Léxico: «sincronicidade»

Digitus Dei


      O professor de Psiquiatria Mário Simões, que foi ontem um dos convidados do programa Câmara Clara, falou do conceito de sincronicidade, tendo lembrado que foi «mais uma palavra criada por Carl Jung [1875–1961]», para quem «isso seria o digitus Dei, a “impressão de Deus”». Paula Moura Pinheiro deu um exemplo de sincronicidade (também chamada coincidência significativa pelo fundador da psicologia analítica): «Está a tratar de um determinado assunto e, de repente, imensos dados sobre esse assunto lhe são servidos por aquilo que está à sua volta.» O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista o vocábulo, ao contrário do Dicionário Houaiss e do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

[Post 3224]

Ortografia: «jardim-de-inverno»

Mesmo no Astoria


      «Sentada no jardim de Inverno do Hotel Astoria, Kate Semionov quase não reparava no extravagante almoço de caviar e blini, esturjão fumado e champanhe, que tinha à sua frente» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 273).
      Ainda nunca entrei num Hotel Astoria, mas faço fé que os jardins-de-inverno serão como os de todos os outros hotéis que os tenham — ou não? O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e o VOLP da Academia Brasileira de Letras, por exemplo, registam jardim de inverno. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa esqueceu-se do verbete. O Dicionário Houaiss regista jardim-de-inverno, que acho ser a grafia mais adequada. E porquê? Se se deu (refiro-me aos dicionários publicados em Portugal, pois as estações do ano já eram grafadas com minúscula inicial no Brasil — e cá ainda não são, pois até os maiores defensores do Acordo Ortográfico de 1990 estão a recuar) o passo de grafar com minúscula o vocábulo inverno, então acho que o mais correcto é usar hífenes.

[Post 3223]

«Dever de»

Afinal, pode e há quem


      «Sabia o que tinha de fazer, o que devia de ser feito» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 270).
      Já aqui falei uma vez do uso desta construção: deve de + infinitivo, tendo então escrito que a encontramos na obra de Luís de Camões, Fr. Amador Arrais, Camilo e noutros grandes escritores. E citava ainda Vasco Botelho de Amaral e José Neves Henriques, que escreveu uma vez: «O que acontece», acrescentou, «é que o emprego da preposição de está um pouco em desuso, o que leva muita gente a duvidar da correcção de dever de + infinito.» E também escreveu: «Como a construção deve de + infinitivo é mais complexa, talvez os não muito sabedores da Língua Portuguesa a julguem mais própria de quem é culto.»

[Post 3222]

«Corria rua a cima»?

De cima a baixo


      «Subiram serra acima», exemplifica o Dicionário Houaiss o uso do advérbio acima. Mas leio agora: «Enquanto corria pela rua a cima, a única coisa que perturbava a minha felicidade era que me pudessem deixar para trás» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 221). Na obra Estrela Polar, de Vergílio Ferreira, leio: «rodando depois por outra rua acima»; n’A Tragédia da Rua das Flores, de Eça de Queirós, leio: «e, no ímpeto da alegria, rompeu pela rua acima cantando»; na obra Rua: novelas e contos, de Miguel Torga, leio: «A voz do Pedro, filho da Maria Peixeira, pela rua acima, parecia uma sineta a anunciar incêndio ou ressurreição»; na obra O Dia dos Prodígios, de Lídia Jorge, leio: «À espera da víbora ainda há quem ande, rua abaixo rua acima»... A significar destino, direcção, não se usa a construção por + grupo nominal + acima?

[Post 3221]

Léxico: «arquipresbítero»

Viva


      «No quarto, encontrei Iurovski e um guarda, além dos dois religiosos, o arquipresbítero Storozhev e o deão Buimirov» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 189).
      Tanto quanto me lembro, nunca tinha visto ser usado o vocábulo arquipresbítero. Só dos dicionários o conhecia. E não deixa de ser curioso que tenha ocorrido à tradutora para traduzir o vocábulo inglês archpriest, mais próximo do mais usual arcipreste. Mas ainda bem que ocorreu, saúdo-o vivamente, porque ninguém gosta mais de variedade do que eu.

[Post 3220]

O moral ‘vs.’ a moral

Em baixo


      Apesar da disposição sombria de todos, os prisioneiros comemoraram o aniversário de uma das grã-duquesas. «Fizemo-lo por insistência do czar, já que, como bom soldado e bom pai, estava preocupado com a moral da sua pequena tropa» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 161).
      Quantas vezes já aqui falei desta questão o moral vs. a moral? Nem eu sei. Aqui (e noutros excertos, mas agora estamos neste), tradutora e revisor espalharam-se ao comprido. A destrinça será assim tão difícil de fazer? Ou será indiferente?

[Post 3219]

Infinitivo impessoal

Gramática em pedaços


      «O piloto inclinaria o aparelho, faria pontaria com todo o cuidado e largaria uma bomba sobre a Casa Popov, fazendo todos voarem em pedaços» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 157).
      Mas as orações subordinadas gerundivas não são orações não finitas, ou seja, orações com formas não flexionadas de verbos? Então será «fazendo todos voar em pedaços».

[Post 3218]

«Estratego» e não «estratega»

Pierogi e estrategistas


      Estratego, a partir do grego, e não estratega, dizem alguns estudiosos. Mas há forma de contornar, se não queremos arrostar, a questão: «O cozinheiro Haritonov revelou-se um mestre a fazer uma refeição de praticamente nada — cogumelos selvagens em blini, arroz de sobras com couve no meio de pierogi —, mas não era de maneira nenhuma um estrategista da dissimulação» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 156). Claro que a maior parte dos dicionários são descritivistas (dá menos trabalho...), e registam, sem qualquer nota ou observação, estratega e estratego. O Dicionário Houaiss, porém, nem sequer regista a primeira.

[Post 3217]

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