A partícula «de»

Menos elisões

«Mitchell J. Feigenbaum, um físico-matemático da Universidade Rockfeller em Nova Iorque, acaba de mostrar (http://arxiv.or/abs/0806.1234) que todas as conclusões de Einstein se podem deduzir de princípios mais simples» («Poderia Deus fazer um Universo diferente?», Nuno Crato, Expresso, 15.11.2008, p. 34). Se o nome é nacional, só temos de lamentar que se não liguem os substantivos com o de. Se se trata, contudo, de tradução, não há motivos para se não usar a partícula. Elisões, sim, mas não tantas.
A propósito desta questão, escreveu João de Araújo Correia: «É lícito elidir-se o de, uma vez por outra, em pé de conversa ou em telegrama. Em estilo sério, também a elisão é legítima se a briga de dois substantivos não for escandalosa. Bairro Herculano, por exemplo, não poderá ofender cérebro razoável. Questão de tacto e questão de gosto… Para casos tais é que se fez a elipse» (A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 80).

O plural de «Verão»


As quatro estações


      «Nesta cidade alemã, a lenda é representada todos os verões, mas agora, em pleno século XXI, a história de fantasia tornou-se realidade» («Hamelin invadida por ratos: da lenda à vida real», P. V., Diário de Notícias, 19.11.2008, p. 28).
      Perguntam-me de vez em quando se o plural de «Verão» se escreve com minúscula. Vejamos. Verão é um substantivo próprio, não é assim? Ora, os substantivos próprios têm pelo menos três características: escrevem-se com maiúscula inicial, não mudam de género nem de número. Contudo, se temos mesmo de pluralizá-los, como é o caso, não vejo porque teremos de grafá-los com minúscula, pois a pluralização não os transforma de substantivos próprios em substantivos comuns. Assim, o plural de Verão é Verões, como de João é Joões. Com o Acordo Ortográfico de 1990, os nomes dos dias, meses e estações do ano escrever-se-ão com minúscula: segunda-feira; outubro; primavera.
      «E as horas na caça-submarina nas águas da costa alentejana, os Verões como nadador-salvador, os anos como futebolista avançado no Odemirense, Desportivo de Lagos e Ourique Desportos Clube» («O fiscal que um dia percebeu que é maior que o Alentejo», Raquel Moleiro, Expresso, 15.11.2008, p. 17).

Actualização em 18.04.2010


      Um exemplo: «Tinha-se a impressão de que o espírito de Ernest estava algures, já a vaguear pela noite, sete Verões mais à frente, na altura em que deixaria o seu lugar de jardineiro dos Tallis e abandonaria a casa de madeira, sem bagagem, sem sequer um bilhete de despedida em cima da mesa da cozinha, deixando a mulher e o filho de seis anos a pensarem nele para o resto da vida» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 100).



Tradução: «freak»

Foedus, foeda, foedum

      Um leitor, João Simões, pergunta-me como se deve traduzir a palavra inglesa freak. Diz ter visto ontem no canal Hollywood uma comédia infantil em que se usava a palavra, que era sempre traduzida por «feioso».
      Com excepção das acepções referidas àquele que se droga e ao fanático de alguma coisa (She’s a conference freak), o núcleo semântico está relacionado com o anormal, a aberração, o estranho. «A thing, person, animal or event that is extremely unusual or unlikely and not like any other of its type», na definição do Cambridge Advanced Learner’s Dictionary.
      Assim, sendo feio o que não obedece aos padrões de beleza convencionais, o disforme, o desproporcionado, não me parece que a tradução esteja incorrecta, embora só o conhecimento do contexto exacto me permitisse formular uma opinião mais definitiva.

Bestas homógrafas

666

No Governo Sombra desta semana, ficámos a saber que João Miguel Tavares ficou comovido com o que se passou com os No Name Boys. Demasiado comovido, aliás, pois disse que «aquele armamento todo que foi apanhado, como bêstas e tudo isso». Que eu saiba, entre o que foi apreendido a alguns elementos daquela claque do Benfica não figuravam alimárias de espécie nenhuma, ou estarei enganado?

«Torácico» ou «toráxico»?

Dá que pensar

      Um grupo de alunos contactou-me para saber se se escreve «torácico» ou «toráxico». Todos os dicionários que consultei registam «torácico», que tem como étimo o grego θωρακικός (thorakikós), provavelmente através do francês thoracique. É também esta a forma no espanhol e no catalão. Contudo, há muitos anos que vejo escrito e ouço «toráxico». Impõe-se a pergunta: porque não registam os dicionários, quase todos meramente descritivos, as duas formas? Afinal, ambas se usam e ambas estão correctas: uma vem do grego e a outra formou-se na própria língua. À semelhança do que ocorre com os pares anoréctico/anoréxico e disléctico/disléxico.

Entrevista a uma lexicógrafa

Aquilo que corre


      Na edição de 23 de Outubro do programa Mais Cedo ou Mais Tarde, João Paulo Meneses entrevistou a lexicógrafa Ana Salgado, do Departamento de Dicionários da Porto Editora. Um dos neologismos, explicou, que aguardam entrada numa das próximas edições do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é «tanorexia», que provém do inglês e se vai usando, em especial na imprensa. Se a palavra sobreviver até à próxima edição. Como sobreviveu carjacking, que entrou na última edição do dicionário.
      A lexicógrafa referiu que os dicionários da Porto Editora, sendo descritivos, apenas acolhem o que o departamento pondera ser correcto, não no sentido da norma, mas no sentido daquilo que se usa. O que me fez recordar o que escreveu Álvaro Gomes: «Entendemos, seguindo aliás o pensamento de Eugenio Coseriu, que “correcto” (tal como “norma”, para aquele linguista) é “aquilo que corre”, “aquilo que se tem dito”, não necessariamente aquilo que deve dizer-se. Trata-se de uma atitude não prescritiva, mas descritiva. Ora, “aquilo que se tem dito” corresponde, afinal, ao uso e os “usos” (como as modas, que são uma forma específica de uso) mudam» (O Acordo Ortográfico. Porto: Edições Flumen/Porto Editora, 2008, p. 72). Para ouvir aqui.

«Corrector» e «corretor» (I)

O tal erro

      Nos próximos guiões de O Tal País, programa de Herman José na Antena 1, convinha que Maria João Cruz e Roberto Pereira, das Produções Fictícias, pusessem entre colchetes a pronúncia de certas palavras, para que o humorista não diga disparates. Hoje, por exemplo, falou dos «correctores da Bolsa». Imperdoável.
      Nunca é inútil voltar a falar das coisas. Corrector vem do latim corrector, –oris, e designa aquele que corrige algo ou alguém. Corretor vem do latim curator, –oris (talvez através do italiano correttore), étimo de que também provém a palavra «curador», e significa o agente comercial que cuida (cura) dos interesses do seu cliente e, mais vulgarmente, o operador na bolsa que executa ordens de compra e de venda de títulos financeiros.

«Paisagem», «Herculano», etc.

Berrem menos


      «Parte da paisagem em montados portugueses, a cortiça faz parte da lista privilegiada dos materiais ecológicos para uso na construção civil, na indústria de produção de rolhas e em acessórios para a casa mais amigos do ambiente, nomeadamente nos países mediterrânicos, de onde provém», ouviu-se no programa da Antena 1 Um Minuto Pela Terra. E estava tudo correcto, excepto que «paisagem» não se pronuncia como se ouviu, /pàisagem/. Não é a primeira vez que aqui falo disto, como podem ver. Hoje, porém, socorro-me do que escreveu João de Araújo Correia sobre o mesmo: «Pàisagem, Càetano, sàudação e Hèrculano são gatos-pingados. Vão no enterro da pronúncia tradicional portuguesa» (A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 30). Este Herculano é o historiador de Vale de Lobos, pois a antiga cidade romana de Herculano (Herculaneum) é assim mesmo, com e aberto, que se pronuncia.



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