Pontuação

Sincopadas

No último dia de Julho, os revisores do Le Monde perguntavam aos leitores se na frase que se segue, uma legenda a uma fotografia em que aparecia o deputado socialista francês Julien Dray, publicada no dia 10 no Le Figaro, as vírgulas se justificavam: «Le député socialiste, Julien Dray, à Paris, le 8 mai dernier.» Em certo jornal nosso, todos os dias se lêem frases semelhantes, embora algumas não vejam a luz do dia. Valha um exemplo (que só diverge por não ser, como a legenda do Le Figaro, uma frase nominal): «A garantia foi dada, ontem, ao final da tarde, por Washington Alves, pai do jogador, em declarações ao nosso jornal.»

«Porno» flexiona?

Há quem defenda


    Sabe quem é Sérgio Nogueira? Então, em princípio, o leitor não é brasileiro. O professor Sérgio Nogueira é jurado no concurso Soletrando e no programa Caldeirão do Huck, na TV Globo, assim como consultor de língua portuguesa daquele canal e dos jornais O Globo e Extra. Apresentado o homem, apresento o facto. No blogue de Sérgio Nogueira, Dicas de Português, lê-se esta questão: «Alugou vários filmes …………… (pornô OU pornôs).» Ora adivinhem lá a resposta. Exactamente: «Alugou vários filmes pornôs.» Convicção ou não, mas é bom que seja, lia-se o mesmo na edição de ontem do Diário de Notícias: «Professor e alunos em vídeos pornos» (Diário de Notícias, 5.08.2009, p. 27).

«Zeppelin» e «zepelim»


Balão-de-ensaio


      «No domingo, dirigentes do PND-Madeira tentaram colocar no ar um zeppelin autocomandado com sete metros de comprimento para sobrevoar a festa, durante as intervenções políticas» («PSD-Madeira processa responsáveis por zeppelin do PND», Público, 28.07.2009, p. 5). Mas porquê autocomandado? Não me faltam motivos para preferir a forma como escrevem no Diário de Notícias: «Para além das afirmações de Alberto João Jardim que irritaram Teixeira dos Santos, ministro da Economia e Finanças, continua a saga em torno do zepelim do PND atingido por três tiros de uma arma de calibre ilegal a poucos metros do recinto onde Alberto João Jardim discursava para um público estimado em 40 mil» («PSD processa responsáveis pelo dirigível abatido», Lília Bernardes, Diário de Notícias, 28.07.2009, p. 9). É mais um caso, este dos balões dirigíveis de tipo rígido e habitualmente de grandes dimensões, em forma de charuto, de nome comum derivado de nome próprio. No caso, o aeronauta alemão conde Ferdinand von Zeppelin (1838–1917).

Sujeito composto e conjunção ou

Não é o mesmo

«Distracção ou cansaço estão na origem de acidente em Bordéus» (Helder Robalo, Diário de Notícias, 5.08.2009, p. 16). O facto expresso pelo verbo tem ou não tem uma ideia de alternativa? Então, nestes casos, em que o sujeito composto é formado de substantivos no singular ligados pelas conjunções ou, nem, o verbo costuma ir para o singular. Só vai para o plural se o facto expresso pelo verbo puder ser atribuído na globalidade e não em alternativa: Nem a distracção nem o cansaço terão levado ao acidente, mas sim falha mecânica.

«VOLP»: correcções

Primeiro encarte

«Já está dito, e deve ser geralmente sabido, que, por motivos igualmente reconhecidos, raramente haverá trabalho literário que mais susceptível seja de correcções e aditamentos do que o dicionário de uma língua», escreveu Cândido de Figueiredo na 4.ª edição do Novo Dicionário da Língua Portuguesa (Lisboa, 1925). A Academia Brasileira de Letras usou a afirmação do dicionarista português numa epígrafe à corrigenda (na verdade, lista de correcções e aditamentos) que acabou de publicar a verbetes da 5.ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP). Nada de significativo: são três páginas de correcções a erros de revisão, num total de 0,04 % de um universo lexical de quase 390 mil palavras, mais duas páginas de aditamentos. Ad Immortalitatem.

Léxico: «sorte»

Limpar a sorte

      «Alguns moradores encomendavam-lhe serviços [a Fernando Cruz, o «homem bom» que andou 16 anos fugido no monte de Nossa Senhora da Lapa, em Anissó, Vieira do Minho]. “Limpa-me esta sorte, limpa-me aquela sorte.” Sorte. Em Vieira do Minho, é sinónimo de propriedade» («“Prisão para quê? Prisão já ele teve!”», Ana Cristina Pereira, Público/P2, 4.08.2009, p. 6). Não é só em Vieira do Minho, pois que não se trata de um localismo, antes de um regionalismo. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o: «Sorte regionalismo faixa de terreno que coube a alguém em partilhas.»

Guarda-civil e Guardia Civil

Vale uma coisa pela outra

      «O governante socialista, que na entrevista voltou a dizer que nunca mais haverá diálogo com a ETA, referiu que as pessoas que colocaram a bomba no veículo de patrulha dos guardas-civis podem ter saído da ilha com passaportes europeus falsificados ou então continuam ainda ali» («Etarras passaram-se por turistas», P. V., Diário de Notícias, 4.08.2009, p. 25). Creio que nunca antes tinha lido grafado assim, mas é coerente. E já não grafam Guardia Civil em itálico: «Na altura da explosão estavam 120 pessoas a dormir naquela casa quartel da Guardia Civil, 41 das quais eram crianças.» E talvez ainda mais coerente é o que fazem (ou fizeram neste artigo, pois nos jornais tem-se memória curta) no Público: «Atentado atribuído à ETA causou 65 feridos e danos em edifício da Guarda Civil de Burgos» (Isabel Gorjão Santos, Público, 30.07.2009, p. 14). Nada de que não se tivessem lembrado de fazer no Diário de Notícias, só que depois esqueceram-se: «Até aqui, as patrulhas da costa limitavam-se às que a Guarda Civil espanhola iniciou no passado dia 22, entre Vigo e Mauritânia, e que já impediram a saída de muitos barcos daquele país» («Nove países europeus vigiam costa de África», Maria João Caetano, 30.05.2006, p. 22). Mas ainda em relação a guarda-civil: quatro páginas atrás, escreveram assim: «Guardas florestais em protesto quinta-feira» (Diário de Notícias, 4.08.2009, p. 21).

Tradução: «maleficiary»

Do inglês é pior

      «Today, on the contrary, technology is the beneficiary, and science the maleficiary.» O tradutor quis enriquecer a língua: «Nos nossos dias, pelo contrário, a tecnologia é a beneficiária, e a ciência a maleficiária.» Era um bom par, sim senhor: beneficiário/maleficiário. Até temos, é verdade, o verbo maleficiar, «fazer mal a; prejudicar». Temos, até, o adjectivo maleficente: que faz mal, maléfico. Na frase, «prejudicada» é o melhor termo. Não se pode ir assim atrás do inglês sem reflectir ou averiguar se existe o termo na língua portuguesa. No caso, por outro lado, também não era necessário adaptar o anglicismo.

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