«Aterrar» e «aterrissar»


Mais longe

Cara Olga Castro: talvez Madalena Iglésias, na entrevista à Antena 1, tenha dito «aterrissar» por influência do espanhol aterrizar, mas o certo é que se trata de um galicismo. Repare como, até certa altura (o recorte data de 1942), pelo menos o substantivo «aterragem» ainda conservava os dois tt do francês atterrissage.

«Suspeitar», verbo transitivo-predicativo

Tachar de


      Cara Teresa Oliveira, a frase que apresenta está correcta. O verbo suspeitar também é transitivo-predicativo, isto é, selecciona um sujeito, um complemento directo e um predicativo do complemento directo. Veja esta frase de Por detrás da Magnólia, de Vasco Graça Moura (Lisboa: Círculo de Leitores, 2007): «A polícia suspeitava-o de ligações conspiratórias com os monárquicos, devido à imprudência que tinha tido de acompanhar em público, com certo ar de intimidade e parceria, alguns manda-chuvas do consulado sidonista» (p. 163).

Acordo Ortográfico

Continua húmida, a língua


      Isso é uma completa atoarda, caro João Simões. Nós, Portugueses, continuaremos a escrever «húmido» e derivados com agá, como sempre fizemos. Os Brasileiros, por sua vez, continuarão a escrever «úmido». De qualquer modo, o agá nesta palavra é pura tradição. Escreveu o Prof. Carmo Vaz a propósito das consoantes mortas, e especificamente do agá: «Há também palavras que se escrevem com h por força de uma espécie de tradição gráfica, mas não etimológica, como húmido, humor e derivados» (Carmo Vaz. Código de Escrita: Linguística Portuguesa 1. Segunda edição revista e aumentada. Lisboa: Editora Portuguesa de Livros Técnicos e Científicos, 1983, p. 126).

«Maoista», sem acento agudo


Mao Tsé-tung ainda vive

      «De maoísta a grande estadista», lê-se na notícia acima, publicada no Meia Hora. Bem podem os dicionários da língua portuguesa registar outra coisa, a Base XV do Acordo Ortográfico de 1945 estabelece: «Dispensa-se acento agudo nas vogais tónicas i e u de palavras paroxítonas, quando elas são precedidas de ditongo; nos ditongos tónicos iu e ui, quando precedidos de vogal; e na vogal tónica u, quando, numa palavra paroxítona, está precedida de i e seguida de s e outra consoante. Exemplos dos três casos: baiuca, bocaiuva, cauila, tauismo; atraiu, influiu, pauis; semiusto
      O Livro de Estilo do Público recorda que é esta a regra: «Não são acentuadas quando o i e u são precedidos de ditongo: saia, baiuca, maoismo, tauismo

«Pedir que» ‘vs.’ «pedir para»

Será mesmo assim?

Vejamos o que escreveu o Prof. Vasco Botelho de Amaral sobre a questão. «Se o povo diz pedir para, e se eu vejo que Herculano escreveu no Eurico — “pediu para falar a sós” — que me importa a mim que se critique a construção pedir para?
E que assim não lêssemos em Mestres da Língua?... Nunca se ouviu o povo dizer portuguêsmente pedir para ir e de modo semelhante?
Ocorre-me que alguém, algo pesaroso, me escreveu por eu ter defendido a construção pedir para seguida de infinitivo. Tal construção foi muito criticada por Cândido de Figueiredo e outros autores têm ido atrás da sentença do benemérito purista.
A verdade, porém, manda aconselhar paciência aos puritanos demasiado lógicos.
À minha análise lógica não repugna o dizer ou escrever peço-te para vires cá hoje, consoante já mostrei no Dicionário de Dificuldades.
Os gramáticos o que têm é de registar a dicção popular, pois já está apadrinhada pelas melhores penas da arte de escrever» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, pp. 275-76).

A diferença entre «oh» e «ó»

Ó rapaz!

Escreveu o Prof. Carmo Vaz sobre a matéria: «Deve ainda acrescentar-se que, por tradição ou convenção de escrita, mas como consoante morta, usamos o “h” em poucas palavras como hã! hem! ah, oh, puh! (Note-se que, enquanto o “oh” exemplifica a função fática e emotiva da linguagem, o “ó” é geralmente seguido de outra palavra e exemplifica a função apelativa; ex.: “Ó João…”) (Carmo Vaz. Código de Escrita: Linguística Portuguesa 1. Segunda edição revista e aumentada. Lisboa: Editora Portuguesa de Livros Técnicos e Científicos, 1983, p. 126).

Verbo «haver»

Tudo na mesma

      O que me diz, cara Luísa Pinto — um professor a usar a forma hadem — deixa-me muito triste. Em 18 de Março de 1958, há cinquenta anos, dizia o padre Raul Machado no seu programa Charlas Linguísticas (na 10.ª): «Hadem. É a forma hadem do verbo haver. “Eles hadem cá vir.”
      É uma forma mal feita e incorrecta. Peço que notem exactamente o vigor desta minha anotação. Parece que, uma vez ou outra, quando falo um pouco mais baixo, as minhas palavras são levemente transformadas, deturpadas… Portanto, aquela forma é errónea, é falsa, por agora; mas se ela se introduzir na linguagem… Ai de mim!... será correctíssima.
      Actualmente é falsa, é errónea; se daqui a cinquenta anos todos nós… (Se eu lá chegasse, é claro) a empregássemos, essa forma seria forma correcta, perfeita, porquê?
Porque os fenómenos da linguagem não caminham por processos lógicos; vão pelo aspecto usual, por hábitos…
      Ora bem; aquela forma, escrita no quadro, hadem, “eles hadem fazer”, é péssima dentro das normas gramaticais; é péssima, mas há tanta gente já que diz “eles hadem fazer”, “eles hadem vir”, que até, às vezes, eu próprio tenho receio de a empregar descuidadamente; infiltra-se nos ouvidos, e como se infiltra nos ouvidos e na subconsciência, habituamo-nos. E se nos habituamos, já nada se pode fazer para que a forma desapareça; é errónea, é falsa, mas se vier a introduzir-se será magnífica, perfeita.
      Peço o favor de atentarem bem no que acabo de dizer; não afirmo que esta forma é boa, nem digo que vamos admiti-la; digo que é falsa e é errónea. Mas que já muita gente a emprega; e se todos a empregarem, pertencerá correctissimamente à língua portuguesa» (Raul Machado, Charlas Linguísticas na RTP. Lisboa: Sociedade da Língua Portuguesa, [s/d, mas de 1998], pp. 139-40).

Elemento de composição «recém» (II)

Um penso nisso, já

      O Panda Profissões debruçou-se ontem sobre a profissão de enfermeiro. Para isso, muniu-se de uma quase enfermeira (na verdade nem soubemos se estava no 1.º ano se no 4.º ano; de qualquer modo, a legenda dava-a erroneamente como enfermeira), aluna na Escola Superior de Enfermagem de Francisco Gentil, e pô-la a falar. Às tantas, ensinou às criancinhas que uma das «actividades» dos enfermeiros é a de ajudar as «recém-mães». Claro, a língua evolui, blá-blá-blá.
      Já o escrevi aqui por duas vezes: recém é um elemento de composição, forma apocopada do adjectivo «recente», que só se usa, por mais informal que seja a linguagem, com adjectivo: recém-casado, recém-nascido, recém-licenciado, recém-nomeado, etc. Com um substantivo, jamais. A estudante deveria, dando outra redacção à frase, ter usado o adjectivo ou o advérbio da mesma família: recente, recentemente.

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