Ficar e ficar-se

Diário de um revisor

     

      Enquanto palitava, com minúcia de odontologista, a redúvia, o revisor antibrasileiro ia lendo e resmungando: «Ah! Ouça esta: “E por aí se ficou”! O brasileiro estragou isto tudo. Não basta escrever “E por aí ficou”?» O verbo ficar também é, sem qualquer dúvida, pronominal: ficar-se. Houve, no entanto, confusão do jornalista, pois, no contexto, o verbo é intransitivo, na acepção de permanecer em determinado ponto ou valor; não passar de. Para ser pronominal, a frase teria de ter outra redacção. Em relação à forma pronominal, o exemplo do Dicionário Houaiss refere-se a um cavalo — «O cavalo ficou(-se), e o vaqueiro estatelou-se no chão.» —, mas claro que se podia referir a um futebolista: «Em relação aos boatos que o dão como preguiçoso e pandegueiro, o avançado ficou-se.» Fico por aqui.

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Ortografia: «colorrectal»

Pouco recomendável


    «Recently, for example, we were told that red meat causes bowel cancer, and ibuprofen increases the risk of heart attacks: but you followed the news reports, you would be no wiser.» «Recentemente, por exemplo, disseram-nos que a carne vermelha causa cancro colo-rectal, e que o ibuprofeno aumenta o risco de ataques cardíacos: todavia, se nos guiássemos por estas notícias, ficaríamos exactamente na mesma.» Deve escrever-se, por muito que se leia o contrário, colorrectal. Num documento, «Termos mais utilizados em gastrenterologia», da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG), recomenda-se «colorectal»(!). To each his own, diria um inglês. Cada macaco no seu galho, dizemos nós.

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«Extra»: adjectivo variável

É isso mesmo


      «O carro particular do tenente-coronel Mário Bagina, comandante da GNR de Portalegre — responsável pela atribuição de férias extras a quatro militares da sua unidade, empenhados na caça à multa — foi também controlado em excesso de velocidade, a 141 km/h, perto de Elvas. O comando-geral da GNR confirma a ocorrência. Os guardas que detectaram a infracção são colegas dos quatro cabos a quem o tenente-coronel Bagina atribuiu sete dias de férias extras. […] Mário Bagina não quis, igualmente, relacionar esta infracção com a ordem de serviço em que concedeu férias extras a quatro cabos do trânsito» («Apanhado oficial da caça à multa», Miguel Curado, Correio da Manhã, 29.08.2009, p. 13). Pelo menos neste artigo, verifica-se o uso consistente da pluralização do adjectivo «extra». Também para mim, lembro, este adjectivo é variável.

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Selecção vocabular

Pior? «Obsolescente»


      «Outra consequência desta controversa proposta, se chegasse a ser aprovada, seria o enorme aumento do tempo de duração do processo de averiguação, dada a complexidade e consequente morosidade da tramitação das acções no Supremo Tribunal Federal, o que poderia fazer, por exemplo, com que uma eventual condenação à perda de mandato ocorresse já depois do mandato em causa ter terminado, tornando obsoleta a decisão» («Congresso sem poder para julgar», Domingos Grillo Serrinha, Correio da Manhã, 28.08.2009, p. 30). Ninguém estranhou nada: nem jornalista, nem editor, nem revisor. O adjectivo obsoleto designa aquilo que caiu em desuso; ultrapassado; antiquado. Ora, acham que se aplica com propriedade no contexto? Pois não. Em vez de «obsoleto», deveria estar «inútil», por exemplo. O correspondente do Correio da Manhã em São Paulo até pode gostar do vocábulo «obsoleto», mas tem de o guardar para as ocasiões em que o poderá usar com propriedade.

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Erros e revisores

De corpo e alma


      Dizia ontem, com alguma sanha, o revisor antibrasileiro, enquanto revia uma página, que «agora só se lê nos jornais “dar-se conta de” e não “dar conta de”, que é o correcto». É? Não é. Com o significado de «aperceber-se de», tanto se pode usar dar-se conta de como dar conta de. Uns momentos depois, falou, e não parecia estar a brincar, em almas depenadas. É um erro que se ouve e lê por aí, é verdade, mas um revisor não pode — sem estar a brincar — reproduzi-lo. Faz-nos temer pelos erros que acrescenta, há revisores assim, aos textos que revê. Alma penada, como se sabe, é a alma de um morto que, segundo a crença popular, vagueia pelo mundo em penitência.

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Omissão de preposição


Ferocíssimo

      A notícia era sobre o jogo entre o Sporting e a Fiorentina, em Florença, e a comprovação de que faltara à equipa portuguesa o que «só os transalpinos têm». Título: «Um bravíssimo leão sem sorte e matreirice». Depois de revisto, um editor-chefe aproximou-se com cara de caso, quase feroz, em consonância com o título. «Isto não é português.» Já tinha, entretanto, alterado o título para «Bravíssimo leão sem sorte nem matreirice». Ora, o que acontece é que, como a preposição é a mesma para os dois substantivos (sorte e matreirice), pode ser omitida antes do segundo: Bravíssimo leão sem sorte e (sem) matreirice.

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Tétrada de Fallot

Erro médico


      «Emanuel Silva, o ‘menino azul’, que sofre de duas doenças raras (síndroma de Alagille e tetralogia de Fallot) esteve ontem no Governo Civil de Faro a oferecer quadros pintados pela sua mãe, Helena Silva, que o acompanhou na visita» («‘Menino azul’ oferece quadro aos Bombeiros», T. M., Correio da Manhã, 28.08.2009, p. 16). Desta vez, o jornalista só é culpado de ser acrítico. Até o sítio dos Médicos de Portugal, que não é propriamente o Assim Mesmo, alerta: «Etimologicamente, o termo tétrada (conjunto de quatro coisas) é mais correcto do que tetralogia (sequência de quatro peças teatrais ou de quatro óperas).» Tetralogia também designa a obra em quatro partes ou conjunto de quatro obras artísticas relacionadas, geralmente do mesmo autor. Talvez seja esperar muito, mas a verdade é que espero sempre que os jornalistas contribuam para a correcção dos erros desta natureza.

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Sobre «portador»

Problemas no cérebro


      «Na esquadra, o sacerdote justificou o seu acto alegando ser portador de hidrocefalia, um problema no cérebro, além de ter bebido muito naquele dia, o que não evitou que fosse incriminado por atentado violento ao pudor, ficando a aguardar julgamento» («Padre apanhado a abusar de menor», Domingos Grillo Serrinha, Correio da Manhã, 11.08.2009, p. 33). Já sei: julgam que vou meter-me com aquela explicação sobre o que é a hidrocefalia. Enganam-se. A explicação é, para um jornal generalista, adequada. Mais bem explicado, só com mais espaço. Quero antes tecer algumas considerações sobre portador. Como substantivo, vindo da medicina, designa a pessoa que aloja um microrganismo patogénico sem apresentar manifestações de doença, ou que contém um gene responsável por uma determinada anomalia genética sem mostrar sinais desse defeito. Ora, não parece poder aplicar-se com propriedade a quem sofre de acumulação anormal de líquido cefalorraquidiano no crânio, o hidrocéfalo. Só por extensão de sentido, ainda não registada nos dicionários. No latim tardio, portător era apenas aquele que levava, transportava, consigo uma carta.

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Selecção vocabular

Mais solidez


      O vocábulo «líquido» tem várias acepções. Uma delas designa aquilo que está perfeitamente determinado, claro, que não deixa margem para dúvidas. Por acaso, não simpatizo com esta acepção, mas nunca a desaconselharia, obviamente. Seria estultícia. Contudo, num artigo jornalístico como o que cito a seguir, não creio que seja a melhor escolha: «A casa parecia estar remexida, mas não é líquida a entrada de estranhos» («Morte suspeita de professora», Manuela Teixeira, Correio da Manhã, 26.08.2009, p. 10).

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De «rail» a «raile»

Coragem e sensibilidade

      Como é que se chamam aquelas barras horizontais, geralmente de metal, destinadas a separar fluxos de tráfego ou a proteger uma via? «Rails»? Isso era no ano passado. «O pesado acabou por chocar contra os railes de protecção, capotou e imobilizou-se já fora da auto-estrada» («Dois militares da GNR colhidos por camião em despiste na A22», G. P./A. R. J., Jornal de Notícias, 26.08.2009, p. 17). E sim, já se encontra registado em alguns dicionários, como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, embora neste o verbete remeta (!) para rail. Como em inglês médio era raile, do étimo francês raille, estamos mais próximos da origem do termo.

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«Ponte Bay Bridge»?

Harbour Bridge: http://www.atnf.csiro.au/

Seria melhor


      Sandra Alves, jornalista do Jornal de Notícias, está em São Francisco, de onde mandou um texto, «A pé por São Francisco» (26.08.2009, p. 53), para o jornal. «Pela avenida de altos edifícios», escreve, «há fachadas antigas que servem de sede a bancos e paredes espelhadas que acolhem grandes empresas. Entre eles, vários recantos ajardinados que convidam a uma pausa, à margem do reboliço citadino.» É uma homófona traiçoeira, seja, mas temos de saber várias coisas de cor, e esta é uma delas, ou escreveremos disparates.
      Também se lê neste texto: «Fiquei hospedada na zona central de São Francisco, junto à ponte Bay Bridge e ao Museu de Arte Moderna.» E ainda: «Nos cais da baía, à esquerda, a antiga prisão de Alcatraz e, em pano de fundo, a imponente ponte Goden [sic] Gate.» Não deveria ter uniformizado e escrito Bay Bridge e Golden Gate Bridge ou ponte Bay e ponte Golden Gate? No texto ao lado, outra jornalista, Ana Vitória, escreve de Sydney (e é assim que aparece grafado, embora no título da peça já apareça Sidney: «Opera House, o bilhete postal [sic] de Sidney») e também fala de pontes: «No enquadramento também se encaixa bem a Harbour Bridge, já calcorreada por inúmeras celebridades mas apenas por aquelas a quem as alturas não provocam vertigens.»


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Uso do apóstrofo


Última mania

      «O esforçado atleta, quatro vezes campeão mundial dos 1500 metros, consegue, finalmente, em Atenas’2004 completar o seu laureado palmarés com o título olímpico que lhe faltava.» Nos jornais desportivos é agora vulgar ler isto. Mas esta frase não vai figurar num jornal desportivo. Se é correcto usar o apóstrofo Atenas’04, porque se está a elidir uma parte da data, já não tem razão de ser usá-lo quando a data é completa. O melhor é escrever Atenas 2004.

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O género de «síndrome»

Ainda não

«Associada a esta doença o Síndrome de Coats nos olhos do Dinis, uma patologia progressiva, que pode levar à cegueira e, em estágio final, à extracção do olho» («Doença rara leva família a vender casa», Joana Nogueira, Correio da Manhã, 26.08.2009, p. 20). Ao fim de vários anos a divulgar-se, a propósito da sida, o género e a ortografia correctos do vocábulo, ainda há jornalistas e revisores a darem-no como masculino. Não é.

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Nome de doenças

E desta vez é pior


      «O Dinis tem dezoito meses e, apesar da curta experiência de vida, a sua história é rara. O diagnóstico de Leucoencefalopatia, Calcificações e Quistos Cerebrais chegou há poucos meses e com ele muitas inquietações quanto ao futuro» («Doença rara leva família a vender casa», Joana Nogueira, Correio da Manhã, 26.08.2009, p. 20). A jornalista não sabe, mas o revisor tem obrigação de saber que os nomes de doenças são substantivos comuns, e, logo, grafados com inicial minúscula. A excepção é para o nome dos cientistas que fazem parte das denominações das doenças: doença de Parkinson, doença de Alzheimer, etc. Já o tinha lembrado aqui.

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Sobre «abalroar»

Mas é correcto


      A notícia começa por referir que «o condutor do camião que embateu violentamente contra um carro-patrulha da GNR colhendo dois militares, ontem, às 15h30, na Via do Infante (A22)» se justificou com o rebentamento de um pneu, mas o título é: «Militares abalroados por camionista bêbedo» (João Mira Godinho, Correio da Manhã, 26.08.2009, p. 8). «Os GNR», repare-se, «estavam entre os dois carros quando o camião abalroou o carro-patrulha, que depois os atingiu.» Afinal, o carro-patrulha é que foi abalroado, e não os militares — ou foi as duas coisas? O termo, como se sabe, provém da marinha, mas por extensão significa ir de encontro a, bater, chocar(-se); ir na direcção de (algo), com ímpeto. Foi, então, usado com propriedade no título, mas não é habitual usar-se quando o obstáculo são pessoas. Sobre o mesmo facto, o título do Jornal de Notícias é «Dois militares da GNR colhidos por camião em despiste na A22» (G. P./A. R. J., 26.08.2009, p. 17).


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Congénere e homólogo

Falsas convicções

      Dizia, ontem, aquele revisor que está farto de avisar as meninas do andar de cima que não devem confundir «congénere» com «homólogo». Em vão, lamentou-se. Se, exemplificava, o texto fala de ministros, o termo correcto era «homólogo» e não «congénere». Ora, o Dicionário Houaiss regista como exemplo de uso do termo «congénere»: «O ministro encontrou-se com seus congéneres em Paris.» Já o adjectivo «homólogo», para o mesmo dicionário, é o que mantém com outro elemento similar uma relação de correspondência que pode ser de localização, de forma, de função, etc. Pelo que vejo, «homólogo» é mais utilizado para pessoas, ao passo que «congénere» é mais usado com instituições. Não se pode é dizer mais do que isto. «O presidente sul-africano, Jacob Zuma, eleito em Maio, escolheu Angola como o primeiro destino para uma visita oficial e ouviu o seu homólogo angolano afirmar o desejo de “intensificar as relações” entre os dois países» («Angola e África do Sul estreitam relações», A Bola, 20.08.2009). «A Selecção portuguesa de andebol de sub-21 venceu, esta segunda-feira, a sua congénere espanhola por 28-24, conquistando o sétimo lugar entre 24 equipas no Mundial que termina quarta-feira, no Cairo» («Mundial de Juniores: Portugal termina em sétimo com vitória no duelo ibérico», A Bola, 17.08.2009).

Actualização em 15.09.09


      Cá está de novo o uso reprovado pelo revisor antibrasileiro: «O ministro da Agricultura, Jaime Silva, e a sua congénere holandesa, Gerder Verburg, posam para os repórteres fotográficos depois de plantarem uma árvore no decorrer de uma visita a uma exploração florestal nos arredores de Vaxjo, na Suécia» («Jaime Silva planta árvores no ‘bosque da UE», Diário de Notícias/«DN Bolsa», 15.09.2009, p. 37).

Actualização em 10.1.2010

      «O salário dos clínicos cubanos é um mistério. O Ministério da Saúde diz que ganham “sensivelmente” o mesmo que os seus congéneres portugueses. Mas dessa fatia a maior parte vai para o Governo de Havana. Inicialmente, os médicos ficavam com 300 euros. Agora ganharão 500. A embaixada de Cuba diz que nada pode dizer sobre o assunto» («Salários dos clínicos cubanos são um mistério», Público, 10.1.2010, p. 1).

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Léxico: «oeste-europeu»

Ponte do Rei Alberto (© NguyenDai)

O caso da Bélgica


      Recentemente, referi aqui a tradução de Mittel-Europeans. Hoje não é de tradução que se trata, mas da abonação de um gentílico que nunca antes vi. «Choveram críticas na imprensa do reino oeste-europeu» («Companhia portuguesa vai dar asas ao rei belga», revista Domingo/Correio da Manhã, 23.08.2009, p. 23).

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Topónimos no novo acordo

O caso de Custóias

Os outros revisores ainda não sabiam (!), e até negaram, que os topónimos também vão sofrer alterações com a entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990. Exactamente, não eram os mesmos (somos cinco) do caso de Tróia. Desta vez, era Custóias que estava em causa. Trata-se do mesmo: é eliminado, tanto em nomes comuns como em topónimos, o acento nos ditongos abertos oi, mas apenas quando constituem sílaba tónica de palavras paroxítonas: alcaloide, heroico, joia, etc.

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Sentidos figurados e sinonímia

Alto aí!

«Emprestado pelo Manchester United com o prisma de jogar com mais regularidade, Possebon já percebeu que as suas intenções saíram goradas», escreveu o jornalista, mas eu não deixei que a frase (que semelhante disparate), que revela um conhecimento deficiente da língua, passasse para o jornal. Sim, julgo saber o motivo. Em sentido figurado, prisma é o modo particular de ver ou considerar algo ou alguém, o ponto de vista, a perspectiva, digamos. E como um dos sentidos figurados de «perspectiva» é o de ponto de vista, o jornalista usou o vocábulo. Só que tal operação, porque estão em causa acepções secundárias dos vocábulos, redundaria quase sempre, como facilmente se imagina, em frases absurdas.

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Ortografia: «bola-de-berlim»

Essa é boa!

O Correio da Manhã tem uma rubrica estival, «O Verão de...», assinada pela jornalista Dora Costa, e nela ora se lê «bola de Berlim» ora «bola-de-berlim». Como eu não acredito que a jornalista nas terças-feiras, quintas e sábados escreva de uma forma, e nos restantes dias de outra, só posso atribuir a incoerência aos revisores. E, como acontece noutros jornais, não comunicam entre eles — nem lêem o jornal. A quem escreve bola de Berlim, matéria já aqui abordada, só pergunto se também escreve couve de Bruxelas.

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Ortografia: «guarda-costeira»

Aplaudo a opção

Sim, tem de se ser coerente até ao fim: «Todos os meios operacionais disponíveis foram mobilizados e, no hospital militar de Penteli, na área metropolitana de Atenas, os doentes foram transferidos por precaução, tendo as autoridades anunciado que vários navios da guarda-costeira estavam prontos a participar em operações de evacuação» («Mar de chamas ameaça Atenas», Paulo Madeira, Correio da Manhã, 24.08.2009, p. 28). Se se escreve guarda-costas, porque se continua a escrever e a registar nos dicionários guarda costeira?

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«Raios UV»

In Diário de Notícias, 20.08.2009, p. 16

São dos poucos


      No Diário de Notícias, continuam a escrever raios ultravioletas. E poucas vozes estão de acordo, mas entre elas conta-se a da professora Maria T. Camargo Biderman, docente na UNESP (Universidade Estadual Paulista), do Campus de Araraquara, que escreve no estudo «Unidades Complexas do Léxico»: «raios ultravioletas — ultravioletas — Os ultravioletas podem causar danos à pele.» Se foi por lapso, ela virá certamente aqui um dia dizer-no-lo.

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Uso indevido das aspas

Só o inútil
      «Marco António Brás Madeira vivia com os pais no Rossio ao Sul do Tejo, Abrantes, e acordou ao nascer do sol para acompanhar o pai, António, numa jornada de caça às rolas. Um tio também os acompanhava e seguiram para Montalvo, a vinte quilómetros de casa. Pai e filho ocuparam a mesma ‘porta’, junto a um campo com girassóis, onde esperaram as primeiras rolas» («Dispara às rolas mas mata o filho», Isabel Jordão, Correio da Manhã, 24.08.2009, p. 10). Já aqui o escrevi uma vez: quão penoso seria escrever e sobretudo ler se tivéssemos de grafar entre aspas acepções secundárias. Por outro lado, o que seria útil não foi feito pela jornalista: acrescentar a definição desta «porta».

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Estetoscópio e estereoscópio


Também imperdoável

      Os Correios de San Marino, mundialmente conhecidos pela qualidade dos selos que emitem, lançam amanhã uma série de selos em três dimensões para assinalar o Ano Europeu da Criatividade e Inovação. Vejamos como no Correio da Manhã vêem o acontecimento: «A série é composta de três blocos de dois selos cada com valor facial de 1 euro cada, com motivo igual em cada bloco. Os blocos são vendidos em conjunto e são acompanhados por um estetoscópio para ver os selos em três dimensões» («San Marino lança selos a três dimensões», J. P. S., Correio da Manhã, 23.08.2009, p. 43). Estetoscópio se o comprador for médico; se for polícia, serão algemas; se for taberneiro, um ramo de louro, e por aí fora. Ninguém, mais uma infausta vez, estranhou nada: nem jornalista, nem editor, nem revisor. Só o elemento pospositivo de composição é que é o mesmo: -scópio. Mas são instrumentos diferentes: o estetoscópio serve para auscultar a respiração, as batidas do coração e outros sons produzidos pelo corpo; o estereoscópio serve para observar simultaneamente, através de uma objectiva binocular, duas imagens de um objecto, obtidas com ângulos ligeiramente diferentes, produzindo a sensação de relevo, de terceira dimensão.

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Hertziano por artesiano


Imperdoável

«“Foi uma tarde infernal, pois o fogo esteve próximo do bairro junto ao campo de futebol”, adiantou o presidente da Junta de Freguesia de Abrunhosa a Velha, Júlio Mendes, que receava a interrupção do abastecimento de água, por ter sido afectada a rede eléctrica que serve os furos hertzianos» («Zona Centro sob inferno de chamas», Isabel Jordão, Correio da Manhã, 20.08.2009, p. 4). Ninguém estranhou nada: nem jornalista, nem editor, nem revisor. Parece-me que é mais do que falta de atenção o que aqui vemos. E é Abrunhosa-a-Velha.

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Neologismo: «eutanasiado»

Sempre a evoluir

      «Onze cães e cinco cachorros “de raças e tamanhos variados, entre os 12 e os 25 quilos, foram apanhados pela polícia do condado de Oglethorpe e eutanasiados sob ordem do juiz local”, declarou um porta-voz do gabinete da polícia, Shalom Huff» («Idosos devorados por cães vadios», Diário de Notícias, 20.08.2009, p. 27). Na verdade é o capitão Shalon Huff e não Shalom, mas isso agora não interessa. Algumas imprecisões fazem lembrar a notícia sobre o médico-legista no caso da morte de Michael Jackson. Também há, tinha de haver, um coroner: é o médico-legista do condado de Madison, James Mathews. Imagino que aquele «eutanasiados» provenha da tradução de um título, sobre o mesmo assunto, publicado no sítio da CNN: «Dogs in fatal attack rounded up, euthanized». O que pode pressupor o verbo eutanasiar, que nunca li nem ouvi. Em menos de dez anos, porém, vai estar registado nos dicionários.

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Ajuste e ajustamento

Cada maluco

«Ajustamento» é uma palavra que já nos vem de meados do século XVII — e aquele revisor sabe ou suspeita disso (suspeito que apenas suspeita…). Não deixa passar um «ajuste» ou «reajuste» (e no desporto, e em especial no futebol, há muitos arranjos). Dá mesmo um grito de guerra quando depara com uma. Justificação? «É influência dos Brasileiros. Sempre se disse e escreveu “ajustamento” e “reajustamento”.» Só espero que não designe a liquidação de contas pendentes por *ajustamento de contas nem ao facto de alguém não estar disposto a fazer acordos chame *não estar pelos ajustamentos.

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Tradução: «extremity»

À beira

«The extremity of the Britain’s housing bubble stems ultimately from a national obsession with property and property values.» «A extremidade da bolha imobiliária britânica decorre, em última análise, da obsessão nacional com a propriedade e os seus valores.» Nesta acepção, estamos perante um falso cognato. O tradutor não pensou mais: extremity é «extremidade». Aqui, não é. Segundo o Dicionário Houaiss, «extremidade» significa a parte extrema de um objecto, considerado longitudinalmente; ponta (dos dedos, de uma faca); parte final, fim, limite (a extremidade da estrada); orla, beira, fímbria (a extremidade de um vestido); em sentido figurado, miséria ou aflição extrema (chegar à maior extremidade).

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Tradução: «homeless»

Ena, tantos!

«[…] the new homeless are competing with the 80,000 already in temporary accomodation and the 1.7 million homeless (in England alone) on council lists waiting for social housing, usually because of overcrowding or unsatisfactory conditions in the private rented sector.» «[…] os novos sem-abrigo competirão com os 80 000 que já se encontram temporariamente alojados e com os 1,7 milhões de sem-abrigo (só em Inglaterra) constantes das listas municipais para habitação social, normalmente devido às condições sobrecarregadas e insatisfatórias do sector privado de arrendamento.» Não podemos, creio, traduzir, neste contexto, homeless por «sem-abrigo». Temos de recorrer à definição legal britânica de homeless para o compreendermos cabalmente. O 1996 Housing Act estabelece que homeless são as pessoas que «there is no accommodation that they are entitled to occupy» ou «they have accommodation but it is not reasonable for them to continue to occupy this accommodation». Se sem-abrigo (sem-lar ou sem-teto, no Brasil), única tradução que os dicionários nos dão de homeless, é a pessoa que vive na rua em condições de extrema pobreza, então falta pelo menos uma acepção. Quanto à tradução, temos de encontrar uma formulação alternativa.

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Tradução: «Mittel-European»

No meio

      «[…] or ancient black and white photographs of Mittel-Europeans desperately trying to force the doors of imposing but barricaded buildings in te 1920s.» «[…] velhas fotografias a preto-e-branco de Europeus do Centro, tentando desesperadamente forçar as portas de edifícios imponentes mas barricados, na década de 1920.» Até já tenho lido, sobretudo na imprensa, mitteleuropeu, mas há-de ser para nos rirmos. Correcto é centro-europeu, à semelhança de centro-africano e centro-americano.

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Persuadir e convencer

Muito filosófico


      «But in addition, a new generation of home buyers, property investors and builders had persuaded itself that prices only ever go up, and that property was a guaranteed way to accumulate wealth.» «Mas, além disso, uma nova geração de compradores de casas, de investidores imobiliários e de construtores persuadira-se de que os preços não parariam de crescer, e de que a propriedade era uma maneira segura de acumular riqueza.» Embora convencer se situe mais no campo das ideias e persuadir no campo das emoções, o que leva algumas pessoas a defender que devemos usar este último apenas quando nos referimos ao acto de levar alguém a acreditar, a aceitar ou a decidir, os dicionários não distinguem.

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Ortografia: «play-off»

Sem evolução

«Encarnados iniciam hoje o ‘play-off’ de acesso à fase de grupos» («Magnata dá milhões para Vorskla eliminar o Benfica», Gonçalo Lopes, Diário de Notícias, 20.08.2009, p. 34). No tal jornal, escreve-se sempre, por determinação da chefia, playoff. Os jornalistas e editores bem perguntam se é assim, duvidando alguns, certamente, de que seja. Ali, duvidar nem sempre é, infelizmente, aprender. No Dicionário Merriam-Webster, lê-se que «a final contest or series of contests to determine the winner between contestants or teams that have tied» se designa por play-off.

Actualização em 11.10.2009

Quando calha, porém, mesmo no Diário de Notícias escreve-se de outra forma qualquer, pois já ninguém se lembra como se escreveu antes: «Uma excelente segunda parte carimbou ontem quase matematicamente a entrada de Portugal no play off de acesso ao Mundial da África do Sul, deixando as contas muito esclarecidas no Grupo 1» («Segunda parte carimbou sonho de ‘play off’», João Rosado, Diário de Notícias, 11.10.2009, p. 42).


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Jornalismo desportivo

A cada momento, disparates

«Apesar de considerar o Benfica “momentaneamente” a melhor equipa portuguesa, “porque foi aquela que apresentou o melhor futebol na 1.ª jornada”, o central Gustavo Lazzaretti, de 25 anos, não se deixa intimidar pela valia do adversário.» Lá que o futebolista fale assim, não é razão para o jornalista o escrever, ou é algum estudo linguístico? Mais grave será se o jornalista pensar que o advérbio «momentaneamente» equivale à locução «de momento». Entre isto e referirem-se à bola como «esférico», já se vê o que é pior.

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«Proceder a uma zaragatoa»?

Imagem: http://www.vidrolab.pt/

Mais macaqueadores


      «A lei prevê que, na falta de um perito, qualquer médico indicado possa proceder a uma zaragatoa (amostra) oral ou vaginal» («INML fez 109 perícias por mês a vítimas de crimes sexuais», Sónia Simões, Diário de Notícias, 20.08.2009, p. 17). «Proceder a uma zaragatoa»? Vê-se logo que a jornalista imitou a «fonte médica»: «“Qualquer médico pode fazer zaragatoas vaginais ou orais permitindo à vítima comer e tomar banho e[m] seguida”.» Se se tivesse dado ao trabalho de consultar um dicionário, pela definição de zaragatoa — pequena esponja, na extremidade de uma haste de madeira ou de plástico, para aplicar medicamentos na garganta ou fossas nasais e para colheita de produtos biológicos; por metonímia, também se designa assim o medicamento aplicado com a zaragatoa —, concluía logo que não é a forma mais correcta de o dizer.

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Linguística tipológica

Não deixo que digas

«“Importa salientar que este foi, até ao momento, o único projecto que a fundação [Volkswagen] financiou na Europa — apresentou-o no relatório anual de 2008 como uma excepção —, o que para mim dá a este projecto um valor ainda mais especial”, sublinha a especialista [Vera Ferreira] em linguística geral e tipológica, área que considera ser desconhecida em Portugal» («Minderico renasce com o apoio da Volkswagen a línguas ameaçadas», Manuel Fernandes Vicente, Público, 17.08.2009, p. 22). A entrevistada estava como que a pedir que lhe perguntassem o que estuda a linguística tipológica, mas o jornalista não quis saber nem quis que nós soubéssemos. A linguística tipológica é um subcampo da linguística que estuda e classifica as línguas de acordo com o seu tipo estrutural. A classificação tipológica das línguas foi proposta pelo linguista alemão August Wilhelm von Schlegel (1767―1845) no início do século XIX.

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Serviços de urgência


Básico

«A ministra da Saúde, Ana Jorge, inaugurou ontem o Serviço de Urgência Básica (SUB) de Sintra, localizado em Mem Martins, um investimento de 700 mil euros» («Sintra já dispõe de novo Serviço de Urgência Básica», C. S., Correio da Manhã, 19.08.2009, p. 16). O que é que é básico: o serviço ou a urgência? No Portal da Saúde, que pertence ao Ministério da Saúde, lê-se Serviço de urgência básica. Na imprensa, contudo, vê-se com abundância Serviço de Urgência Básico e mesmo, mais explicitamente, Serviço Básico de Urgência. Aqui, já exageram, pois não deixam de acrescentar a sigla SUB, e não SBU.

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Títulos na imprensa

Sem título


      No Manual de Redação e Estilo de O Globo, lê-se que o título «é o anúncio da notícia e, como tal, é proibido prometer mais do que a matéria realmente contém». Ora, como sabemos, é pecha comum a muitos jornais o título não ser confirmado no corpo da notícia. Muitas vezes, antes pelo contrário, estão mesmo em contradição. Na página 15 da edição de ontem do Correio da Manhã, lia-se este título: «Supremo decide que planear morte é crime». Tendo em conta que planear pode ser um facto meramente mental, e, logo, insindicável, poucos leitores se terão assustado ao ler o título. Pelo excerto de um acórdão (n.º 11/2009 de 18.06.2009) para fixação de jurisprudência do Supremo Tribunal de Justiça que é citado na notícia, conclui-se que, afinal, planear morte não é crime: «Na decisão agora proferida, o Supremo considera então que é “autor de crime de homicídio na forma tentada quem decide e planeia a morte de uma pessoa, contratando outrem para a sua concretização (…), mediante pagamento de determinada quantia”» (Tânia Laranjo e Manuela Teixeira, 19.08.2009, p. 15). Se já é estranho que planear contratando seja crime (e o juiz-conselheiro Souto Moura, ex-PGR, é citado no artigo: «Não é essa a lei que temos. […] Há uma lacuna grave de punibilidade.») quanto mais planear a morte de alguém.

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Tradução: «momentum»

Tira-teimas


      «In 2001 the scare began to gain momentum», lia-se no original. O tradutor verteu assim: «Em 2001, o alarmismo começou a ganhar força.» Só no Público é que a jornalista Rita Siza continua a usar o termo inglês «momentum» como se não houvesse equivalente em português: «Num esforço para manter o momentum no debate, o Presidente Barack Obama esteve ontem em Raleigh, na Carolina do Norte, para uma sessão de esclarecimento sobre a reforma [do sistema de saúde]» («Democratas chegam a acordo na reforma da saúde», Rita Siza, Público, 30.07.2009, p. 194). Experimentem ir ali ao Café Limiano e peçam aos clientes que decifrem a frase. Se o conseguirem, calo-me para sempre.

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Dupla grafia

Andar às aranhas

      Ontem, os outros dois revisores estranhavam (e eu estranhei que estranhassem, pois nunca falam de questões ligadas com a língua) que no âmbito do novo acordo ortográfico se deva (deve?) escrever «veredicto» e «perfeccionista». Ou seja, estranhavam que não percam o c. A última nunca ali tinha sido discutida, mas «veredicto» aparece todos os dias e todos os dias jornalistas e editores perguntam, estranhando, se leva mesmo c. São convicções formadas a partir das fontes que se consultam. Tanto num caso como no outro, estamos perante duplas grafias. Sendo o critério da pronúncia o que determina a supressão gráfica das consoantes mudas e também o que leva a que o Acordo Ortográfico de 1990 tenha mantido um certo número de grafias duplas (embora os dicionários que adoptaram as novas regras ortográficas nem sempre as registem), é necessário reflectir mais ponderadamente nas opções por que se está a enveredar. A meu ver, falta concretizar esta precaução constante do texto do acordo: «Os dicionários da língua portuguesa, que passarão a registar as duas formas em todos os casos de dupla grafia, esclarecerão, tanto quanto possível, sobre o alcance geográfico e social desta oscilação de pronúncia.» Creio, contudo, que nunca veremos esta informação nos dicionários.

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Sinais gráficos

Sim, mas outros

      A vários títulos, a última crónica de Rui Tavares no Público («Bom! Bonito! Barato!», 17.08.2009, p. 40, disponível também no blogue do autor) interessou-me muito. Eis o último parágrafo do texto: «Eu também sonho às vezes com uma escrita que fosse só palavras, sem convenções gráficas. Mas a escrita é toda ela convenção; e logo vejo que há sinais gráficos a menos e não a mais. Eu por mim inventaria mais quatro ou cinco: para a falsa exclamação, para a pergunta interrompida, para a dúvida afirmativa, para a frase incompleta.» Concordo: também acho que faltam sinais gráficos. Contudo, talvez alguns daqueles que o cronista propõe existam de facto. Que acha o leitor?

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«Dever de» e «dever»

Em boa companhia

      Cara Sofia: não é só na obra de António Vieira que encontramos a construção deve de + infinitivo. Encontramo-la na obra de Luís de Camões, Fr. Amador Arrais, Camilo e noutros grandes escritores. Cada época, é sabido, vai rejeitando o que antes era considerado correcto. Vasco Botelho de Amaral não condenou a construção. José Neves Henriques, porventura o mais ponderado consultor que alguma vez passou pelo Ciberdúvidas, afirmou que ambas as locuções verbais são inteiramente correctas. «O que acontece», acrescentou, «é que o emprego da preposição de está um pouco em desuso, o que leva muita gente a duvidar da correcção de dever de + infinito.» E também escreveu: «Como a construção deve de + infinitivo é mais complexa, talvez os não muito sabedores da Língua Portuguesa a julguem mais própria de quem é culto.» Ou mesmo os muito sabedores, digo eu, a considerem errada.

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Léxico: «factóide»

Chame-lhe o que quiser

Outro vocábulo que não está registado em todos os dicionários gerais da língua é «factóide». Ainda assim, esta não é razão para a frase que se segue ter sido traduzida como o foi. «Many in the court process seemed to share this view, and the factoid certainly sticks in the mind.» «Muitos no processo judicial pareciam partilhar desta opinião, e o mastóide fica, sem dúvida, na lembrança.» Claro que encontro, como o leitor, uma razão para o tradutor ter escrito «mastóide» em vez de «factóide»: não encontrou o termo no dicionário (ou dicionários) que consultou, foi pesquisar por semelhantes e surgiu «mastóide», que é, como substantivo, a apófise da base do crânio formada no osso temporal. E depois esqueceu-se de levar a tarefa até ao fim: escrever, por analogia, «factóide». Não se fazem omeletas sem ovos. Factóide vem do inglês e designa a informação falsa ou não comprovada que se aceita como verdadeira em consequência da sua repetida divulgação pela imprensa. Na área da ciência, há muito disto na imprensa.

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Livro de Estilo

Era bom

Sem terem um Livro de Estilo, que eu acho essencial em qualquer publicação, e mais ainda naquelas em que há mais do que um revisor, «costumam» grafar alguns vocábulos de uma maneira peculiar. «Aqui escrevemos “alvi-negro” e “auri-negro”.» Ontem, contudo, estavam a discutir a correcção daquelas grafias. «Não tinhas já mandado um e-mail ao José Mário Costa sobre isto?» Um ainda fez menção de consultar o Dicionário da Língua Portuguesa (edição de 2003) da Porto Editora. «Não está aí nada.» Adiaram a solução — a solução do erro. É claro que é aurinegro, como é auriazul, auriverde, etc., como também é claro que é alvinegro, como é alvirrubro, alviverde, etc. Sem Livro de Estilo, de que tanto precisam um jornal recente como um com mais de sessenta anos, bem concebido e pensado, hoje escreve-se assim e amanhã escrever-se-á assado. Há quem revele o que faria se chegasse a presidente do governo mundial. Eu, mais modestamente, digo que, se fosse chefe da secção de revisão de uma qualquer publicação (ou director desta), a primeira tarefa dos revisores era lerem em conjunto e discutirem as opções da véspera. A primeira medida, porém, seria transferir para tarefas mais consentâneas com as suas competências quem é revisor sem ter qualificações mínimas para tal.

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Tradução: «publication bias»

De esguelha

      Como tem sido traduzida a expressão inglesa publication bias? E, primeiro, o que é? Embora esteja mais desenvolvida aqui a definição, mais resumidamente é «a tendency on average to produce results that appear significant, because negative or near neutral results are almost never published», conforme se pode ler aqui. É o problema que resulta do facto de se publicarem estudos científicos que não apresentam resultados negativos, o que faz que o efeito das intervenções possa ser sobrestimado. A tradução já consagrada entre nós é viés de publicação, e não deve haver estudante de Medicina que a não conheça. Se uma das traduções de bias é «viés, esguelha, direcção oblíqua», também é, e adequa-se melhor ao conceito, «parcialidade». Estas traduções enviesadas abundam no mundo da ciência, e não podemos fazer muito para as contrariar.

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Léxico: «comentariado»

Essa classe


      «Having created this parody, the commentariat then attack it, as if they were genuinely critiquing what science is all about.» «Tendo criado esta paródia, o comentariado passará depois a atacá-la, como se estivesse a criticar genuinamente o que é, de facto, a ciência.» Termo colectivo usado para designar professores, peritos, analistas e outros comentadores. Michael Quinion, contudo, afirma que «this is a jokey journalists’ term for that group of people whose job is to comment on the news». Cunhado à semelhança de precariado, aqui analisado.


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«Medicina baseada na evidência»

Será evidente?


      Se o confundimento confunde, as evidências anglo-saxónicas deixam-nos sempre de pé atrás. Na tal obra, usa-se vinte vezes a expressão medicina baseada na evidência e 158 (!) o vocábulo evidência. Encontrei aqui um texto, «Acerca da “medicina baseada na evidência», datado de 2005, da autoria do médico A. J. Barros Veloso, que esclarece quando começou a ser usada em Portugal a expressão: «Foi há mais ou menos dez anos que a expressão “medicina baseada na evidência” surgiu no vocabulário médico português pela mão de um pequeno grupo de médicos com fortes ligações à cultura anglo-saxónica. Pretendia-se com isso valorizar um tipo de prática clínica caracterizada pela “utilização conscienciosa, explícita e criteriosa da evidência clínica actualizada” [Carneiro, A. V. A medicina baseada na evidência. Medicina Interna, 1998; 5: 133] e anunciava-se sem qualquer hesitação o nascimento de “um novo paradigma”. […] Evidence-based medicine foi a expressão anglo-saxónica que se travestiu para português em “medicina baseada na evidência”. Os mentores deste “novo paradigma” (que para facilitar chamarei “evidencistas”) consideram que “evidência” é sinónimo de “prova científica” obtida através de ensaios clínicos controlados aleatórios ou das chamadas meta-análises. Com isto pretendem dizer-nos duas coisas: que a “medicina baseada na evidência” estabelece uma clara fronteira entre o que é e não é “medicina científica” e que a ciência possui um método próprio que permite obter “evidências”. Contudo, a palavra “evidência” tem, neste contexto, um significado ambíguo que se presta às maiores confusões. Por outro lado[,] não é líquido que a “medicina baseada na evidência” seja o único fundamento científico da medicina clínica.» Os dicionários da língua portuguesa, entretanto, continuam a registar que a evidência é a «qualidade de evidente; noção clara; certeza manifesta», e não «something that furnishes proof». Mesmo evidência como sinónimo de indício e este a significar prova só em determinadas áreas.

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Sobre «propaganda»

Imagem: http://quackcartoon.com/


Sapos falantes


      A propósito da tradução de drug reps, maneira mais informal de referir os pharmaceutical sales representatives (delegados de informação médica), lembrei-me de como, a determinada altura (já na década de 1990?), ainda eram designados delegados de propaganda médica. Embora «propaganda» não tenha deixado de significar, neste contexto, «vulgarização de um produto industrial ou artigo de comércio», o termo acabou por adquirir uma carga fortemente negativa, mais sugestiva de mera manipulação do que de informação. Contudo, é isso mesmo que os delegados de informação médica quase sempre fazem: tentam persuadir os médicos (perante a proibição de o fazerem, porta a porta, directamente a nós) da eficácia de drogas que nunca se provou cientificamente serem eficazes. Claro que, nas últimas décadas, os laboratórios farmacêuticos, muito inventivos (pudera), vendem a doença e a cura ao mesmo tempo, o que facilita a propaganda.

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Topónimos no novo acordo


Mais uma

— «Tróia» não tem acento?
— Hã?
— «Tróia»…
— Agora não deve ter?..
— Ah, pois, ah, pois, ah, pois…
Confesso que não me tinha lembrado disso, mas o caso não era comigo nem ninguém me perguntou nada. É verdade, segundo o texto do Acordo Ortográfico de 1990, é eliminado o acento nos ditongos abertos oi, mas apenas quando constituem sílaba tónica de palavras paroxítonas: alcaloide, heroico, joia, etc. Os topónimos, pois claro, não ficarão a salvo: Azoia, Troia, etc. A pouco e pouco, as regras do novo acordo vão sendo ali observadas.

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Tradução: «unreliable»

Discutível

«It is an object lesson in what an unreliable source of research information these characters can be.» «É um exemplo prático sobre quão infiável uma informação destes sujeitos sobre uma fonte de investigação pode ser.» Sim, unreliable é «inseguro, que não inspira confiança; inexacto; duvidoso; falível; discutível». A questão, todavia, não é essa, mas se posso simplesmente juntar um prefixo de negação a qualquer palavra para obter o contrário do que esta significa. Teoricamente, sim. Só teoricamente, contudo.

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Tradução: «shame»

É vergonhoso, é

É como nas normas jurídicas que são julgadas inconstitucionais ou ilegais em três casos concretos: passa-se da fiscalização concreta para o controlo abstracto. É a quarta vez este ano que vejo o vocábulo inglês shame mal traduzido. «That is, in some respects, a shame, as nice quick fixes are always useful, but there you go.» Tradução: «De certa forma, esta situação é vergonhosa, uma vez que as soluções rápidas mas inadequadas são sempre úteis, mas lá voltamos ao mesmo.» Os tradutores não podem pegar na primeira acepção do verbete nos dicionários bilingues: têm de analisar todo o verbete e ponderar qual a acepção que se adequa ao contexto. Claro que, no caso, eu não posso dar um contexto maior, mas é óbvio que a acepção que de adapta é «pena, lástima».

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A divisão silábica de «sublinhar»

Oh, que surpresa!...


      No jornal, chamei a atenção de dois revisores para o facto de o programa de paginação dividir incorrectamente, era o que me parecia, a palavra «sublinhar»: su-bli-nhar. Só depois consultei o Ciberdúvidas. Na resposta a uma consulente brasileira, em 2000, afirmava-se que, «segundo o Michaelis, a palavra sublinhar separa-se desta forma: su-bli-nhar». Na resposta a outra consulente brasileira, em 2005, já se garantia que sub-li-nhar é que é correcto. Quando prevenira os meus colegas, tinha na memória algum fragmento, ou pelo menos o que interessava no caso em apreço, da sequência pl bl tl dl cl gl fl vl pr br tr dr cr gr fr vr. Sabe o que é, não é assim? São os grupos considerados indivisíveis na translineação: grupos formados por uma consoante oclusiva (p, b, t, d, c, g) ou fricativa (f, v) seguida por l ou r. Vejo agora que o Dicionário Houaiss, das poucas vezes em que se mete em questões de translineação, contempla o vocábulo «sublinhar», registando poder-se translinear de ambas as formas. Mas o vocábulo «sublinear», por exemplo, só se pode, segundo o mesmo dicionário, translinear mantendo a sequência bl unida. A MorDebe indica que a translineação é sub-li-nhar, o mesmo registando o Míni Aurélio. Conclusão? Faça (eu farei) como eu aprendi e como decerto o leitor também aprendeu.

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Léxico: «quadrat»

Imagem: http://labradorpark.files.wordpress.com/


Lamento, mas…


      «In biology fieldwork, you throw a wired square called a ‘quadrat’ at random out onto the ground, and then examine whatever species fall underneath it.» Tradução? «No trabalho de campo biológico, atira-se uma estrutura com uma rede de arame, chamada “quadrado”, ao calhas para o solo, e examinam-se depois as espécies que ficaram lá por debaixo.» Toda a pesquisa que fiz me levou à conclusão de que quadrat não tem correspondência em português, sendo usado o estrangeirismo.

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«Solarengo» e «soalheiro»

In Correio da Manhã, 3.08.2009, p. 21


Vamos manter

      Das editoras, já me vão dizendo: «Estivemos aqui a consultar o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, e “soalheiro” e “solarengo” aparecem como sinónimos. Assim, se não se importa, vamos manter.» Temos assim de acreditar piamente quando Mega Ferreira afiança que «o Dicionário da Academia é geralmente tido como a mais importante referência moderna da língua portuguesa»…

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Pontuação

Caprichos pontudos


      Outro revisor não deixa escapar uma vírgula que se intrometa entre o advérbio «agora», se se lhe seguir imediatamente um verbo («Agora, é óbvio que sou diretor-desportivo do Sporting e não do Paulo Bento.»), ou entre um complemento circunstancial de tempo e o verbo que se lhe siga («Terça-feira de manhã, parte para Praga a formação leonina.»). E porquê?, perguntei a um colega (porque ele não é mudo mas não fala). Ora, porquê…

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«Confundimento»?

Para quê?     



      «They can confuse an apparently causal relationship, and you have to think of ways to exclude or minimize confounding variables to get the right answer, or at least be very wary that they are there.» «Podem confundir uma relação à primeira vista causal, e é necessário encontrarmos formas de excluir ou minimizar as variáveis de confundimento, por forma a obtermos a resposta certa, ou pelo menos termos muito cuidado devido à presença das mesmas.» Nos milhares de vocábulos com o sufixo –mento, formador de substantivos derivados de verbos, não figura «confundimento», excepto no Dicionário Houaiss, em que até o antónimo, desconfundimento, figura. Mas dizem-me que sim, que nos estudos epidemiológicos se usa a locução variáveis de confundimento.

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Sob o/a

Não fica melhor?


      «O Zenit prepara, sob a orientação do novo treinador, Anatoly Davydov, a deslocação ao terreno do Amkar (13.º na tabela), no próximo domingo, na 18.ª jornada do campeonato russo.» Esta frase concretamente fica mais elegante omitindo-se o artigo. Noutras frases, pode até ser apenas correcto estando omisso o artigo. Outra vez: «O Zenit prepara, sob orientação do novo treinador, Anatoly Davydov, a deslocação ao terreno do Amkar (13.º na tabela), no próximo domingo, na 18.ª jornada do campeonato russo.»

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Pontuação

Pausa menor


      «Já Pires, lesionou-se na boca no jogo com o Lagoa, após ter sido atingido por uma cotovelada, mas ontem já trabalhou sem limitações e está apto para a partida com o Estoril, no próximo domingo.» Na minha experiência, o que vejo é que em cada dez vezes que aparece a construção «já X», relativamente abundante, oito estão mal pontuadas. Separar o sujeito do predicado quando aparecem seguidos? Deve ver-se aqui o que alguns gramáticos de trazer por casa chamam «valor melódico da vírgula». Infelizmente, nem todos os jornalistas lêem o jornal para que escrevem. Assim, é óbvio que todas as convicções que tiverem se manterão fortes.

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Como se escreve nos jornais

Em bruto, não


      «“Vai ser uma poule complicada, mas, como sempre, temos de acreditar que, dentro das nossas possibilidades, é possível o apuramento”, sublinha o jogador do Friedrichshafen, para quem a Bulgária é a principal favorita.» Alguns jornalistas não encontram o meio-termo entre deixarem um entrevistado exprimir-se de forma inverosímil (o caso mais recente é o de Cristiano Ronaldo, que parecia um professor catedrático de Filosofia) e limitarem-se a transcrever a entrevista. É claro que o que o entrevistado diz, seja futebolista, seja escritor, é para ser editado. Se o jornalista deixar a entrevista pejada de erros de toda a espécie, com trechos simplesmente incompreensíveis, o revisor pode fazer muito, mas não fará milagres. A ajudar, só um facto: a maioria dos jornalistas é mais ciosa dos títulos e antetítulos do que do corpo da peça. Uma questão de orgulho e identidade...


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Pontuação

Plantel e gramática


      Ali, quase todos acham natural uma frase como: «O avançado do Sporting, Liedson, já é cidadão português.» Até um desconhecedor militante de coisas sobre o futebol como eu (prefiro tê-lo no currículo a que mo inscrevam no epitáfio) sabe que a frase não é verdadeira — não correcta, mas verdadeira. Mas a situação é mais complexa, reconheço. Ao jornalista desportivo, falta conhecer algumas regras gramaticais elementares. Ao revisor, pode faltar o conhecimento, facilmente adquirível, do plantel dos clubes (não das regras do futebol, pois as posições, com excepção do guarda-redes, não são referidas nas regras). Se o Sporting tem cinco avançados (o Benfica, sete e o FC Porto, oito), nunca será verdadeira a frase acima. Será então: «O avançado do Sporting Liedson já é cidadão português.» Ou talvez melhor: «O avançado sportinguista Liedson já é cidadão português.» Ou: «Liedson, avançado do Sporting, já é cidadão português.» Ou: «O avançado leonino Liedson já é cidadão português.» Além do mais, há outro avançado estrangeiro, o equatoriano Felipe Caicedo. Frases semelhantes, e sempre falsas, são ali publicadas diariamente.

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Maldizer ≠ bendizer

In Record, 14.08.2009, p. 2.


Não quis saber

      Não serão todos, mas pelo menos alguns dicionários registam expressamente como antónimo de maldizer o verbo bendizer. É o caso do Grande Dicionário de Sinônimos e Antônimos das Publicações Ediouro (Rio de Janeiro, 2004), na página 352. Nem sempre, mas muitas vezes a antonímia pode ter origem num prefixo de sentido oposto ou negativo: activo e inactivo, bendizer e maldizer; comunista e anti­comunista, concórdia e discórdia, progredir e regredir; simpático e antipático… «Crónica de bem dizer»? «Falo do que gosto e de quem gosto, com destaque para os jogadores, que tantas vezes deixo numa segunda linha de análise mas que são a verdadeira explicação à [sic] loucura que se volta a instalar já neste fim-de-semana». Não se trata aqui da arte de bem dizer, mas de enaltecer, louvar, dizer bem. Eu estava lá e disse ao revisor que estava incorrecto. Sei, porém, que as pessoas só seguem os conselhos que lhes dão quando estes são pagos.

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Sobre «clubístico»

Os suspeitos do costume

      O tal revisor também fica transtornado quando vê — e vê, pelo menos, uma vez por semana — a palavra «clubístico». «Paixão clubística»? Embora atribua todos os males da língua portuguesa à influência, que considera deletéria, dos Brasileiros («as telenovelas vieram acabar com a pureza da língua»), neste caso tem uma explicação mais esotérica: suspeita que o vocábulo «mística», também usado no jornalismo desportivo, anda envolvido na corrupção. «“Clubístico” não existe. Veja.» Mostra-me a 4.ª edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, praticamente a única obra de consulta de que dispõem ali. «Existe é “clubista”.»
      O que se pode ver é que a criação de adjectivos relacionais mediante o sufixo –ístico é relativamente comum no âmbito de actividades desportivas e profissionais: futebolístico, pianístico, tenístico, turfístico, etc. Uma pesquisa no Dicionário Houaiss revela a existência de 169 verbetes terminados em –ístico. E se não acolhe clubístico, regista cineclubístico. Até no Livro de Estilo do Público é usado o termo: «Uma das normas de conduta dos jornalistas do PÚBLICO é o não envolvimento público em tomadas de posição de carácter político, comercial, religioso, militar, clubístico ou outras que, de algum modo, comprometam a imagem de independência do jornal e dos seus jornalistas.» E a MorDebe regista o vocábulo.

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«Mano a mano» I

A diestro y siniestro


      Dizia-me aquele revisor que já esclareceu vezes sem conta jornalistas e editores que não é mano-a-mano, mas mano a mano. Faltou foi dizer que é uma locução adverbial espanhola. Nascida no meio tauromáquico e significando a corrida de touros em que actuam apenas dois matadores, passou depois a significar também qualquer acção realizada por duas pessoas em competição, bem como em companhia, com familiaridade e confiança.

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Contracção

Elementar

      «Podia-o chamar?» Esta frase está correcta? Decerto que sim, é apenas invulgar actualmente. Uma boa abonação: no «Sermão das Exéquias do Sereníssimo Infante de Portugal, D. Duarte, de Dolorosa Memória», o padre António Vieira escreveu: «Podia-o dizer com a mesma, e ainda maior razão; e se falasse com Suas Majestades, podia-o dizer com as mesmas, e não com melhores palavras: Quotidie morior per vestram gloriam Fratres.» Estabelecido isto, como seria a transcrição da forma popular de proferir a frase? Assim: «Podiò chamar?» Se há contracção, temos de usar o acento grave. Se, mais do que a forma popular, quisermos registar o solecismo celebrizado por Raul Solnado, escreveremos então: «Podiò chamá-lo?»

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Léxico: «meta-análise»


Interessante

      O vocábulo meta-análise, com que alguns médicos estarão familiarizados, não está registado nos dicionários gerais da língua, não exactamente por ser um termo técnico, porque estes abundam nos dicionários, mas por não estar largamente divulgado, como outros. Eis não apenas uma definição, mas a forma de se fazer uma meta-análise: «A meta-analysis is a very simple thing to do, in some respects: you just collect all the results from all the trials on a given subject, bung them into one big spreadsheet, and do the maths on that, instead of relying in your own gestalt intuition about all the results from each of your little trials» (Bad Science, Ben Goldacre. Londres: Fourth Estate, 2008, p. 54). Há mesmo uma organização internacional — sem fins lucrativos! —, The Cochrane Collaboration, constituída por académicos, que elabora súmulas sistemáticas da literatura de investigação sobre a pesquisa em termos de cuidados de saúde, incluindo as meta-análises. À representação diagramática dos ensaios clínicos dá-se o nome de blobbogram (sem correspondência em português) e faz parte do logótipo da Cochrane.

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«Ambos» em frase negativa

Por pouco


      «Ambos os jogadores não são vistos como prioritários pelo técnico chileno do Real, Manuel Pellegrini, pelo que existe a possibilidade de ambos serem trocados pelo extremo gaulês, mais o pagamento de 30 milhões de euros», escreveu o jornalista, mas eu não deixei que a frase visse a luz do dia (viu apenas a luz artificial da redacção). Mesmo que se aceitasse como correcta aquela construção negativa com o numeral «ambos», continuava a soar-nos estranha. E como o espaço tem tanta importância, numa formulação diferente até pouparemos caracteres: «Nenhum dos jogadores é visto como prioritário pelo técnico chileno do Real, Manuel Pellegrini, pelo que existe a possibilidade de ambos serem trocados pelo extremo gaulês, mais o pagamento de 30 milhões de euros.» Nem tudo o que não é proibido é aceitável.

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Tradução: «terminal cancer»

Estava aqui a pensar

      Se terminal se diz, em medicina, da última fase de uma doença que evolui para a morte sem que se possa impedi-la (mas há milagres), então, não temos de traduzir terminal cancer por cancro em fase terminal, mas somente cancro terminal. Quando o Correio da Manhã noticiou a morte de Jade Goody, ex-concorrente do Big Brother inglês, usou duas vezes no corpo da notícia a locução cancro em fase terminal, ao passo que no antetítulo, decerto que por falta de espaço (e por falta de espaço se escrevem muitas tolices), se lia cancro terminal.



Actualização em 25.08.2009



      «Libertado na semana passada pelas autoridades escocesas por padecer de um cancro terminal, al-Megrahi afirma ter sido vítima de um golpe montado para o incriminar da morte dos 243 passageiros e 16 tripulantes de um voo da Pan Am que se despenhou sobre Lockerbie, em 1988, matando ainda 11 habitantes da localidade» («Terrorista de Lockerbie alega inocência em livro», F. J. G., Correio da Manhã, 23.08.2009, p. 35).

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Sobre «factor»

Aquele que faz

      «O Metropolitano de Lisboa já tinha reduzido bastante o número de tripulantes dos comboios, quando decidiu dispensar os denominados factores, elementos que seguiam a bordo, controlavam a entrada e saída de passageiros e a abertura e fecho das portas das composições» («Metro gastou milhões em piloto automático que não funciona», Daniel Lam, Diário de Notícias, 12.08.2009, p. 19). Se se for retirando arcaísmos, acepções, palavras e expressões em desuso dos dicionários, a compreensão de muitos textos vai-se tornando gradualmente mais difícil. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, regista que factor é «aquele que faz alguma coisa; agente». Já o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, regista que é «aquele que, numa empresa de transportes, está encarregado de transportar e remeter os embrulhos, bagagens, mercadorias, etc.». Para o Dicionário Houaiss, é somente «aquele que faz algo». A acepção mais conhecida do vocábulo é o de qualquer elemento que concorre para um resultado. Assim, a doença periodontal é um factor de risco para os acidentes cerebrovasculares.

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«Tempo de prateleira»

Sair da prateleira

      «Durante muitas décadas, os físicos estudaram intensamente a estrutura da água e se, por um lado, é verdade que as moléculas de água formarão estruturas em torno de uma molécula dissolvida nelas à temperatura ambiente, o movimento aleatório quotidiano das moléculas de água significa que estas estruturas são muito efémeras, com tempos de vida medidos em picossegundos, ou menos ainda. Estamos a falar de um tempo de prateleira muito reduzido.» Nunca tinha lido ou ouvido a expressão tempo de prateleira (no original, inglês, lia-se shelf life). O Dicionário Houaiss não regista a locução. Em certo sentido, é sinónimo de «validade». Já quanto a picossegundo, é a unidade de tempo equivalente a um bilião de vezes menor que um segundo, e o Dicionário Houaiss regista o vocábulo.

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Melhoras e melhorias


Triagem

      «O Hospital de Santa Maria anunciou melhorias numa das pacientes que cegou após tratamento. Maria das Dores, de 53 anos, já consegue ver vultos. A ministra da Saúde, Ana Jorge, anunciou que os doentes poderão ser encaminhados para o estrangeiro se houver “indicação clínica”.» É o texto de uma notícia publicada na página da Internet da RTP. Ainda que melhoria e melhora (mais usada no plural) signifiquem «diminuição da doença», o uso consagrou a primeira com o significado de «mudança para melhor estado ou condição material» (por exemplo: «O serviço de atendimento do Hospital de Santa Maria apresenta melhorias significativas depois de ter adoptado o método de Manchester.») e a última como sinónima de «diminuição de doença; alívio» («O Hospital de Santa Maria anunciou melhoras numa das pacientes que cegaram após tratamento.»).

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Tradução: «scienciness»

Essa é boa

      Scienciness. O sufixo -ness indica estado, qualidade ou condição, neste caso não acrescentado a um adjectivo, como é habitual, mas a um substantivo: scienc(e)+i+ness*. «There are huge», dizia o original, «numbers of different brands, and many of them offer excellent and lenghty documents full of science to prove that they work: they have diagrams and graphs, and the appearence of scienciness; but the key elements are missing.» Tradução? Fácil, sim, mas aquele scienciness? A tradutora verteu assim para a língua portuguesa: «Há um grande número de marcas diferentes no mercado, e muitas delas fazem-se acompanhar de excelentes documentos extensos, cheios de ciência para provar que resultam: contêm diagramas e gráficos e a aparência de ciencialidade; no entanto, os elementos principais estão ausentes.»


* O i é uma vogal de ligação, que é um morfema que se acrescenta por motivos eufónicos. Tome-se a palavra «escolaridade», por exemplo. Temos: escolar+i+dade. Até podemos pesquisar num dicionário mórfico (como o que vem com a nova edição do Dicionário Houaiss, com 13 mil elementos mórficos, formantes da língua) o sufixo –idade, e vamos encontrá-lo, mas o respectivo verbete remete para –dade. E no caso de ciencialidade, o que temos? Ciência-li-dade? Sim, também há consoantes de ligação, como o z de «amorzinho», mas aqui temos uma sílaba. Nunca vi sílabas de ligação. Bastaria aqui uma vogal de ligação: ciencidade.

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Tradução: «coroner» (III)

Está quase

      Alguns jornais, com o Diário de Notícias à frente, têm explorado bem o filão Michael Jackson. De tentativa em tentativa, procuram a melhor tradução da instituição em que exerce funções o coroner, matéria que já aqui nos ocupou. A coisa ainda não está afinada: «A informação foi revelada na noite de segunda-feira pelo Departamento de Medicina Legal do Estado [sic] de Los Angeles. […] A pedido da polícia, as conclusões não serão divulgadas enquanto durarem as investigações sobre a morte de Michael Jackson, afirmou o médico-legista Ed Winter, que tem estado a tratar do caso» («Autópsia de Jackson em segredo», Diário de Notícias, 12.08.2009, p. 48).

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Plural das letras

Título de uma rubrica do Correio da Manhã

Pôr os pontos nos…


      Ontem, a discussão entre dois revisores era sobre a forma de pluralizar o nome da letra i: ii ou is? Um afirmava ter lido «não sei onde» (isto é que é um argumento de autoridade!) que correcto é ii. Podia ter sido em muitos sítios. O Dicionário Houaiss regista como plural da nona letra do nosso alfabeto ii. E no Ciberdúvidas, a propósito da mesma questão, é citado o Dicionário de Questões Vernáculas, de Napoleão Mendes de Almeida (Livraria Ciência e Tecnologia Editora, São Paulo), em que se pode ler: «Quando quisermos declarar que numa palavra existe certa letra dobrada, escrevamos dois aa, dois ee, dois ii (e não “dois ás”, “dois és”, “dois is”), pingo nos ii (e não “pingo nos is”). De igual forma: Tal palavra tem dois ss (e não: Tal palavra “tem ss” — nem:... “tem dois s”). Sem o cardinal, deveremos ler, simplesmente, /ésses/, como nas orações: fazer ss, andar aos ss (andar tortuosamente).» Já Hélio Consolaro, no Por Trás das Letras, tem outra certeza: «O plural das letras se faz de duas maneiras, indiferentemente: os 5 ss/os 5 esses, os aa/os ás, pingo nos ii/pingo nos is.» O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, também regista na página 2014: «Pl. ii ou is.» Mas o plural do nome desta vogal não é excepção, pois este dicionário regista uu ou us como plural de u; oo ou ós como plural de o; ee ou és como plural de e; e aa ou ás como plural de a. Para o Dicionário Houaiss, pelo contrário, o plural das vogais apenas se faz por duplicação: aa, ee, ii, oo, uu. Nas consoantes, por seu lado, tanto se faz por duplicação — bb, cc, dd… — como pela marca do plural no nome da letra — bês, cês, dês, efes… Por uma vez, estou de acordo com a opção do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea.

Actualização em 8.2.2010

      Vejam este erro num livro: «Nesta carta vou pôr os pontos nos iis» (Inocente, Not Guilty, Patrícia Lucas e Nicolas Bento. Revisão de Manuel Henrique Figueira. Alfragide: Academia do Livro, 2010, p. 171).




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Pontuação

Os líberos e as vírgulas

      Três revisores, três opiniões. Que é indiferente, que é o oposto do que diz. «Ontem, Carlos Teixeira já assumiu o lugar de libero, e Flávio Cruz foi o melhor atacante, com 25 pontos.» Com vírgula, entende-se que o jogador foi o melhor atacante, com 25 pontos, isto é, foi o único que obteve 25 pontos. Sem vírgula, entende-se que dos vários atacantes com 25 pontos, Flávio Cruz foi o melhor. «Ontem, Carlos Teixeira já assumiu o lugar de libero, e Flávio Cruz foi o melhor atacante com 25 pontos.» E já agora: libero é palavra italiana, mais valia aportuguesar: líbero.

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Propriedade vocabular

Os herdeiros percebem

      «Hoje, Martha e os quatro filhos — Edmund [Klein, médico especialista no tratamento do cancro da pele, galardoado com o Prémio Lasker] morreu há dez anos e a filha mais velha Judith faleceu há três — têm um espólio de valor incalculado, que, em finais de Junho, e pela primeira vez, saiu dos cofres de um banco direitinho para Anderson Gallery, em Buffalo» («O anjo de Dalí», Ricardo Lourenço, Expresso, 25.07.2009, p. 18). Mais valia, aos herdeiros de Edmund Klein, que os desenhos oferecidos por Dalí fossem de valor incalculável. E é a dúvida que nos fica: se o jornalista escreveu incalculado, que só significa que ainda não foi calculado, e pode revelar-se sem grande valor, porque pensa que é o mesmo que incalculável, muito grande, enorme.

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Alemanha guilhermiana

Os vv, os ww e os gg


      O original, inglês, falava em «Wilhelminian Germany». O tradutor achou que correcto seria «Alemanha Vilhelminiana». Friedrich Wilhelm Viktor Albrecht Hohenzollern — era o nome em alemão. Entre nós, ficou conhecido como Guilherme II (1859―1941). Logo, a era designar-se-á como guilhermiana.

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Acentuações das reduções


A pólio serve

      Só ontem me lembrei deste exemplo, que teria sido útil para explicar porque se deve grafar hétero e não *hetero. A acentuação desta e de outras reduções, escrevi então, segue a regra oficial. E o exemplo que deveria ter aduzido é o da redução do vocábulo «poliomielite», pólio, pois que já aparece registada nos dicionários mais comuns. A imagem é da capa de um opúsculo sobre a vacina contra a poliomielite (antipólio).

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Gentílicos de topónimos compostos

Nada mudou

      Cara Luísa Pinto, tudo continua na mesma, pois as regras não mudaram. Consultando o Vocabulário da Língua Portuguesa, vemos que Rebelo Gonçalves regista Ponta-Delgadenses, Porto-Riquenhos, Porto-Santenses, Ponta-Solenses, Vila-Bispenses, Vila-Condenses, Vila-Florenses, Vila-Franquenses, Vila-Novenses, Vila-Realenses, Vila-Riquenses, Vila-Verdenses. Assim, o que vemos é que, se o topónimo é composto de dois vocábulos, o hífen é obrigatório no gentílico. O desconhecimento das excepções é que leva ao erro de se escrever *neo-zelandês em vez de neozelandês. Em relação a Nova Iorque, há dois gentílicos: noviorquino e nova-iorquino.


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Ortografia: «alto-funcionário»

De remissão em remissão


      «Na lista encontram-se ainda vários funcionários do Ministério da Saúde, em cargos de chefia de serviços, professores catedráticos, controladores de tráfego aéreo, altos-funcionários diplomáticos e uma assessora do conselho de administração da Euronext Lisbon, a Bolsa de Valores de Lisboa» («Função Pública tem menos milionários», Diana Ramos, Correio da Manhã, 7.08.2009, p. 22).
       Comecei por abordar a grafia de alto-comissário, ainda vacilante na nossa imprensa, mais tarde recomendei que se grafasse alto-responsável. Hoje é a vez de reconhecer que também se deve grafar alto-funcionário e de responder aos dois comentários ao texto em que abordei a ortografia de «alto-responsável». Não creio que seja de distinguir entre alto-responsável e alto responsável, pois não me parece que a primeira alguma vez designe um posto específico. É tão inespecífico, pelo menos, como o termo «oficial» para designar as graduações na hierarquia militar.

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