«Palavra de ordem», de novo

Mesmo entoada

      Muito bem: palavra de ordem vem do francês mot d’ordre e, já que não vivemos sem a expressão (lema ou divisa traduzirão bem a ideia contida na locução francesa?), pelo menos que se use adequadamente: «Estava marcada para se iniciar hoje a campanha “os dias da raiva”, movimento de contestação ao regime de Muammar Kadhafi, mas começou já ontem com milhares de líbios a saírem às ruas de Bengasi, entoando palavras de ordem que deixam pouco espaço para dúvidas sobre o sentimento popular neste país do Magrebe» («Começam ‘os dias da raiva’ contra o regime de Kadhafi», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 17.02.2011, p. 25). E lá está o gerúndio, como aqui...

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16 comentários:

Anónimo disse...

Sim, mas…
O gerúndio exprime muitos matizes da acção, e, absolutamente condenável, em princípio só quando se substitui a orações adjectivas a significar características permanentes do qualificado; já, nas meramente passageiras, há quem o admita (cf., creio, M. Rodrigues Lapa, «Estilística da Língua Portuguesa»: tenho-a, mas não comigo).

«…milhares de sírios a saírem às ruas de Bengasi, entoando palavras de ordem…»: «saíram às ruas… entoando»: este «entoando» parece contemporâneo da acção de sair, ou então subsequente a ela, e até exprimir uma acção acessória àquela.
Ouçamos a lição de Epifânio Dias para estes casos nos §§ 316 e 317 da «Sintaxe Histórica Portuguesa», de que extraio só o seguinte:
«§ 316. a) 4) A forma verbal em “-ndo” […] equivale a uma oração temporal de “quando”, ou de “como” (quando se supõe a sucessão de acontecimentos).
b) ou exprime: 1) um modo ou facto acessório da acção principal: “Cai vomitando fumarada e sangue” (Cast., “Fast.”, G1); “Um homem agigantado e de fera catadura saiu da choupana murmurando sons mal articulados” (Herc., “Eur.”, 175).

§ 317. a) O presente do particípio em “-ndo” designa o que é contemporâneo da acção do verbo subordinante. Todavia, não resultando ambiguidade, também se emprega falando do que antecede a acção do verbo subordinante: “Musa, o amir de África, desembarcando nas encostas da Espanha novo exército, rendia Hispalis e, atravessando o Ana, submetia ao jugo do califa todo o ocidente da Península Ibérica” (Herc., “Eur.”, 167).
Outrossim pode designar uma acção subsequente à do verbo subordinante.»

Quem não possuir esta obra portentosa (eu topei dois exemplares em alfarrabistas, um de cada edição: um felizardo!) pode consultá-la em linha, na Biblioteca Nacional Digital.
- Montexto

Anónimo disse...

Sim, Rodrigues Lapa, neste aspecto, também é demasiado latitudinário para o meu gosto. Não posso esquecer, porém, aqueles livrinhos sápidos e sábios dos clássicos em doses homeopáticas que prefaciou e anotou a preceito... E, sim, também é de boa regra fugir ao gerúndio, ou em todo caso não abusar dele, como se tende a abusar por preguiça, cedência ao menor esforço e ao franciú (ainda que este já foi chão que deu mais uvas), ignorância e falta de brio, o que dá à prosa um jeito derreadinho e invertebrado. Ainda assim, o caso em apreço parece-me enquadrar-se nas lições de Epifânio, e é fácil encontrar exemplos do mesmo naipe em quase todos os autores, incluindo os melhores.
Mas quem tende a evitar gerúndios conte sempre com o meu beneplácito.
— Montexto

Venâncio disse...

Rui Araújo,

O gerúndio que o governador brasileiro 'demitiu' é outro.

Trata-se de usos do tipo "Estou mandando um mail para ele", "Estamos viajando para Miami", anunciando uma acção próxima, usos que - quanto se sabe - andam grassando pelo seu belo país e que enervam governadores e gente pedestre.

Paulo Araujo disse...

Não, Venâncio, estes se usam e é uma das características da nossa variante; o demitido é algo do tipo:
'Vou estar mandando um e-mail...', ou 'vou estar viajando para o México.' É o gerundismo exacerbado.
Nasceu com a maldita prática do famigerado telemarketing, que eu nem traduzo para não corromper ainda mais o idioma.

Anónimo disse...

A propósito do emprego do gerúndio, Helder, lembrei-me agora de umas boas observações de Agostinho de Campos nas introduções aos volumes que consagrou a Eça na sua «Antologia Portuguesa». Já se está ver por quê: exactamente pelo maior uso e às vezes abuso desta forma verbal em que então se caiu com o «francesismo», para empregar o título de um famoso texto de Eça.
- Montexto

Venâncio disse...

Tem toda a razão, Paulo Araujo. Era (vejo agora) esse gerúndio que eu tinha em mente.

Anónimo disse...

«Vou estar mandando...»!!! Bem compreendo o velho Flaubert: realmente a estupidez não tem limites.
- Montexto

Anónimo disse...

A língua pode não os ter, mas a boa língua de certa época tem-nos de certeza, como a arte, o estilo e em geral as boas maneiras: «Art, like morality, consists of drawing the line somewhere» (Chesterton).
- Mont.

Anónimo disse...

Por falar de estupidez ilimitada: parece que a moderníssima Leire Pajín, a das igualdades, prossegue afanosamente a sua campanha de imbecilização de Espanha (cf. F. J. Viegas, crónica de hoje, em linha). A coisa há-de ter inspirado das boas a Pérez-Reverte!...
- Montexto

Anónimo disse...

Ainda ontem, à noite, a ler mais umas págs. de Fazer pela Vida, um retrato de Fernando Pessoa, o empreendedor, de A. Mega Ferreira, Assírio & Alvim, 2005, deparam-se-me estes exemplos:
• «Sai de casa e aluga um quarto na Rua da Glória, 4, apressando-se a pôr em prática a ideia que o obcecava», p. 41, mas frase citada de J. Gaspar Simões, Fernando Pessoa — Vida e Obra, 1.ª ed., p. 92;
• «As edições [...] dão-no [a um tal José Maria Martins] como industrial, condição que mantém em 1910 e nos anos seguintes, aparecendo no entanto, a partir de 1910, referido também como Proprietário», p. 53;
• «escrito provavelmente para edição, como tantos projectos seus, não passou das intenções, vindo a conhecer a publicação muito depois da sua morte», p. 127.
Destes são aos magotes, mas claro que os seus autores não os incluo precisamente no grémio dos que referi em anterior comento...
— Mont.

Venâncio disse...

Montexto,

Não sei se você sabe, mas ANTÓNIO MEGA FERREIRA é um habilíssimo prosador, decerto um dos dez melhores que temos de momento. Leia os contos de «As caixas chinesas» ou de «A expressão dos afectos» e certifique-se.

Anónimo disse...

Aqui lamento diversificar, Venâncio. Não desgosto de Mega, li-lhe Retratos de Sombras (cuido que é assim), e Roma serviu-me até de guia na urbe o Verão passado, e algo mais; aprecio-o sobretudo neste tipo de coisas — crónicas e coisas miúdas; mas daí a reputá-lo «habilíssimo prosador» vai uma distância que as minhas fracas forças não conseguem abarcar. Havia de lhe mostrar os meus exemplares: riscados de quinaus a cada linha!
— Mont.

Anónimo disse...

Mas, voltando à estupidez ilimitada, tema interminável — never ending, como adjectivou João Paulo Martins certa pinga recentemente na Revista de Vinhos. A propósito, hoje em dia quem quiser apreciar poesia genuína perlustre guias de vinhos: a pouca que resta refugiou-se lá toda, — acabam de me contar uma que não se pode perder em pouca gente. Pois bem: disse-me um amigo que a professora de música do seu filho encarregou a criança, de 10 anos, de dissertar sobre o significado de 4'33'', do inefável John Cage.
Digna de entrar direitinha para a sequela do dicionário de Flaubert que, sem falta, alguma boa alma se encarregou ou encarregará de continuar...
— Mont.

Venâncio disse...

«Havia de lhe mostrar os meus exemplares: riscados de quinaus a cada linha!»

Há no classicismo uma sumptuosidade desumana. Eu gosto. Mas sou um degenerado.

R.A. disse...

Caro Venâncio,
O meu nome não é Rui Araújo.

Venâncio disse...

Peço desculpa, R.A.

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