«Pensar»

Camilo e o penso


      Já aqui fizemos o jogo. Então, digam-me lá: qual das duas frases acham que Camilo escreveu — a 1 ou a 2?
      1. «Ele pensava isto pouco mais ou menos; mas não respondeu assim.»
      2. «Ele pensava nisto pouco mais ou menos; mas não respondeu assim.»
      Claro que quem tiver à mão o 2.º volume das Novelas do Minho de Camilo Castelo Branco (estou a usar a edição com fixação do texto e nota preliminar pelo Prof. Dr. Jacinto do Prado Coelho. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971) saberá a resposta.

[Post 4145]

Sobre «passagem»

E ele não sabia?


      «Examinei de novo o processo, e trasladei certas passagens que, alinhavadas a outras do referido livro, deram esta novela em que, por felicidade do leitor e minha, não há filosofia nenhuma, que eu saiba» (Novelas do Minho, 1.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação do texto e nota preliminar pela Dr.ª Maria Helena Mira Mateus. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971, p. 195).
      Na acepção de frase ou trecho de um texto ou obra literária, passagem é ou não é galicismo? Mas Camilo não enjeitou o vocábulo.

[Post 4144]

Cidade Maravilhosa

Fica agora a saber


      «O exército que invadiu o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, foi acompanhado na subida ao morro por um igualmente numeroso batalhão de repórteres seniores demasiado habituados à violência da cidade maravilhosa. Tem sido, no entanto, um grupo de “jornalistas” menores de idade que, a partir do interior da favela, tem conseguido parte dos exclusivos informativos que revela ao Mundo pelo Twitter» («Adolescentes do Complexo do Alemão vencem batalha das notícias no Twitter», Alfredo Leite, Jornal de Notícias, 29.10.2010, p. 3).
      Não, desta vez não é sobre os «repórteres seniores». Alfredo Leite não saberá, mas na redacção alguém deveria saber que os prosónimos se escrevem com maiúscula inicial.

[Post 4143]

Acordo Ortográfico

Todos os outros são falsos?


      «Natural do Porto, Helena da Rocha Pereira, 85 anos, está jubilada mas mantém uma intensa actividade. Trabalha 12 a 14 horas por dia. Ultimamente está empenhada na conclusão do Vocabulário da Língua Portuguesa da Academia de Ciências, o único instrumento que falta para o Acordo Ortográfico entrar definitivamente em vigor. Defensora das alterações à grafia, só reconhece um argumento a quem as contesta: “Compreendo que os escritores estranhem, particularmente os poetas que têm uma ligação muito próxima com a escrita.” Todos os outros são falsos» («No mundo dos clássicos», Paula Gonçalves, «Domingo»/Correio da Manhã, 22.11.2010, p. 44). Nesta entrevista, Maria Helena da Rocha Pereira defende ainda que as alterações são mínimas. «Uma das principais é a “perda das consoantes mudas, que não se ouvem”. Aquelas a que, já no século XVI, o autor da segunda gramática portuguesa tinha chamado ociosas, por achar que “não eram precisas”.»

[Post 4142]

«Casar»

O povo e Camilo


      Então, digam-me lá: qual das duas frases acham que Camilo escreveu — a 1 ou a 2?
      1. «— Não case contra vontade de seu pai... Tenha pena dele, que está tão acabadinho...»;
      2. «— Não se case contra vontade de seu pai... Tenha pena dele, que está tão acabadinho...»
      Claro que quem tiver à mão o 1.º volume das Novelas do Minho de Camilo Castelo Branco, e pode ser a edição que tenho vindo a citar (com fixação do texto e nota preliminar pela Dr.ª Maria Helena Mira Mateus. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971), saberá a resposta.

[Post 4141]

Pronúncia: «líderes»

Os nossos queridos lídrs


      Na emissão de ontem do novo programa de informação da RTP2, Hoje, Cecília Carmo disse: «A promessa foi feita por José Luis Zapatero perante os líderes de 37 maiores grupos empresários [sic] espanhóis, entre eles vários bancos que se terão comprometido com o Governo a completar até dia 24 de Dezembro um processo de consolidação financeira.» Adivinharam: é a pronúncia do vocábulo líderes, que para a jornalista é /lídrs/. Aqui sim, o emudecimento é evidente e contrário ao português. O e da última sílaba da palavra líder é aberto — no singular e no plural.
      O Governo, dizia o primeiro-ministro espanhol, comprometeu-se a continuar a fazer as reformas estruturais. A seguir y algo más..., prometeu vagamente. Nas legendas: «A continuar e ainda mais...» Como é timbre dos políticos, fez mais promessas: «A levarllas a la práctica con la máxima celeridad posible.» Na legenda: «A implementá-las, etc.»

[Post 4140]

Falsos cognatos

Então não


      A propósito do vocábulo catalão desesma, Vítor Lindegaard lembrou aqui (eu já tinha pesquisado, pois não conhecia o nome) que Manuel de Seabra é um tradutor especializado no catalão. E rematava: «Está explicado o catalanismo (isto existe?).» Bem, nesta acepção não está dicionarizado, mas não pode estar incorrecto. Ora vejam outro catalanismo naquela tradução: «Solómin estava sob suspeita — mas mandaram-no em paz por falta de provas. (Por outro lado, ele não evadiu julgamento e compareceu quando requerido.)» (Solo Virgem, Turguiénev. Tradução de Manuel de Seabra. Lisboa: Editorial Futura, 1974, p. 376). Evadir, em português, salvo melhor opinião, é sempre pronominal. Ao contrário de desesma, totalmente inexplicável, aqui estamos perante um falso amigo. Em catalão, cercar d’allunyar-se d’una situació desagradable, un problema, etc. Procurar fugir de...

[Post 4139]

Centímetro cúbico

Consulta II


      «O piloto português Miguel Oliveira foi este domingo segundo classificado no Europeu de motociclismo em 125 cc, atrás do espanhol Maverick Viñales, que se sagrou campeão no circuito de Albacete, Espanha» («Miguel Oliveira vice-campeão europeu em 125 cc», Diário de Notícias, 26.10.2010).
      E este não é um erro tão grave como «grau centígrado»? O símbolo de centímetro cúbico não é, afinal, cm³? Que diz o meu leitor Fernando Ferreira?

[Post 4138]

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