Dequeísmo
24.12.10
Só o título
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Gramática
«PJ suspeitou de que Evaristo fosse traficante» (Miguel Ferreira, Diário de Notícias, 23.11.2010, p. 23).
Vê-se este erro também nos livros, mas na imprensa, pela ignorância catalisada pela pressa, é muito mais encontradiço. É até erro com nome: dequeísmo. O verbo suspeitar, à semelhança de outros, só se constrói com complemento oblíquo ou preposicionado quando encerra um grupo nominal («suspeito dos seus conhecimentos gramaticais»), mas já não é assim quando ocorre com uma completiva, como no caso acima: PJ suspeitou que Evaristo fosse traficante.
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9 comentários:
Só posso lembrar aquela frase d’O Monge de Cister: «Passam por nós momentos de idiotismo, em que a nossa alma parece dormitar.» Da mesma página, recordo também estoutra: «Importa, que tambem eu tenho revelações que te fazer, e o nome dessa mulher, suspeito que não é inteiramente alheio aos successos que vaes ouvir. Como se chama ella?» (A. Herculano, O Monge de Cister, 11, 321)
Valha-me Deus!
Herculano disse bem, quando escreveu «suspeitei que», e teria dito bem se escrevesse «suspeito de que». No mesmo caso estão verbos como «gostar, advertir, informar, certificar, prevenir, folgar, duvidar, contentar», etc., que tanto se constroem só com «que» como com «de que». E o mesmo se diga da partícula «em», com verbos como acreditar, crer, e também folgar, atentar, advertir, reparar, contentar», que regem «de» e «em», e alguns até «com». Em todos estes casos, quando a qualquer dos referidos verbos se segue, não um nome, mas uma oração finita introduzida por «que», a partícula ou preposição, seja ela «de» ou «em», que liga tais verbos à oração, tanto pode declarar-se como calar-se.
Veja-se, para já, a preposição «de» na «Enciclopédia Brasileira», em que se consigna que a prática da omissão da partícula era até mais frequente nos clássicos. E Mário Barreto é quase exaustivo sobre isto no «Através do Dicionário e da Gramática».
Só se a idiotia tomou toda esta gente, incluindo os autores em que se louvam. Não é provável.
Vejam-se os próximos capítulos.
- Montexto
Caro Helder,
1. Os clássicos são muito elásticos.
2. A nova hipercorrecção é evitar DE QUE, por medo de que se pense de que...
Veja que pensamentos natalícios nos assaltam!
E encontrar-se-á algum fora da Internet que diga algo diferente?
Calma, Montexto. Disso que afirma já eu tinha notícia. Dicionários de verbos actuais não registam essas formas, e a sapiência de alguns de nós alcança essa ignorância.
Uma das características distintivas do erro costuma ser a actualidade. «Delenda» os dicionários de verbos actuais. Ou então uivemos com a alcateia.
- Montexto
QUE ou DE QUE em casos como SUSPEITO DE QUE ERRAS e SUSPEITO QUE ERRAS e outros que tais – II
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Lauro Portugal, «Gente Famosa também Dá Pontapés na Gramática», Roma Editora, 2.ª ed., 2005:
. P. 67 e 73, 77, «convencido de que», e não «convencido que»;
. P. 70, «ter a certeza de que», e não «ter a certeza que»;
. P. 73, 87, «não tenho dúvida de que», e não «não tenho dúvida que»;
. P. 89, «daquilo de que estamos convencidos», e não «daquilo que estamos convencidos»;
. P. 96 «aquilo de que gosto», e não «aquilo que gosto» nem «o que gosto»;
. P. 103, «informe-os de que não vamos, e não «informe-os que vamos».
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Vasco Botelho de Amaral, que deixei para o fim de propósito, pelo interesse destas suas observações, extensíveis a vários casos do mesmo naipe, e que é bom ter presente.
. «Estudos Críticos da Língua Portuguesa, 2 Contra os Gramáticos», Edição do Autor, 1948, p. 215 e 216: «A transitividade e a intransitividade, as regências, o emprego dos verbos como activos, como neutros, como reflexos, como pronominais”, etc., tudo isso dificilmente pode ser sistematizado rigidamente, porque o estilo muita vez rompe com as normas consideradas inflexíveis.
Os maiores autores surpreendem por vezes com boleios sintácticos que os dicionaristas não registam.
Por exemplo, obedecer (já o disse eu mesmo) não pode empregar-se como transitivo directo. No entanto, eu li em Vieira: «nem a deus se podem perguntar os porquês: “obedecê-los” sim, muda e cegamente.» («Sermões», pág. 49, ed. 1748).
Outra redacção inesperada: «quem “se não concorda com ele?”» («Sermões», pág. 89, ed. 1748, XV).
A expressão geral pode regular certa sintaxe; a expressão de um autor pode registar um meneio especial. Só os gramáticos tacanhos considerarão “deficiência” a fuga acidental à sintaxezinha costumeira.
Eu, a orientar quem não sabe, aconselho a que “obedecer” não se use como transitivo directo. Mas não ouso criticar Vieira, diante daquela sua redacção.
É tão legítimo redigir “aludir que” (= “aludir a que”) como legítimo é escrever “persuadir a que, persuadir que, persuadir de que, etc.
Há entre gramática e estilística um abismo profundíssimo», etc. [Eu não acho que seja assim tão profundo, mas enfim, isso são outras guerras...]
. «Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português», Livraria Simões Lopes, 1947, p. 130: A propósito de um leitor que julgava errada certa locução: «Ora aqui está uma doença psicológica um tanto grave: a preocupação exagerada do erro. Há pessoas que em tudo vêem erros.»
Depois disto, se alguém persistir em considerar única válida a locução «suspeitar que, duvidar que, informar que, assegurar que, certificar que, prevenir que», e outras que tais, está no seu direito pessoal, fundamental e inalienável, como nos ensina a Constituição, e como fazia já não sei que parlamentar inglês, que ouvira milhares de discursos, e confessava que poucos mudaram a sua opinião, e nenhum o seu voto. Mas lembra-me a anedota do condutor que seguia pela auto-estrada, quando avisaram pela rádio que nessa via circulava um carro na contramão (como diz o «Aurélio»), e ele: «Um?! São mil, homem! Mil!»
- Montexto
P. 153: «Duvidar de que» e «Deus», com maiúscua, claro. Para o bem ou para o mal, não somos o valter hugo mãe.
- Mont.
«QUE», «DE QUE»: ÚLTIMO CAPÍTULO
Sobre este tema de regência verbal, e mais precisamente da regência de verbos como os acima referidos, e mais precisamente ainda do emprego da partícula «de», declarando-se ou calando-se quando se lhe segue proposição iniciada por «que», leia-se «O Modernismo Brasileiro e a Língua Portuguesa», de Luiz Carlos Lessa, Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 1966, «Segunda Parte, cap. 1, Regência Verbal», p. 199 e ss., de que traslado os seguintes passos:
«O que torna embaraçosa esta matéria não é apenas o fato de, frequentemente, um mesmo verbo admitir diferentes construções, variando o seu significado de acordo com a alteração da regência. É também, e sobretudo, uma tal ou qual facilidade que os verbos manifestam de, conservando o mesmo sentido, evoluírem quanto a regência, passando de intransitivos a transitivos, ou de transitivos directos a indirectos, e vice-versa. […]
A evolução constante – destino inelutável dos idiomas – é, portanto, particularmente sensível e constatável em matéria de regência verbal, e aqui, mais talvez que em muitos outros pontos, urgiam pesquisas na literatura hodierna. [….]
É frequente, na língua portuguesa, a elipse da preposição “de” antes da conjunção integrante.
Além das construções “avisar que”, “convencer que”, “esquecer-se que”, “informar que”, “lembrar-se que”, às quais se encontram referências neste capítulo, também são bastante usuais frases como “tenho certeza que”, “temos a impressão que”, “não há dúvida que”, “corre a notícia que”, “gostaria que” […], “e poderia suspeitar-se que falava sozinha…” (C. Drum. And., 111).
É bem verdade que a todas essas frases se poderia aplicar o que escreveu Aires da Mata Machado Filho, referindo-se a “avisei-o que” e “informei-o que”: “Tal sintaxe deixa a impressão de coisa mal acabada” (“A Correção na Frase”, p. 95). Por isso mesmo, parece-nos que será desejável que se procure evitar essa omissão do elemento prepositivo antes da conjunção integrante “que”. Mas não se poderá dizer que erram os que praticam a elipse em apreço.»
O que, segundo Luiz Carlos Lessa e Aires da Mata Machado Filho, precisa de justificação e tolerância é a elipse da preposição “de” antes da integrante “que”, e não o seu emprego. Mais clarinho não conheço.
Mas nem sei para que é tanto livro, doutor e autoridade para coisa tão comezinha, correntia e corriqueira: o mero, humilde, mas raro (ao revés do que afirmava Descartes, de quem muito me custa dissentir neste ponto, mas lá terá de ser), bom senso e a imprescindível sensibilidade («Jane Austen for ever») , coadjuvado pela higiénica leitura dos clássicos e outros autores que se dignaram aprender a sua língua, bastam a pôr as coisas nos seus consuetos e devidos eixos.
O dói reside nisto: quem compulsa hoje, já não digo com mão diurna e nocturna, mas com honesta regularidade, as veneráveis páginas de Bernardim, H. Pinto, Sousa, Arrais, Lucena, Vieira, Melo, Bernardes, da «Arte de Furtar» e Castilho? Pois só com estes e alguns mais à cabeceira se conhecerão não só as estradas reais, mas também os atalhos, veredas e caminhos de pé posto da língua portuguesa.
Montexto
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