«Troika/tróica»

Ou «tróica», melhor

      «A troika chateia. Porque havemos nós de aturar esta palavra para falar de três anónimos mandões que não conhecemos nem escolhemos de parte nenhuma, quando tem tanta hora literária? Por exemplo, na genial primeira parte das Almas Mortas de Gogol, nomeando os três cavalos que puxam a carruagem do putredinoso Chichikov?» («Qual troika», Miguel Esteves Cardoso, Público, 6.05.2011, p. 45).
      Chateia mesmo. E, tanto quanto sei, nem sequer um jornal ou revista escreveu «tróica» (ou «troica», vá, que o Acordo Ortográfico de 1990 anda por aí). É nestas pequenas coisas que se nota a força da maioria — e dos maus conselhos. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, lê-se: «tróica ⇒troika». Está tudo dito.

[Post 4749]

Infinitivo pessoal

A troika

      «Muito manifestamente, os senhores a que pedimos para mandar em nós, depois de observarem a balbúrdia indígena, não têm confiança nos portugueses para tratar sem ajuda dos problemas de Portugal» («O mau aluno», Vasco Pulido Valente, Público, 6.05.2011, p. 48).
      Temos duas acções — pedir e mandar — e dois sujeitos, «os senhores» e «nós». Para distinguirmos, não devemos usar o infinitivo pessoal ou flexionado?

 [Post 4748]

Linguagem

Falar por catacreses

      «[…] e por isso mesmo seria devastadoramente mais esperto, para o seu tempo.» Um toque queirosiano? Hum... «Noutras línguas acontecem casos semelhantes. Por exemplo, em inglês awful é medonho; o que não impede, em calão (em slang), se diga — She is awfully beautiful, ou seja, à letra, é medonhamente bela..., mas com o significado de — é formidàvelmente (extraordinàriamente) bela. Ora, os tropos são admissíveis e necessários. Sem êles, nunca poderia a arte literária enriquecer-se de modos de dizer expressivos, brilhantes, ou, melhor, vivos. Tudo tem, no entanto, os seus limites e, à sombra das concessões dos tropos, não podemos abusar do sentido das palavras» (Meditações Críticas sobre a Língua Portuguesa, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Edições Gama, 1945, pp. 194-95).
[Post 4747]


Léxico: «utility»

Chefe da oposição

      Então o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista tarseiro (não confundir com traseiro) e esqueceu-se de siamangue? O primeiro designa um género de mamíferos lémures de tarsos muito compridos, e o segundo é também conhecido como gibão-siamango (Symphalangus syndactylus).
      Não venho aqui apenas por isto, mas para lamentar que Pedro Passos Coelho, na entrevista de ontem, tenha usado o anglicismo utilities assim sem mais nem menos. Utilities são empresas de fornecimento de electricidade, gás e água, por norma consideradas empresas de utilidade pública e pouco sensíveis aos ciclos económicos. Só os economistas é que deviam falar assim — mas apenas quando falam para outros economistas.

[Post 4746]

Ortografia: «Jedá»

Em português

      «Chegado à Arábia Saudita quando ainda não havia país com esse nome, Mohammed Bin Laden fez todo o tipo de trabalhos menores na cidade de Jedá, até lhe caber uma empreitada no porto da cidade que, parece, chamou a atenção da Casa de Saud» («Na morte de Osama», Rui Tavares, Público, 4.05.2011, p. 40).
      Até no Diário de Notícias se usa habitualmente a grafia Jeddah. Ora, devemos sempre preferir uma grafia portuguesa.
[Post 4745]

Léxico: «retroiluminação»

Nada de novo

      «A retroiluminação permite adaptar o ambiente consoante a cor e intensidade da luz» («‘Sushi’ cosmopolita com exclusividade», Davide Pinheiro, Diário de Notícias, 3.05.2011, p. 60).
      Vem do inglês retroillumination, e, se ainda não se encontra registado nos dicionários gerais de língua inglesa, por cá já o temos no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Não, não é preso por ter cão, preso por não ter cão. Parece algo muito moderno, mas a verdade é que há muito tempo que se usa no campo da medicina, pois é a designação dada à técnica de examinar tecidos transparentes e semitransparentes (como a córnea) fazendo incidir uma luz pela parte de trás desses tecidos. Infelizmente, vê-se muitas vezes incorrectamente escrita, com hífen. Contudo, é retroiluminação, como retroactividade e retroalimentação, por exemplo.
[Post 4744]

Como se escreve nos jornais

Ficamos sem saber

      «No discurso de abertura desta reunião ‘magna’ dos bispos portugueses, D. Jorge Ortiga exortou os políticos a debater “o estado da sociedade portuguesa com ideias claras e propostas autênticas”» («Bispos pedem campanha eleitoral com “transparência e honestidade”», P. C., Diário de Notícias, 3.05.2011, p. 24).
      Mas a reunião foi magna ou não? Rápido, que eu tenho de ir tomar o pequeno-almoço. Magna: que, pela importância, se sobrepõe a tudo o que lhe é congénere; de grande relevância, como o define o Dicionário Houaiss.
      «Realisou-se essa reunião magna na sala principal do palacete situado na rua da Atalaia, onde annos depois vieram a estabelecer-se as officinas do jornal O Economista, do conselheiro Antonio Maria Pereira Carrilho» (Factos e Homens do Meu Tempo, Pedro Wenceslau de Brito Aranha. Lisboa: A. M. Pereira, 1908, p. 225).
[Post 4743]

Léxico: «geopolitólogo»

Do mesmo jaez

      «Apesar dos 25 milhões de dólares oferecidos pela sua captura, Ben Laden insistia em escapar à superpotência ferida, refugiando-se naquilo que os geopolitólogos chamam Af-Pak, tanto a ameaça islamita no Afeganistão e no Paquistão se confundem hoje em dia» («Ben Laden está morto, a ameaça terrorista não», Diário de Notícias, 3.05.2011, p. 16).
      O que se disse sobre «politólogo» pode dizer-se de «geopolitólogo». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não perde a oportunidade: «Sugerir a inclusão no dicionário da palavra pesquisada.» Tomem, agarrem-na.

[Post 4742]

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