Gradiva em 2007, com tradução de Jorge Lima). Um dos contos intitula-se «Sam, fizeste as calças demasiado bem-cheirosas». Chega lá por analogia, que não por estar registado em nenhum dicionário, e por se considerar que há unidade semântica, como em «bem-falante», bem-comportado», etc.

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«Tratar-se de», outra vez

Tratem-se


      O Centro Nacional de Cultura (CNC), com o apoio do Alto-Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI), lançou o Guia da Lisboa Intercultural, o que motivou uma reportagem da Antena 1. A repórter Lídia Cristo entrevistou ontem Helena Gelpi, Coordenadora de equipa do ACIDI a propósito desta publicação, que pretende dar a conhecer a presença das diversas comunidades de imigrantes residentes em Lisboa e é de distribuição gratuita. A jornalista quis resumir, pragmática mas agramaticalmente, o alcance da obra: «Tratam-se de sugestões para conhecer melhor a cidade, é isso?» Uma jornalista a falar assim…
      A construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular.

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Sintaxe e elisão

Em bom português


      Caro Luís Ferreira, a sintaxe da frase que me cita é bem portuguesa. João de Araújo Correia, contista de primeira plana, por vezes purista extremado, escreveu no conto «Milagre»: «Se tivesse morrido, bem regalado devia estar, à banda de cima das nuvens, com sol do melhor e bons manjares celestes, enquanto os terrianos, de molhados, começavam a criar barbatanas de robalo» (Contos Bárbaros. João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo, 1972, p. 17). Cá está: «de molhados», com elisão do verbo, como quem diz «de molhados que estavam».

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Bombaim e Mumbai

O Público espanhol escreve «Bombay». Quem é provinciano?

Só à bomba



      O jornal espanhol El País titula «Liberado uno de los dos hoteles asaltados en Bombay». O El Mundo, por seu lado, titula: «La policía de Bombay controla ya uno de los hoteles y libera a rehenes». Em França, o Le Monde escreve «Bombay : la situation des otages demeure confuse». O Le Express escreve: «Situation confuse à Bombay». Os nossos cosmopolitas jornalistas, temendo que os leitores espanhóis e franceses não compreendam, acham necessário escrever ou dizer que se trata «da antiga Bombaim», ou, pior ainda, escrevem ou dizem Mumbai. Isto é provincianismo.

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«De escantilhão»

Pelo contrário


      «Talvez o mundo volte a entrar na ordem, passados os sobressaltos do Verão e do começo do Outono. Com a invasão da Geórgia pela Rússia em Agosto e a queda de escantilhão das bolsas a seguir, os profetas da desgraça excitaram-se» («A lua-de-mel de São Barack Obama», José Cutileiro, Expresso, 22.11.2008, p. 34). De escantilhão, ou seja, de roldão, em tropel, precipitadamente. Sai do mais prosaico, ou não se tratasse do mesmo autor dos Bilhetes de Colares, sob o pseudónimo de A. B. Kotter. Mas, para mim, é sobretudo o autor de Ricos e Pobres no Alentejo (Uma Sociedade Rural Portuguesa) (Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1977, com reedição em 2004 dos Livros Horizonte), um dos livros que mais me impressionaram, e não é literatura. Ver este vídeo.

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Português na Administração Pública


Bons exemplos     



      Soube, através do Enxuto, que no passado dia 18 se realizou um seminário intitulado «Simplificar a comunicação na administração pública», organizado pelo Instituto Nacional de Administração e pela empresa Português Claro. O autor do Enxuto, Miguel R. M., participou e apreciou em especial a comunicação de Caroline Jarrett, que mostrou o que os Ingleses têm feito neste domínio nos últimos anos. E eles são pioneiros. No Reino Unido, há mesmo uma organização, fundada em 1979, cujo objectivo é o de promover uma linguagem chã e clara na comunicação da Administração Pública e das empresas privadas com o público. É a Plain English Campaign, que tem como logótipo um cristal, símbolo da limpidez, da transparência. No sítio desta organização podemos encontrar um documento muito interessante («How to write in plain English», para descarregar aqui) que dá directrizes sobre como escrever num inglês compreensível.
      Já que em Portugal se copiam tantas iniciativas estrangeiras, algumas bastantes duvidosas, porque não copiamos esta, verdadeiramente meritória?

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Léxico: «pruga»

Imagem: http://www.penpractice.com/

Tinta permanente




      O leitor L. S. está a traduzir um catálogo inglês sobre canetas de tinta permanente (fountain pens) e pretende saber se conheço algum termo em português que designe a fenda onde se introduz a pena metálica (nib) neste tipo de caneta. Por acaso, conheço (e até já me tinha passado pela cabeça, veja lá, que era um conhecimento inútil): pruga.

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Tradução: «vocal»

O anglo-saxónico     


      Mário Crespo foi entrevistado para a Única (edição 1881, 15.11.2008, pp. 30-39). À pergunta sobre se costuma ter muito feedback, respondeu: «Tenho muito. Mas negativo. Com o Gualter Baptista, foi negativíssimo. Os grupos mais expressivos em termos políticos congregam comunidades muito vocais. São muito engraçados. Recebi uma chuva de mails por causa do Gualter.»
      Por sorte, o Expresso é muito mais comprado do que lido. A acepção do vocábulo «vocal» usada não existe em português. «Telling people your opinions or protesting about sth loudly and with confidence» (in Oxford Advanced Learner’s Dictionary). Vocal poderá traduzir-se, por exemplo, por «que se fazem ouvir»: «Os grupos mais expressivos em termos políticos congregam comunidades que se fazem ouvir.»

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Modos de dizer

Mais uma

«José Castelo Branco surpreendeu mais uma vez tudo e todos ao aparecer, ontem, no Calor da Tarde, dentro do programa de Maya Contacto, na Sic, completamente loiro… e muito animado» («Loiro», Diário de Notícias, 21.11.2008, p. 55). É, tanto me é dado observar, a última moda entre alguns jornalistas: dizerem «dentro» quando uma simples preposição como «em», contraída com o artigo definido «o», desempenhava a mesma função. Já ouvi mais de uma vez na Antena 1, e, agora, vejo que alastrou aos jornais. Vai passar.

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A evolução das abreviaturas


Evolução


      Cara Luísa Pinto: pode, de facto, abreviar a palavra «senhor» em snr. (há dicionários, como o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, que ainda a registam), mas não é esta actualmente a forma usual, como sabe. Sim, até certa altura talvez fosse a única a ser usada. No boletim de alojamento de estrangeiro reproduzido acima (publicado na edição de Novembro/Dezembro da Agenda Cultural de Cascais), é essa abreviatura que lemos.

Actualização em 10.06.2009


      Decerto para ajudar a recriar a época em que se passa um conto, «Walkyrie, ¼ club 30 m/m», de Vasco Graça Moura, durante a Segunda Guerra Mundial, o autor usa esta abreviatura: «E ela teve a certeza do seu estado quinze dias mais tarde, exactamente na altura em que o patrão estava prestes a receber a visita do snr. Graf, importador de Hamburgo, que tinha grandes negócios de abastecimento da Wehrmacht com as conservas de peixe portuguesas» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura. Revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 246). «E não perdoo ao enfático snr. Ramalho Ortigão que dele o tenha dissuadido, em nome de uma ética farfalhuda e dos bons costumes que o autor de As Farpas não desistia de proclamar» (ibidem, p. 226).

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A partícula «de»

Menos elisões

«Mitchell J. Feigenbaum, um físico-matemático da Universidade Rockfeller em Nova Iorque, acaba de mostrar (http://arxiv.or/abs/0806.1234) que todas as conclusões de Einstein se podem deduzir de princípios mais simples» («Poderia Deus fazer um Universo diferente?», Nuno Crato, Expresso, 15.11.2008, p. 34). Se o nome é nacional, só temos de lamentar que se não liguem os substantivos com o de. Se se trata, contudo, de tradução, não há motivos para se não usar a partícula. Elisões, sim, mas não tantas.
A propósito desta questão, escreveu João de Araújo Correia: «É lícito elidir-se o de, uma vez por outra, em pé de conversa ou em telegrama. Em estilo sério, também a elisão é legítima se a briga de dois substantivos não for escandalosa. Bairro Herculano, por exemplo, não poderá ofender cérebro razoável. Questão de tacto e questão de gosto… Para casos tais é que se fez a elipse» (A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 80).

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O plural de «Verão»


As quatro estações


      «Nesta cidade alemã, a lenda é representada todos os verões, mas agora, em pleno século XXI, a história de fantasia tornou-se realidade» («Hamelin invadida por ratos: da lenda à vida real», P. V., Diário de Notícias, 19.11.2008, p. 28).
      Perguntam-me de vez em quando se o plural de «Verão» se escreve com minúscula. Vejamos. Verão é um substantivo próprio, não é assim? Ora, os substantivos próprios têm pelo menos três características: escrevem-se com maiúscula inicial, não mudam de género nem de número. Contudo, se temos mesmo de pluralizá-los, como é o caso, não vejo porque teremos de grafá-los com minúscula, pois a pluralização não os transforma de substantivos próprios em substantivos comuns. Assim, o plural de Verão é Verões, como de João é Joões. Com o Acordo Ortográfico de 1990, os nomes dos dias, meses e estações do ano escrever-se-ão com minúscula: segunda-feira; outubro; primavera.
      «E as horas na caça-submarina nas águas da costa alentejana, os Verões como nadador-salvador, os anos como futebolista avançado no Odemirense, Desportivo de Lagos e Ourique Desportos Clube» («O fiscal que um dia percebeu que é maior que o Alentejo», Raquel Moleiro, Expresso, 15.11.2008, p. 17).

Actualização em 18.04.2010


      Um exemplo: «Tinha-se a impressão de que o espírito de Ernest estava algures, já a vaguear pela noite, sete Verões mais à frente, na altura em que deixaria o seu lugar de jardineiro dos Tallis e abandonaria a casa de madeira, sem bagagem, sem sequer um bilhete de despedida em cima da mesa da cozinha, deixando a mulher e o filho de seis anos a pensarem nele para o resto da vida» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 100).



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Tradução: «freak»

Foedus, foeda, foedum

      Um leitor, João Simões, pergunta-me como se deve traduzir a palavra inglesa freak. Diz ter visto ontem no canal Hollywood uma comédia infantil em que se usava a palavra, que era sempre traduzida por «feioso».
      Com excepção das acepções referidas àquele que se droga e ao fanático de alguma coisa (She’s a conference freak), o núcleo semântico está relacionado com o anormal, a aberração, o estranho. «A thing, person, animal or event that is extremely unusual or unlikely and not like any other of its type», na definição do Cambridge Advanced Learner’s Dictionary.
      Assim, sendo feio o que não obedece aos padrões de beleza convencionais, o disforme, o desproporcionado, não me parece que a tradução esteja incorrecta, embora só o conhecimento do contexto exacto me permitisse formular uma opinião mais definitiva.
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Bestas homógrafas

666

No Governo Sombra desta semana, ficámos a saber que João Miguel Tavares ficou comovido com o que se passou com os No Name Boys. Demasiado comovido, aliás, pois disse que «aquele armamento todo que foi apanhado, como bêstas e tudo isso». Que eu saiba, entre o que foi apreendido a alguns elementos daquela claque do Benfica não figuravam alimárias de espécie nenhuma, ou estarei enganado?

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«Torácico» ou «toráxico»?

Dá que pensar


      Um grupo de alunos contactou-me para saber se se escreve «torácico» ou «toráxico». Todos os dicionários que consultei registam «torácico», que tem como étimo o grego θωρακικός (thorakikós), provavelmente através do francês thoracique. É também esta a forma no espanhol e no catalão. Contudo, há muitos anos que vejo escrito e ouço «toráxico». Impõe-se a pergunta: porque não registam os dicionários, quase todos meramente descritivos, as duas formas? Afinal, ambas se usam e ambas estão correctas: uma vem do grego e a outra formou-se na própria língua. À semelhança do que ocorre com os pares anoréctico/anoréxico e disléctico/disléxico.

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Entrevista a uma lexicógrafa

Aquilo que corre


      Na edição de 23 de Outubro do programa Mais Cedo ou Mais Tarde, João Paulo Meneses entrevistou a lexicógrafa Ana Salgado, do Departamento de Dicionários da Porto Editora. Um dos neologismos, explicou, que aguardam entrada numa das próximas edições do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é «tanorexia», que provém do inglês e se vai usando, em especial na imprensa. Se a palavra sobreviver até à próxima edição. Como sobreviveu carjacking, que entrou na última edição do dicionário.
      A lexicógrafa referiu que os dicionários da Porto Editora, sendo descritivos, apenas acolhem o que o departamento pondera ser correcto, não no sentido da norma, mas no sentido daquilo que se usa. O que me fez recordar o que escreveu Álvaro Gomes: «Entendemos, seguindo aliás o pensamento de Eugenio Coseriu, que “correcto” (tal como “norma”, para aquele linguista) é “aquilo que corre”, “aquilo que se tem dito”, não necessariamente aquilo que deve dizer-se. Trata-se de uma atitude não prescritiva, mas descritiva. Ora, “aquilo que se tem dito” corresponde, afinal, ao uso e os “usos” (como as modas, que são uma forma específica de uso) mudam» (O Acordo Ortográfico. Porto: Edições Flumen/Porto Editora, 2008, p. 72). Para ouvir aqui.

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«Corrector» e «corretor» (I)

O tal erro

      Nos próximos guiões de O Tal País, programa de Herman José na Antena 1, convinha que Maria João Cruz e Roberto Pereira, das Produções Fictícias, pusessem entre colchetes a pronúncia de certas palavras, para que o humorista não diga disparates. Hoje, por exemplo, falou dos «correctores da Bolsa». Imperdoável.
      Nunca é inútil voltar a falar das coisas. Corrector vem do latim corrector, –oris, e designa aquele que corrige algo ou alguém. Corretor vem do latim curator, –oris (talvez através do italiano correttore), étimo de que também provém a palavra «curador», e significa o agente comercial que cuida (cura) dos interesses do seu cliente e, mais vulgarmente, o operador na bolsa que executa ordens de compra e de venda de títulos financeiros.

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«Paisagem», «Herculano», etc.

Berrem menos


      «Parte da paisagem em montados portugueses, a cortiça faz parte da lista privilegiada dos materiais ecológicos para uso na construção civil, na indústria de produção de rolhas e em acessórios para a casa mais amigos do ambiente, nomeadamente nos países mediterrânicos, de onde provém», ouviu-se no programa da Antena 1 Um Minuto Pela Terra. E estava tudo correcto, excepto que «paisagem» não se pronuncia como se ouviu, /pàisagem/. Não é a primeira vez que aqui falo disto, como podem ver. Hoje, porém, socorro-me do que escreveu João de Araújo Correia sobre o mesmo: «Pàisagem, Càetano, sàudação e Hèrculano são gatos-pingados. Vão no enterro da pronúncia tradicional portuguesa» (A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 30). Este Herculano é o historiador de Vale de Lobos, pois a antiga cidade romana de Herculano (Herculaneum) é assim mesmo, com e aberto, que se pronuncia.



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Regência do verbo «impor»

Imposições

Lembram-se do caso de Hannah Jones, a menina inglesa que decidiu não receber um transplante de coração? O Diário de Notícias referiu o caso. Claro que usou a palavra «jovem», porque as palavras, bem mais singelas, «rapariga» e «menina» estão proibidas pelo actual código jornalístico. «Mas na terça-feira foi ela própria quem, numa mensagem aos media britânicos, confirmou que tinha conseguido impor a sua vontade sobre a dos especialistas» («Jovem britânica rejeita operação e decide morrer», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 13.11.2008, p. 31). «Impor sobre»? Nesta frase, o verbo impor é bitransitivo, ou seja, selecciona um complemento directo («vontade») e um complemento indirecto («à [vontade] dos especialistas»). Lá por ser uma situação dramática a jornalista não precisa de obrigar a pobre gramática a suicidar-se.

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Sobre «dirigente»

Vê-se pouco

Estava aqui a rever as minhas notas à leitura dos jornais das últimas semanas e encontrei uma coisa interessante. Veja-se este excerto de uma notícia: «Cientistas da Universidade de Rutgers, em Nova Jérsia (Estados Unidos), descobriram mais uma etapa na formação da vida no planeta Terra. […] Segundo Paul Falkowski, dirigente da investigação e citado pelo The Sunday Times, “a probabilidade de tal encontro era ínfima, mas foi importante para a futura vida na Terra» («Encontro casual gera formas superiores de vida», Diário de Notícias, 12.11.2008, p. 36). O que tem de especial? O vocábulo «dirigente», que habitualmente apenas vemos usado para figuras do mundo do futebol (dirigente desportivo), da política (dirigente político), do sindicalismo (dirigente sindical) e do associativismo (dirigente associativo). No entanto, dirigente é a pessoa que dirige ou que exerce funções de chefia ou direcção.

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«Após» e verbo

Corrija-se


      A aluna escreveu «após morrer, a Rainha Santa foi canonizada». A professora de Português corrigiu para «depois de morrer, a Rainha Santa foi canonizada». A avó pergunta-me agora se a «professora andou bem». Podia ter andado melhor, digo eu. Também aprendi que antes de verbo não se usa «após», mas acho que a professora devia ter corrigido a frase toda, pois não conheço nenhuma personagem histórica que tivesse sido canonizada em vida. Assim, não posso apor o Nihil Obstat à correcção da professora.


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Tradução de «serial killer»

Imagem: http://www.shadetreemechanic.com/

Fora de série


Um leitor, E. C. R., traduziu serial killer por «assassino serial». Alguém reclamou e ele agora quer saber a minha opinião.
Não gosto da expressão «assassino em série». Quando a ouço, penso sempre — juro que isto é verdade — numa linha de montagem, só que em vez de saírem automóveis ou pernas de frango embaladas, saem assassinos. Em série. Obrigado, Henry Ford. Mas, como sei que a revelação dos meus processos mentais não ajuda o leitor, prossigo. «Assassino serial» não me convence, pela relativa estranheza de «serial», homófono de «cereal». Vejo que no Brasil por vezes se traduz por «assassino múltiplo». Contudo, como o multiple murderer abrange o mass murderer, o spree killer e o serial killer, não estaremos a ser precisos, embora nos conviesse como locução. Certo é que o Dicionário Houaiss, e isto ajudará decerto o leitor, regista assassino sequencial, serial ou em série. Não raramente, vejo que os tradutores optam por deixar o anglicismo: serial killer.


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Acepções de «gafe»


Equívoco, disparate, tolice     

      A palavra «gafe» tem várias acepções, e em alguma dela se enquadra a atitude de Manuela Ferreira Leite. Gafe ou gaffe: acção ou palavra impensada que provoca uma situação embaraçosa ou um equívoco, deslize. Engano. Disparate; tolice.

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Redução vocabular


Manif

      A palavra «manif» não é uma abreviatura. Logo, não pode ter ponto de abreviatura. Nem precisa de ter aspas, como este jornal já fez: «Costa foi “apertado” pela convocatória da manif que não tinha assinado», lia-se na edição do Diário de Notícias de 18.4.2008. Trata-se de um processo de abreviação ou redução vocabular, como se vê nas palavras «foto», «metro», «micro», «moto», «pneu», «porno», «quilo», etc. E quem é que, excepto na metalinguagem, usa aspas nestas palavras?


[Ver também aqui e aqui.]

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Léxico: «asterónimo»

Substitui o nome

Asterónimo
é o asterisco (ou asteriscos) que substitui o nome próprio num texto. Por vezes, também se usam asteriscos para substituir algumas letras de palavras que são tabu, como «merda», mas o mais habitual, para este fim, são as reticências. Um exemplo: «António Lobo Antunes, Prémio Camões 2007, disse que A Vida Num Sopro, o último romance de José Rodrigues dos Santos, “é uma m…”» (Notícias Sábado, n.º 149, 15 de Novembro).

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Topónimo: Vladivostoque


Ora cá está

«Hoje, ninguém mastiga nem ensaliva topónimos nem antropónimos estranhos. O ideal é ingerir inteiro», lamenta João de Araújo Correia na página 104 de A Língua Portuguesa (Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959]). Contudo, Владивосток estava mesmo a pedi-las. Foi o que fizeram na edição n.º 149 (15 de Novembro) da Notícias Sábado.


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Transliteração do russo


Assim é mais fácil


      Reproduzo acima a tabela de transliteração do alfabeto russo para os caracteres latinos usada nos serviços da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Podem encontrar tabelas referentes a outras línguas aqui.

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Sobre a palavra «juíza»

Tem mas é juízo


      «O debate instrutório do sequestro de juízas e funcionárias no Tribunal de Família de Gaia foi adiado» («Caso de ameaças adiado», Diário de Notícias, 15.11.2008, p. 23).
      Claro, juízas. Não deixa de ser impressionante o número de pessoas que ainda hesitam no uso de «juíza». A propósito do uso infeliz da palavra «poeta» referido a mulheres, escreveu João de Araújo Correia, que não é precisamente um poço de virtudes, já que até fala da «pronúncia branca»: «Pelos domingos se tiram os dias santos. O que se diz de poetisa e rainha, poderá dizer-se de ministra, embaixatriz, etc. Seria ridículo o ministro ou o embaixador que pintasse os lábios em público. Não deixe a mulher de ser mulher para exercer funções de advogado, médico e engenheiro. Seja briosamente advogada, médica e engenheira» (p. 89). No Ciberdúvidas, F. V. P. da Fonseca responde à dúvida assim: «O feminino de juiz é juíza, que se aplica tanto à mulher que exerce as funções de juiz, como à mulher de um juiz.» Bem, na linguagem informal também é a mulher do juiz, mas não me parece que isso viesse ao caso. Agora já percebo porque dizem na Internet que sou professor. Olha se a minha mulher fosse manicura.


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Póvoa de Varzim


Faz-me espécie

«8.º Congresso dos Juízes começa quinta-feira na Póvoa do Varzim» («Marinho fora do congresso de juízes», Filipa Ambrósio de Sousa, Diário de Notícias, 15.11.2008, p. 23).
É assim que se vê escrito e se ouve na rádio e na televisão. Contudo, lá parece que dizem e escrevem Póvoa de Varzim. Lembram-se do conselho que aqui dei sobre perguntar a quem vive nas localidades? Também João de Araújo Correia o dá a propósito dos artigos a anteceder os topónimos: «Pessoas estranhas às localidades deveriam perguntar se o nome delas pede ou não artigo definido» (A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 78). Nunca como actualmente foi tão fácil comunicarmos com outras pessoas.

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Grandes números


Milhões, biliões... e confusões

Depois de ter visto, na semana passada, que a ministra da Saúde, Ana Jorge, não sabia o valor da dívida do Serviço Nacional de Saúde e, mesmo depois de se ter ido informar, ter dado um valor errado, dizendo que era de um milhão de euros, quando é de mil milhões, depois de ter ouvido ontem na Antena 1 alguém, ligado a um encontro sobre seguros, usar a palavra inglesa billion, depois de ter visto inúmeras confusões no uso dos grandes números, decidi voltar a abordar a matéria, desta vez publicando a tabela que se vê acima. Vejam também aqui.

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Formas de tratamento


Fernanda Serrano

Seria preciso investigar a imprensa portuguesa, como já aqui sugeri, para tirar a limpo certos factos, entre os quais a evolução das formas de tratamento. Suspeito que esta forma — usar apenas o apelido — de a imprensa se referir a uma mulher não tem muitos anos. Mais: desconfio que é recente e tem no Diário de Notícias o grande seguidor. Na primeira página podia ler-se: «Serrano livre do cancro da mama após 9 meses». Atribuí, contudo, pese embora já ter visto muitos outros exemplos neste jornal, esta forma de referir uma mulher a desatenção, que não a falta de espaço. Na página 60, confirma-se que é uma opção: continua a omitir-se, de forma deselegante, descortês, militar, o primeiro nome de uma mulher.

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Sobre «prequela»

Encurralados

«Nos excertos aparecem actores como Zachary Quinto, o Sylar de Heroes, que interpreta Mr. Spock, ou Leonard Nimoy, o Spock original, que regressa na prequela. A acção do filme decorre quando a tripulação da Enterprise era mais nova» («Novo ‘Star Trek’ estreia-se em Maio de 2009», Diário de Notícias, 12.11.2008, p. 52).
Ainda que quiséssemos, pretensão vã, banir o vocábulo, restava um problema: se argumentarmos que está mal formado em português e advogarmos o uso do original, estamos a esquecer-nos de que também em inglês ele está mal formado. Ou isso não interessa? De facto, o termo é útil. «Prequel: a film, book or play which develops the story of an earlier film, etc. by telling you what happened before the events in the first film, etc: Jean Rhys’s novel Wide Sargasso Sea is a prequel to Charlotte Bronte’s Jane Eyre» (in Cambridge Advanced Learner’s Dictionary).

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Topónimo: Curia


Cúria Romana?

O partido do nome errado organizou a 2.ª Universidade da Europa no lugar da Curia, freguesia de Tamengos, concelho da Anadia. O Meia Hora, porém, achou que seria na Cúria. O computador altera, e deixa-se estar. Se tivesse sido necessário escrever Cúria, talvez tivesse saído Curia. Atenção, Sílvia Lobo. Recomendo uma ida a banhos, agora na época baixa, lá mesmo, na Curia. Onde o tempo é bem-estar.


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Locução «dar direito»

Assim fala o ti’ Zé das Couves

      Joana de Sousa Dias, no noticiário das 6 da manhã na TSF, informou que o Ministério da Educação enviou para as escolas um despacho com uma clarificação sobre o regime de faltas. Acrescentou ainda, repetindo de forma desastrosa o que o entrevistado dissera: «O secretário de Estado da Educação garante que as faltas não dão direito a sanções nem implicam chumbos.» Tolerável num caloiro de Direito, imperdoável numa jornalista. Terminologia jurídica à parte, a locução dar direito é sempre sentida pelos falantes como algo positivo, uma retribuição, um prémio. Uma sanção é precisamente o oposto.

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Sílabas átonas

Pronúncia é poesia

Júlio Machado Vaz e Inês Meneses, em mais uma emissão de O Amor É…, falaram de poliginia e poliandria. Mas não é disto que eu quero falar, mas sim sobre como algumas palavrinhas são maltratadas. Por exemplo, «aliás». Pequenina, mas trissílabo. Logo no início, Júlio Machado Vaz usou-a, mas abriu bem, mas mesmo bem o primeiro a, /àliás/. Como sempre faz. Como muita gente faz.
Escreveu, e com razão, João de Araújo Correia na obra que tenho citado: «Pronunciar bem uma sílaba átona é apenas animá-la para que se entenda. Não é preciso excitá-la, dando-lhe café ou óleo canforado» (p. 29). E na página a seguir: «Em caso de dúvida, emudece a vogal. Ainda que peques, sorrir-te-á comovido o anjo da tua língua.» «Pronúncia é poesia», escreveu este autor.

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Democrata e democrático

Bem pensado

Realmente, mesmo sem hífen, isto não soa a português de lei. «Se houvesse língua portuguesa, não haveria Partido Social-Democrata. Poderia haver Partido Social Democrático» (João de Araújo Correia. A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 117). Razão tinham Francisco Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão e Joaquim Magalhães Mota, que em 6 de Maio de 1974 o fundaram com o nome de Partido Popular Democrático (PPD). Nem sempre as alterações vão no bom sentido.

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Traduzir nomes próprios

Sim, não, talvez

Quem é que, actualmente, não escreve Júlio Verne? Ninguém, tanto quanto vejo. O meu autor desta semana, João de Araújo Correia, escreveu: «Nossos avós traduziam os nomes próprios. Diziam Emílio Zola e Júlio Verne em vez de Émile Zola e Jules Verne. Os próprios estrangeiros, residentes em Portugal, concordavam com a tradução. Houve, no Porto, o Emílio Biel, o Ernesto Chardron e, mais chegada ao nosso tempo, a ínclita Carolina Michaelis» (A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], pp. 104-5).

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Família e familiares

Antes órfão

Acabo de ler que alguém considerava, numa carta à família, que seria melhor não ter nascido, «dado ser um fardo para os familiares». Logo me lembrei de Camilo ter zurzido em quem se referira à família como os «seus familiares». Ora, a palavra «familiar» designou durante muito tempo o oficial ao serviço da Inquisição. João de Araújo Correia, na obra que hoje já aqui citei, escreveu: «Nunca dizes família. Dizes sempre familiares, sem saber, bem ao certo, o que são familiares» (A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 115).

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Ortografia: «Ganeixa»

Coincidências

      Isto é uma conjunção: ontem li a palavra Ganeixa na recensão de Pedro Mexia («Memória de elefante», Ípsilon/Público, p. 45) da última obra de José Saramago. Hoje revi um texto jornalístico, que nada tinha que ver com o livro de Saramago, em que aparecia Ganesha. Corrigi e, passados uns minutos, o autor do texto informa-me de que acabara de ler a palavra Ganeixa na página 258 (publicada pelo Diário de Notícias) de A Viagem do Elefante.

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Pronomes referentes a Deus

Desde quando?

Isso se costuma fazer, cara Sara Costa, mas leia o que escreveu o grande João de Araújo Correia: «Ateu ou religioso, escreve Deus com maiúscula. Mas, não sejas hipócrita, escrevendo com maiúscula o ou lhe que se refiram a Deus. Esta palermice é moda nova. Não consta que se tenha usado no tempo em que Portugal foi místico» (A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 118).
Mas em inglês também há a mesma tradição, que nem sequer os cientistas enjeitam: «According to Newton, the universe is like a gigantic clock, wound up by God at the beginning of time, and ticking ever since according to His laws» (Michio Kaku, Physics of the Impossible. Nova Iorque: Doubleday, 2008, p. 276).

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«Dislexia», palavra grave

A prosódia do avesso

Nos Dias do Avesso, na Antena 1, de ontem, Isabel Stilwell e Eduardo Sá falaram de dislexia. Isabel Stilwell começou por dizer que, segundo lera na revista inglesa Brain, há crianças bilingues que podem ser disléxicas numa língua mas não noutra. Um tema interessantíssimo, sem dúvida. O problema é que Isabel Stilwell, disléxica, pronunciou a palavra como se estivesse a falar em inglês: /disléxia/ (dyslexia). O acento tónico incide no i (penúltima sílaba, e por isso é paroxítona ou grave), e não na vogal anterior. Eduardo Sá pronunciou sempre correctamente a palavra. E uma silabada reiterada é grave, perguntam? É, se quem fala tem um microfone à frente e muitos ouvidos do outro lado.

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Terminologia científica

Era bom, era


      Nem sempre os dicionários são oráculos. Quase todos os dias os revisores e os tradutores deparam com termos que têm de adaptar à língua portuguesa, pois não estão registados em nenhum dicionário. Por falta de tempo, não podem pedir parecer a nenhuma entidade (e qual?) nem trocar impressões com colegas de profissão (e quereriam estes abrir os cordões da sua sabedoria, tão arduamente granjeada?). Foi neste contexto que me ocorreu que devia existir um sítio na Internet em que tradutores, revisores e leitores fossem registando os termos, em especial os ligados à ciência, que todos os dias, sim, todos os dias, vão entrando na língua por via da tradução. Todos ficaríamos a ganhar.
      Esta semana, por exemplo, que estou a rever uma obra de divulgação científica muito aguardada, vi pela primeira vez, entre outros, os termos nanobot (amálgama de nano+robot), que foi vertido para nanobô; sparticle (de superparticle), que ficou spartícula; decoherence, vertido para descoerência. Exemplos comezinhos, estes, que até já andam por aí. O único que poderia oferecer alguma dúvida era o sparticle. Mas rail guns, como se traduz? O tradutor optou por armas electromagnéticas. E ramjet fusion engines, como será? Estarorreactores de fusão. Eram estes e muitos outros termos que eu gostaria de ver reunidos num único sítio.

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O verbo «colocar»


Por atacado

      Já aqui lamentei o uso desatinado que se faz do verbo colocar. Quando trabalhava no jornal, boa parte do meu trabalho era demolir essas construções. Lá, os jornalistas colocavam o dedo no nariz, colocavam o dedo na ferida, colocavam achas na fogueira, colocavam à margem, colocavam à bulha, colocavam a colher, colocavam a mão na massa, colocavam ao léu, colocavam as cartas na mesa, colocavam as mãos no fogo, colocavam ao corrente, e por aí fora. Há dias, o rapazinho do Panda Cozinha fartou-se de «colocar ovos» na quiche que estava a fazer. Pôr e meter já pouco metem o bedelho na moderna escrita jornalística.

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À volta de «merologia»

Macacos me mordam…


      … se não é o mesmo que lamentar que não se escreva «philosofia». Ou quase. Conto o caso. No De Rerum Natura, o filósofo Desidério Murcho publicou ontem um texto, «Incompetência linguística, oportunismo e mentira política», em que ataca forte e feio os fautores do Acordo Ortográfico, escrevendo, entre outras sábias coisas, o seguinte: «O mais triste de tudo isto é o tempo que se perde nestas tolices. Precisamos de dicionários e gramáticas de qualidade e praticamente não os temos. Os dicionários de língua portuguesa, brasileiros e portugueses, têm muitos disparates sempre que falam de filosofia, por exemplo. Além disso, não contemplam muita terminologia filosófica crucial, apesar de se apressarem a incluir todas as tolices que um idiota qualquer diz na rua ou escreve num jornal popular. Aparentemente, a produção académica é para os nossos dicionaristas menos importante do que a produção de disparates linguísticos em jornais diários: aceita-se que “agenda” quer dizer “objectivo político”, à inglesa, mas não temos grafados nos dicionários termos como “mereologia” (a excepção honrosa é o insuperável Aurélio), uma área da filosofia que já era estudada no tempo dos gregos antigos.»
      Bem, muitas palavras faltam nos dicionários, e algumas tão úteis como «merologia». Esta, contudo, parece perseguir obsessivamente o filósofo, pois há onze anos procurou demonstrar ao Ciberdúvidas porque estava errado escrever, como os dicionários de língua portuguesa fazem, «merologia». Respondeu-lhe então F. V. Peixoto da Fonseca: «“Mereologia” não existe em português; o vocábulo estaria mal formado, porque o prefixo grego não contém o [sic]. Curiosamente, não encontrei o termo com eo em nenhuma das línguas investigadas, incluindo o inglês. Portanto, merologia é que está certo. Quanto a teleologia, não vem para o caso, porquanto o prefixo não é telos, mas teleos, com outro significado.»
      Quanto a não ter encontrado registado noutras línguas, foi azar ou pouca diligência do consultor. Quanto a «mereologia» estar mal formado, estamos de acordo. Segundo pude saber, foi o lógico e matemático polaco Stanisław Leśniewski (1886–1939) quem, em 1927, cunhou a palavra. E se é composta com o antepositivo grego μέρος (méros, «parte»), não sei, nem sabem classicistas de mérito, de onde vem o espúrio e que ali se intromete. (Sim, excelentíssimos classicistas, poderia ser o genitivo singular neutro, méreos, mas este aparece sempre contracto, mérous.) Donde se conclui que a palavra não falta nos dicionários.
      A ser como o filósofo pretende, vocábulos como meroblasto, merócito, merocracia, meropia, meroplâncton, merotropia e muitos outros «cultismos das biociências», como o Dicionário Houaiss os define e regista, estariam errados, e não estão. O Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, regista «merologia» e «merológico».

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Ortografia: «Milu»

In Record, 6.11.2008, p. 35

Como um peru

Na notícia do óbito da actriz (palavra que, a propósito, pronuncio sempre com a fechado), o Diário de Notícias foi das poucas publicações que escreveu «Milu», sem acento*, porque as palavras oxítonas ou agudas terminadas em i e u não têm acento. Sendo um hipocorístico, creio que é de aplicar a regra sem contemplações.
Na notícia do Record temos dois hipocorísticos (Milu e Juju), ambos oxítonos terminados em u, e só um tem acento. O jornalista e o revisor não repararam na incongruência.

* O Prof. Carmo Vaz escreveu que «“acentuação gráfica” é redundância. Toda a acentuação é sempre gráfica» (Carmo Vaz. Código de Escrita: Linguística Portuguesa 1. Segunda edição revista e aumentada. Lisboa: Editora Portuguesa de Livros Técnicos e Científicos, 1983, p. 136).

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O que se ouve na rádio

Levava-as o vento

      No 1001 Escolhas, Madalena Balça entrevistou ontem Ana Mesquita. A directora da LaMag disse, entre outras coisas: «Tenho a sorte de ter um cliente, que é a Lanidor, que me deu livre-arbítrio para criar.» A crença de que os indivíduos têm o poder de escolher as suas acções — isso é o livre-arbítrio. (Agostinho da Silva, no Pensamento à solta: um manuscrito autógrafo, escreveu: «Consiste o livre-arbítrio em voluntariamente cumprir o fado.») A Lanidor a conceder o livre-arbítrio? Que mais faz a todo-poderosa Lanidor? Uma escritora, jornalista e comunicadora, que começou a escrever aos 4 anos, não deveria conhecer e saber usar o conceito?

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Hierónimos


Diabos excitados

      No episódio de ontem de O Fugitivo, o 102.º da série original, o Dr. Richard Kimble caiu nas mãos de um gangue de motociclistas, os Discípulos do Diabo. Claro que, sendo um nome próprio, se escreve com maiúsculas. Contudo, sempre «Diabo» se escreveria com maiúscula inicial, porque é um hierónimo. Lembra o Prof. Carmo Vaz a propósito do uso das maiúsculas: «Hierónimos, isto é, nomes de deuses e de fiéis das várias religiões vivas e mortas, incluindo entidades míticas malfazejas, como Altíssimo, Cristãos, Alá, Belzebu, Jeová, etc.» (Carmo Vaz. Código de Escrita: Linguística Portuguesa 1. Segunda edição revista e aumentada. Lisboa: Editora Portuguesa de Livros Técnicos e Científicos, 1983, p. 130).
      Quanto à tradução, da responsabilidade de João Domingos, apresentava os erros mais comuns. Assim, Don (Lou Antonio) garante a Penny (Diana Hyland) que «não vão haver mortes». O Dr. Crosland (Harry Ellerbe), clínico geral, não sexólogo, recomenda a Lou que não excite (to upset) Penny. Seis formas de traduzir no contexto: perturbar, transtornar, indispor, sobressaltar, contrariar, afligir.


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Raças de cães

Pequena, por favor


      Lê-se na edição online de hoje do Expresso: «A criança deu entrada no Hospital ontem à noite, com ferimentos múltiplos, após ter sido violentamente mordida por um Rotweiller, do namorado da mãe, que também foi mordida quando tentou ajudar o filho.» É claro que já todos lemos algo semelhante — o nome de raças de cães com maiúscula inicial — em jornais, revistas e livros. É incorrecto, como se pode ver no Vocabulário da Língua Portuguesa, de Francisco da Luz Rebelo Gonçalves (catedrático de Latim, Grego e Filologia Portuguesa nas faculdades de Letras das universidades de Coimbra e de Lisboa, 1907-82), e o bom senso deveria ditar. Com o Acordo Ortográfico de 1990, como já aqui referi, nos nomes compostos usa-se o hífen: barbado-da-terceira, cão-d’água, castro-laboreiro, serra-d’aires, serra-da-estrela, lobo-d’alsácia, etc.


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«Aumentar em»?

Falam os leitores

      A leitora Alda Rocha lamenta que José Alberto Carvalho e Ricardo Araújo Pereira, cujo trabalho diz admirar, também dêem o erro, agora cada vez mais comum, de regência que consiste em acrescentar um espúrio «em» aos verbos aumentar, crescer e agravar-se. Dá, entre outros, um exemplo da edição de 30 de Outubro do jornal Público, no editorial assinado por Manuel Carvalho: «[…] por ver a sua factura salarial agravar-se em 2400 euros mensais […].» Ora, acrescenta, o próprio Livro de Estilo do Público alerta para esse erro na pág. 71, dizendo ser certo «Os preços aumentaram 50 por cento» e não «Os preços aumentaram em 50 por cento».
      Rodrigo de Sá Nogueira, na obra Dicionário de Erros e Problemas de Linguagem (Lisboa: Clássica Editora, 4.ª ed., 1995, p. 65), escreve: «Outra construção condenável é: “aumentar em 50%”. — Leite de Vasconcelos, Lições de Filologia Portuguesa, p. 374 (2.ª ed.), diz: “b) Várias preposições: Preposição de. Erros: aumentar de um metro, e mais velho de um decénio, por aumentar um metro, e mais velho um decénio, ou um decénio mais velho; peço-lhe de vir por peço-lhe que venha…”» Ainda acrescenta: «O Professor Vasco Botelho de Amaral também condena o “aumentar de”, mas acrescenta: “Correcto: aumentar em”. (Novo Dicionário). Não sei em que se funda o A. para fazer tal afirmação.»

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Ortografia: «braço-direito»


E o resto do corpo?



      «Braço direito de Calderón morre em acidente de avião», titula o gratuito Global. Pelo menos os mais recentes dicionários já registam, e bem, o substantivo «braço-direito», com o significado de principal colaborador de alguém. Diferente, pois, de qualquer braço direito, como diferente é o pé-direito de um qualquer pé direito. Com hífen, pois verifica-se que «forma um sentido único ou aderência de sentidos», como exige o Acordo Ortográfico de 1945. Curiosamente, em inglês diz-se right-hand. «Someone’s right-hand man is their most trusted and important helper and supporter, especially at work», regista o Cambridge Advanced Learner’s Dictionary.


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Objecto directo preposicionado

Oh, diacho!

Leio que as críticas agitam a Maçonaria e vem-me à memória que ontem à noite passou no canal História, que raramente vejo, o programa Decifrando a História: os Franco-Mações da América. (A voz off, porém, dizia sempre «franco-maçons».) A determinada altura, a mesma voz off afirmou que os franco-maçons sempre foram acusados de «adorarem ao Diabo». Tanto quanto sei, o objecto directo preposicionado é, no que se refere a nomes, empregado somente com a palavra Deus, não com a palavra Diabo.

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Uso da maiúscula

Língua azul, de raiva


      Eduarda Freitas, repórter da Antena 1, estava hoje de manhã na feira semanal de Chaves, onde também se encontrava o veterinário municipal, que acabara de comunicar que a feira estava suspensa devido a um surto de doença da língua azul na região. «O senhor sabe o que é que se trata a doença?...», perguntou, atropelando a gramática, a repórter a um feirante.
      A propósito: não sei porque é que alguma imprensa grafa com maiúsculas iniciais, «doença da Língua Azul», o nome da doença. Talvez, essa é que é essa, eles também não saibam. Os nomes de doenças são substantivos comuns, e, logo, grafados com inicial minúscula. A excepção é para o nome dos cientistas que fazem parte das denominações das doenças: doença de Parkinson, doença de Alzheimer, etc.

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Consoantes mortas, de novo

Luxo ortográfico

Ainda a propósito do agá de «húmido», diz Francisco Álvaro Gomes na obra que tenho vindo a citar: «É estranho o receio de que o desaparecimento do “h” pudesse descaracterizar a língua. No início de palavra, o “h” constitui o que se poderia chamar um luxo ortográfico; um luxo, pois ele constitui uma herança etimológica (em virtude do símbolo (‘), designado, em grego, como “espírito rude”) e que, em português, não tem valor fonológico (diferentemente do inglês, por ex.)» (O Acordo Ortográfico. Porto: Edições Flumen/Porto Editora, 2008, p. 54).

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Particípio presente

Que está a pensar

Ora aqui está um verdadeiro particípio presente (matéria de que já aqui falei), como em latim: «Durante a última década, foram introduzidos novos instrumentos quânticos que, pela primeira vez na História, nos permitem observar o cérebro pensante.» É uma tradução, e no original está «thinking brain».

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O verbo «roçar»

Tocar de leve

Estava a ouvir o enviado especial da Antena 1 às eleições norte-americanas, Ricardo Alexandre, que dizia que a intervenção de Sarah Palin na campanha «roça o mau gosto» e pensei em como agora o verbo roçar está na moda. Ultimamente, tem sido Manuela Ferreira Leite, que nunca seria a aluna favorita de um professor de Retórica, a usar com alguma frequência o verbo. Assim, considerou que o aumento para 450 euros do salário mínimo nacional proposto pelo primeiro-ministro «roça o nível da irresponsabilidade». Por mimetismo, também já ouço jornalistas a usar o verbo. Do latim vulgar *ruptiare, de ruptu-, «limpo de erva e mato», registam os dicionários. (O asterisco, já devem ter visto nos verbetes de vários vocábulos, indica que é uma forma reconstituída, hipotética, ainda não documentada por fonte escrita.)

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Relativas cortadoras (II)

É a legitimação?

Ana Aranha, no À Volta dos Livros, na Antena 1, entrevistou hoje Patrícia Portela, a propósito do mais recente livro da escritora, que, entre outras coisas, disse: «E depois tenho dois livrinhos que gosto muito, já de há muito tempo, que é Operação Cardume Rosa e Se não Bigo não Digo, pela Fenda.» As relativas cortadoras já chegaram aos escritores.

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Ortografia: «cabo-de-mar»

Distracções

      Caro A. M.: deve ter sido distracção dos dicionaristas. Se temos capitão-de-mar-e-guerra, capitão-de-fragata e capitão-de-corveta, por exemplo, todos com hífen, cabo-de-mar assim se há-de escrever por analogia. Mas também não encontro, mesmo sem hífen, nos dicionários que consultei. Contudo, em documentos jurídicos pode ler-se a forma com hífen, como na Declaração n.º (227IA1/83)AB de 29-09-1984, do Ministério da Defesa Nacional, pode ler-se: «No mapa III (Pessoal militarizado da Marinha), onde se lê “cabo-de-mar de 1.ª classe — cabo-de-mar de 2.ª classe” deve ler-se “cabo de manobra de 1.ª classe — cabo de manobra de 2.ª classe.”»

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Vogais geminadas

Aos pares fazem mais barulho

      Um leitor, K. V., quer saber porque é que em documentos escritos em português antigo se vêem palavras com vogais não etimológicas repetidas. Encontrei a resposta na obra, já aqui citada, O Acordo Ortográfico, de Francisco Álvaro Gomes (Porto: Edições Flumen/Porto Editora, 2008, p. 63): «Os nossos copistas medievais, para marcarem a diferença entre vogais abertas e fechadas, geminavam as vogais para mostrarem o seu timbre aberto, enquanto as vogais de timbre fechado se mantinham simples.»

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«Aterrar» e «aterrissar»


Mais longe

Cara Olga Castro: talvez Madalena Iglésias, na entrevista à Antena 1, tenha dito «aterrissar» por influência do espanhol aterrizar, mas o certo é que se trata de um galicismo. Repare como, até certa altura (o recorte data de 1942), pelo menos o substantivo «aterragem» ainda conservava os dois tt do francês atterrissage.

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«Suspeitar», verbo transitivo-predicativo

Tachar de


      Cara Teresa Oliveira, a frase que apresenta está correcta. O verbo suspeitar também é transitivo-predicativo, isto é, selecciona um sujeito, um complemento directo e um predicativo do complemento directo. Veja esta frase de Por detrás da Magnólia, de Vasco Graça Moura (Lisboa: Círculo de Leitores, 2007): «A polícia suspeitava-o de ligações conspiratórias com os monárquicos, devido à imprudência que tinha tido de acompanhar em público, com certo ar de intimidade e parceria, alguns manda-chuvas do consulado sidonista» (p. 163).

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Acordo Ortográfico

Continua húmida, a língua


      Isso é uma completa atoarda, caro João Simões. Nós, Portugueses, continuaremos a escrever «húmido» e derivados com agá, como sempre fizemos. Os Brasileiros, por sua vez, continuarão a escrever «úmido». De qualquer modo, o agá nesta palavra é pura tradição. Escreveu o Prof. Carmo Vaz a propósito das consoantes mortas, e especificamente do agá: «Há também palavras que se escrevem com h por força de uma espécie de tradição gráfica, mas não etimológica, como húmido, humor e derivados» (Carmo Vaz. Código de Escrita: Linguística Portuguesa 1. Segunda edição revista e aumentada. Lisboa: Editora Portuguesa de Livros Técnicos e Científicos, 1983, p. 126).

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«Maoista», sem acento agudo


Mao Tsé-tung ainda vive

      «De maoísta a grande estadista», lê-se na notícia acima, publicada no Meia Hora. Bem podem os dicionários da língua portuguesa registar outra coisa, a Base XV do Acordo Ortográfico de 1945 estabelece: «Dispensa-se acento agudo nas vogais tónicas i e u de palavras paroxítonas, quando elas são precedidas de ditongo; nos ditongos tónicos iu e ui, quando precedidos de vogal; e na vogal tónica u, quando, numa palavra paroxítona, está precedida de i e seguida de s e outra consoante. Exemplos dos três casos: baiuca, bocaiuva, cauila, tauismo; atraiu, influiu, pauis; semiusto
      O Livro de Estilo do Público recorda que é esta a regra: «Não são acentuadas quando o i e u são precedidos de ditongo: saia, baiuca, maoismo, tauismo

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