«Grelha costal»

Estão doentes     

      O jornalista tinha escrito que o jogador Pedro Moreira sofrera uma contusão da quadra costal, mas tal expressão não existe. Existe sim, e é usada em medicina, grelha costal (em francês, gril costal; em inglês, rib cage). É o nome que se dá ao conjunto das costelas, tal como se encontra disposto formando as paredes laterais da caixa torácica. Com o nome de grelha, o jornalista há-de conhecer melhor as grades de ferro para assar ou torrar sobre brasas e os quadros em que se apresentam, hora a hora, os pormenores de um programa de televisão. Quadra, por seu lado, sendo vocábulo polissémico, não pode ser usado neste sentido. Os jornalistas desportivos abusam desta linguagem médica mal assimilada. Ultimamente, tenho visto muito o traumatismo costal. Não é só ao futebolista que dói.

Léxico: «retrospectoscópio»


Prever o passado

      Embora o contexto fosse claro («[…] quando recuarmos na História, com o retroscópio, tudo o que surgir dará a impressão de levar, inexoravelmente, ao nosso episódio negativo único.»), o tradutor verteu o termo inglês retrospectoscope como «retroscópio». Por falta de atenção, decerto, mas também porque não está registado em nenhum dicionário bilingue. A definição mais satisfatória que encontrei foi no texto «Urines Are Cooking: Perspectives on Medical Slang and Jargon», de John H. Dirckx: «A mythical instrument with which the physician is supposed to achieve “20/20 hindsight”.» Em português dir-se-á então retrospectoscópio. Visão (no caso, retrospecção) 20/20 é a visão normal. Foram os oftalmologistas que determinaram que uma pessoa com visão considerada «normal» deveria ser capaz de ver a uma distância de 6 metros (20 pés no sistema anglo-saxónico) da tabela de Snellen.

«Mano a mano» II

Locução ou substantivo?

      A propósito da grafia de mano a mano, o leitor (e colega revisor) Filipe levantou a hipótese de ser como em corpo a corpo/corpo-a-corpo. E é claro que é, mas no caso tratava-se da locução adverbial. E é sempre assim, quer se trate de corpo a corpo, dia a dia, mano a mano, taco a taco: se for locução adverbial (de modo, de tempo, etc.), não terá hífenes; se for substantivo, que é sempre formado com base na locução, tê-los-á. De todas as acima referidas, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, regista as três primeiras e os respectivos substantivos. Chegaremos à mesma conclusão para a quarta, taco a taco, e para quaisquer outras por analogia.

Actualização em 17.11.2009

      Eis um exemplo de utilização correcta da locução: «As baixas dos Estados Unidos já ultrapassavam a centena de milhar, em muitos casos vítimas do frígido Inverno coreano e da mestria do exército chinês no combate corpo a corpo» (Indignação, Philip Roth. Tradução de Francisco Agarez. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009, p. 36).

Actualização em 21.1.2010

      Outro exemplo de uso correcto: «Os ladrões envolveram-se numa luta corpo a corpo e o funcionário das bombas de gasolina conseguiu dominar o assaltante, alertando depois a esquadra da PSP de Tomar.» («Gasolineiro domina assaltante», Francisco Pedro, Correio da Manhã, 17.1.2010, p. 56).

Ficar e ficar-se

Diário de um revisor

     

      Enquanto palitava, com minúcia de odontologista, a redúvia, o revisor antibrasileiro ia lendo e resmungando: «Ah! Ouça esta: “E por aí se ficou”! O brasileiro estragou isto tudo. Não basta escrever “E por aí ficou”?» O verbo ficar também é, sem qualquer dúvida, pronominal: ficar-se. Houve, no entanto, confusão do jornalista, pois, no contexto, o verbo é intransitivo, na acepção de permanecer em determinado ponto ou valor; não passar de. Para ser pronominal, a frase teria de ter outra redacção. Em relação à forma pronominal, o exemplo do Dicionário Houaiss refere-se a um cavalo — «O cavalo ficou(-se), e o vaqueiro estatelou-se no chão.» —, mas claro que se podia referir a um futebolista: «Em relação aos boatos que o dão como preguiçoso e pandegueiro, o avançado ficou-se.» Fico por aqui.

Ortografia: «colorrectal»

Pouco recomendável


    «Recently, for example, we were told that red meat causes bowel cancer, and ibuprofen increases the risk of heart attacks: but you followed the news reports, you would be no wiser.» «Recentemente, por exemplo, disseram-nos que a carne vermelha causa cancro colo-rectal, e que o ibuprofeno aumenta o risco de ataques cardíacos: todavia, se nos guiássemos por estas notícias, ficaríamos exactamente na mesma.» Deve escrever-se, por muito que se leia o contrário, colorrectal. Num documento, «Termos mais utilizados em gastrenterologia», da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG), recomenda-se «colorectal»(!). To each his own, diria um inglês. Cada macaco no seu galho, dizemos nós.

«Extra»: adjectivo variável

É isso mesmo


      «O carro particular do tenente-coronel Mário Bagina, comandante da GNR de Portalegre — responsável pela atribuição de férias extras a quatro militares da sua unidade, empenhados na caça à multa — foi também controlado em excesso de velocidade, a 141 km/h, perto de Elvas. O comando-geral da GNR confirma a ocorrência. Os guardas que detectaram a infracção são colegas dos quatro cabos a quem o tenente-coronel Bagina atribuiu sete dias de férias extras. […] Mário Bagina não quis, igualmente, relacionar esta infracção com a ordem de serviço em que concedeu férias extras a quatro cabos do trânsito» («Apanhado oficial da caça à multa», Miguel Curado, Correio da Manhã, 29.08.2009, p. 13). Pelo menos neste artigo, verifica-se o uso consistente da pluralização do adjectivo «extra». Também para mim, lembro, este adjectivo é variável.

Selecção vocabular

Pior? «Obsolescente»


      «Outra consequência desta controversa proposta, se chegasse a ser aprovada, seria o enorme aumento do tempo de duração do processo de averiguação, dada a complexidade e consequente morosidade da tramitação das acções no Supremo Tribunal Federal, o que poderia fazer, por exemplo, com que uma eventual condenação à perda de mandato ocorresse já depois do mandato em causa ter terminado, tornando obsoleta a decisão» («Congresso sem poder para julgar», Domingos Grillo Serrinha, Correio da Manhã, 28.08.2009, p. 30). Ninguém estranhou nada: nem jornalista, nem editor, nem revisor. O adjectivo obsoleto designa aquilo que caiu em desuso; ultrapassado; antiquado. Ora, acham que se aplica com propriedade no contexto? Pois não. Em vez de «obsoleto», deveria estar «inútil», por exemplo. O correspondente do Correio da Manhã em São Paulo até pode gostar do vocábulo «obsoleto», mas tem de o guardar para as ocasiões em que o poderá usar com propriedade.

Erros e revisores

De corpo e alma


      Dizia ontem, com alguma sanha, o revisor antibrasileiro, enquanto revia uma página, que «agora só se lê nos jornais “dar-se conta de” e não “dar conta de”, que é o correcto». É? Não é. Com o significado de «aperceber-se de», tanto se pode usar dar-se conta de como dar conta de. Uns momentos depois, falou, e não parecia estar a brincar, em almas depenadas. É um erro que se ouve e lê por aí, é verdade, mas um revisor não pode — sem estar a brincar — reproduzi-lo. Faz-nos temer pelos erros que acrescenta, há revisores assim, aos textos que revê. Alma penada, como se sabe, é a alma de um morto que, segundo a crença popular, vagueia pelo mundo em penitência.

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