Léxico: «custos de contexto»

Falta o menos óbvio


      Ainda agora, na TSF, no compacto de Contas Que Contam, de Nuno Correia da Silva, estavam a falar em ➜ custos de contexto ECONOMIA encargos suportados por empresas ou agentes económicos devido a factores externos ao seu controlo directo, como burocracia, carga fiscal complexa, ineficiência dos serviços públicos ou instabilidade jurídica, que dificultam a actividade económica e afectam a competitividade e o investimento. 

      Parece-me que carece muito mais de ter lugar nos dicionários do que o auto-explicativo «custo de vida», que está lá há muito.

[Texto 22 328]


Léxico: «marcador»

Vamos outra vez ao médico


      «What do you mean, markers?» Pois, mas a médica, ou não estava para aí virada, ou achava que não era paga para explicar. Ou teria de cobrar por horas extras. Ora, a Porto Editora também não explica isto. Sendo assim, proponho ➜ marcador MEDICINA cada um dos antigénios de histocompatibilidade (HLA) presentes à superfície das células de um indivíduo, usados para avaliar a compatibilidade imunológica entre dador e receptor em transplantes.

[Texto 22 327]


Como se escreve por aí

Só para confirmar


      Tudo estranho, neste título, da gralha à escolha de vocabulário: «Porto sediará evento supremacisto branco com figuras da extrema-direita» (Amanda Lima, Diário de Notícias, 30.01.2026, p. 16). Portanto, continua tudo na mesma, mas, como andam muito folgados, vamos passar a andar de novo mais em cima deles.

[Texto 22 326]


Definição: «credencial»

Vamos ao médico


      Passei metade de vida a ouvir falar em credenciais passadas por este ou aquele médico. Para meu espanto, não é acepção que se encontre nos dicionários. Sendo assim, proponho ➜ credencial documento emitido por médico do Serviço Nacional de Saúde que autoriza um utente a realizar consultas, exames ou tratamentos em prestadores convencionados, servindo de requisição formal no âmbito dos acordos com o SNS.

[Texto 22 325]


Definição: «hélio»

Actualizemos os usos


      «Helium is famous for making balloons float, voices squeak, and as a critical resource for MRI machines and aerospace engineering. Helium is expensive and scarce, finding leaks quickly is essential, but that’s easier said than done because helium is also chemically inert and sensors, which usually rely on chemical reactors, have a tough time detecting it» («Study detects elusive helium gas leaks with sound waves», Vasudevan Mukunth, The Hindu, 29.01.2026, p. II). 

      Bem podemos, perante estes exemplos, actualizar e ampliar os usos do hélio. Assim, proponho ➜ hélio QUÍMICA elemento químico gasoso, incolor, inodoro e quimicamente inerte, com o número atómico 2 e o símbolo He, pertencente à família dos gases nobres; usado em criogenia (nomeadamente na refrigeração de ímanes supercondutores), no enchimento de balões e dirigíveis, em aparelhos de respiração para mergulho ou uso médico (como diluente do oxigénio), na detecção de fugas por espectrometria de massa, em processos industriais como a soldadura, na cromatografia de gases, em aplicações aeroespaciais e na investigação científica de fenómenos quânticos a baixíssimas temperaturas.

[Texto 22 324]


Léxico: «café comprido»

Curto ou comprido


      «Cheio e escuro» para long black é claramente invencionice, disparate, da tradutora. Black aqui significa tão-somente que não leva leite. Bem, uma das formas de o traduzir é por «café cheio» ou «café comprido», como também se ouve habitualmente, mas que a Porto Editora só regista num bilingue.

[Texto 22 323]


Definição: «capturar | capturável»

Grandes lacunas


      António José Seguro insiste: «Não sou capturável.» E que diz a Porto Editora na definição deste adjectivo? Pois «que se pode captar». Ora bolas! Já era dizer pouco se dissesse «que se pode capturar», porque depois neste verbete falta o sentido figurado correspondente, mas assim é infinitamente pior. Perante isto, proponho ➜ capturar verbo transitivo 1. apoderar-se de (alguém ou algo), geralmente por força ou astúcia; prender, apreender (ex.: capturar o inimigo; capturar um animal em fuga); 2. figurado exercer domínio ou influência sobre (alguém ou alguma instituição), geralmente com vista a interesses próprios ou particulares (ex.: grupos económicos que procuram capturar o Estado; políticos capturados pelo sistema). Quanto a ➜ capturável adjectivo de dois géneros 1. que pode ser capturado; susceptível de ser preso ou apreendido; 2. figurado susceptível de ser dominado ou instrumentalizado por interesses alheios, nomeadamente em contextos políticos ou institucionais (ex.: juiz capturável; sistema regulador capturável).

[Texto 22 322]

Léxico: «semiurgia»

Pois se o usamos


      «O livro tornou-se uma espécie de refém, algo que não tem já qualquer ação em si mesmo, que foi ocupado e soçobrou ao destino da mercadoria, incapaz de mover os ânimos e lhe opor qualquer resistência. Nesse movimento de estetização do mundo, o texto desagrega-se facilitando a sua transformação em imagens, a sua organização semiológica. Como nos avisava Baudrillard, “o que estamos a testemunhar, para além do materialismo mercantil, é uma semiurgia de todas as coisas através da publicidade, dos meios de comunicação social, das imagens. Até o mais marginal e o mais banal, inclusive o mais obsceno, é estetizado, culturalizado, museificado”» («Rentrée. O mutismo dos livros frente à orgia publicitária editorial», Diogo Vaz Pinto, «Versa»/Nascer do Sol, 26.09.2025, p. 16). 

      Podemos encontrá-lo em várias obras e por isso acho que está na hora de o dicionarizarmos. Assim, proponho ➜ semiurgia LINGUÍSTICA, SEMIÓTICA, TEORIA DA COMUNICAÇÃO actividade de produção de sentido mediante signos; operação discursiva, mediática ou simbólica que cria ou organiza um universo de significação próprio, por vezes autonomizado em relação à realidade empírica; processo através do qual discursos, imagens ou códigos constroem regimes de sentido e modelam a percepção do mundo.

[Texto 22 321]

Arquivo do blogue