Como se escreve nos jornais
16.2.11
Mexerufada
«A receita da Coca-Cola foi ontem revelada por um programa de rádio norte-americano e nela podemos encontrar ingredientes que, curiosamente, poderiam fazer parte de qualquer prato da culinária nacional. Além destes, o sabor (até agora) secreto, chamado de “7X”, leva óleos de laranja, limão e noz moscada, além do óleo de néroli, produzido a partir das flores de laranjeira Bergamota» («O segredo da ‘Coca-Cola’ vazou na Internet», Bruno Abreu, Diário de Notícias, 16.02.2011, p. 18).
No artigo diz-se que John Pemberton foi o inventor da Coca-Cola, uma «bebida alcoólica intelectual e medicinal». (Há-de ser isto.) Na coluna da esquerda, lemos que Pemberton nasceu na Geórgia; na coluna da direita, lê-se duas vezes Jórgia. E mais: John Pemberton «sobreviveu à Guerra Civil Americana com uma adição à morfina». Quanto a «néroli»: é o nome comercial do óleo extraído de flores de laranjeira. Nem todos os dicionários acolhem o vocábulo.
[Post 4442]
edit
11 comentários:
O seu comentário a esta entrada lembrou-me de uma dúvida que tenho há algum tempo - será mais correcto dizer "adição" ou "dependência"? É que "adição" soa demasiado parecido a "addiction", parecendo mesmo ser uma das traduções literais tão em voga na nossa imprensa, mas como estamos numa área especializada, nunca quis tirar conclusões precipitadas.
Procure no blogue, há várias entradas sobre essa questão.
Sei bem que o AO90 trata de escrita, mas a fala influencia em algumas questões, mormente na das consoantes ditas mudas.
Além do mais, faço clara menção ao verbo GRAFAR na sequência, relacionando a fala com a escrita, e minha dúvida sobre se alguma coisa se alteraria ali com o Acordo.
Houaiss, 2004:
"adicção s.f. (1566-1567 cf. DGóisM) ant. m.q. dicção ¤ etim a- + dicção; ver diz- ¤ par adição(s.f.)"
E a palavra é bastante antiga, a ponto de assim ter sido marcada. Tanto neste, como no Aulete, como sinônimos de dicção, não antônimos.
Ora, aí está o Aurélio para não me deixar mentir. Também estava lá o Saramago, e estão os 40 mil registros recuperado pelo Google. E, ainda que lá não estivesse, não seria caso de dizer que não existe só por não constar em dicionários; somos mais instruídos do que a malta para assim pensar.
Veja lá em qual você encontra "adultez". Eu não a achei no Houaiss, nem no Aurélio, nem no Aulete digital, nem no Priberam (são os poucos a que tenho acesso), mas a lia à exaustão quando trabalhei com revisão de textos num periódico acadêmico sobre envelhecimento. Estranhei a princípio; tencionei trocá-la por "adultícia", mas não mo deixaram: que o meio científico consagrara aquele empréstimo.
Diremos que não existe ou que é errado? Eu, não. Posso não gostar e julgar desnecessário (a questão da necessidade é sempre muito subjetiva, enfim).
Paulo Araújo,
Agradeço a correção. Li ant. por "antónimo" e afinal era "antigo".
Já dei uma bengalada a mim mesmo!
C. Kupo,
Se aceitarmos o que diz o Aurélio, que a palavra adicção existe na língua portuguesa, então julgo que em Portugal a devemos grafar mantendo o c por não ser mudo.
Mas eu acho que o Aurélio não tinha necessidade de a dicionarizar. É uma opinião como outra qualquer...
Não me referi a 'adicto', no sentido de dependente, viciado, porque este é tão comum aqui que quase todos os dicionários o registram.
Lembro apenas que, se bem pensarmos, adicto (e por extensão, adicção), neste sentido atual, não é tão bife assim, pois em latim quer dizer escravizado. Se adicto é bife do inglês, o inglês deve considerar 'addict' como 'caro, carnis' do latim? Há outros casos: a informática nos trouxe de volta o 'deletar', via bife, mas é latim do bom. Imagino o que pensavam os ingleses quando subjugados pelos normandos, por mais de 200 anos, foram bombardeados com tanto latim, via francês; seria 'viande', para eles? Hoje, o vocabulário inglês é quase 60% de origem remota latina, tornando-o uma língua estranhamente germânica.
«Como hão-de eles agora justificar o apoio aos manifestantes anti-Ahmadinejad em Teerão depois de terem escrito o que escreveram sobre os manifestantes pacíficos que conduziram ao derrube da ditadura no Cairo?» (Pedro Correia, blogue Albergue Espanhol, hoje).
NB: como hão-de eles justificar (bem), e não: como haverão eles de justificar (mal).
Um bom exemplo da construção perifrástica acima aludida.
— Mont.
Concordo com o Montexto; não conhecia em que acepção Saramago usou o termo adicto; concordo também com sua assertiva sobre o que chama de confusionismo; infelizmente, toda fala é polissêmica pela preguiça em buscar o termo novo ou um outro mais adequado para as inovações. Pauto-me sempre pela etimologia de 'corte' /ô/, que vai do galinheiro ao ambiente do rei.
Salvo sua opinião, cohors, ortis é o étimo remoto de ambas, que perderam o 'h' no latim vulgar; a quadra de tênis, o ambiente real, a cortesia das pessoas educadas, o galinheiro, a pocilga, a tropa, o tribunal, tudo vem do mesmo étimo, mais pela semelhança da forma (quadrilátero) que por outras razões lógicas, seja corte /ô/, seja corte /ó/.
Com efeito, assim também no já aqui citado I. Xavier Fernandes, «Questões de Língua Pátria», Ed. da Revista Ocidente, Lisboa, 1947, vol. II, pp. 65 e 77-78, incluídas nos capítulos «alotropismo, polimorfismo e sincretismo» e «homotropismo», da p. 38 a 83 (por coincidência vou na p. 37), mas distinguindo a pronúncia do «o» nas duas palavras:
«- "Corte" (acto ou efeito de cortar) - é nome pós-verbal, pois se derivou de "cortar" e este, por sua vez, do latim "curtare". (curral ou lugar onde se criam certos animais domésticos) - do latim "cors-cortis", variante reduzida de "cohors-cohortis", cerrado, pátio para gado, etc.
Além de "cors" e "cohrs", houve em latim também uma forma intermediária, "chors", empregada [e não "empregue", note-se, como se escreve para aí agora - com os pés] de preferência em poesia por conveniência métrica. O vocábulo é o mesmo que aparece também com o significado militar de "coorte", décima parte de uma legião entre os antigos Romanos. Note-se ainda que a "corte" (dos porcos, por exemplo) e a "côrte" (dos monarcas) são precisamente a mesma palavra, quanto à etimologia, é claro, embora as costumemos distinguir na pronúncia.»
Portanto, lá riba, onde digo «com étimos também diferentes», leia-se «com o mesmo étimo».
- Montexto
Enviar um comentário