Léxico: «areola»

Mais um esquecimento


      «A retirada das referidas construções pode ter reduzido a impermeabilização num subsolo de areolas por onde se infiltram facilmente as águas das chuvas que rolam colina abaixo» («Infiltrações ameaçam lojas do Chiado», Carla Tomás, Expresso, 6.2.2010, p. 24).
      Nem todos os dicionários — a versão electrónica do Dicionário Houaiss e o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, por exemplo — registam o termo. Ficaram-se pela aréola. Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, areola é o «solo constituído por areia média e fina, silte e argila, em proporções variáveis, mas com predominância de areia fina e silte».

[Post 3165]

«Para o bem e para o mal»

A bem da língua


      «O director da empresa israelita de alta tecnologia Radcom, Adar Eyal, acredita que isto tem muito que ver com a falta de hierarquia reinante na sociedade israelita. “Quando levo estrangeiros a bases militares, ficam atónitos ao ver soldados e generais tratarem-se por tu e servindo-se café, sem distinção de patentes. Em muitos aspectos continuamos a ser uma espécie de kibbutz, para o bom e para o mau, e isso também se nota nas start ups”» («A terra prometida das tecnologias electrónicas», Henrique Cymerman, Expresso, 6.2.2010, p. 30).
      Então a expressão não é «para o bem e para o mal»? For better or for worse? E a famosa revisão do Expresso, onde estava?

[Post 3164]

«Girl Guides» e «Brownies»

Guidismo português


      O original falava em Girl Guides e Brownies, e o tradutor optou por deixar em inglês. A mim, contudo, não me pareceu uma dificuldade inultrapassável. No Reino Unido, o movimento escutista feminino nasceu por iniciativa de um grupo de raparigas que em 1909 se fardou como os rapazes e apareceu de surpresa numa concentração no Palácio de Cristal de Londres, organizada pelos escuteiros, proclamando-se raparigas escuteiras. Baden-Powell limitou-se a apadrinhar a iniciativa. Nasciam assim as Guias, que também estão em Portugal desde a década de 1920. No Reino Unido, as Brownies são guias que têm entre 7 e 10 anos. Em Portugal, às guias que têm entre 6 e 10 anos dá-se o nome de Avezinhas.

[Post 3163]

Anglicismos

Voltar a andar nos carris


      É do Brasil que costumam vir notícias mais caricatas sobre o uso de estrangeirismos. Desta vez, porém, não é de lá que nos chegam as notícias nem se trata da língua portuguesa. É a seriíssima Deutsche Bahn, a companhia de caminhos-de-ferro alemã, que anunciou, em resposta às críticas de que era alvo, que vai deixar de usar tantos anglicismos na publicidade e nos diversos suportes que usa. Assim, para começar, vocábulos como hotline, flyer, counter serão substituídos, enquanto outros, como call-a-bike, por exemplo, serão explicados em alemão. Recentemente, o ministro dos Transportes alemão, Peter Ramsauer, já tinha proibido o recurso a anglicismos no ministério que dirige, e nomeadamente expressões como task force, travel management e inhouse meeting (leia aqui, caro Francisco). O exemplo a vir de cima. Estão fartos do Denglisch. Cá, achar-se-ia ridículo e objectar-se-ia que há assuntos mais importantes. E há...

[Post 3162]

«Senador», uma acepção esquecida

Melhores dicionários


      «Eu tenho a certeza de que António Vitorino, que é um senador, um pai da pátria no Partido Socialista e no país, com a minha modesta ajuda de senador no Partido Social Democrata, nós, em conjunto, consigamos convencer as lideranças dos dois partidos, e sobretudo explicar à opinião pública portuguesa a importância da convergência num momento em que, em Portugal, como em Espanha, a clivagem é a tentação mais sedutora», disse ontem Marcelo Rebelo de Sousa, durante um «almoço-colóquio», na Câmara Hispano-Portuguesa (CHP), em Madrid.
      Senadores... Com a Constituição de 1838, que instituiu um sistema bicameralista, é que havia uma Câmara de Senadores, que era electiva e temporária. Senador era cada um dos membros desta câmara, que foi extinta em 1842. Os senadores tinham herdado as competências da Câmara dos Pares. Era obrigatório o seu parecer para aprovação de iniciativas legislativas e constituiu-se também como Tribunal de Justiça. A relevância da função é notória, e é o prestígio associado ao cargo que se pretende exprimir quando se usa, em sentido figurado — que nenhum dicionário atesta —, o termo senador. Não raramente, os meios de comunicação social usam o termo para referir, por exemplo, o ex-presidente da República Mário Soares.
      Vamos redigir, em conjunto, uma definição e oferecê-la às editoras de dicionários?

[Post 3161]


Actualização em 11.3.2010

      Com aspas ou sem aspas e sem estar dicionarizado, o vocábulo continua a ser usado: «O PSD avançou ontem com alguém que designou como “senador da República” para presidente da comissão parlamentar de inquérito (CPI) ao caso “Sócrates/PT/TVI”» («‘Senador’ Mota Amaral preside à CPI sobre caso ‘PT/TVI’», JPH, Diário de Notícias, 11.3.2010, p. 3).

Falsos cognatos

É o progresso


      Em parte, o adjectivo inglês progressive é um falso cognato do adjectivo português progressivo. Assim, se em inglês se pode dizer progressive school, a tradução será escola progressista e não escola progressiva. Os tradutores — alguns e por vezes — esquecem-se disto. Alguém tem de reparar. Progressivo é, tão-somente, o que faz progressos; que avança gradualmente; que segue uma progressão. Eu sei: os dicionários bilingues editados em Portugal não ajudam muito.

[Post 3160]

«Lesão expansiva»

O desmazelo expande-se


      «Sara Tavares cancelou os seus concertos até Maio devido a um problema de saúde. A cantora foi operada, na semana passada, “a uma lesão expansiva no cérebro”, informa, em comunicado, a agência da artista, que acrescenta que Sara Tavares “já se encontra em casa e a recuperar bem”» («Sara Tavares foi operada», P2/Público, 18.2.2010, p. 15).
      Das duas, uma: ou o jornalista não citava o comunicado, ou procurava saber, e informava os leitores, o que é uma lesão expansiva. Trate-se de jargão médico ou eufemismo, os leitores têm direito a saber. Aposto que algum leitor do Assim Mesmo saberá explicar do que se trata.

[Post 3159]

Itálico e «moto-serra»

Coisas novas e coisas velhas


      «A antiga Rol — como é conhecida nas Caldas da Rainha, há 50 anos — está a produzir para os seus mercados habituais (Europa, Estados Unidos e Brasil) cerca de 80 por cento da produção. O maior cliente é alemão. A BSH Bosch und Siemens Hausgerate incorpora rolamentos made in Portugal nos seus electrodomésticos (desde máquinas de lavar a secadores de cabelo), bombas de água e moto-serras» («Fábrica das Caldas passa de regime de lay-off para novos recordes de produção», Carlos Cipriano, Público, 18.2.2010, p. 19).
      Duas questões diferentes. Primeira: porque é que grafam o nome da empresa alemã em itálico? Por ser um nome estrangeiro? Ridículo! Na página anterior, num artigo intitulado «Argentina reforça controlo de barcos para as Malvinas», escreveram Foreign Office e não grafaram em itálico. «A resposta britânica a esta decisão surgiu através de um comunicado do Foreign Office, em que é referido que “as regras em vigor nas águas territoriais argentinas são da competência das autoridades argentinas”, mas “isso não afecta as águas territoriais das ilhas Falkland, que são controladas pelas autoridades da ilha”.» Esta é, valha a verdade, uma tontice a que são atreitas algumas editoras de livros. Segunda: se há quem defenda o uso do hífen com o pseudoprefixo moto-, nunca vi a forma usada, moto-serra, atestada num dicionário.

[Post 3158]

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