«Sob quaisquer condições»?

Do inglês é melhor

      «O ministro do Interior de Espanha, Alfredo Pérez Rubalcaba, assegurou ontem que o governo não negociará com a ETA sob quaisquer condições» («“Não haverá fim negociado da ETA”», F. J. Gonçalves, Correio da Manhã, 3.08.2009, p. 33). Cheira a má tradução da expressão espanhola «bajo ningún concepto». Eu, pelo menos, não escreveria assim. Se querem traduzir, traduzam o inglês «under no circumstances», e a frase fica melhor…

Léxico: «hemodiluição»

A Bíblia à letra

      «“Há alternativas à transfusão de sangue, como a hemodiluição, e é isso que procuramos informar junto da comunidade médica”, rematou [José Alberto Catarino, da organização do congresso das Testemunhas de Jeová]» («Jeovás sentem-se discriminados», André Pereira, Correio da Manhã, 3.08.2009, p. 17). Não são todos os dicionários que registam este vocábulo, mas o Houaiss tem o verbete: «Hemodiluição: técnica que consiste em retirar de um paciente, antes de uma cirurgia com risco de grande perda sanguínea, cerca de 800 ml de sangue, a fim de poder reinjectá-lo no próprio paciente ao término da cirurgia ou pouco depois.» Em francês, hémodilution; em inglês, hemodilution.

Adjectivo invariável «recorde»

Excede tudo o que foi feito

      «Indemnização recorde do Supremo choca magistrados» (Filipa Ambrósio de Sousa, Diário de Notícias, 1.08.2009, p. 21). Deixem-me adivinhar: no Correio da Manhã, acham que «indemnização recorde» está errado. Se tivessem sido eles a escrever, teriam grafado assim: indemnização-recorde. Não é? Se posso inferir daqui: «O valor-recorde [do seguro das pernas de Cristiano Ronaldo] foi contratualizado a uma companhia de seguros ligada ao clube» («Cristiano Ronaldo. Pernas valem 100 milhões», Filipe António Ferreira, Correio da Manhã, 3.08.2009, p. 33). Mas «recorde» é também adjectivo, e adjectivo — mais um — invariável. Logo, certo está o título do Diário de Notícias.

Compostos com quase- (II)

Quase raro

      «Both of these notions introduce what White called the quasi-ethics of belief (White 1956. 278).» O tradutor verteu assim: «Ambas as noções introduzem o que White designou a quase-ética da crença (White 1956, 278).» Já aqui abordei um dia estes compostos de quase-, que se vêem sobretudo nas traduções, mas não só: «Que sim, garantiu-lhe o quase-médico» («Nome dos homens», Carlos Abreu Amorim, Correio da Manhã, 29.06.2009, p. 52). «Sarkozy tem um quase-cognome: “Presidente hiperactivo”, devido às suas permanentes acções diplomáticas (em dois anos visitou 65 países), políticas e desportivas — corre ou anda de bicicleta várias vezes por semana e é assistido por um personal trainer» («Sarkozy sai do hospital», Público/P2, 28.07.2009, p. 15).

Actualização em 11.09.2009

     
Carlos Abreu Amorim insiste: «Ser a favor da verdade e da transparência no Continente e embuçar a situação quase-chávista na Madeira é avaliar como um bando de lerdos» («Contradição política», Carlos Abreu Amorim, Correio da Manhã, 9.09.2009, p. 52).

Actualização em 7.1.2010
      
     
      «Na parafernália da segurança que nos transforma a todos em terroristas mal pomos os pés num aeroporto, continuamos à espera que sejam os aeroportos a fazer o trabalho que compete acima de tudo aos serviços de informações: localizar, identificar e acompanhar as pessoas suspeitas que viajem a partir de estados suspeitos (Obama reconheceu que o quase-atentado “poderia ter sido evitado” se os serviços de informações tivessem “compreendido” os dados que já tinham sobre o cidadão nigeriano. O que significa aqui “compreendido”?)» («Os suspeitos do costume», Pedro Lomba, Público, 7.1.2010, p. 32).

      «Um Presidente Alegre tornaria Sócrates refém da maioria parlamentar de esquerda (ou pelo menos da quase-maioria com o BE), o caminho certo para a sua irrelevância ou para o fim da sua credibilidade governativa» («Campanha», Luciano Amaral, Metro, 7.1.2010, p. 7).

Actualização em 18.04.2010     

      Mais um exemplo: «Agora, ao registar os acontecimentos como os vira, podia começar a enfrentar o desafio, recusando-se a condenar a quase-nudez chocante da irmã, em pleno dia, mesmo ao pé de casa» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 54).

Actualização em 4.06.2010     

      «A minha boca abriu-se e senti um quase-som formar-se na parte de trás da garganta» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 21).

Actualização em 7.06.2010

      «Uma adaptação do hit Simply the Best, de Tina Turner, tornou-se um quase-hino partidário» («Não é piada: a sátira chegou ao poder», João Manuel Rocha, Público, 7.06.2010, p. 18).

Actualização em 13.11.2010

      «E imagina-se mal que as rádios e as televisões concorrentes da RTP, e até os demais media, possam continuar a ser clientes da Lusa. Até porque o País viveria então num quase-regime sovieto-chinês!» («Uma absurda “agregação”», J.-M. Nobre-Correia, Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 66).



Antropónimos estrangeiros

Onde leram?


      Apesar de as fontes serem as mesmas e de se copiarem, os principais jornais não se copiam tanto que não escrevam o nome do presidente eleito da Guiné-Bissau de forma diferente: o Diário de Notícias grafa sempre Malan, o Público, Malam. «Após dez anos de conflito intermitente, a vitória de Malan Bacai Sanha nas presidenciais guineenses favorece a estabilização da Guiné-Bissau» («Vitória de Malan Bacai abre novo ciclo na Guiné», Luís Naves, Diário de Notícias, 1.08.2009, p. 29). «Malam Bacai Sanha é desde ontem o Presidente eleito da Guiné-Bissau. Com 63,5 por cento dos votos expressos à segunda volta; e o seu adversário, Kumba Ialá, aceitou formalmente a decisão popular» («Kumba Ialá aceitou sem problemas a derrota nas eleições presidenciais», Jorge Heitor, Público, 30.07.2009, p. 12) Em conversa, ontem, com um guineense, ex-revisor do Diário de Notícias, soube que o nome se escreve com m, Malam, que é também a grafia que se vê na imprensa guineense e na página na Internet da Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau, aqui.

Léxico: «sinecismo» e «sinoicismo»

Oikos, lar


      Tem razão, caro Luís M.: a variante sinoicismo nem sequer está registada em todos os dicionários. Do grego συνοικισμóς, porém, tanto se forma sinoicismo como sinecismo (designação que se dá à união de várias aldeias numa pólis na antiga Grécia). E se esta última é mais usada, a primeira também se vê, e com a vantagem de mais claramente se distinguir nela oikos: «Se e quando se terá dado o sinoicismo dos vários lugares, ou se podemos tornar a falar da fundação da cidade de Roma por Rómulo, se na verdade se sucederam sete reis ou mais, são questões ainda em aberto» (Estudos de História da Cultura Clássica, II, Maria Helena da Rocha Pereira. 4.ª edição. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2009, p. 21). O Dicionário Houaiss, para minha grande surpresa, não regista nem «sinecismo» nem «sinoicismo». A 5.ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, contudo, regista «sinecismo», tal como o Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves.

Capitular e render-se (II)


De qualquer maneira


      Para a elaboração desta banda desenhada, o autor, Nuno Costa, teve de recorrer, naturalmente, à consulta de fontes. No caso, embora mal indicada, por incompleta, As Grandes Batalhas. Ainda assim, o título diz «A capitulação do Japão» e no texto lê-se: «A 15 de Agosto, o Japão finalmente rendeu-se.» Capitulou, rendeu-se, o falante médio julga que é indiferente.


Léxico: «nanobote»

O futuro chegou


      Nem nanobô nem nanorrobô: vai-se preferindo nanobote: «No futuro, [André Roque, que, com 7 anos, já deu 15 palestras sobre o Universo] quer ser cientista e neurocirurgião para criar nanobotes (pequenos robôs) e levá-los até Marte para explorar a atmosfera do planeta vermelho [sic]» («Criança de 7 anos dá ‘aulas’ de Ciências», Urânia Cardoso, Correio da Manhã, 2.08.2009, p. 21). Prefiro a forma «nanorrobô», por ser mais sugestiva.

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