«Que/quem»

Está na hora


      «“É uma segunda família.” A afirmação é de Alexandra Lencastre referindo-se à Central Models, a agência com quem trabalha e que comemorou anteontem 20 anos com um jantar no restaurante BBC, em Lisboa» («Central Models assinala 20 anos com megafesta», Ana Lúcia Sousa, Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 69).
      A Ana Lúcia Sousa alguma vez leu que o pronome relativo e interrogativo quem se usa sempre em relação a uma pessoa? Claro que não. E nota-se muito.

[Post 4082]

Tradução: «clutch»

Não há melhor


      «O interior da mala é decorado com a bandeira portuguesa e tem um número que corresponde a cada uma das oito presenteadas. Além desta mala, Hillary receberá também da parte do primeiro-ministro português uma clutch em cortiça com efeitos conseguidos através da queima do material» («Sócrates oferece a Obama coleira de cortiça para cão-d’água ‘Bo’», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 11).
      A jornalista não encontrou melhor termo: clutch! No Merriam-Webster vejo que é «a woman’s small usually strapless handbag». Não vou agora fugir de uma anglicismo para cair nos braços de um galicismo, «pochete», mas carteira não chega? De qualquer maneira, eu preferia que fosse de cortiça.

[Post 4081]

Sobre «cativeiro»

Imagem tirada daqui

Agora entra em desuso


      Com a libertação da opositora birmanesa Aung San Suu Kyi, e já antes, em 2008, com a libertação da ex-deputada e ex-senadora franco-colombiana Ingrid Betancourt, os jornalistas portugueses só já têm os tigres, pandas e outros animais para poderem usar a palavra «cativeiro». Até agora, foi mesmo assim: só em relação a Ingrid Betancourt e a Aung San Suu Kyi usavam este vocábulo. E aos animais. Podemos encontrar um paralelo no caso das prisões: se a Polícia Judiciária deixar de existir, entrará inevitavelmente em desuso o vocábulo «calabouço».

[Post 4081]

Como se fala na rádio

Convergir e divergir — no ar


      Hoje, na Antena 1, foi dia de festa: os jornalistas apanharam uma nova forma, esquisita, distorcida, de dizer as coisas. Luís Soares, Antena 1: «A falta de visibilidade condicionou ao longo da manhã o tráfego aéreo na Madeira. Vários aviões tiveram que divergir para outros aeroportos por causa da falta de visibilidade provocada por nuvens baixas. Vários voos atrasaram ou foram mesmo cancelados.» Lúcia Cavaleiro, da TAP, explicou como é: «Neste momento, está, está efectivamente tudo normalizado. As condições meteorológicas também assim o permitiram e portanto tivemos alguns, portanto, algumas, alguns aviões tiveram que ser divergidos, designadamente para Porto Santo, mas que neste momento já se encontram no Funchal, todos, portanto, todos os passageiros.» Divergir também é desviar-se, mas francamente! E reparem que uns aviões divergiram e outros foram divergidos. E os voos que atrasaram também são uma pérola.

[Post 4080]

«Heraldo» e «arauto»

Diga o resto


      «“Leste no Heraldo Europeu um artigo sobre os últimos impostores de Orenburg? Foi em 1834, irmão! Não gosto dessa revista, e o autor do artigo é conservador, mas a coisa é interessante e pode provocar ideias…”» (Solo Virgem, Turguiénev. Tradução de Manuel de Seabra. Lisboa: Editorial Futura, 1974, p. 84).
      «Em Bagaúste, linha férrea do Douro, um pouco acima de Régua, no ponto fluvial onde se constrói agora uma barragem, acaba de nascer um jornalzinho para distracção de quem trabalha no empreendimento. Sabem como se chama? Herald de Bagaúste. É, pelo visto, um arauto. Mas, como arauto é nome português, atirou com ele ao rio, isto é, ao river. E ninguém se lhe atravessou. O cadáver do arauto deverá aparecer, qualquer dia, com a barriga inchada, a jusante de Bagaúste, perhaps at Régua» (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 66).
      João de Araújo Correia só se esquece de dizer que heraldo — não herald, valha-me Deus! — é mais antigo na língua do que arauto, não é assim, Montexto?

[Post 4079]

«Tratar-se de»

Imitação


      «De acordo com o documento do Governo Civil de Lisboa, que define as especificações técnicas dos veículos, estes não se tratam de simples “viaturas de transporte pessoal com protecção balística”, conforme garantiu o ministro da Administração Interna (ver texto ao lado) e o comando da PSP. Tratam-se, isso sim, de verdadeiros blindados de guerra, idênticos aos usados pelos americanos e ingleses no Iraque» («PSP comprou blindados para a ‘guerra’ nos bairros», Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 11.11.2010, p. 4).
      Aí está: para não ser apenas a ministra da Educação a cincar em regra tão elementar, os jornalistas imitam-na. Cá estamos nós a pagar e a ler os disparates.

[Post 4078]

Ortografia: «martainha»

Quentes e boas


      «As castanhas assadas e o vinho novo continuam a ser protagonistas da Feira de S. Martinho, que começou ontem em Penafiel e vai prolongar-se até ao próximo dia 21 deste mês, e nem a crise faz com que os visitantes deixem de comprar um quarteirão de castanhas e beber “uma malga” de vinho. […] A dois euros o quarteirão, Fátima Sousa tem vendido “ao mesmo preço” do ano passado» («Crise não atinge castanhas e vinho novo no São Martinho», Mónica Ferreira, Diário de Notícias, 12.11.2010, p. 21).
      Não sabia que as castanhas assadas eram vendidas ao quarteirão. Bem, mas há outras questões. No Correio da Manhã, lia-se isto: «Este é, aliás, o valor pago por quilo aos produtores de castanha. Nos supermercados, o preço da castanha ‘martaínha’ dispara e pode chegar a custar seis vezes mais daquilo que é recebido pelos agricultores» («Crise obriga a reduzir castanha no magusto», João Saramago, Correio da Manhã, 11.11.2010). As aspas não fazem falta, caro João Saramago. Aveleira, bária, colarinha, judia, lamela, longal, martainha, trigueira..., as variedades de castanha são grafadas como acabo de fazer. Pior ainda, o acento: «martainha» precisa tanto de acento como bainha, biscainho, Fontainhas, grainha, ladainha, Maçainhas, moinho, rainha, redemoinho, remoinho, tainha, ventoinha, etc. A semivogal i, ao ser anasalada pelo dígrafo nh, é como que autonomizada, destacada como sílaba, desfazendo assim o ditongo.

[Post 4077]

Como se escreve nos jornais

Isso é o rascunho, espero


      «Os objectos, “ilegalmente exportados”, segundo Zahi Zawass, deram entrada na colecção do museu nas décadas de 30 e 40 do século passado, após o final das excavações no túmulo do faraó, iniciadas em 1922 pelo britânico Howard Carter. Entre os 19 itens, conta-se uma estatueta de um cão de bronze e uma esfinge de lápis-lazuli (uma rocha azul utilizada pelos antigos egípcios para esculpir elementos decorativos), que, estimam os investigadores do museu, faria parte de uma pulseira. Thomas Campbell, do Metropolitan, declarou em comunicado (emitido na semana passada) que “os objectos nunca deveriam ter saído do Egipto”. Na verdade, foi esse o argumento evocado pelas autoridades egípcias, visto que, segundo os termos em que foi realizada a excavação do túmulo (sob orientação britânica), os conteúdos do mesmo deveriam ter ficado em território egípcio» («O Metropolitan vai repatriar espólio egípcio», Alexandre Elias, Diário de Notícias, 12.11.2010, p. 47).
      Ora digam-me lá se escrever assim, com os pés, não deixa os leitores, que não sabem muito, a saber ainda menos. E digam-me igualmente se acham aceitável que um jornalista escreva desta maneira.

[Post 4076]

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