Léxico: «ciganidade»

Essa é boa!


      «Os ciganos não têm individualmente uma marca genética ou biológica distintiva, concluiu um estudo português publicado numa revista científica internacional, que descobriu que as populações ciganas europeias têm origem no Noroeste do subcontinente indiano. […] “Não há nenhum gene de ciganidade. As comunidades ciganas, como a portuguesa, não são compostas por indivíduos que tenham uma ‘marca’ genética ou biológica distintiva”, explicou à agência Lusa António Amorim, coordenador do estudo do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular (IPATIMUP)» («Ciganos não têm marca genética distintiva», Diário de Notícias, 26.01.2011, p. 27).
      Não percebo: para quê o itálico? (Sim, é verdade, teria sido melhor as aspas.) Se escrevem «portugalidade» sem aspas, qual a lógica? Até essa invencionice da «lusofonia» anda por aí à solta sem o açaimo das aspas. Sempre discriminados...

[Post 4364]

Léxico: «medina»

Desalinhado


      «Leila Trabelsi, antiga cabeleireira, filha de um vendedor de fruta e legumes, tinha crescido num dos mais pobres bairros da medina de Tunes» («Mulher do ex-Presidente liderava “cleptofamília”», Maria João Guimarães, Público, 20.01.2011, p. 9).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora em linha lá continua a ignorar que a palavra «medina» existe.

[Post 4363]

«Herbário»: outra acepção

Ah!


      «Pela secretária — enorme — e por muitos dos bancos do anfiteatro estavam espalhadas 68 folhas de cartão. Presos em cada uma delas — como se fossem folhas secas, num herbário — estavam outros tantos perfis de peixes verdadeiros, quase todos em bom estado de conservação, animados à custa de verniz e de olho brilhante e vivo em folha de ouro. […] Certo é que as colecções de herbários de peixes — designa-se mesmo assim, o resultado daquela técnica de conservação — são raras, na Europa. E que ainda o são mais as que resultaram da longa e frutuosa expedição de Alexandre Rodrigues Ferreira. D. João VI terá levado para o Brasil muitas peças que ainda não foram identificadas; outras desapareceram com o incêndio no Museu de Bocage (Museu Nacional de História Natural, Lisboa), em 1978. Em Portugal, restava uma pequena colecção de 18 exemplares, idênticos aos descobertos em Coimbra» («O segundo achamento dos peixes da Amazónia», Graça Barbosa Ribeiro, «P2»/Público, 20.01.2011, p. 9).
      O que me parece é que os dicionaristas ignoram isto. Querem ver que ao Grande Dicionário Sacconi da Língua Portuguesa nem esta escapou?! Tem a palavra o leitor Paulo Araujo.

[Post 4362]

Sobre «consoar»

Isso era dantes


      E por falar em soar: até 1945, salvo erro, só as consoantes consoavam, e todo o tempo. Os homens apenas podiam consuar, e não somente na quadra própria, mas todas as noites (vejam acepções do substantivo respectivo). Naquela altura, ensinava-se que vinha de consum, do latim cum+sub+unum. Actualmente, está tudo amalgamado na mesma grafia, e a etimologia de «consoada» já é outra. Evoluções...

[Post 4361]

«Já são meio-dia e meia»?

No relógio da praça


      A minha filha está aqui a ver um DVD com a história do Pinóquio. O velho Gepeto está a afeiçoar uma tábua para construir qualquer objecto e começa a estranhar a demora de Pinóquio. «Hum... Já são meio-dia e meia...» Ora, mas nós dizemos «deu meio-dia». Isto é, diz-se na província, com o relógio da praça a soar. Os mais avisados, escreveu Augusto Moreno, consideram que estas são orações impessoais.

[Post 4360]

«Carrossel/carrocel»

Pequena guerra


      «O nome carrousel (em francês) significa “pequena guerra” e era usado para descrever uma série de jogos praticados por cavaleiros no tempo das cruzadas. O jogo consistia em fazer um trajecto a galope sem tocar em bolas de argila espalhadas pelo percurso e repletas de água perfumada. Foi em França que o carrossel se transformou num grande acontecimento, cujo ponto alto eram os torneios feitos num recinto onde os cavaleiros, a galope, usavam lanças para alcançar pequenos anéis presos entre dois postes» («Jogo de cavaleiros», «P2»/Público, 20.01.2011, p. 2).
      Não é raro ver-se a grafia «carrocel», mas, atendendo ao étimo, deve escrever-se carrossel, que é a forma registada por Rebelo Gonçalves no seu Vocabulário da Língua Portuguesa.

[Post 4359]

Acordo Ortográfico

Fale por si


      No correio dos leitores da edição de ontem do Metro (p. 9), foi publicada esta carta assinada por Nuno Duarte: «Parece que a reação de alguns setores à conceção e adoção do novo acordo ortográfico (como foi batizado) é de objeção. De fato, há aspetos neste acordo que tornam difícil a sua receção pelo coletivo, em especial quanto à dição de algumas palavras impressas, devido à supressão de carateres. Contudo, a direção certa e a melhor ação a tomar é deixar a afetividade em relação à antiga ortografia e começar a escrever de modo exato. É que, sejamos diretos: este modo de escrever pode não ser ótimo, mas é um ato consumado e até já o ensinam às crianças no atual ano letivo. Uma pequena nota: este texto não tem 20 erros; foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.»
       As contas não batem certo. De qualquer modo, o texto não tem vinte erros, não: tem, pelo menos, dois. Segundo as novas regras ortográficas, não passaremos a escrever, nós, Portugueses, «fato» como alternativa a «facto», tal como também não o faremos em relação a «dicção». Quanto ao resto, um erro factual: pode ser um acto consumado, mas ainda não o ensinamos às crianças neste ano lectivo, mas apenas no próximo. Claro que os jornais estão sedentos destes contributos, e nem reparam nestes erros. É que são muitas páginas para encher diariamente.

[Post 4358]

Dupla grafia

Imagem tirada daqui

Ah, não sabiam...


      «A tradição volta a cumprir-se na vila alentejana de Castro Verde, na próxima quinta-feira, com a realização da Feira de São Sebastião. O certame é também conhecido como Feira do Pau Roxo, nome associado à cenoura roxa, bastante procurada nesta altura do ano. […] Esta leguminosa foi em tempos um petisco comum nas tabernas da região, onde era comida crua às rodelas ou cozida e temperada com vinagre» («Feira de São Sebastião ou do Pau Roxo», Diário de Notícias, 16.01.2011, p. 29).
      Poucos leitores saberão que as cenouras só são cor de laranja desde o século XVI. Antes eram brancas, roxas e até talvez pretas. (Duplas grafias: cenoira e cenoura.)

[Post 4357]



Arquivo do blogue