Cada cabeça
Desidério Murcho acaba de escrever um
texto sobre o Acordo Ortográfico, rebatendo o que José Mário Costa
escreveu recentemente. E afirma: «Para quê fazer ao mesmo tempo uma
reforma, que obriga as pessoas a mudar a maneira como escrevem?» Não é uma pergunta retórica, pois responde: «A razão é só uma. Os linguistas que fizeram o texto do acordo mentem aos políticos, fazendo-os acreditar que só tirando o “p” do “excepto” é possível ter uma ortografia oficial única. Mas isto é mentira, pura e simplesmente» («Mentiras ortográficas», Crítica: blog de filosofia, 5.1.2010).
Presumo que Desidério Murcho pretende significar, através do exemplo da queda da consoante muda, todas as mudanças consignadas pelo Acordo Ortográfico de 1990. Se assim for, é claro que não é mentira, pois só assim teremos, de facto, uma «ortografia oficial única». O que este filósofo afirma é que houve ao mesmo tempo uma reforma e um acordo, depreendendo-se que, a ser necessário alguma coisa, seria este último. O artigo único deste acordo estatuiria que todas as variantes da língua portuguesa seriam permitidas, não obrigando ninguém a reformar a maneira como escreve, antes concedendo a cada falante, de todo o espaço lusófono, a liberdade de adoptar qualquer das variantes. É isto? Se for, seria mesmo uma forma de alcançar os propósitos políticos do acordo actual, ainda que, na prática, legitimasse algum caos. Para mim, contudo, talvez precisássemos mais de uma reforma do que de um acordo.
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