Revisão

Uma brincadeira

      Desde o início de Janeiro, o Assim Mesmo já teve mais de 80 mil visualizações. Não ando, afinal, a trabalhar para o boneco. Bem, mas isso agora não interessa. Obra de não ficção, pouco mais de 200 páginas, 616 advérbios em –mente. Vamos lá expungir metade. É um dos objectivos.
      (Esta parece uma mensagem tuitesca, mas não. Alguma associação de ideias, que não quero reconstituir, trouxe-me à mente as four letter words de MEC — boa noite, Miguel — e pensei como seria bom termos algo semelhante a isto em português.)

[Post 4644]


Acordo Ortográfico

Fahrenheit 451

      Só hoje vi o novo livreco da Porto Editora sobre o Acordo Ortográfico de 1990. Já tinha lido isto no sítio da editora: «Entretanto, a Porto Editora anuncia a publicação de Acordo Ortográfico — As Novas Regras, Todas as Palavras que Mudam, um livro prático que promete constituir-se numa edição de referência para todos os portugueses.»
      Ora vejamos só um exemplo de como a publicaçãozinha não merece que se depositem nela tais esperanças. Página 29: «cor-de-rosacor-de-rosa ou cor de rosa». A sério?! Mas no n.º 6 da Base XV («Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares») do AOLP pode ler-se: «Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa).» Não queria ler mais, mas ainda li na mesma página isto: «cor-de-laranjacor de laranja». Chega: isto não é gato por lebre, é papel por livro. Desembrulhe, se faz favor.

[Post 4643]

Símbolo do euro

Esquerda, direita

      O símbolo do euro deve figurar à esquerda ou à direita dos valores numéricos a que diga respeito? Voltei ontem a reflectir sobre este assunto lá na redacção (algures). Em 1999, um tal D, consultor do Ciberdúvidas, respondia assim: «Segundo o Sistema Internacional de Unidades (que Portugal também respeita), os símbolos das unidades colocam-se “após um pequeno espaço, no mesmo alinhamento e à direita do valor numérico a que se referem”.» Em 2001, D’ Silvas Filho concluía assim uma consulta: «Quanto ao símbolo, penso que se deverá escrever € 40.» D e D’ Silvas Filho são uma e a mesma pessoa? Não é por nada: eu também mudo de opinião, sempre na esperança de acertar. Julgo que esta mudança de opinião, se o foi por se tratar do mesmo consultor, não foi no bom caminho. Para mim, o que faz sentido é que se grafem à direita do valor numérico a que se referem, justamente por se proceder do mesmo modo com os restantes símbolos de unidades. Está aberta a antena.


[Post 4642]

Como se fala na rádio

Vão falando

      Na Antena Aberta, o comentador de assuntos políticos da Antena 1 Raul Vaz estava agora mesmo a falar do «day after após 5 de Junho». Isto é que é falar.
      Mas venho aqui por outro motivo. Vejam este título de hoje no Público: «Ajuda está a chegar mas é um castigo trabalhar em Fukushima» (Clara Barata, Público, 1.04.2011, p. 19). Tem a sua graça, não acham?, este uso informal do vocábulo «castigo». O Dicionário Houaiss versão electrónica (que não o outro, acabei de confirmar) regista que é, nesta acepção (actividade que se cumpre contra a vontade), regionalismo do Brasil. Doce engano. Vinde cá ouvir-nos, caros dicionaristas brasileiros, e sabereis se é mesmo vosso como afirmais.

[Post 4641]

Léxico: «twitteresfera»

Mais uma esfera

      «Em relação ao português, a Time escreve que “José Afonso Furtado é o Borges do Twitter”, comparando-o com o escritor argentino Jorge Luís Borges. “É um bibliotecário português que transporta a sua paixão não adulterada pelos livros e o universo editorial para a Twitteresfera”, acrescenta» («Bibliotecário português no top 50 do Twitter», Cláudia Carvalho, Público, 1.04.2011, p. 15).
      É a primeira vez que os meus olhos pousam em tal palavra. Twitteresfera. Aqui pelo menos não haverá hesitações, como aconteceu com bloguesfera/blogosfera. Ou sim: porque está grafada com maiúscula inicial?
      (Isto dos nomes próprios tem muito que se lhe diga, mas, em espanhol, Luis não tem acento, porque é monossilábico. Logo, Jorge Luis Borges.)

[Post 4640]

Léxico: «sobrepesca»

À sobreposse

      «Extinção foi na década de 1980, devido à sobrepesca, poluição e barragens» («Já houve esturjões em Portugal», Teresa Firmino, Público, 31.03.2011, p. 26).
      Talvez nenhum dicionário registe o vocábulo «sobrepesca». E seria necessário? Bem, tanto como sobrepreço, por exemplo, ou sobrepeso, ou... Ofereço a singela definição aos dicionaristas: «pesca além do que seria normal, ou em excesso».
      Então agora vejam como neste jornal, inconscientemente, se vai piscando o olho ao Acordo Ortográfico de 1990, apesar de ser um reduto contra a nova ortografia (e uma promessa para certo nicho de mercado): «Vivia no mar e, na altura da reprodução, subia os rios portugueses para desovar. As bacias do Douro e do Guadiana eram então a casa do Acipenser sturio, a espécie de esturjão que já existiu em Portugal. Era apanhado para ser comido, não para fazer das suas ovas a famosa conserva chamada caviar, explica a bióloga Fátima Gil, do Aquário Vasco da Gama, em Lisboa. Mesmo assim, um dos seus nomes vulgares era peixedo-caviar. Chamavam-lhe também esturjão, esturgião, esturião, esturjão-real, peixe-cola, solho, solho-grande e solho-rei. Em Portugal, hoje está extinto na natureza. O último rio que visitou foi o Guadiana, na década de 1980» («Já houve esturjões em Portugal», Teresa Firmino, Público, 31.03.2011, p. 26).

[Post 4639]


Como se escreve nos jornais

Mas não sai

      Na redacção. Não são dos piores. Mas uma jornalista escreveu que «Nuno Alves Pereira levou a sua hoste para a Herdade dos Atoleiros, 2,5 km a sul de Fronteira». E, como escreveu duas vezes o nome daquela maneira, decerto que pensará que é assim mesmo. Nun’Álvares Pereira, vamos lá usar até o apóstrofo. Não são dos piores, mas a pontuação? Mais um estágio no Inferno. Ou no Paraíso?

[Post 4638]

«Acto contínuo»

E falhado

      «Talvez por ter ouvido a voz do dono ou por qualquer outra razão seguramente de intervenção divina, o certo é que o cavalo, acto imediato, deu um valente coice numa rocha. Para espanto de toda a comitiva real, a rocha cedeu e dela começou a brotar água» (Mafalda Lopes da Costa, Histórias Assim Mesmo, 29.03.2011).
      Sempre ouvi, li, usei e confirmei agora mesmo — acto contínuo, isto é, em seguida, imediatamente; sem interrupção, continuamente. Só porque «contínuo» e «imediato» são parcialmente sinónimos não vamos agora substituir termos de uma locução fixa, não é? Como? Sim? Estão aqui a dizer-me que Lídia Jorge também usa, e não poucas vezes, esta expressão: «Acto imediato, a porta escancara-se sobre o hall, e a tia Gininha, carregando ao colo a bebé Artemisa, com os dois bracinhos levantados, surgiu do interior das paredes atapetadas» (O Vento Assobiando nas Gruas. Revisão tipográfica: Filipe Rodrigues. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 5.ª ed., 2006, p. 428). Aqui, também faltou um revisor filológico. Para atingir a lábil imortalidade, António Lobo Antunes há muito que se muniu de um.
      O erro talvez tenha origem no cruzamento da expressão acto contínuo (imediatamente) com a expressão de imediato (imediatamente). Para confundir ainda mais, podíamos também falar da locução, agora caída em desuso, de contínuo.

[Post 4637]

Arquivo do blogue