Uso da maiúscula

Inexplicável

      No que diz respeito ao uso da maiúscula inicial, fico sempre espantado quando vejo nas traduções disparates como grafar com minúscula o nome de uma instituição ou associação. Recorrente é, por exemplo, escrever «partido comunista». Lê-se no original, suponhamos: «The CIA had had its hands full fighting off a Communist insurgency in Greece, while in Italy the Communist Party had come within a whisker of electoral triumph.» Sai isto: «A CIA tinha combatido com dificuldade uma insurreição comunista na Grécia, enquanto na Itália o partido comunista estivera a um passo da vitória eleitoral.» Será um caso de primarismo ortográfico ou político?

Elisões e revisores

Como é?

      A revista Visão (edição n.º 816, 23 a 29.10.2008, pp. 118-24) foi ouvir António Lobo Antunes e Gonçalo M. Tavares a conversar. A jornalista, Sara Belo Luís, fez, e ela própria o confessa, figura de corpo presente. Esteve lá, mas apenas para gravar a conversa. Disse Gonçalo M. Tavares: «Os verbos que não estão são os que não fazem falta. Lembro-me de uma discussão com um revisor por causa de uma elisão. Mas para quê? Estar lá era apenas uma forma de mostrar que eu sabia que o correcto era estar. Não acrescentava nada.»
      A observação parece supinamente inteligente — mas sê-lo-á? Vejamos. Desconheço a frase em causa (e nunca discuto com autores), mas se se tratar, suponhamos, de uma frase com elisão do verbo, isso é perfeitamente gramatical: são as chamadas frases nominais. Se se tratar, por outro lado, de evitar a repetição de um verbo, isso também é gramatical, é correcto. Experimentemos com esta frase de João de Araújo Correia: «Não dava esmola nem sequer os bons-dias a ninguém, mas, era capaz de jejuar dias a fio para acender uma vela no altar de Nossa Senhora do Carmo» (Contos Bárbaros. Lisboa: Editorial Verbo, 1972, p. 85). Suponhamos agora que um revisor atoleimado, que os há, queria enfiar ali à fina força um verbo. Assim: «Não dava esmola nem sequer dava os bons-dias a ninguém, mas, era capaz de jejuar dias a fio para acender uma vela no altar de Nossa Senhora do Carmo.» Pobre literatura, pobre autor. Adeus, zeugma.

«Paçal» e «passal»

Elucidados estamos


      Isso de Lousal se grafar assim ou com z tem muito que se lhe diga. Quanto a José Pedro Machado, citado como argumento de autoridade, cuidado. Lembro-me sempre que na página 275 do tomo VIII do Grande Dicionário da Língua Portuguesa se lê paçal: «Terra à margem, anexa ao presbitério, paço ou casa paroquial.» Contudo, na página 453 do mesmo tomo lê-se passal: «Recinto ou terra de horta junto das igrejas paroquiais, que servia para horta, pomar e logradouro dos párocos, curas ou capelães.» Nenhum dos verbetes tem remissões para o outro. Como é então: paçal ou passal? Aqui, falhou como dicionarista e como etimologista. Em nenhum outro dicionário encontro registado «paçal». Mesmo na literatura, só passal, como no conto «O Doutor Hermenegildo», de João de Araújo Correia: «Foram até o largo da igreja. À sombra do templo, aninhava-se uma casinha branca de sobrado e loja. Era o passal» (Contos Bárbaros. Lisboa: Editorial Verbo, 1972, p. 35).

Sobre «salvamento»

Salve

      É curioso que o plano para o BPP (Banco Privado Português) seja de salvamento e não de salvação. Alguém disse, e pegou de raiz. Há, actualmente, uma notória preferência pelas formas curtas. Tanto é assim, que, por vezes, as pessoas até se/me perguntam se determinados substantivos têm a forma em -mento. Na imprensa, vejo «ajustes» e «reajustes», em detrimento de «ajustamentos» e «reajustamentos». De resto, por todo o lado se vêem governos de salvação nacional, não pela salvação da nossa alma, mas pela salvação da Democracia e da Liberdade, bastas vezes mais palavras do que conceitos a que os políticos se agarram como a pessoalíssimas tábuas de salvação. Outras vezes, são juntas de salvação. No Exército de Salvação, muitos encontram autênticas bóias de salvação, e, se tiverem sido marinheiros, coletes de salvação. Na Salvation Army da Tenison Road, Cambridge, tenho eu encontrado bons livros por tuta-e-meia (não por uns pénis, pois não vou por ), salvatério para muitas horas.

 

Emendas a vermelho

Imagem: De Vinne, T. L. : The invention of printing. London, 1877

A cor que impressiona



      Talvez venha desta prática o uso ainda hoje das emendas a vermelho: «Os primeiros livros impressos continham poucas faltas, graças ao cuidado e à instrução dos tipógrafos, secundados, além disso, pelos filólogos que assinalaram a época do Renascimento. As gralhas eram corrigidas à mão pelo impressor, e semelhante método praticaram [Ulrich] Gering, em Paris, e [William] Caxton, em Inglaterra, que corrigiam à pena e em tinta encarnada as faltas de impressão que haviam cometido» (Manuel Pedro (Pai). Correcção de Provas Tipográficas. Porto, 1973, p. 41). O impressor alemão Gering, com oficina em Paris, foi o prototipógrafo que, juntamente com Martin Crantz e Michael Friburger, introduziu os tipos romanos, embora ainda híbridos, que tiveram em Aldo Manutio o grande divulgador.

Tradução: «Jap»


Pura coragem

      O que é preciso é coragem. Substantivo e adjectivo, Jap entrou no inglês no final do século XIX, habitualmente com sentido depreciativo, para designar os Japoneses. Em português, porém, não temos um termo correspondente. Temos para chinês, por exemplo. Na tradução de Mere Anarchy, de Woody Allen, Jorge Lima inovou: «O que se passa é que eu desencantei um génio desconhecido que cozinha canções-sucesso como os japos vomitam Toyotas» (Lisboa: Gradiva, 2007, p. 98).

Actualização em 28.12.2008

      «Japonoca», que foi sugerido nos comentários, foi usado no filme Momento da Verdade 3 (The Karate Kid III, no original), com tradução de Ana Cristina Ferreira.

Pronúncia

Assim, rimo-nos nós


      Se fosse vivo e ouvisse José Hermano Saraiva pronunciar «crònista», João de Araújo Correia fartar-se-ia de rir. «Sustentar, à fina força, na palavra derivada, a pronúncia da palavra primitiva é incomodar a prosódia da língua portuguesa» (João de Araújo Correia. A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959]).

Abuso de estrangeirismos

Para fugir


      O fascínio pelos estrangeirismos continua a deixar às escuras os leitores da imprensa. Tome-se este excerto de uma notícia («Outro leilão e é oficial: a arte está em crise», Inês Nadais, 8.11.2008, p. 21) do Público: «O mercado da arte moderna e contemporânea voltou a dormir mal, ontem, depois de mais um leilão em underacting na Christie’s de Nova Iorque: a leiloeira vendeu, mas não vendeu tanto como esperava, tendo ficado 100 milhões de dólares (cerca de 77 milhões de euros) abaixo da fasquia, já de si muito defensiva, estipulada em função das obras incluídas no lote.»
      Para os leitores, e são milhares, que não sabem o que significa underacting, e para os quais estar lá underacting ou Unterspielend é rigorosamente igual, é um desrespeito. Estrangeirismos, sim, mas os estritamente necessários, e estes, se não forem muito conhecidos, explicados. Não me parece uma regra difícil de compreender nem de aplicar.
      Mas o fascínio chega a isto: usarem-se palavras estrangeiras que não interessam ao leitor. Ou melhor: que não adiantam nem atrasam. Decorativas. Um exemplo de hoje: «De acordo com o Centro Marree de Veneza (Centro das Marés), as águas subiram mais de metro e meio, alimentadas pelas chuvas e empurradas pelo vento que afectam toda a Itália. Mais de 95% do centro histórico da cidade dos canais ficou inundado na que foi considerada a maior acqua alta (cheia) desde 1986» («Veneza vive piores cheias em 22 anos», Hugo Coelho, Diário de Notícias, 2.12.2008). Muito bonito, sim senhores. E se a mim, como leitor, me interessar muito mais como se diz barco em italiano, para poder fugir?

Arquivo do blogue