«Já são meio-dia e meia»?

No relógio da praça


      A minha filha está aqui a ver um DVD com a história do Pinóquio. O velho Gepeto está a afeiçoar uma tábua para construir qualquer objecto e começa a estranhar a demora de Pinóquio. «Hum... Já são meio-dia e meia...» Ora, mas nós dizemos «deu meio-dia». Isto é, diz-se na província, com o relógio da praça a soar. Os mais avisados, escreveu Augusto Moreno, consideram que estas são orações impessoais.

[Post 4360]
Etiquetas
edit

10 comentários:

Anónimo disse...

Mário Barreto tratou do caso «ex professo». E também lhe calhou ter de cantar a palinódia. Acontece a todos: «hodie mihi, cras tibi».
- Montexto

rui tavares disse...

Ainda há a curiosa expressão "é meia-hora" como equivalente de "meio dia e meia hora". Rara e só a ouvi utilizada em dois extremos da lusofonia: no Rio Grande do Sul e no Entre Douro e Minho.

Anónimo disse...

Não deveria o velho Gepeto ter dito que "já é meio-dia e meia"?

Anónimo disse...

Quanto ao Mário Barreto, solicito ao caro Montexto que discorra mais detidamente sobre o que disse o mestre, para que eu entenda onde estava o erro.

Paulo Araujo disse...

Prezado Montexto; acho que sim, embora seja a forma mais falada (nunca a vi escrita); erra-se muito aqui, também, quando se diz 'é meio-dia e meio', querendo se referir às 12:30h, quando, em realidade, meio-dia e meio são as 18:00h. E desculpem-me o cacófato camoniano '-ma mais'.

Anónimo disse...

Mas, Paulo, se assim fosse, deveríamos dizer "são uma hora e dez minutos" ou, simplificando, "são uma e dez". Sempre aprendi que usaríamos o plural somente quando se tratasse de 2 ou mais. Agora terei de sair à cata de elucidação.

Anónimo disse...

No sítio Ciberdúvidas, resposta 18366, Carlos Rocha diz: "Na expressão das horas, o verbo ser concorda com o termo que se segue: «São dez horas» (plural), mas «é meio-dia» (singular). No caso de «meio-dia e meia hora», compreendo que a presença de «meia hora» ligada pela conjunção e a «meio-dia» (estrutura de coordenação) possa desencadear a concordância com um sujeito complexo (meio-dia + meia hora); logo, usar-se-ia o plural («são meio-dia e meia hora»). No entanto, não me repugna nada que se diga «é meio-dia e meia hora», fazendo o verbo concordar apenas com meio-dia. Note-se, contudo, que as gramáticas consultadas não são claras a este respeito. Por exemplo, Celso Cunha e Lindley Cintra (Nova Gramática do Português, 1984, pág. 503), por um lado, e Evanildo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa, 2002, pág. 558), por outro, apenas confirmam que ser concorda com a designação das horas que se lhe segue, mas dando só exemplos de tal designação no plural."
Ou seja: as gramáticas em geral fogem das questões mais espinhosas. =)

Anónimo disse...

Não, eu refiro-me à questão meramente gramatical da concordância do verbo «ser» no singular («é») com «meio-dia e meia (hora)» («portanto dois sujeitos», como o Paulo considerou).
Ou seja, se se pode dizer:
.ou só: são meio-dia e meia hora (como disse a filha de Helder, e parece que também o Paulo no seu comentário),
. ou só: é meio-dia e meia hora,
. ou de ambas as formas (sempre gramaticalmente falando no aspecto da concordância).

Quanto àquele cacófato, real ou suposto, não se apoquente: louvemo-me no parecer de Mário Barreto e Agostinho de Campos, cf. comentário neste blogue a «Acordo Ortográfico», 25.01.2001.
- Mont.

Anónimo disse...

(Cont. 2)
O que se colhe da leitura dos mestres da língua é que, no presente caso, os verbos “dar”, “soar” e “bater” podem empregar-se:
1.º Como transitivos e com a palavra “relógio” como sujeito: “O relógio dá uma hora.” (Castilho, “O Outono”, p. 91). [Seguem-se exemplos vários de Rebelo da Silva e Camilo.]
2.º Toma-se como sujeito o número que designa a hora, com o que o verbo “dar” passa a significar “soar” (intransitivo): “Porque antes de darem as duas, começou a Sé a festejar com repique o levantamento do interdito.” (Fr. Luís de Sousa, “Hist. de S. Dom.”, part. III, 1. III, cap. XXVI). [Seguem-se vários exemplos de Vieira (ex: deram três quartos para as onze), Castilho (ex: deram as onze ao entramos na poisada), A. R. Saraiva, Mendes Leal (ex. Que horas deram?), Rebelo da Silva (ex: Davam nove horas na igreja do Loreto), Andrade Corvo (ex: Quando deram nove horas no relógio da Sé), Pinheiro Chagas (ex. Acabavam de dar onze horas no relógio de madre-pérola), Garrett, do qual, além de outros, este: «Mas dão sete, mas dão oito, mas são quase nove horas… e as janelas de Aninhas não se movem» («O Arco de Sant’Ana», vol. I, cap. IX, p. 104).]
A mesma coisa com “bater” e “soar”. [Seguem-se vários exemplos de Herculano (ex: Não tardou que no sino do coro batessem as badaladas), A. R. Saraiva (ex: Bateram quatro da manhã em três torres a um tempo), Rebelo da Silva (ex: Entremos nos paços da Ribeira. Vão bater dez horas da manhã), Camilo (ex: Soaram onze horas no relógio paroquial).
Estes são os factos da língua. Contra os textos citados e muitos outros que se lhes podem ajuntar não valem sentenças condenatórias. Eu de mim sei dizer que à vista deles reformei o meu juízo, e com Alexandre Herculano (“Opúsculos”, t. II, p. 60), podemos repetir todos os que buscamos a verdade e não a vaidade. “Dez anos não passam debalde para a inteligência humana, e eu não me envergonho de corrigir e mudar as minhas opiniões, porque não me envergonho de raciocinar e aprender.”
- Mont.

Anónimo disse...

A quanto obriga o amor da língua, caro Kupo! Para reter o mais possível a barbarização total. Mas é uma questão de tempo. Perfeitamente cônscio de que tudo isto não passa de «language's labour's lost», ou, para não ferir os castos ouvidos de quem desadora sons alienígenas (felizmente ainda vai havendo disso), canseiras de linguagem baldadas. Vivam as causas perdidas!
- Montexto

Arquivo do blogue