Objecto directo preposicionado

Oh, diacho!

Leio que as críticas agitam a Maçonaria e vem-me à memória que ontem à noite passou no canal História, que raramente vejo, o programa Decifrando a História: os Franco-Mações da América. (A voz off, porém, dizia sempre «franco-maçons».) A determinada altura, a mesma voz off afirmou que os franco-maçons sempre foram acusados de «adorarem ao Diabo». Tanto quanto sei, o objecto directo preposicionado é, no que se refere a nomes, empregado somente com a palavra Deus, não com a palavra Diabo.

Uso da maiúscula

Língua azul, de raiva


      Eduarda Freitas, repórter da Antena 1, estava hoje de manhã na feira semanal de Chaves, onde também se encontrava o veterinário municipal, que acabara de comunicar que a feira estava suspensa devido a um surto de doença da língua azul na região. «O senhor sabe o que é que se trata a doença?...», perguntou, atropelando a gramática, a repórter a um feirante.
      A propósito: não sei porque é que alguma imprensa grafa com maiúsculas iniciais, «doença da Língua Azul», o nome da doença. Talvez, essa é que é essa, eles também não saibam. Os nomes de doenças são substantivos comuns, e, logo, grafados com inicial minúscula. A excepção é para o nome dos cientistas que fazem parte das denominações das doenças: doença de Parkinson, doença de Alzheimer, etc.

Consoantes mortas, de novo

Luxo ortográfico

Ainda a propósito do agá de «húmido», diz Francisco Álvaro Gomes na obra que tenho vindo a citar: «É estranho o receio de que o desaparecimento do “h” pudesse descaracterizar a língua. No início de palavra, o “h” constitui o que se poderia chamar um luxo ortográfico; um luxo, pois ele constitui uma herança etimológica (em virtude do símbolo (‘), designado, em grego, como “espírito rude”) e que, em português, não tem valor fonológico (diferentemente do inglês, por ex.)» (O Acordo Ortográfico. Porto: Edições Flumen/Porto Editora, 2008, p. 54).

Particípio presente

Que está a pensar

Ora aqui está um verdadeiro particípio presente (matéria de que já aqui falei), como em latim: «Durante a última década, foram introduzidos novos instrumentos quânticos que, pela primeira vez na História, nos permitem observar o cérebro pensante.» É uma tradução, e no original está «thinking brain».

O verbo «roçar»

Tocar de leve

Estava a ouvir o enviado especial da Antena 1 às eleições norte-americanas, Ricardo Alexandre, que dizia que a intervenção de Sarah Palin na campanha «roça o mau gosto» e pensei em como agora o verbo roçar está na moda. Ultimamente, tem sido Manuela Ferreira Leite, que nunca seria a aluna favorita de um professor de Retórica, a usar com alguma frequência o verbo. Assim, considerou que o aumento para 450 euros do salário mínimo nacional proposto pelo primeiro-ministro «roça o nível da irresponsabilidade». Por mimetismo, também já ouço jornalistas a usar o verbo. Do latim vulgar *ruptiare, de ruptu-, «limpo de erva e mato», registam os dicionários. (O asterisco, já devem ter visto nos verbetes de vários vocábulos, indica que é uma forma reconstituída, hipotética, ainda não documentada por fonte escrita.)

Relativas cortadoras (II)

É a legitimação?

Ana Aranha, no À Volta dos Livros, na Antena 1, entrevistou hoje Patrícia Portela, a propósito do mais recente livro da escritora, que, entre outras coisas, disse: «E depois tenho dois livrinhos que gosto muito, já de há muito tempo, que é Operação Cardume Rosa e Se não Bigo não Digo, pela Fenda.» As relativas cortadoras já chegaram aos escritores.

Ortografia: «cabo-de-mar»

Distracções

      Caro A. M.: deve ter sido distracção dos dicionaristas. Se temos capitão-de-mar-e-guerra, capitão-de-fragata e capitão-de-corveta, por exemplo, todos com hífen, cabo-de-mar assim se há-de escrever por analogia. Mas também não encontro, mesmo sem hífen, nos dicionários que consultei. Contudo, em documentos jurídicos pode ler-se a forma com hífen, como na Declaração n.º (227IA1/83)AB de 29-09-1984, do Ministério da Defesa Nacional, pode ler-se: «No mapa III (Pessoal militarizado da Marinha), onde se lê “cabo-de-mar de 1.ª classe — cabo-de-mar de 2.ª classe” deve ler-se “cabo de manobra de 1.ª classe — cabo de manobra de 2.ª classe.”»

Vogais geminadas

Aos pares fazem mais barulho

      Um leitor, K. V., quer saber porque é que em documentos escritos em português antigo se vêem palavras com vogais não etimológicas repetidas. Encontrei a resposta na obra, já aqui citada, O Acordo Ortográfico, de Francisco Álvaro Gomes (Porto: Edições Flumen/Porto Editora, 2008, p. 63): «Os nossos copistas medievais, para marcarem a diferença entre vogais abertas e fechadas, geminavam as vogais para mostrarem o seu timbre aberto, enquanto as vogais de timbre fechado se mantinham simples.»

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