«Confucianismo/confucionismo»

Quase não há escolha

      «O confucianismo não é tanto uma religião no sentido ocidental da palavra como sobretudo uma moral, baseada no equilíbrio cósmico e procurando a integração social» («As religiões místicas», Anselmo Borges, Diário de Notícias, 26.02.2011, p. 70).
      Talvez não haja dicionário que não registe as duas variantes: confucianismo e confucionismo (não confundir com confusionismo, mal endémico diagnosticado por mim e por Montexto), e ambas são usadas, talvez com a mesma frequência. No verbete desta última, o Dicionário Houaiss regista que é forma não preferível da primeira.

[Post 4496]

E/mas

Conjunções infelizes

      «Kilbourne, nascido a 10 de Julho de 1920 nos EUA, reformou-se com 80 anos, mas dedicou grande parte da vida profissional a estudar as doenças infecciosas» («Uma vida a desenvolver novas vacinas contra a gripe», H. R., Diário de Notícias, 26.02.2011, p. 57).
      O e pode ter valor adversativo; o mas nunca indica conexão ou adição.

[Post 4495]

Linguagem

Contra-ataque

      Ontem decidi perder tempo a ver a primeira emissão do novo programa de Nicolau Breyner, Nico à Noite. Parecia uma imitação bera do pior Herman José. A displicência e a galhofa com que entrevistou Eurico Cebolo, um ex-professor de Música, chegou a indignar-me. Bem, mas não sou crítico de televisão. 
      O sidekick do programa também não surpreendeu: não deu uma para a caixa. Em Julho volto a ver televisão.
      No Contra-Análise, na RTPN, a propósito de escutas ilegais, disse Correia de Campos: «Tal como é lamentável [sic] as transcrições por escrito de telegramas que são feitas no Wikileaks.» Haverá transcrições orais?
[Post 4494]

Ortografia: «braço-direito»

Taras

      «E o que levou a tanta revolta? O Governo acabava de anunciar que daqui a dias a velocidade máxima nas auto-estradas espanholas passará de 120 km/h para 110. Julgando que só o dinheiro motivaria os cidadãos, o ministro Pérez Rubalcaba (o braço direito de Zapatero) adiantou a poupança a que levaria a diminuição da velocidade: menos 18 milhões de barris de petróleo importados por ano» («“Não mexam nos meus pedais!”», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 26.02.2011, p. 72).
      Há quem dê nome a partes do corpo (normalmente os homens em relação ao seu membro viril). Neste caso, é Zapatero que ao seu braço direito chama ministro Pérez Rubalcaba. Taras... Já vimos esta questão mais de uma vez: aqui, aqui e aqui.
      Também tenho dúvidas sobre a localização de um gerúndio na crónica de Ferreira Fernandes: «Mas isso sendo despesas públicas, e pouco interessando, logo ele passou para as vantagens pessoais de cada condutor: poupança de 11% no consumo de gasóleo e de 15% de gasolina (parece que a máxima eficiência energética dos automóveis é à volta dos 90 km/h, a partir daí havendo cada vez maior desperdício)» (Idem, ibidem). Não seria melhor escrever «havendo a partir daí cada vez maior desperdício»?

[Post 4493]

«Esplanada/terraço»

Era assim

      «John Galliano foi detido pelas autoridades francesas na sequência de um incidente ocorrido no bairro judaico de Marais, situado em Paris. Várias testemunhas presenciaram o momento em que o famoso criador da Casa Dior se dirigiu a um casal, que se encontrava no terraço de um café parisiense, com expressões racistas e anti-semitas» («Dior suspende Galliano por comentários racistas», Márcia Gurgel, Diário de Notícias, 26.02.2011, p. 69).
      Não sei quando se passou a designar por «esplanada» o que a jornalista chama «terraço», mas nas primeiras décadas do século XX era esta última a única que se usava. Seja como for, vêm ambas, directa ou indirectamente, do francês, mas «esplanada» não traz nenhuma ambiguidade. A jornalista usou o vocábulo pela mais óbvia das razões: a imprensa de língua inglesa que refere o incidente usou a palavra «terrace». Um mero exemplo, no Guardian: «The flamboyant designer, who is head of the French couture house Dior, was arrested in the Marais district after allegedly verbally accosting a couple sitting on a cafe terrace.» Já temos sorte que não tenha escrito «estilista flamboiã»…

[Post 4492]


Como se fala na rádio

Leva um R.

      José Guerreiro, no noticiário das 7 da tarde na Antena 1: «António Mouzinho, o presidente... ahn... o líder da ANTRAM entrevistado pelo jornalista Miguel Videira.» Como é que se pode «corrigir» de «presidente» para «líder»? Já aqui vimos este modismo idiota.

[Post 4491]

Como se escreve nos jornais

Atirou mal

      Estão a ver ali o «prime-time» hifenizado no texto de Fernanda Câncio? Muito bem. Agora vejam este excerto de outro artigo: «O presidente da Câmara de Vila Nova de Gaia foi, de resto, o primeiro dos três convidados a entrar em estúdio. “Já era justo que o Nico tivesse um talk show em prime time na televisão portuguesa”, disse o autarca» («Nicolau Breyner regressa ao ‘prime time’ entre políticos», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 25.02.2011, p. 9). E agora leiam o que se recomenda no Livro de Estilo do The Times: «Prime time noun, primetime adjective.» Vai sendo mais necessário saber inglês do que português... Neste último artigo, temos prime time, talk show, stand up comedy, sketches e esta aberração: «Também Nuno Eiró está de regresso, após ano e meio afastado do pequeno ecrã. “Sou o sidekick do programa. Estou no exterior, tenho intervenções em estúdio... É um regresso com muito prazer porque é com o Nico”, atirou» («Nicolau Breyner regressa ao ‘prime time’ entre políticos», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 25.02.2011, p. 58).
[Post 4490]

Como se escreve nos jornais

Mettre en poche

      «Não é à China, nem à Rússia, nem à Venezuela, nem ao Brasil; nem tanto, sequer, aos países da zona. É aos que historicamente culpam por todos os seus males e que forjaram cumplicidades com todos os ditadores em causa — mesmo os que, como Kadhafi, mandaram abater aviões civis europeus — em troca de petróleo, contenção da imigração e investimentos bilaterais, os que empocham sorridentes o dinheiro das oligarquias e fecham os olhos a todas as violações de direitos humanos que não apareçam em prime-time (só agora é que a Suíça percebeu que Mubarak e Kadhafi são facínoras, para decidir congelar-lhes as continhas?) que os líbios e os bahreinianos pedem apoio: a velha Europa e a velha América» («24.02.2011», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 25.02.2011, p. 9).
      No Diário de Notícias, não há jornalista tão propenso ao barbarismo. Experimente, Fernanda Câncio, perguntar aí aos seus colegas se sabem o que significa «empochar». Não sei se há algum dicionário da língua portuguesa que acolha o verbo, tirante José Pedro Machado no Grande Dicionário da Língua Portuguesa (Lisboa: Amigos do Livro Editores, 1981, p. 375), que condena o seu uso: «Empochar, v. tr. Galicismo de uso condenável, pois só há vantagem em o substituir por embolsar.» «O empochar, por embolsar, já se vai vulgarizando, e não tardará que digamos poche em vez de bôlsa» (Paladinos da Linguagem, Agostinho de Campos. Lisboa: Livrarias Aillaud e Bertrand, 1922, p. 237). «Empochar. É galicismo inaceitável por embolsar» (Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Editora Educação Nacional, p. 178).
      Para juntar o pior de outros e deste tempo, a jornalista também achou imprescindível o anglicismo prime-time. Tem receio de, se não escrever desta forma, não ser entendida...

[Post 4489]

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