Sobre «ambidestro»

A torto e a direito


      Hitler, cruzes!, era canhoto. Mas isso não tem, excepto na etimologia, nada de sinistro. António Lobo Antunes também é esquerdino, e não há-de ser por isso que não foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura. Destro, dextro, ambidestro, ambidextro, esquerdino, canhoto, canhestro são todos termos que qualquer dicionário — excepto, pelo menos de forma inequívoca (digo isto para objectar ao que me possam dizer sobre o Dicionário Aulete Digital), o Dicionário Houaiss — refere apenas às mãos, mas os jornalistas desportivos usam-nos igualmente para referir o pé que os futebolistas usam. «Apesar da chegada de Sereno, que é um central ambidestro, Villas-Boas tem apostado em Maicon para jogar na posição mais à esquerda do centro da defesa, ou seja, aquela que nos últimos anos tem vindo a ser ocupada por Bruno Alves.»

[Post 3725]

Da oralidade à escrita

Passatempo sem prémio


      Há expressões que ficam uma vida (a nossa) inteira na oralidade. Ora digam-me lá os meus estimados leitores que hipótese escolheriam e porquê.

a) «Traduzo o que os portugueses entenderam: eu vou é já tirar o meu dinheirinho do BCP, chupistas, e vai-se a ver a Caixa também está falida, isto só vai com um Salazar, o BES vai pró maneta, ó lá se vai, e o BPI só se aguentou com um stress da tanga, quando vier aí um mesmo a sério...»

b) «Traduzo o que os portugueses entenderam: eu vou é já tirar o meu dinheirinho do BCP, chupistas, e vai-se a ver a Caixa também está falida, isto só vai com um Salazar, o BES vai pró maneta, oh lá se vai, e o BPI só se aguentou com um stress da tanga, quando vier aí um mesmo a sério...»

c) «Traduzo o que os portugueses entenderam: eu vou é já tirar o meu dinheirinho do BCP, chupistas, e vai-se a ver a Caixa também está falida, isto só vai com um Salazar, o BES vai pró maneta, olá se vai, e o BPI só se aguentou com um stress da tanga, quando vier aí um mesmo a sério...»

[Post 3724]

Como se escreve nos jornais

Crimes sem castigo


      Prince esteve em Vale de Lobos. Não na casa do eminente historiador Alexandre Herculano, pois chegou atrasado um século e meio, mas no estúdio de Rui Veloso, em Sintra. Foi lá pela mão da sua amiga Ana Moura. Parece que a fadista fez qualquer coisa ao serão. Não ao serão no sentido de durante o serão, mas ao próprio serão. Complemento directo. Ora vejam: «Contactada pelo CM, fonte da Música no Coração confirmou o encontro e precisou que Prince já não se encontra em Portugal, tendo sido Ana Moura a mediar o serão» («Rui Veloso passa tarde com Prince», Cláudia M. Rodrigues, Correio da Manhã, 23.07.2010, p. 39). Já consideraram quão cruento terá sido? Dividiu, partiu o serão ao meio. E, de facto, nunca mais ninguém viu aquele serão. Não tanto por causa do fim da História, mas pela irrepetibilidade da mesma. A polícia (e a revisão do jornal) não desconfia de nada. De contrário, já Ana Moura teria sido «presente» a tribunal para primeiro interrogatório judicial.

[Post 3723]

«Idioma», uma acepção

Menos conhecida


      «No pensamento político é fácil encontrar o idioma negador por excelência da autoridade: o anarquismo.» É muito raro deparar com esta acepção do vocábulo «idioma». O pior, contudo, é que só em dois dicionários, no Dicionário Houaiss e no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a encontro. Lê-se neste último: «forma de expressão que caracteriza uma pessoa, um período ou um movimento». Convenho: também está no Dicionário Aulete Digital, mas a definição é incomparavelmente menos clara. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa ignora totalmente a acepção.

[Post 3722]

Infinitivo flexionado

Também movediças


      Mais uma vez a questão do infinitivo e da sua flexão. Leiam esta frase: «Mas também ouvimos pessoas rejubilar com essa mesma erosão […].» Com verbos sensitivos, defendem alguns estudiosos da língua, não se flexiona o infinitivo. Mas há excepções, alertam outros: se o sujeito vier antes do verbo no infinitivo, a flexão do infinitivo já é obrigatória. É o que eu também defendo. Ora, é justamente o caso da frase que cito acima. Logo, eu escreveria (e corrijo, porque sou revisor e tenho de tomar decisões, que, por vezes, sou chamado a justificar): «Mas também ouvimos pessoas rejubilarem com essa mesma erosão […].»
      É este caso idêntico ao dos dragões? Não é: a de hoje tem uma estrutura diferente, estão em causa dois verbos e dois sujeitos. Mas vale a pena compará-las. Gostava de conhecer a opinião dos meus estimados leitores.

[Post 3721]

Diâmetro da areia

Areias movediças


      «Leva tempo — muito tempo, milhares de anos —, mas a acção da água e do vento é muito eficaz a destruir as rochas para criar os minúsculos grãos que, por definição, têm mais de 0,062 milímetros e menos de dois» («Fazer castelos com fragmentos de quartzo e conchas», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 23.07.2010, p. 56).
      As dimensões devem ter sido indicadas à jornalista pelo geólogo Pedro Pimentel, que foi entrevistado. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista que cada partícula, cada grão de areia, tem um diâmetro que varia entre 0,07 mm e 2 mm. Além disso, no artigo o limite superior fica abaixo de 2 mm, e na definição do dicionário esse limite é inclusivo. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não se mete nestas areias, contas miúdas, nem o Dicionário Houaiss. Em coisas pequenas, porém, as mínimas discrepâncias importam, e 0,062 mm não são 0,07 mm. Algum geólogo que nos leia nos ajude.

[Post 3720]

Sobre «cotar»

Não em português

      «“Para traçar um perfil psicológico, eram necessárias várias baterias de testes para apurar se há patologia mental. Mas algumas características cotam imediatamente uma série de items da avaliação de psicopatia”, refere a especialista [psicóloga forense Maria Francisca Rebocho]» («Egocentrismo e excentricidade podem revelar traços de psicopatia», Sónia Simões, Diário de Notícias, 23.07.2010, p. 2).
      Podia ser uma acepção rara do verbo cotar, «apreciar; avaliar», mas suspeito que há aqui anglicismo. To quote é «referir, indicar», e creio que é o que está por detrás daquele verbo. De resto, temos um indício logo a seguir: estão a ver como está grafado aquele «items»? Então, não é difícil imaginar como foi pronunciado. Em português, o plural é «itens». Quanto ao «cotam» talvez não houvesse nada a fazer, mas já o «items» a jornalista tinha obrigação de corrigir.

[Post 3719]


Léxico: «tubo arterial»

Embalsamamento


      «A Leslie Hindman Auctioneers vai leiloar no próximo dia 12 de Agosto os instrumentos usados na autópsia e na embalsamação do cantor Elvis Presley, além de outros artigos, como a etiqueta colocada no corpo para sua identificação, luvas de borracha, fórceps e tubos arteriais. Os artigos foram guardados durante todos estes anos por um técnico de embalsamamentos da funerária Memphis Funeral Home que prefere manter o anonimato» («Instrumentos da autópsia a leilão», Correio da Manhã, 22.07.2010, p. 33).
      Os dicionários não registam a locução tubo arterial, e bem o podiam fazer. Ora vejam quantas locuções regista o Dicionário Houaiss no verbete «tubo». Pois é. No Embalming Online Glossary, em linha, vemos que antigamente em inglês se dizia canula, e nós também temos o vocábulo, cânula.

[Post 3718]

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