«Levar a cabo»

Somos todos espanhóis

      Um castelhanismo já bem enraizado na nossa língua, com todo o ar castiço (com os castelhanismos, esse também é o problema: têm quase sempre, antigos ou recentes, ar de castiços — até «castiço» vem do castelhano castizo...), é a locução levar a cabo. Interessante é ver que, em Espanha, só no final do século XIX se passou a aceitar llevar a cabo, considerada forma espúria, a par de llevar al cabo, castiça (ou castiza, se quiserem...) dos quatro costados (ou por los cuatro costados, se lhes aprouver...).

[Texto 800]
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«Colapso», de novo

Outros desmoronamentos

      «No centro, é o resultado recente do colapso do império soviético. Só no Norte e em franjas do Noroeste, ela faz parte de uma velha cultura nacional. Não admira que a prepotência de Sarkozy e Merkel não perturbe por aí além os 27. Estão habituados» («Democracia», Vasco Pulido Valente, Público, 11.12.2011, p. 56).
      Colapso é a queda, por exemplo, de um edifício ou de uma nação. Nesta acepção, é um anglicismo, como já vimos mais de uma vez. À semelhança de muitos outros estrangeirismos, e mormente anglicismos, o problema é o seu ar castiço ocultar, mascarar a origem. Veja-se, por exemplo, o vocábulo «recessão». A acepção descida do nível da actividade económica ou diminuição do seu crescimento é anglicismo semântico relativamente recente. Não há muito tempo, recessão era somente o afastamento progressivo das nebulosas extragalácticas.
[Texto 799]
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«Pôr ao serviço»

Outro século

      «[Luiz Francisco Rebello] Foi “um autor de referência para o teatro português”, frisou o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, “um dramaturgo de excelência, que contribuiu para a dignificação desta arte e que colocou o teatro ao serviço da luta pela liberdade”» («“Ele era uma enciclopédia viva do teatro”», Alexandra Prado Coelho, «P2»/Público, 10.12.2011, p. 10).
      «Faço votos por que o Sr. Presidente do Conselho se apresse em pôr ao serviço da Nação um novo dente» (Farpas, vol. 4, Ramalho Ortigão. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1953, p. 62).
[Texto 798]
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Como se escreve nos jornais

Excrescências

      O professor universitário galego que dedicou quase quinze anos a investigar a história chama-se Narciso de Gabriel. Vai daí: «“Fiz várias indagações para tentar confirmá-lo, mas ainda não consegui. Em todo o caso, a notícia é seguramente verídica e ilustra bem as dificuldades que sofriam, e ainda sofrem, as pessoas que têm uma orientação ou uma preferência sexual que não corresponde ao cânone social”, diz de Gabriel» («Marcela e Elisa, um amor de contrabando», Jorge Marmelo, «P2»/Público, 10.12.2011, p. 5).

[Texto 797]
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«Levar o nome»

Uma forma de contrabando

      «Existe ainda, em Espanha, um prémio que leva o nome de Elisa e Marcela, destinado a distinguir iniciativas que defendam os direitos dos homossexuais. E a Universidade da Corunha tem actualmente em exposição uma mostra dedicada ao tormentoso caso das duas mulheres» («Marcela e Elisa, um amor de contrabando», Jorge Marmelo, «P2»/Público, 10.12.2011, p. 4).
      Mas esta não é forma de dizer inteiramente castelhana? «Muy semejante al libro que lleva el nombre de Juan Díaz Rengifo es el rarísimo Cisne de Apolo» (Historia de las ideas estéticas en España: Siglos XVI y XVII, Menéndez y Pelayo. Madrid: Imprenta de A. Pérez Dubrull, 1896, p. 321).
[Texto 796]
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Ortografia: «regurgitar»

Já foi como escrevem

      «Quem viu a procissão de automóveis numa ordem impecável regorgitar à porta da Cimeira a enorme legião dos poderosos da “Europa” ficou provavelmente a pensar que lá dentro as coisas se passariam com a mesma eficiência e regularidade» («Uma cimeira», Vasco Pulido Valente, Público, 10.12.2011, p. 44).
      Já se escreveu assim, já, mas agora escreve-se «regurgitar». Quando se lêem muitas obras do século XIX, dá nisto. Igual desculpa não terá, decerto, Mário Zambujal, e no entanto: «Recomendei a Cacilda que desse uma boa volta, o Casino regorgitava de homens, alguns americanos fardados de branco» (Já não Se Escrevem Cartas de Amor. Revisão de Eda Lyra. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008, 4.ª ed., p. 64).

[Texto 795]
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«Você», de novo

Você, Judite

      Judite de Sousa, na TVI, entrevistou ontem Mira Amaral, o presidente do Banco BIC. Senhor engenheiro para aqui, senhor engenheiro para ali e ele — «Como é normal, quando você compra uma casa e faz o contrato-promessa de compra e venda, tem de pagar um sinal.» Só alguns professores universitários é que acham isto desrespeitoso, ou anormal, ou desnecessário.
[Texto 794]
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«Pôr a hipótese»

Vem de todos os lados

      «A carta, manuscrita e em italiano, referia “três explosões contra bancos, banqueiros, carraças e sanguessugas”, o que leva a polícia a colocar a hipótese de duas outras cartas armadilhadas terem sido enviadas» («Carta armadilhada no Deutsche Bank», Diário de Notícias, 9.12.2011, p. 35).
      «Mas a professora, quando pus a hipótese de me aportuguesar, informou-me que havia vários professores que desejavam conhecer-me e eu teria portanto de me aperrear outra vez no colete» (Conta-Corrente, Nova Série, III, Virgílio Ferreira. Lisboa: Bertrand Editora, 1994, p. 213).
[Texto 793]
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«De encontro a/ao encontro de»

A confusão continua

      «A escolha de Hugh Laurie, 52 anos, estrela da série televisiva Dr. House, para dar a cara pela nova campanha da marca de cosméticos L’Oréal não é inocente e vai de encontro ao novo homem com quem os homens se querem identificar (e que as mulheres querem ter)» («Retro, maduro, macho», Raquel Costa, Diário de Notícias, 9.12.2011, p. 28).
      A confusão continua. Cara Raquel Costa, se a escolha de Hugh Laurie fosse contra o «novo homem com quem os homens se querem identificar», o omnipotente marketing teria escolhido outra estrela. Neste caso, o sentido pedia a locução prepositiva ao encontro de, que se emprega para referir uma situação favorável.
[Texto 792]


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«Desconcertar»

Língua desconcertada

      De muito e diverso se fala aqui no blogue, mas se parece que perdemos tempo quando tratamos de estrangeirismos e matéria afim, não é assim. Pretende-se tão-somente ter consciência da língua que se fala. Por exemplo, desconcertar, no sentido de causar perplexidade, que não é hoje em dia muito frequente, não é galicismo em estado puro?
      «Isto de certa maneira desconcerta. Desde o princípio do século XIX que Portugal, em mais de um sentido, foi um protectorado inglês. A Inglaterra provocou na prática a independência do Brasil. A Inglaterra armou e pagou o movimento liberal para invadir o iníquo reino do senhor D. Miguel» («A nova sessão de patriotismo», Vasco Pulido Valente, Público, 9.12.2011, p. 44).
      Vem do francês déconcerter: «Surprendre quelqu’un, lui faire perdre l’assurance de son jugement ou de la conduite à tenir.» No tempo de Bluteau, apenas se desconcertava um relógio, um pé, um acordo. Agora, o desconcerto é universal. E a língua evolui — pois claro. Espera: «evoluir» não foi acoimado de galicismo?! Evoluciona, então. Evolve, seja. Evolute, e não se fala mais nisso. Esta, outra variante, Camilo usou-a, e agora os dicionários não a registam.
[Texto 791]
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