Como se escreve nos jornais

Alpondras, pondras, poldras

      «Segundo a Lusa, o jovem integrava um grupo de militares que tinha estado em bares da cidade. Já de madrugada, o grupo deslocou-se até à margem do Tâmega, onde a vítima terá apostado em como conseguia atravessar o rio utilizando as pedras submersas ali existentes» («Militar do Pinhal Novo desapareceu nas águas do rio Tâmega em Chaves», Marta Pais de Oliveira, Público, 17.03.2011, p. 29).
      É o que se lê e ouve em todos os meios de comunicação social — porque desconhecem o vocábulo alpondras. Na ignorância, são meramente «pedras submersas». Quase submersas.


[Post 4576]

Sentido figurado

«Carapaça» estava bem

      «“Isso não é bom”, comenta, em relação à piscina sem água, José Marques, do Instituto Tecnológico e Nuclear, em Sacavém, e da Faculdade de Ciências de Lisboa. “Se a piscina perdeu a água por causa de brechas, não vão conseguir reparar a fuga. A confirmar-se, a única solução é largar betão por cima desse combustível, por helicóptero ou outros meios, embora vá criar um problema para resolver no futuro”, explica. “Podem fazer um sarcófago para absorver e diminuir os níveis de radiação. É preciso pôr-lhe um material por cima que possa absorver as radiações. O betão é bom para isso, pode ser posto a certa distância e, quando secar, faz uma carapaça”» («Radiação aumenta na central e pode obrigar ao uso de sarcófago de betão», Teresa Firmino, Público, 17.03.2011, p. 2).
      Ainda pensei que este novo uso figurado do vocábulo «sarcófago» se devesse a algum cérebro português (embora, na verdade, «carapaça», que também foi usado, me pareça mais imediatamente perceptível), mas não: na imprensa anglo-saxónica, lê-se que vai ser construído «a concrete sarcophagus». Mas a jornalista, como seria de esperar, não resistiu e usou três vezes a palavra.

[Post 4575]

«Quinhentoseuristas»?

Que parvos que eles são

      «No apelo que durante semanas correu no Facebook a convocar os “‘quinhentoseuristas’ e outros mal remunerados...” pedia-se que cada pessoa que comparecesse nas manifestações escrevesse numa folha A4 a razão da sua insatisfação, uma proposta, um pedido. Agora, a ideia é entregar a Jaime Gama todas as folhas» («Geração à Rasca pede audiência a Jaime Gama», Andreia Sanches, Público, 16.03.2011, p. 14).
     Em português, o /s/ intervocálico não tem de ser sempre dobrado para soar /ss/? Independentemente da realização fonética, da forma como é articulado (temos outros casos na nossa língua), a grafia tem de incluir dois ss, «quinhentosseurista». O problema, é óbvio, é o primeiro elemento ser um vocábulo sigmático. A palavra terá nascido por influência do vocábulo espanhol (ainda não acolhido pelo DRAE) mileurista. E o que a FUNDÉU recomenda em relação a mileurista faço eu em relação a quinhentosseurista: «Esta nueva palabra debe escribirse siempre en letra redonda y sin entrecomillar.»

[Post 4574]


Nomenclatura científica

Agora também em Angola

      «Em latim, o seu nome científico quer dizer Titã de Angola, a que se juntou o apelido Adamastor, numa referência à figura mitológica de Os Lusíadas, que representava os perigos que os portugueses enfrentaram nas viagens de descoberta pela costa africana. O Angolatitan adamastor, o primeiro dinossauro encontrado em Angola, e até agora único, é hoje descrito numa revista científica brasileira como sendo de um género e uma espécie novos para a ciência» («Primeiro dinossauro de Angola recebe o apelido Adamastor», Teresa Firmino, Público, 16.03.2011, p. 14).
      Em latim, e do mais lídimo e pulcro, senhora jornalista. A nomenclatura científica lá está a entrar na compreensão de todos, depois de tantas cincadas e tantas críticas.

[Post 4573]

«Armar-se em»

O falso adjectivo

      «É difícil ser-se positivo. Numa reportagem muito parva mas esclarecedora no New Yorker datado com o primeiro dia da Primavera (21.3.2011), Dana Goodyear conta a história de dois psicoterapeutas jungianos em Hollywood. Na primeira sessão, Barry Michels pede ao fiel cliente que feche os olhos e se concentre nas coisas que agradece. Se o doente nada disser, Michels, que cobra 360 dólares por sessão, sugere o cão do doente. Aí, o doente concorda que sim, que agradece o cão que tem. De seguida, se o cliente não quiser ir além do cão no rol das coisas pelas quais dá graças, Michels sugere o sol. Responde o relutante paciente (dois adjectivos armados em adjectivo e substantivo): “Sim, o sol, [...] agradeço o sol. Às vezes» («A metade invisível», Miguel Esteves Cardoso, Público, 16.03.2011, p. 39).
      Percebemos por que motivo Miguel Esteves Cardoso afirma que são dois adjectivos — mas temos de lembrar aos leitores que, no caso, «paciente» é substantivo. Por outro lado, e isto é o principal (que nem sempre vem em primeiro lugar), se um está armado em adjectivo, não está armado em nada, pois que armar-se em é expressão idiomática que significa dar-se ares de; fingir-se; mostrar-se diferente do que se é para causar uma impressão favorável. (Esta acepção também não está registada no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, esse queijo suíço armado em dicionário.)

[Post 4572]

Tradução

Que descaramento

      «‘What a nerve Mr Eppy has!’ said Dinah» (The Ship of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 257). «— Mas que sensaboria para o Sr. Eppy! — disse Dina» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 224).
      Sensaboria já foi uma palavra muito usada, já. Na tradução acima, é claro (para mim, que li o texto todo) que não devia ter sido empregada. Embora isso não constitua objecção absoluta, a acepção em que foi usada é informal: circunstância ou incidente desagradável, que causa aborrecimentos; contratempo. E se o trecho se refere ao descaramento, ao atrevimento, à impudicícia do Sr. Eppy?
      Seja como for, algo se aproveita como lição: vejam como a tradutora não escreveu «Mr Eppy», como agora se vê, incompreensivelmente, em muitas traduções.

[Post 4571]


Léxico: «queijo cabreiro»

Regresso às raízes

      «‘Only because you’re so hungry,’ said Jack, giving Kiki some of his. ‘It’s goat-milk cheese, isn’t it, Bill? I say, look at Micky stuffing himself.’» (The Ship of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 227). «— Só porque estás com fome — comentou João, dando algum do seu à Didi. — É queijo cabreiro, não é, Jaime? Olhem para o Micky a devorá-lo» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 199).
      Em vez de queijo de cabra, queijo cabreiro — como ainda se diz e escreve, e bem, por aí.

[Post 4570]

Tradução

Eis a pista

      «João olhou subitamente para ela. Claro, Luzinha, um templo tinha de ter um sino. O templo pode ser um dos pontos-chave, um dos guias que conduzem ao tesouro» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 162).
      Ora cá está uma das embirrações do revisor antibrasileiro, e com quanta razão, desta vez. Não imaginem no original qualquer key point, isso seria nimiamente bélico. O que se lê é «one of the clues». Não é tema novo, aqui: estou farto dos não-sei-quê-chave. E, como se vê, já em 1969 alguns tradutores eram dados a estas imperícias.

[Post 4569]


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