Acordo Ortográfico

A mortalha da língua


      «Mais uma reforma? Deus nos acuda. Cada reforma ortográfica é uma convulsão no idioma. Admite-se de século a século. De oito em oito dias, é demais... Antes brincar com fogo ou com bombas atómicas. Não há reforma ortográfica tão subtil que possa satisfazer qualquer inteligência. Todas têm defeitos. São obras humanas, eivadas de paixão, tocadas de bairrismo, não podem servir todos os intelectos. A de 1911, para mim, é a menos defeituosa. As seguintes, querendo corrigi-la, pioraram-na, principalmente a da mãi. A de 1945... Portugal perde nela, ainda hoje, o seu carácter. Mas, Deus a conserve. Outra que venha será porventura a mortalha da língua portuguesa» (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 40).

[Post 4105]

Revisão

Não vale a pena?


      «A presidente-eleita do Brasil escreveu uma carta ao Papa em que afirma que deseja ter “uma relação fecunda” com a Igreja Católica. A missiva, escrita por Dilma mas analisada e revisada pelo chefe de gabinete de Lula, Gilberto Nascimento, é uma forma de mostra não ter ficado ressentida com Bento XVI, que antes da segunda volta pediu aos fiéis para não votarem em quem defendesse o aborto» («Aproximação a Bento XVI», Domingos G. Serrinha, Correio da Manhã, 20.11.2010, p. 33).
      Então agora já não revêem o que um correspondente escreve, ainda por cima um correspondente que não redige segundo as normas do português europeu?

[Post 4104]

Tradução

Mal traduzido


      «Nas declarações conjuntas com Cavaco Silva e José Sócrates, [Obama] voltou a irradiar simpatia, lembrando em Belém que Cavaco Silva é “comandante-em-chefe” das Forças Armadas e elogiando em S. Bento a liderança de José Sócrates no combate à recessão económica» («’Big Show’ Obama com Cavaco Silva e José Sócrates», Correio da Manhã, 20.11.2010, p. 9).
      «Comandante Supremo das Forças Armadas», lê-se na Constituição. Em português, porém, diz-se comandante-chefe.

[Post 4103]

«Cocktail Molotov»

Novo mês, nova regra


      «A polícia entrou em confronto com centenas de manifestantes que respondiam com pedradas e cocktails molotov» («Percorrer o mundo para fazer a guerra à NATO», Hugo Filipe Coelho, Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 7).
      Até nem me parece mal que se escreva com minúscula, mas reparem que um mês antes haviam grafado com maiúscula: «Petardos, pneus, gás lacrimogéneo ou cocktails Molotov são alguns dos artefactos usados por grupos activistas nas cimeiras da NATO e Portugal não deverá ser excepção, estando a PSP a treinar para os enfrentar» («PSP prepara-se para confrontos com activistas anti-Nato», Diário de Notícias, 15.10.2010, p. 25).

[Post 4102]

Aspas

Reflictam

      «Entre agentes da CIA e da segurança pessoal que já se deslocaram para Portugal há várias semanas, as equipas de análise de informações que têm estado a trabalhar com as “secretas” portuguesas e os elementos das equipas de guarda-costas que vão estar mais próximos de Barack Obama, chega às duas centenas o número de pessoas envolvidas na protecção do Presidente norte-americano» («Obama traz quase 200 seguranças na visita a Portugal», Patrícia Viegas e Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 2).
      Já aqui perguntei uma vez, mas, paciente, pergunto de novo: para quê as aspas em «secretas»? Trata-se de algum uso metalinguístico? E «presidente» merecerá inicial maiúscula?

[Post 4101]

Tradução: «jamming»

Procurem


      «Nas suas deslocações vai usar, pelo menos, quatro viaturas blindadas. Uma delas para seu transporte e as outras três de segurança. Um destes veículos está equipado com material de “empastelamento” de comunicações, ou jamming, e tem como missão exclusiva bloquear todas as comunicações telefónicas ou de rádio nas zonas por onde passe a comitiva» («Obama traz quase 200 seguranças na visita a Portugal», Patrícia Viegas e Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 2).
      Nem todos os dicionários registam o vocábulo «empastelamento». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe-o: «MILITAR irradiar ou reflectir deliberadamente energia electromagnética com o fim de impedir a utilização, pelo inimigo, dos seus sistemas de telecomunicação».

[Post 4100]

Como se escreve nos jornais

Na Lua


      «[Allan Sandage, 1926―2010] Foi um dos astrónomos mais influentes da área da cosmologia, tendo escrito mais de 500 artigos e livros sobre o universo, a evolução e comportamento das estrelas, a descoberta do primeiro quasar, o nascimento da galáxia Milky Way» («O homem que dedicou a vida a medir a expansão do universo», Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 45).
      Também eu gostava de escrever obituários, mas não ia trocar assim as línguas. Milky Way em inglês, em português é Via Láctea.

[Post 4099]

Itálico

É pena


      «Segundo a mitologia nórdica, Erik, o Vermelho, foi o primeiro a pisar a Gronelândia e o seu filho, Leif Eriksson, o primeiro a chegar à América, por volta do ano 1000 d.C. Teria sido ele, ou alguém próximo, a trazer a ameríndia, cujos genes se encontram hoje nas quatro famílias estudadas. Em 1960, foram encontrados na Terra Nova (Canadá) vestígios de um acampamento típico dos viquingues. Alguns acreditam tratar-se de Leifsbúoir, descrito na famosa Saga de Erik o Sanguinário» («Viquingues trouxeram uma ameríndia para a Europa há mil anos», Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 27). «As Três Graças, um pequeno quadro no qual três jovens nuas exibem a sua luminosidade jovial sobre um fundo sombrio, é da autoria do alemão Lucas Cranach, o Velho (1472-1553), cuja obra passou sobretudo pelo retrato e pela representação de temas religiosos» («Louvre pede um milhão para comprar quadro», J. E. M., Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 50).
      Falta uma visão de conjunto, o olhar de alguém que vele pela aplicação uniforme das regras.

[Post 4098]

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