Léxico: vidro

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É só uma ideia

Também está na nossa mão — revisores, tradutores, jornalistas, professores — não deixar que se percam acepções, vocábulos. Vejam se os Ingleses se importam de escrever «phials of morphine», quando têm muitos outros termos. «Five phials of morphine were stolen from the N-registration green Volvo estate» (in BBC News). Em vez de traduzirmos por «frascos de morfina», porque não por «vidros de morfina»? Do Aulete Digital (verbete original): «Vaso pequeno de vidro para conter qualquer liquido; frasco: “um vidro de água de Colônia; Pois a mãe não está doente, quase a morrer e sem médico, sem um único vidro de remédio?” (Jorge Amado, Jubiabá, p. 255, ed. 1937.)(Fig.).»

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Tradução: «stick»

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Amparo de tradutor
     


      Não sei se os pintores usam varas. Talvez as usem — virgultas, varinhas — para emulsionar as tintas, mas quando pintam paredes e não as suas obras. De qualquer modo, usá-las-iam decerto no lombo dos críticos e criticastros, se pudessem. Estou a divagar… Devagar. Como se chama então àquela varinha, terminada por uma pequena bola, em que os pintores apoiam a mão para pintar com firmeza, para os Ingleses simplesmente o polissémico stick, pois claro? Em português — tento.

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Rei dos Belgas

Não é a reinar

      Sempre achei interessante que o monarca da Bélgica fosse o «rei dos Belgas» e não, como seria de esperar, o «rei da Bélgica», o que pretende demonstrar — a constituição surgiu a tempo de o poder consignar — que o monarca reina sobre uma comunidade, os Belgas, e não sobre um território. Contudo, já o herdeiro da coroa tem o título de «príncipe da Bélgica» (e também duque de Brabante) e não «príncipe dos Belgas». Há, é verdade, outros exemplos de títulos semelhantes, mas não entre as monarquias europeias.

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Informação

Bom pábulo

Não disse Maria de Lourdes Modesto que os crumbles estão na moda? Deixo-vos estas Migalhas.

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Máquina a vapor/máquina de vapor

Agora já é tarde

A propósito de uma consulta publicada hoje no Ciberdúvidas sobre se se deve dizer «cozinhar ao vapor» ou «cozinhar a vapor», e porque o consultor acrescentou que «igualmente nas expressões “máquina a vapor”, “a vapor”, “a todo o vapor”, é a preposição simples que vem associada ao termo vapor», aproveito para transcrever o que o Prof. Vasco Botelho de Amaral escreveu sobre a mesma questão na obra Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português (Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, pp. 572-73).
«Vela. A concisão que adoptei em 1938 na 1.ª edição do Dicionário impediu, num caso ou noutro, que a minha opinião ficasse bem nítida. Por exemplo, ao tratar de expressões como — barcos à vela, máquina a vapor, etc., deixei apenas marcado que em melhor português é — barco de vela, máquina de vapor, pois os Franceses é que espalharam a construção sintáxica à vapeur, etc.
O douto crítico da Revista Filológica do Brasil Conde de Pinheiro Domingues citou-me autores portugueses que usaram “barco à vela”, e com isso não me trouxe novidade nenhuma, pois eu mesmo, num livro de 1939 (os Estudos Vernáculos), mencionei “máquina a vapor” em Camilo, e, em outra obra (no A Bem da Língua Portuguesa), ajuntei:
“Mais português: navio de vapor. No entanto, o galicismo já vem de longe e talvez já não saia. Camilo usou barco a vapor (No Bom Jesus do Monte, 16). E do próprio Castilho, citado por A. Moreno para abonação de “navio de vapor”, conheço eu dois passos com a expressão — máquina a vapor. Vejam-se as Cartas, I, páginas 90 e 91, edição 1907.
Curioso é que todos dizemos moinho de vento, e não moinho a vento. Mas, por outro lado, há certa hesitação entre barco à vela e barco de vela.”
Já agora acrescentarei que, para a expressão “perna à vela” (que, às vezes, alterna com “perna ao léu”), encontro explicação da seguinte maneira: existe a dicção marítima “andar à vela”, isto é, desfraldar as velas, desferi-las, desencolhê-las, navegar com as velas desfraldadas. Assim vai, figuradamente, quem caminha de perna à mostra. (Também se aplica a quem anda em fralda de camisa).»

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Catalão e espanhol

Pluralismo linguístico

Não deixa de ser curioso que, numa notícia sobre a Catalunha, o novíssimo diário espanhol, Público, use no próprio título uma palavra catalã, senyera, para designar a bandeira catalã. Afinal, esta não tem uma designação própria, como sucede com a Jolly Roger ou a Union Jack. «Un hombre que paseaba por una pista forestal en Girona halló el lunes un feto enterrado de unos tres o cuatro meses. Estaba metido en una caja de zapatos junto a una bandera catalana y un pato de goma. En la superfície había una cruz de cemento con una inscripción. Los Mossos d’ Esquadra están a la espera de la respuesta del juez para iniciar un investigación sobre el hallazgo» («Hallan enterrado un feto con una senyera», Público, 27.09.2007, p. 26). O catalão senyera é, por extensão de sentido, uma bandeira, mas a primeira acepção é estandarte, pendão. O «senyor de senyera» era o cavaleiro feudal que tinha o direito de usar, quando andava na hoste, um estandarte. A palavra vem de senya (e esta do latim signa, plural de signum, «sinal»). «Senya f Detall, tret, la coneixença del qual pot servir per a reconèixer un individu o un objecte. Et descriuré les seves senyes. Donar el sant i senya» (in Gran Diccionari de la llengua catalana).

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Promoção da leitura

Aos bebés e aos pais

Para quê ler aos bebés? A pergunta não é minha, mas da Associação de Professores de Português e da Associação de Profissionais de Educação de Infância, parceiros de uma iniciativa, «O meu brinquedo é um livro», de promoção da leitura. Descarregue aqui o guia Para quê ler aos bebés?

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Terracota estofada?

É preciso estofo

Um leitor visitou o Museu do Azulejo e, perante a indicação de que uma peça, um presépio, era de «terracota estofada», não ficou convencido e enviou uma mensagem de correio electrónico aos responsáveis do museu. A resposta dizia que «o termo “estofada” não refere qualquer técnica cerâmica, mas sim o facto de a peça evidenciar pintura a ouro e outras cores sobre os tons uniformes de base. Estofado remete, assim, para estofo». O leitor afirma ainda que só viu o termo usado em textos em espanhol. De facto, uma das acepções do verbo espanhol estofar é «pintar sobre el oro bruñido relieves al temple», o que parece coadunar-se com a descrição da técnica a que se alude na resposta do museu. (Veja-se este glossário de escultura do Museu Nacional da Colômbia.) O termo não aparece, de facto, em dicionários da língua portuguesa, embora se veja comummente em legendas de peças nos museus e em catálogos de leiloeiros. Na página de Internet do Museu Digital do Patriarcado, por exemplo, leio a seguinte descrição de uma peça: «Imagem barroca em terracota, estofada a ouro com policromia, representando Santa Cecília, a padroeira dos músicos. Peça do Séc. XVIII pertencente à Irmandade de Santa Cecília.» Contudo, é preciso ver que o nosso estofar também significa «avolumar, encher, rechear». Ora, não será isso que fazem aqueles «tons uniformes de base»?

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«Ebooks» com cheiro

E o resto?

Lido hoje no Público: «Se é daquelas pessoas que não gosta de livros electrónicos porque “não cheiram a livro”, a nova proposta de um site de ebooks pode fazê-lo mudar de ideias. Para relançar as suas vendas, o vendedor de livros técnicos e académicos CaféScribe.com, noticia o Le Monde, acaba de inventar o “primeiro livro electrónico com cheiro do mundo”! Cada vez que um cliente encomendar lá um livro, receberá também “um autocolante que cheira a livro velho”. Bastará colá-lo ao computador. Sarcasmo, truque de marketing? Talvez sim, talvez não. Um potencial argumento de venda para os 43 por cento de estudantes que, segundo um inquérito da Zogby International, consideram que o cheiro de uma obra constitui uma qualidade essencial» («O cheiro a ebook», Ana Gerschenfeld, Público/P2, 24.09.2007, p. 3).

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O provedor e a língua

Ora leia melhor

Um leitor do Público enviou uma carta azeda ao provedor do jornal, acusando-o de parecer «uma rabugenta professora primária, apenas preocupada com erros de ortografia e problemas de concordância». «É muito pouco», afirma. Este leitor queria o provedor a imiscuir-se em questões que estão arredadas do seu estatuto. Da resposta do provedor, o jornalista Rui Araújo, destaco, com interesse para este blogue, o seguinte: «Os leitores escrevem ao provedor sobretudo por causa de “erros de ortografia e problemas de concordância”. É lícito ignorar tais preocupações? Os “erros de ortografia e os problemas de concordância” são assunto importante, porque o seu número me parece excessivo. Considero, por outro lado, que a imprensa tem uma responsabilidade acrescida na promoção do português. A TV (principal fonte de informação para muitos portugueses) abdicou da informação e da língua, ao optar pela reconhecida boçalidade que a caracteriza» («O provedor dos pormenores», 23.09.2007, p. 47).


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Estonado e plangaio

Da Beira Baixa

Não é todos os dias que se lêem as palavras «estonado» e «plangaio». Pois o suplemento «Fugas» do Público de ontem publica um artigo de David Lopes Ramos em que se usam. «Outro prato emblemático da região, talvez o mais emblemático, é o cabrito estonado. Faz-se também cabrito assado no forno como noutras regiões portuguesas, mas o estonado é especial. Porquê? Porque os bichinhos, que não devem ter mais de mês e meio e ser gordos, não são esfolados. A exemplo do que se faz na Bairrada com o leitão, os pêlos dos cabritos são retirados com o auxílio de uma serapilheira ou de outro pano grosseiro, após o bicho ser escaldado em água a ferver. Depois, raspa-se bem com uma faca, mas sempre tendo o cuidado de não romper a pele. Depois de estonado, retiram-se as vísceras ao cabrito por uma pequena abertura na barriga. Reservam-se os bofes, o coração, as molejas, os rins, o fígado e lava-se bem o bichinho, que deverá ficar a escorrer de um dia para o outro em lugar fresco. […] Região de criação de gado caprino e ovino, não admira que as suas vísceras e carne entrem na confecção dos maranhos; o plangaio, sendo um enchido de porco, tem variantes: nuns casos, há arroz no recheio; noutros, massa de farinheira» («Por terras de maranhos, plangaios e cabrito estonado», p. 16). Tona (do baixo latim tunna, ae), que é termo polissémico, designa também a película que recobre alguns vegetais, em especial as cebolas e as batatas. Logo, estonar é tirar a pele. E neste caso, por extensão de sentido, chamuscar, queimar.

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Jogo da malha. Xito

Do Alentejo

«Cerca de 700 praticantes da malha, um jogo popular das zonas rurais, participam hoje numa festa em Estremoz (Évora) para demonstrar que esta prática lúdica, que remonta à Grécia Antiga, continua a mexer. Embora a iniciativa apresente um carácter competitivo, o mais importante, segundo a organização, é “a participação e o convívio popular” entre os praticantes. Os jogos desenrolam-se com a repetição do arremesso da malha (chapa de ferro) para derrubar o “xito” (objecto colocado direito no chão). A iniciativa começou em 1993, em Évora» («Festa da malha reúne 700 praticantes», Público, 23.09.2007, p. 14).

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Judaica/judia

Muito interessante, mas…

«A Zara viu-se obrigada a retirar do mercado uma mala com o desenho de uma cruz suástica depois de um cliente britânico ter reparado e devolvido o artigo. Segundo o El Mundo, esta é a segunda vez em quatro meses que a loja provoca polémica: em Maio teve de pedir desculpas à comunidade judia por misturar na mesma peça de roupa algodão e linho, o que foi considerado pelos judeus uma falta grave. Ainda assim, os responsáveis garantem que a suástica não era o desenho originalmente aprovado, mas que se trata de simbologia hindu, e que a mala foi fabricada na Índia» («Zara retira das lojas mala com suástica», Público/P2, 22.09.2007, p. 15). «Comunidade judaica», senhores, já aqui o disse várias vezes.

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Léxico: evergetismo

Pão e circo

«Uma reportagem de Bernardo Ferrão, de Março, foi repetida agora por ter recebido um prémio. Trata-se dum trabalho exemplar, raro na TV, de visita às promessas da política. E as outras faces do evergetismo actual» («Os grandes querem», Eduardo Cintra Torres, Público/P2, 22.09.2007, p. 14). Não é palavra que se use todos os dias, e por isso a divulgo aqui. Trata-se de um neologismo, cunhado por André Boulanger (1923) e Henri-Irinée Marrou (1948), a partir do grego εύεργετέω (euergetein)*, uma manifestação de uma virtude ética, a beneficência. O termo ganhou, contudo, projecção com a obra Le Pain et le cirque: sociologie historique d’un pluralisme politique (Paris: Seuil, 1976), do historiador francês Paul Veyne, que a usou para designar a estratégia de controlo que eram os espectáculos na arena e a construção de edifícios a expensas de cidadãos endinheirados, por exemplo.

* Usada, por exemplo, entre outros lugares da Bíblia, no original dos Actos dos Apóstolos, 10,38: «Sabeis o que ocorreu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do baptismo que João pregou: como Deus ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré, o qual andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com Ele. E nós somos testemunhas do que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém. A Ele, que mataram, suspendendo-o de um madeiro, Deus ressuscitou-o, ao terceiro dia, e permitiu-lhe manifestar-se, não a todo o povo, mas às testemunhas anteriormente designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois da sua ressurreição dos mortos.»

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Pagode

Explique-se lá melhor

«Perto de mil monges desfilaram pela cidade de Yangon, a caminho do pagode de Shwedagon que, pela primeira vez em três dias, não tinha sido encerrado pelas autoridades» («Civis apoiam manifestações de monges birmaneses», Daniel Santos, Público, 21.09.2007, p. 19). Não foi há muito tempo que uma crítica literária, numa recensão da obra (vencedora do Prémio Aristides de Sousa Mendes) Xeque-mate a Goa, de Maria José Stocker, editada pela Temas e Debates, verberava contra o uso do termo «pagode», por exibir «a recusa católica da alteridade social e religiosa». Se virmos em qualquer dicionário, um pagode é o «templo religioso budista, geralmente com vários andares, cada um destes com seu telhado» (in Aulete Digital), cujo étimo é o sânscrito bhagavati, pelo dravídico pagôdi. A crítica de certeza que fez confusão com as outras acepções do vocábulo «pagode».

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Mórmon e polígamo

Culpados!

Veio ter-me às mãos a edição do gratuito Meia Hora de ontem. Lia-se numa das páginas: «Warren Jeffs, o controverso líder da facção mormon radical e poligamista da Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, olha para o seu advogado em pleno julgamento. Jeffs é acusado de vários crimes de violação, entre outros» («“Profeta” em tribunal», Meia Hora, 20.09.2007, p. 21). Porquê «mormon» em itálico? A palavra está dicionarizada como «mórmon». E porquê «poligamista»? Jeff Warren será polígamo ou defensor da poligamia — e, se for coerente, as duas coisas.

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Verbo resignar

Eu é que não me resigno com o erro

«A notificação do acórdão do Supremo Tribunal Administrativo determinando a perda de mandato chegou há 15 dias, mas o vereador do PSD na Câmara de Salvaterra de Magos Carlos Marques decidiu não esperar pela sentença do tribunal e ontem mesmo resignou ao mandato» («Autarca perde mandato por não declarar rendimentos», Margarida Gomes, Público, 20.09.2007, p. 8). O verbo, na acepção em causa, é transitivo não pronominal, sem dúvida — mas não precisa de vir preposicionado. O que pode indiciar cruzamento com a forma pronominal resignar a. Correctamente seria, pois, «resignar o cargo». E, talvez até melhor, «demitir-se do cargo».
«Acórdão determinando» é sintaxe estrangeirada do gerúndio, ainda hoje aqui o escrevi.

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Infinitivo flexionado

Equívocos benignos


No dia 6 de Fevereiro deste ano, publiquei aqui um texto sobre o se apassivante. Já este mês, um leitor deixou-me lá um comentário, não sobre a matéria em si, mas avisando-me, «sem referências gramaticais e com simpatia», de que uma frase minha estava incorrecta. Escrevera eu: «São poucos os estudiosos em Portugal a afirmarem que é indiferente.» Que não, admoestou o leitor. «A forma verbal deveria ser ou “afirmando” ou “a afirmar” ou “que afirmam”.» Agradeci a simpatia e supus que o negrito assinalava as preferências do leitor. Consultei a Academia Brasileira de Letras sobre a questão. A resposta, que encaminhei para o leitor e publiquei, foi a seguinte: «O emprego do infinitivo, flexionado ou não, depende da situação estilística. Havendo interesse em realçar o sujeito, flexiona-se. No caso, parece conveniente destacar o sujeito “os estudiosos”.» Aliás, eu sabia que, tirando certas particularidades do infinitivo flexionado, que julgo conhecer bem, o seu uso é, como se diz em Direito, insindicável.
Agora o gerúndio «afirmando». Não havendo, claramente, na frase uma expressão de actividade («Um homem lutando com uma fera, era o espectáculo dos Césares no anfiteatro de Roma», frase dos Sermões do padre António Vieira que o Prof. Botelho de Amaral cita, por exemplo), a construção proposta pelo leitor é francesa e logo ilegítima. Como escreveu o Prof. Vasco Botelho de Amaral sobre esta mesma matéria («Sintaxe estrangeirada do gerúndio», in Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Editorial Domingos Barreira, Porto, 1947, pp. 500-506), «aliás, a gente tem cabeça em Portugal para pensar com cabeça portuguesa».

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Plural dos apelidos

Inimigo Público

Afinal, quando se trata de dinastias, o Público já dá o bracinho obstinado a torcer: «Para além do Panteão Nacional, a Igreja de Santa Cruz, em Coimbra, tem também o estatuto de panteão. Lá está sepultado D. Afonso Henriques. Na Igreja de São Vicente de Fora fica o Panteão dos Braganças, onde estão sepultados os reis da última dinastia» (página 3). A não ser que seja — considerem eles — gralha. Esperemos por novos desenvolvimentos.

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Discurso oral e escrita

Do ponto de ironia ao smiley

«Há muito que foi notado o quanto se perde ao transpor para a escrita a multidimensionalidade do discurso oral. Entoações, pausas ou flutuações de volume, elementos inevitavelmente ligados à voz, mas também expressões faciais, gestos ou posturas desvanecem-se quando fixados nesse outro meio.
Apesar do legado de Derrida, o filósofo que mais fez pela restituição da centralidade da escrita — ou melhor, pela descoberta de quanto o oral se rege pela escrita devido à iterabilidade dos actos de fala —, a atitude da cultura ocidental perante este seu traço fundador é a de tomá-lo como uma espécie de “pecado original” carente de redenção.» («“Don’t worry, be happy!”», Jorge Martins Rosa, Público/P2, 19.09.2007, p. 4). Quer ler a continuação do texto? Vale a pena. Pode encontrá-lo no Público e na página pessoal do autor, que é docente de Ciências da Comunicação na FCSH-UNL.

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Cadafalso e catafalco

Confusões

«Depois de depositada a urna no catafalco, a Banda da GNR interpretará o hino nacional» («Aquilino vai partilhar a sala com Humberto Delgado», Sandra Silva Costa, Público, 19.09.2007, p. 2). Por outro lado, pergunto a mim mesmo se o termo «catafalco» não merecia os mesmos cuidados que teve o vocábulo «cenotáfio». Com a polémica à volta do caso, ainda alguns leitores de boa-fé (e ignorantes, que, espantem-se!, também os há) vão dizer: «Ah, mas está muito bem que o ponham no patíbulo, afinal era um regicida!» Troca de verbetes: catafalco, do italiano catafalco, é o apoio sobre o qual se coloca um caixão, o mesmo que essa. Cadafalso, por sua vez, vem do catalão cadafal e é o palanque sobre o qual se executam condenados à morte. Embora, é bom que se veja, o catalão cadafal (s. XIII; d’origen incert, potser d’un ll. vg. *catafalicum, encreuament de fala ‘torre de fusta’ i catasta ‘estrada per a la venda d’esclaus’, amb el sufix -icum, segundo o Gran Diccionari de la llengua catalana) designe não apenas a «plataforma dreçada per a l’execució d’un condemnat», mas também «túmul».


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Ortografia: «brócolos»

Deploro

      Preferia, é claro — não podendo ter as duas coisas —, que o Público, em vez de explicar o que é um cenotáfio, escrevesse correctamente a palavra «brócolos». «Uma vida feliz por um molho de bróculos» (Público/P2, 19.09.2007, p. 1). Logo na primeira página, em parangonas! Fica-lhe mal.


«Brócolos s. m. pl. (bot.) planta hortense, da família das crucíferas (Brassica botrytis cymosa), variedade de couve-flor, de que se comem os ramos em botão. [Há brócolos brancos, roxos e amarelos.] F. ital. Broccoli.» (in Aulete Digital).

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Boas práticas

Aplaudo

«Para além das dez figuras que a partir de hoje estarão sepultadas na Igreja de Santa Engrácia, há ainda no Panteão seis cenotáfios*» («Quem está no Panteão», Público, 19.09.2007, p. 4). Viu bem, leitor: junto da palavra «cenotáfio» está um asterisco. Desta vez, o Público julgou curial que o leitor do jornal percebesse do que se fala, e por isso a nota de rodapé: «Um cenotáfio é um monumento fúnebre de homenagem a uma personalidade em que o corpo está ausente.» É só pena não proceder da mesma forma — louvável, mais do que louvável — com conceitos tão ou mais estranhos, e sobretudo com estrangeirismos e neologismos. Haja esperança.

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Ensino do Português

Agora só falta trabalhar


Foram divulgadas na segunda-feira as recomendações da Conferência Internacional sobre o Ensino do Português, realizada em Maio deste ano. Respigo do Jornal de Notícias de ontem: «“Importa sensibilizar e responsabilizar todos os professores, independentemente da sua área disciplinar, no sentido de cultivarem uma relação com a língua norteada pelo rigor e pela exigência da correcção linguística”, aconselhou o comissário da reunião, Carlos Reis. No que respeita aos erros ortográficos, o professor e também reitor da Universidade Aberta alertou para o efeito prejudicial do excesso de tolerância perante tais falhas. «É fundamental que o ensino da língua considere o erro como efectiva transgressão de um sistema linguístico que tem regras. Assim, o professor de Português (e, com ele, os professores de todas as outras disciplinas) deve encarar o erro, alertando para a sua ocorrência e desincentivando a sua prática”, sublinhou. Neste contexto, deve instituir-se esta cultura de rigor e exigência na própria formação dos docentes, acrescentou, ainda» («Reforçar a gramática», Ana Oliveira Rodrigues, 18.09.2007, p. 9). Como seria de esperar, a Associação de Professores de Português (APP) não concorda que haja tal atitude permissiva. «“Nem pensar, não há qualquer permissividade. Nos exames os erros são penalizados e os alunos sabem disso”, contrapõe», segundo o Diário de Notícias de ontem, a vice-presidente desta associação, Edviges Ferreira. As recomendações finais foram ainda a de reintroduzir o ensino da gramática na aprendizagem da língua e integrar textos literários nas aulas.

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Inglês. Falsos cognatos

Falsos, refalsos amigos

     É notícia hoje no Jornal de Notícias: «São conhecidas as “gaffes” de Bush em cerimónias oficiais. Ontem, foi a José Sócrates que coube esse papel. Nas curtas declarações após o encontro com o presidente norte-americano, o primeiro-ministro arriscou falar em inglês, começando por agradecer o “sympathetic invitation”. O que pretendia ser o agradecimento de um simpático convite acabou por ser um convite de comiseração, logo seguido de referências aos problemas no “midwest”. Ou melhor… no Médio Oriente» («O mau inglês de Sócrates», Jornal de Notícias, 18.09.2007, p. 3).


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Falsos cognatos: «merlo»

Está tudo ligado…

Dizia o original italiano: «Cecilia Metella suonava come un nome misterioso e il gigantesco sepolcro, a forma di cilindro o tamburo coronato di merli, ci appariva come un castello delle favole, misterioso e altissimo.» O tradutor achou que a tradução não podia ser outra senão: «Cecilia Metella ecoava como um nome misterioso e o gigantesco sepulcro, em forma de cilindro ou de tambor coroado de melros, parecia-nos um castelo de fábula, misterioso e altíssimo.» Que estariam estas simpáticas aves, que agora vejo todos os dias em Lisboa, a fazer no alto do sepulcro? É claro que merlo, mesmo em italiano, não é somente o «uccello dal verso melodioso molto comune nei boschi, nei giardini e nei terreni coltivati», mas também «ciascuno dei ripari in muratura eretti a intervalli regolari come coronamento architettonico dei muri perimetrali di torri, castelli, fortificazioni, ecc. a scopo di difesa o di ornamento». Os nossos merlões. Aliás, o étimo é italiano, através do francês merlon. De resto, de merlo para melro só com uma metástase ou muita desatenção. A etimologia do nosso «melro» é outra: merulus, i. Contudo, no The American Heritage pode ler-se, a propósito da etimologia de merlon («A solid portion between two crenels in a battlement or crenelated wall»): «French, from Italian merlone, augmentative of merlo, battlement, perhaps from Medieval Latin merulus, from Latin, merle (from their imagined similarity to blackbirds sitting on a wall).»



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Homenagem: Aquilino Ribeiro

E leiam-lhe os livros


É notícia do Público de hoje: «O escritor Aquilino Ribeiro (1885-1963) será, depois de amanhã, o décimo português a ser sepultado no Panteão Nacional com honras de Estado, juntando-se a três escritores, quatro Presidentes da República, um general e uma fadista, Amália Rodrigues. Por decisão do Parlamento, os restos mortais do autor de O Malhadinhas serão trasladados do Cemitério dos Prazeres para o Panteão Nacional, situado na Igreja de Santa Engrácia, em Lisboa, numa cerimónia a que assistirão o Presidente da República, o primeiro-ministro e o presidente da Assembleia da República» («Aquilino Ribeiro no Panteão Nacional», 17.09.2007, p. 8).

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Tabus: arte degenerada

Cuidado com a língua!

É notícia hoje no Público: «Um cardeal alemão provocou ontem reacção acalorada ao avaliar que a arte e cultura modernas estão à beira de “degenerar” — termo que se tornou tabu na Alemanha por ter sido usado pelo regime nazi na perseguição feita aos artistas cujas criações não estavam de acordo com os gostos e padrões do III Reich. “Quando a cultura se desliga da reverência divina, o culto sucumbe em ritualismo e a cultura degenera. Perde o seu cerne”, afirmou o cardeal Joachim Meisner, arcebispo de Colónia, no discurso de inauguração de um museu local. Um porta-voz do cardeal apressou-se a explicar que Meisner não tivera intenção de prestar tributo a “velhas ideologias”. Mas a expressão “entartete Kunst” (arte degenerada), usada pelo cardeal, tem um único significado na Alemanha: o que está ligado à perseguição dos nazis aos artistas, à proibição de milhares de pinturas, à queima de livros. A afirmação do cardeal — a segunda com evocação nazi feita por uma personalidade alemã nesta semana (a apresentadora de televisão Eva Herman foi despedida no domingo passado por ter elogiado as políticas familiares do III Reich) — foi criticada pelo secretário da Cultura alemão, Hans-Dietrich, e pelo antigo ministro da Cultura Michael Vesper» («Cardeal alemão usou termo nazi para a arte», Público, 16.09.2007, p. 21).

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Tradução: «plaga»

Isso agora...

Interessante, a reflexão do Prof. Cláudio Moreno a propósito da tradução adequada do termo latino plaga, usado pelo Papa Bento XVI na exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis, referindo-se ao casamento entre duas pessoas divorciadas. «Praga» ou «chaga»? Ou é tudo o mesmo? «Agitur de quaestione pastorali ardua et complicata, vera quadam plaga hodierni contextus socialis, quae ipsas provincias catholicas crescente transgreditur modo.» Na versão portuguesa lê-se: «Trata-se dum problema pastoral espinhoso e complexo, uma verdadeira praga do ambiente social contemporâneo que vai progressivamente corroendo os próprios ambientes católicos.» A imprensa brasileira parece que ficou muito agitada com a questão. Ver aqui. Posso estar enganado, mas a magna questão não nos tocou.

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Ortografia: co-piloto

Espera aí

Até me assustei ao ler: «Em Maio, André Saint-Maurice, um copiloto de 22 anos de Cascais que é visitante frequente da comunidade de Taizé — e o Bisonte mais novo —, fez a sua primeira missão de longo curso, até ao Afeganistão, com escala em Salónica, Grécia» («Os militares humanitários», António Melo, Público/P2, 15.09.2007, p. 9). Como o escrevem quatro vezes, é de admitir que estejam a falar a sério. Mas a palavra fica transfigurada, pois sempre a vi grafada com hífen, e bem, já que o prefixo co- (redução de com, do latim cum) quando significa «a-par» é sempre seguido de hífen.
Entretanto, as instalações sanitárias inventadas pelo Público continuam a ser construídas: «Ainda antes da prova dos vinhos de 2005, no Aquapura Douro Valley (ver texto de David Lopes Ramos), Tomás sentiu necessidade de ir à casa-de-banho do hotel» («O urinol», Pedro Garcias, Público/Fugas, 15.09.2007, p. 18).

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Tradução: «barrister»

O preclaro causídico

      «No Reino Unido, a maior parte do Direito não está em códigos, resultando de casos julgados que fazem a regra dali para a frente. “Mesmo quando existem regras codificadas elas determinam o máximo da pena a aplicar num tipo de crime, mas normalmente não há mínimos”, explicou ao PÚBLICO Fred Ferguson, um advogado de barra (barrister) especializado na área criminal. Estes defensores, ao contrário do que acontece em Portugal, só podem fazer julgamentos. Por outro lado, os solicitors só prestam apoio jurídico» («Gerry e Kate McCann terão ido ontem reunir-se com os seus advogados ingleses», Mariana Oliveira, Público, 15.09.2007, p. 8). Não foi há muito tempo que vi — juro! — o termo barrister traduzido por «advogado causídico».


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Topónimo: Samatra

Livro sem Estilo

      «Os habitantes da ilha indonésia de Sumatra viviam ontem horas de grande tensão depois de um novo alerta de tsunami, o segundo do dia e o quinto na zona depois de uma violenta réplica de magnitude 6,8 do sismo de grau 8,4 na escala de Richter, o mais forte deste ano, que matou quarta-feira 10 pessoas e causou 40 feridos, de acordo com um novo balanço divulgado ontem» («Novo sismo e cinco alertas de tsunami na ilha de Sumatra», Público, 14.09.2007, p. 20). A grafia correcta deste topónimo é Samatra.


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Dicionários

Aulete Digital

Confesso: não conhecia o projecto Aulete Digital. Só ontem me avisaram da sua existência. É, apraz-me dizê-lo, um projecto exaltante. Trata-se da edição digital do dicionário de Caldas Aulete. É, na sua versão original, em alguns aspectos, um dos melhores dicionários da língua portuguesa. O dicionário, nesta versão, está em actualização permanente — actualização em que o próprio leitor pode participar. É a oportunidade, pois, de algum William Chester Minor da lexicografia portuguesa se revelar.
Na verdade, quando o seu autor, o professor, lexicógrafo e político Francisco Júlio de Caldas Aulete (1826-1878), morreu, apenas os verbetes correspondentes à letra a estavam concluídos, tendo o trabalho sido continuado por António Lopes dos Santos Valente (1839-1896) e outros lexicógrafos. A primeira edição data de 1881, tendo-se seguido outra em 1925 e uma última em 1948, com reimpressão em 1952. Esta edição brasileira é da editora Lexicon Obras de Referência.

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Pluralização dos apelidos

Só com Mossos d’Esquadra


      Ora vejam aqui os Bourbons pluralizados em espanhol e em catalão, como também se deve fazer em português. «Posteriormente, la manifestación, encabezada por dos pancartas contra los Borbones, ha cortado varias calles céntricas de Girona hasta uno de los puentes que da acceso al Pabellón de Fontajau, donde el Don Rey Juan Carlos I preside un acto con unos mil empresarios gerundenses» («Centenares de personas queman fotos de los Reyes en la plaza del Ayuntamiento de Girona», El País, 14.09.2007). «Posteriorment, la manifestació, encapçalada per dues pancartes contra els Borbons, ha tallat diverses carrers cèntrics de Girona fins a un dels ponts que dóna accés al Pavelló de Fontajau, on el Rei Joan Carles I presideix un acte amb uns mil empresaris gironins» («Centenars d´independentistes es manifesten en contra de la presència del Rei a Girona», Diari de Girona, 14.09.2007). Mas depois vieram os Mossos d’Esquadra e barraram o caminho aos manifestantes, coisa que eu não posso fazer aos jornalistas portugueses que escrevem, todos os dias, «os McCann».


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Léxico: chofar

Público e notório

O novo ano judaico, 5768, começou ontem. «Na festa de Rosh Hashanah, toca-se o shofar, a trompeta feita com chifre de carneiro. São lidos textos e orações relacionados com a análise dos actos que se fizeram ao longo do ano, explica Samuel Levy, ex-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa» («Toneladas de tâmaras para o Ramadão e maçãs com mel para Rosh Hashanah», António Marujo, Público, 14.09.2007, p. 20). Pois é, mas shofar está aportuguesado como chofar. Por exemplo, no Dicionário Houaiss: «chofar s.m. buzina de chifre de carneiro (ou de qualquer animal, excepto a vaca) empr. pelos antigos hebreus nos seus rituais e ainda us. nas sinagogas no término do Yom Kippur (dia do perdão), antes e durante o Rosh Hashana (ano-novo), na proclamação do ano sabático etc. ETIM heb. shōphār ‘id.’»

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«Clítoris» e «clitóris»

Variantes


      Uma leitora habitual, que não quer ser identificada, pergunta-me como prefiro: «clítoris» ou «clitóris»? Antigamente, os dicionários de língua portuguesa apenas registavam a primeira forma — clítoris. A variante brasileira, contudo, já era então a segunda — clitóris. Agora, porém, as duas variantes convivem amenamente nos dicionários publicados em Portugal, sem ofensa para ninguém nem desprimor para a excrescência. Rebelo Gonçalves, que registou «clítoris», preferia «clitóride». Eu prefiro — e sempre disse, sem ninguém se atrever a rir, fosse por receio de traumatismos, fosse por receio da minha língua afiada, que nesta matéria conta muito — clitóris.

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Quénia e Moisés

Imagem: http://www.biografiasyvidas.com/

Equívocos


Porque é que o Moisés de Miguel Ângelo tem — agarre-se bem, leitor — cornos? Especulações místicas à parte, porque simplesmente houve um erro crasso na tradução do Êxodo 34,29, em que o hebraico karan, raios emanados pelo rosto do herói, se tornou keren, chifres («cumque descenderet Moses de monte Sinai tenebat duas tabulas testimonii et ignorabat quod cornuta esset facies sua ex consortio sermonis Dei»). Na excelente biografia de Wangari Muta Maathai*, Prémio Nobel da Paz em 2004, também se dá conta de um dos equívocos linguísticos em que a História é rica: «Conta-se que os exploradores Johan Ludwig Krapf e Johann Rebmann, deparando com a montanha [monte Quénia] em 1849, perguntaram ao seu guia, um membro da comunidade camba, que carregava uma cabaça: “Como chamas a isto?” Pensando que os dois alemães se referiam à cabaça, respondeu: “Chama-se kĩĩ-nyaa”, «Quénia», como era pronunciada pelos Britânicos. Este tornou-se o nome da montanha e, mais tarde, o nome do país.»



* A publicar brevemente pela Editorial Bizâncio e com tradução de Fernando Dias Antunes.

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Maravilhamento e reter

Língua virtual

Só ouvi durante cinco minutos: Eduarda Maio entrevistava, na Antena 1, Nelson Zagalo, professor e investigador na Universidade do Minho, a propósito do «Second Life». A determinada altura, o entrevistado usou — e desculpou-se, «porque não existe» — a palavra «maravilhamento». Engana-se. Antes de ir à minha vida, ainda o ouvi responder a Eduarda Maio: «Não reti os números.» E aqui não hesitou nem se desculpou. Não retive mais nada; prefiro, perante as incertezas e os erros da segunda, a primeira vida.

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Sistema Imperial Britânico

Mártires do imperialismo

      É notícia hoje no Público: «A Comissão Europeia (CE) decidiu ontem abandonar os seus esforços para instaurar completamente o sistema métrico no Reino Unido. “É uma notícia fantástica, a de que alguém finalmente tomou uma decisão com uma onça de senso comum”, disse à AFP Neil Hoerron, da associação Mártires do Sistema Métrico. A decisão foi tomada de comum acordo pelos 27 países-membros e proposta inicialmente pelo comissário europeu da Indústria, Guenter Verheugen. “Quero pôr fim a uma amarga batalha que dura há décadas e que, do meu ponto de vista, é completamente inútil”, disse à BBC. Depois de um período de consulta pública no princípio do ano, a CE concluiu que as poucas excepções em que o sistema imperial é usado não prejudicam o comércio internacional. Essa era a razão pela qual se esperava que o Reino Unido se convertesse ao sistema métrico. Foi em 1965 que o Painel do Comércio britânico decidiu adoptar o sistema métrico num prazo de dez anos, estabelecendo uma comissão para supervisionar o processo. Porém, as constantes adaptações geraram grandes protestos, como o de Steve Thoburn que, em 2000, inspirou o movimento dos “mártires métricos” com o seu acto de desobediência civil: continuou a gerir o seu comércio com base no sistema imperial. A partir de agora, o Reino Unido poderá, por exemplo, continuar a medir oficialmente as distâncias em milhas (1609 metros), ou as cervejas e leite em pints (568,26 mililitros)» («Reino Unido livre do sistema métrico», 12.09.2007, p. 20).

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Dalai-lama, outra vez

Ao certo…

«Ontem mesmo, ao que o PÚBLICO apurou, um conselheiro da Embaixada da China foi recebido no gabinete de Jaime Gama — mas não pelo próprio —, numa audiência pedida pelos chineses para antecipar a chegada de Kenzin Gyatso (o nome de nascença do Dalai Lama e aquele que os apoiantes de Pequim utilizam)» («China enviou diplomata à AR antes da chegada do Dalai Lama», Leonete Botelho, 12.09.2007, p. 2). Nome de nascença? Bem, parece-me tão ridículo como dizer que o nome de nascença do actual papa é Joseph Ratzinger. De resto, e ao certo, é que o nome não é Kenzin Gyatso, como escreve a jornalista. Nem, também, Tenzin Yatso, como escreve outro jornalista, C. P., na página 3: «A grande procura de bilhetes para assistir à conferência pública do Dalai Lama levou a organização a colocar à venda mais dois mil lugares. Se a lotação esgotar, serão cerca de 10 mil as pessoas que ouvirão Tenzin Yatso no próximo domingo à tarde no Pavilhão Atlântico, em Lisboa» («Conferência domingo no Pavilhão Atlântico: Organização disponibilizou mais dois mil lugares»).
Se o leitor tiver paciência e chegar à página 4, um texto de Bagão Félix, que não é jornalista, acerta no nome do dalai-lama: «Tenzin Gyatso, que está em Portugal pela segunda vez, é o décimo quarto Dalai Lama, Nobel da Paz, guia espiritual do budismo tibetano e chefe do povo tibetano» («Kosovo, Tibete, Zimbabwe»).

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Artigo com topónimos

Na Venezuela, com a Antena 1

Nas notícias das 2 da tarde, na Antena 1, ouço que duas malas com droga e «aparentemente sem dono» foram detectadas no aeroporto de Caracas, «em Venezuela». Porquê em Venezuela? Sempre ouvi dizer e li, e escrevo e digo, na Venezuela. A propósito, o país tem este nome porque (é apenas umas das teorias, desmentida pelos etnonacionalistas) a primeira visão que os navegadores europeus tiveram foi a de uma série de casas sobre estacas, palafíticas, que evocavam Veneza, e daí Venezuela, «Pequena Veneza».

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Francisco Umbral

Aqui ao lado

Para os apreciadores da prosa luminosa de Francisco Umbral, o El Mundo disponibiliza 13 anos de crónicas (1994-2007) do escritor, falecido a 28 de Agosto. Aqui. Para aguçar o apetite, deixo os primeiros dois parágrafos da primeira crónica, «El tabaco», publicada no dia 3 de Janeiro de 1994.


«El Gobierno ha caído en el error de siempre: subir el tabaco a primeros de año. En un país con casi cuatro millones de parados no se puede subir el tabaco, porque los parados comen tabaco, mastican tabaco, se intercambian tabaco, matan el tiempo con el tabaco, se drogan de tabaco y hasta fuman tabaco.
El tabaco va siendo ya un vicio de pobres y la España de Felipe es pobre. Se pueden subir los coches, que la gente ya tiene uno para llevar la suegra a Morata de Tajuña, que se ventile la momia. Se puede subir lo caro, que a los del pelotazo todavía les queda la última calderilla de Mario Conde para comprarse relojes suizos, relojes que hasta te dicen qué año te va a dar el infarto. Se puede subir la lencería fina, ahora que vuelve a hacerse el amor con la luz apagada, como manda el Papa Wojtyla, y da igual llevar las bragas viejas. Se pueden subir las corbatas, porque la gente ha encontrado otras maneras de ahorcarse. Se puede subir la gasolina, que todos necesitamos bajar lípidos y nos conviene empujar un poco el coche. Se puede subir la brillantina, ahora que ya nadie va a imitar a Mario Conde. Se pueden subir las compresas y que se arreglen con el corcho del champán de Nochevieja. Se pueden subir las sardinas, que el gentío ya ha aprendido a comer caviar gratis en los cócteles. Se pueden subir los teatros, que la gente de todas maneras no va a ir. Se puede subir el cine, que Hollywood seguirá copando la Gran Vía. Se puede subir lo caro y lo superfluo en general, se puede subir lo innecesario y lo caprichoso, que de todo eso nadie va a prescindir, pero lo que no se puede es subir el tabaco.»

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Léxico: cafeicultor


Fotografia de uma guatemalteca de Sebastião Salgado. (Foto: EFE)

Aprender com os vizinhos


Leio no El Mundo: «El fotógrafo brasileño Sebastião Salgado muestra en Londres 25 fotografías de caficultores tomadas en Brasil, India, Etiopía y Guatemala desde el año 2002 y que documentan la dureza de ese trabajo.» Fui ver se também temos o termo. Cá está, no Dicionário Houaiss: «Cafeicultor adj.s.m. que ou o que cultiva café ou é dono de plantação de café; cafezeiro, cafezista.»

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Virtualmente?

Tudo na mesma


      «Bin Laden — que escapou à invasão americana do Afeganistão, em 2001 — é “virtualmente impotente” para a conselheira da Casa Branca em segurança interna, Fran Townsend» («Bin Laden vivo, livre e a fazer vídeos», Dulce Furtado, Público, 11.09.2007, p. 5). «Virtually impotent», disse ela. «Quase impotente», deveria escrever a jornalista. Em espanhol, sim, pode escrever-se dessa forma, porque «virtualmente», bem ou mal, está dicionarizado como «casi, a punto de, en la práctica, en la realidad».

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Creditação?

Não (a)creditem



      Titulava hoje o jornal Público: «Consultores financeiros lutam pela creditação da profissão» (Anabela Campos, 10.09.2007, p. 31). É um neologismo dispensável, este. A notícia começa por dizer: «Há em Portugal cerca de 1200 pessoas a prestar serviços de aconselhamento financeiro na área do crédito sem certificação, qualquer registo ou supervisão por parte do Banco de Portugal.» Ah, então é disso que se trata: certificação ou reconhecimento da profissão. Ou terá caído um a, na confusão do fecho da edição? Acreditação: reconhecimento oficial de pessoa ou entidade para efeitos legais ou profissionais.


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Verbo escalar

Qual peixe

Na sua habitual crónica no Público, Rui Tavares analisa o último vídeo de Bin Laden e escreve: «Por outro lado, Bin Laden ameaçou escalar a violência no Iraque» («No pesadelo do Barba Negra», 10.09.2007, p. 36). Percebe-se, é verdade, mas não está correcto: nenhuma das acepções do verbo escalar corresponde ao significado pretendido. Porque não «aumentar»?

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Disputa linguística belga

No país dos Belgas

      Vale a pena ler a síntese da disputa linguística belga feita pela jornalista Isabel Arriaga e Cunha no Público de hoje: «As disputas linguísticas entre flamengos e francófonos são tão velhas quanto o país. Criado em 1830 depois da independência face aos Países Baixos, o novo Estado não tinha inicialmente uma língua oficial: os belgas, que grosso modo trouxeram consigo o latim do Império romano e as línguas germânicas dos “bárbaros”, falavam então sobretudo uma série de dialectos do francês e do holandês. Na prática, no entanto, o francês funcionava como língua oficial, em grande parte para marcar a distância face aos holandeses e como símbolo da coesão nacional. Era, igualmente, a língua falada pelas elites — incluindo na Flandres — deslumbradas pela cultura francesa, enquanto o flamengo, considerado um dialecto rústico, era falado na cozinha e no campo. A humilhação de que se sentiram vítimas por parte dos francófonos suscitou uma forte reacção dos flamengos e a criação de um movimento que, de defensor da língua, se foi transformando ao longo do tempo em nacionalista. O afastamento das duas comunidades ficou consolidado com a criação, em 1963, de uma fronteira linguística que consagrou o unilinguismo flamengo na Flandres, francófono na Valónia e o bilinguismo de Bruxelas (que conta, no entanto, com 80 por cento de francófonos). Em paralelo com a afirmação da língua, a Flandres passou de uma região sobretudo rural a uma das mais dinâmicas da Europa, pioneira numa série de sectores inovadores e com uma grande capacidade exportadora. Ao invés, a Valónia, em tempos rainha da siderurgia e do carvão, continua à procura de uma especialização que lhe permita travar a decadência provocada pelo fim das grandes indústrias pesadas» («Disputas tão velhas quanto o país», p. 14).


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Registo linguístico

Anais e menstruais

      No Público de hoje, a jornalista Mariana Oliveira traça «A história do casal McCann»: «Nos entretantos, mais precisamente em 2004, conta o Expresso, viveram em Amesterdão, onde Gerry tirou uma especialização em Imagiologia» (p. 7). Não me parece que escrever «nos entretantos» se adeqúe ao que se espera de um jornal dito de referência. É mais próprio do telenovelesco prefeito Odorico Paraguaçu, no Bem-Amado: «Deixemos de lado os entretantos e vamos directo aos finalmentes!» A continuar assim, ainda vamos ver o Público a escrever que este caso «entrará para os anais e menstruais do País e do mundo».

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Léxico: vicário

Sucedâneos seguros

«Só que o cidadão médio fica em casa, longe de qualquer ameaça ou de qualquer perigo, e se treme pela sua segurança, como dizem os jornais, treme com o gozo vicário do amador de soft-porn» («Espectáculos», Vasco Pulido Valente, Público, 9.09.2007, p. 44).

Vicário adj. (do latim vicarius, -a, -um) Que substitui outra coisa ou pessoa.

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Gíria: capeador

É bom saber

«Em linguagem de rua, “era um grande capeador”. Um capeador é uma espécie de sinaleiro. Passa a vida junto a uma boca de tráfico de droga, a orientar “clientes” (toxicodependentes) para o seu “patrão” (o traficante). “Vai ao S.! O S. é que é bom!” Acumulava estas funções com as de mensageiro: detectava dois indivíduos, cheirava-lhe a polícia, gritava: “Água! Água!” Luís tinha o seu valor como mensageiro. “Via muito bem a bófia e ver muito bem a bófia é salvar o traficante.”» («Luís era um grande capeador», Ana Cristina Pereira, Público, 9.09.2007, p. 13).

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Dalai-lama

Como?

«“Oficialmente, Dalai Lama não é recebido por responsáveis do Governo português, como é óbvio”, declarou a jornalistas o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, à margem da reunião informal dos chefes das diplomacias dos Vinte e Sete, que ontem terminou em Viana do Castelo» («Governo evasivo sobre visita de Dalai Lama», Público, 9.09.2007, p. 8). O dislate não é, desta vez, do jornalista, mas do ministro. Dito assim, até parece que «dalai-lama» é o nome e não a função da pessoa, neste caso Tenzin Gyatso. Sendo uma função equivalente à de papa, substitua então o ministro um pelo outro e diga, sem se rir: «Oficialmente, Papa não é recebido por responsáveis do Governo português, como é óbvio.» O jornalista, repito, escreveu correctamente: «Instado sobre por que razões considerava óbvia a recusa do Governo de Lisboa em receber oficialmente o Dalai Lama, Luís Amado afirmou: “Pelas razões que são conhecidas.” Apesar de não ser recebido pelo Governo nesta sua segunda visita a Portugal, para uma conferência pública e ensinamentos budistas, o Dalai Lama vai manter encontros com deputados portugueses e com o alto-representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, Jorge Sampaio.»

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Ortoépia: transgénico

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Tens a culpa, Eufémia


Não sou, nem pouco mais ou menos, um recta-pronúncia, embora procure sempre falar bem, articulando correctamente as sílabas. Não sou, por isso mesmo, suspeito ao afirmar que estranho muito e condeno que muita gente — e especialmente, que é o que interessa aqui, pelas repercussões, os jornalistas — não pronuncie o s da palavra «transgénico». «Trangénicos», dizem eles. «Crime», digo eu. Se o s está lá, é para se ler, ou não?

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Clareza e precisão

Não percebo

      Lê-se no editorial, assinado por Nuno Pacheco, do Público de hoje: «Agora que Kate e Gerry McCann, pais de Madeleine, foram constituídos arguidos (o que não quer dizer culpados ou réus, distingam-se os conceitos) por, diz a PJ, suspeita de envolvimento num crime de ocultação de cadáver (são estes os termos usados), é mais do que nunca necessária uma atitude prudente e distanciada da imprensa, tal como é fundamental que a polícia cumpra o que lhe é exigido desde o início neste caso, que exige respostas claras e pistas seguras e não bodes expiatórios para proveito mediático» («O caso Maddie e os riscos que ainda se corre», 8.09.2007, p. 36). Porquê a oração parentética «são estes os termos usados»? Como se os referidos termos — que suponho serem somente os últimos dois: «ocultação de cadáver» — fossem algo abstruso, de tão incomum, incompreensível para o leitor. São, quem escreve sabe-o bem, os termos da lei, o artigo 254.º («Profanação de cadáver ou de lugar fúnebre») do Código Penal. Nem a recentíssima, de 4 do corrente, vigésima terceira alteração (Lei n.º 59/2007) ao Código Penal, que é de 1982, buliu nos termos deste artigo. Logo num tempo, e esta edição do Público é particularmente ilustrativa da tendência, em que se verifica uma judicialização extrema da sociedade e dos meios de comunicação, estranha-se a estranheza.


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Uso do hífen

Simples, por favor

Atenção: o jornal Público começou hoje a escrever o conjunto «casa de banho» com hífenes! «Um apito e uma lanterna para obrigar indianos a ir à casa-de-banho» (Público/P2, 8.09.2007, p. 5). Parece ser uma convicção firme, pois escreve assim onze vezes, mas recentíssima: no dia 2 do corrente, por exemplo, punha o senador Larry Craig a instar por sexo contranatura numa casa de banho convenientemente desifenizada: «Não havia outra saída para Larry Craig, um ultraconservador do Estado conservador de Idaho, após terem surgido notícias de que o senador se tinha declarado culpado de conduta lasciva por ter solicitado sexualmente um homem numa casa de banho pública de um aeroporto» («O senador anti-gay demitiu-se», Maria João Guimarães, P2, 2.09.2007, p. 7). E dois dias depois, ainda, como não, a propósito do picolho hipócrita, lá estava uma latrina do mesmo género, igualmente desataviada de hífenes: «Então não é que um senador do Partido Republicano dos EUA, conservador e puritano, anti-gay, foi preso por conduta obscena numa casa de banho de um aeroporto do Minnesota?» («A conduta obscena da lei americana», José Vítor Malheiros, 4.09.2007, p. 33). Como é que em quatro dias se esqueceram de que nas locuções substantivas o hífen é dispensável?

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Estrangeirismos

Take guilt

Um leitor, Júlio Alves, avisa-me: «Já temos um chief nursing officer, por despacho do Ministro António Correia de Campos (DR, 2.ª série, 31/08/2007). Aguarda-se a nomeação do xerife (não na sua etimologia árabe…).» Fui confirmar para lamentar. De facto, na 2.ª série do Diário da República, n.º 168, lá está o Despacho n.º 19 816/2007: «Considerando a importância que tem para o País a função de chief nursing officer, no âmbito da política de enfermagem, que providencia um aconselhamento especializado nas matérias desta área da prestação de cuidados, com relevância específica no que concerne a medidas de intervenção na actuação dos enfermeiros; Considerando as qualidades pessoais e experiência profissional do enfermeiro Sérgio Gomes, mestre em Ciências de Enfermagem, designadamente o seu trabalho como representante da Direcção-Geral da Saúde nas reuniões do Chief Nursing Officers desde 2005; Considerando que o enfermeiro Sérgio Gomes se encontra actualmente a coordenar a organização da próxima Reunião Internacional para os dias 15 e 16 de Novembro de 2007, no âmbito da presidência portuguesa da União Europeia: Designo o enfermeiro Sérgio David Lourenço Gomes para chief nursing officer, competindo-lhe desenvolver as seguintes atribuições: […].»
É assim que os governantes defendem a língua portuguesa? Pergunto: não saía da cachimónia de nenhum assessor uma designação legitimamente portuguesa? O Inglês obrigatório é para isto? Na página 3 da edição n.º 13, de Julho de 2004, da revista da Ordem dos Enfermeiros, leio a seguinte nota do tradutor em relação à locução chief nursing officer: «A tradução literal “chief nurse” e “chief nursing officer” não se adequam à realidade nacional [,] pelo que optamos por adaptar a tradução à função desempenhada por estes enfermeiros na maioria dos estados-membros [sic].» A designação encontrada foi «assessor ministerial de enfermagem».

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Antropónimos gregos

Clássico mas pouco

      Da recensão da obra A Civilização Grega, de André Bonnard (Edições 70), publicada por José Pedro Serra no Público/Ípsilon de hoje, extraio o seguinte parágrafo final, com interesse para tradutores e revisores: «A tradução de José Saramago é fluente e agradável, mas é inaceitável o modo descuidado como foram vertidos para português os nomes próprios gregos. De entre os muitos casos, indico apenas alguns exemplos mais flagrantes: Fénis (31) por Fénix; Nannô (88) por Nano; Árete e Cibele (130) por Arete e Cíbele; “Orésteia” (156, 168, 169, 179) por “Oresteia”; Átridas (168, 170, 171) por Atridas. No caso presente, não se trata de gralhas. Quanto aos nomes, a confusão é grande: Pártenon, ora aparece nesta grafia correcta (7, 195…), ora na incorrecta forma Parténon (193ss — ao contrário do que ocorria na tradução publicada em 1966); Eurípides, não poucas vezes, é mencionado como Eurípedes (97, 128, 134, 160…), e Erecteu aparece na grafia Erectêione (193) e Erecteion (231). Os mapas apresentam inúmeros erros, além de neles constarem designações em francês. É este mesmo descuido na edição que faz com que as poucas citações em grego estejam cheias de erros (466, 705). Esta obra justificava uma revisão cuidada dos nomes — e bastaria consultar F. Rebelo Gonçalves, “Vocabulário da Língua Portuguesa” ou Maria Helena Prieto, “Índices de Nomes Próprios Gregos e Latinos”» («A herança grega», José Pedro Serra, Público/Ípsilon, 7.09.2007, p. 39).

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Neologismo: cíbrido

Misturas

«Numa decisão histórica, as autoridades britânicas tornaram-se as primeiras no mundo a aprovar o princípio da criação de embriões híbridos para fins terapêuticos. Chamados “cíbridos”, estes embriões são um misto animal-humano, com 99,9 por cento de ADN humano e 0,1 por cento de ADN animal. São obtidos introduzindo o ADN humano em ovócitos de vacas ou coelhos previamente esvaziados do seu núcleo» («Aprovada criação de embriões híbridos animal-humano», Ana Gerschenfeld, Público, 7.09.2007, p. 24). O termo vem do inglês cybrid, e é uma amálgama de cytoplasmic e hybrid.


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Tratar-se de

Agora é que é

Eu sei: não podemos melhorar em tudo da noite para o dia. Iríamos assustar-nos e corríamos mesmo o risco de não nos reconhecermos. Tem de ser a pouco e pouco. Por isso, se trato pela terceira vez deste tema, não é por os jornalistas não serem seres docíveis, mas por não me lerem. Embora me assegurem do contrário. «Para Armindo Vaz e Jacinto de Farias não há qualquer dúvida: não houve quebras de segredo de confissão pois tratam-se de cartas que são “documentos fundamentais e de grande densidade”, diz o padre jesuíta» («O que é ter dúvidas quando se é a Madre Teresa», Bárbara Wong, Público/P2, 5.09.2007, p. 5). A construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular.

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Unidade semântica

Foge, que é Portugal!

Afinal, os ratos do campo espanhóis, os simpáticos topillos, não nos invadiram. A cem quilómetros de território raiano, talvez tenham sido informados, como brincava Vasco Pulido Valente, de que em Portugal teriam de pagar impostos, que Sócrates não perdoa. Ou não teve nada que ver com isso, mas sim com as suas capacidades. Afinal, o seu nome comum é rato-cego-mediterrânico* (Microtus arvalis para os íntimos), e tal designação não se deverá certamente à excelente acuidade visual com que foram agraciados. A estas horas estarão alguns a atravessar penosamente, arrastadamente, e já lá vêm as primeiras neves, os Pirenéus, para se juntarem a Remy.

* Ah, sim, é uma unidade semântica.

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Ortografia: «enviusado»

Não de viés, mas a direito

      Ontem, Jamie Oliver fez umas suculentas espetadas de tamboril. Todavia, o melhor, para mim, que não as pude provar, foi a tradutora, Isabel Caçorino, ter usado duas vezes a variante «enviusado». E ainda existe, e tão aparentemente desaparentada da palavra primitiva como aquela, a variante antiga «enviasado». Aqueles que estão sempre a falar da riqueza do léxico inglês (claro, é verdade, mas não é a nossa língua) deviam atentar nestes exemplos comezinhos mas expressivos.

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Regência do verbo pedir

É só pedir

É muito comum os jornalistas (e, para ser justo, quem escreve, de uma maneira geral) errarem a regência do verbo pedir. Dois exemplos: «Apesar de a cantora pedir para não ser fotografada, pelo menos um dos convidados fez uma gravação com o telemóvel, que acabou por ser reproduzida nos jornais do país» («Shakira dá concertos privados em Moscovo», Público/P2, 5.09.2007, p. 12). «Os organizadores do concerto de Beyoncé marcado para o próximo mês de Novembro em Kuala Lumpur, a capital da Malásia, pediram à cantora para não vestir roupas ousadas durante o espectáculo, de forma a não “agredir” a maioria muçulmana do país» («Beyoncé obrigada a cobrir-se na Malásia», Público/P2, 5.09.2007, p. 12). Em ambos os casos, pergunto: foi pedida alguma coisa (pedir que) ou pedida autorização, licença, permissão (pedir para)? Não julgo que restem dúvidas de que é a primeira regência que ali era exigida. Pior ainda, não é raro ver o cruzamento das regências: pedir para que. Na mesma edição, encontramos exemplos correctos: «“Tinha uma barreira muito grande que era a minha pronúncia. Quando estamos ao telefone com pessoas que não nos conhecem, a pedir-lhes que invistam 50 mil dólares, a pronúncia é uma barreira.”» («Morte de um caixeiro-viajante que se tornou fotógrafo em Nova Orleães», Kathleen Gomes, Público/P2, 5.09.2007, pp. 8-9). «O Presidente José Ramos-Horta solicitara segunda-feira à ONU que ficasse no país até 2012 e pedira à Austrália, que tem a seu cargo uma Força Internacional de Estabilização que partilha com a Nova Zelândia, que se mantivesse ali até 2008» («ONU poderá ficar mais cinco anos em Timor-Leste», Jorge Heitor, Público, 5.09.2007, p. 16).

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Topónimos

Começou a Ibéria

É notícia de hoje no Público: um grupo empresarial espanhol (Grupo Artagón, segundo outras publicações) comprou uma ilha fluvial privada na foz do rio Minho. O grupo, diz o jornal, escusa-se a identificar a ilha, mas adianta um facto: passará a chamar-se Isla de Artagón. As autarquias da zona, na sua boa-fé tipicamente indígena, ignoram tudo e «duvidam da viabilidade» do projecto turístico que o grupo pretende desenvolver na ilha. Ou seja, brevemente, uma parte do território nacional será conhecido por um topónimo espanhol. Espero ao menos que nos deixem dizer «ilha» de Artagón. Assim: «La semana pasada me fui a la ilha de Artagón abastecer de combustible mi auto, pues allá me sale mucho más barato.» Eu sabia: mais cedo ou mais tarde, eles cobrar-nos-iam o preço do exílio de Saramago.


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Solarengo ≠ soalheiro

Outra triste vez

      «Foi ele quem deu a alcunha de Americano ao comparsa, numa ocasião em que, preparando um assalto, lhe deu uma camisa florida, igual às que os turistas dos EUA então utilizavam quando visitavam países solarengos» («Ladrões violentos num país calmo», José Bento Amaro, Público, 5.09.2007, p. 4). Sim, Portugal também é um país solarengo, mas as camisas floridas seriam então para espantar os fantasmas? «Solarengo, adj. Relativo ou pertencente a solar (casa ou herdade nobre).│Que é moradia solar ou tem o aspecto de solar.│Que vive em solar; que é dono de solar.│ S. m. Senhor de solar.│Aquele que, como serviçal ou lavrador, viva no solar ou herdade de outrem» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado).


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Uso do itálico e do hífen

Larry Craig dispensa o hífen


      «Não havia outra saída para Larry Craig, um ultraconservador do Estado conservador de Idaho, após terem surgido notícias de que o senador se tinha declarado culpado de conduta lasciva por ter solicitado sexualmente um homem numa casa de banho pública de um aeroporto. Craig sairá a 10 de Setembro» («O senador anti-gay demitiu-se», Maria João Guimarães, Público/P2, 2.09.2007, p. 7). Vejamos. Nos vocábulos em cuja formação entra o prefixo anti-, usa-se o hífen antes de h, i, r, s. Logo, não se usa antes de g. Antigás ou antigásico, antiglobalização, antigovernamental, antiguerra… Mas, lembra-me o leitor benévolo, o vocábulo gay não é português. Pois não, viu bem. Assim, que híbrido é este, com o prefixo anti- em romano e o vocábulo gay em itálico? De resto, leio este título no The New York Times: «Four Men Plead Guilty in an Antigay Attack». A jornalista deveria ter escrito «antigay», pois «anti-gay» não é português nem inglês.

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Ortografia: «bolçar»

Bolsar: como assim?



   Eu sei: parece uma obsessão minha, pois é a terceira vez que abordo a questão. É raro ver a palavra bolçar bem escrita. Desta vez foi José Diogo Quintela, na Crónica do Costume, a propósito, ao menos isso, de um bebé: «O vexame. A falta que um bolsado no ombro faz» («Mulheres: como assim?», «P2»/Público, 2.09.2007, p. 3). O texto tem, é verdade, erros bem mais graves, mas ficarão para outra ocasião.
   Mas até em grandes escritores, infelizmente, e livros revistos, se vê o erro: «Zarpou de Lisboa o vapor encardido que me leva, enquadrado por Dona Balbina, a governante, e por Carolina, minha irmã, e durante horas escondo a cabeça esgrouviada no regaço daquela, bolsando nele o que me resta da ligeira refeição que fizemos em terra» (Camilo Broca, Mário Cláudio, D. Quixote, Lisboa, 2.ª ed., 2007, p. 49. Revisão de Fernanda Abreu).

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Ensino do Francês

Allons bon !

São dados do Público de ontem: «No ano lectivo de 1995/96, houve nas escolas portuguesas mais de 45 mil alunos do 2.º ciclo do ensino básico a escolher Francês como primeira língua estrangeira. Dez anos depois, foram apenas 1407, em todo o país. Os números, relativos ao ensino regular, são do Ministério da Educação» («Francês seduziu apenas 1400 dos 237 mil alunos do 2.º ciclo», Bárbara Simões, 3.09.2007, p. 3). Está na hora de o Governo português tomar alguma medida em relação a esta situação e — vale a pena referi-lo sempre que se fala do ensino de línguas, vivas ou mortas, em Portugal — valorizar o ensino/aprendizagem do Latim. Porque o mundo e a vida não são apenas economia.

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Compostos com quase-

Quase, quase

      Numa reportagem sobre a Cova da Moura («Turistas vão à Cova da Moura», Público/P2, 4.09.2007, pp. 4-5), escreve Marina Chiavegatto: «Nesta quase-freguesia as portas ficam abertas e pode-se ver o interior das casas.» Em inglês é relativamente comum ligar por hífen este anteposto (já em latim advérbio que funcionava também como prefixo) à palavra que se segue: quasi-delict, quasi-duet, quasi-medieval, quasi-official, quasi-scientific, quasi-war… Em português, e registados pelo Dicionário Houaiss, temos os seguintes: quase-alijamento, quase-contrato, quase-delito, quase-domicílio, quase-equilíbrio, quase-estático, quase-flagrância, quase-posse e quase-usufruto. Eu próprio já li e usei outros compostos com quase (quase-morte, por exemplo) que não fazem parte desta lista. Sou de opinião que o termo criado (?) pela jornalista do Público se enquadra legitimamente na ideia que os referidos compostos pretendem transmitir.

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Estrangeirismos

O Magreb à mesa

Os estrangeirismos, é sabido, inundam os jornais. Alguns são escusados e, pior ainda, muitos já estão aportuguesados e o jornalista parece ignorá-lo. «Família, família, família... É à mesa que os rostos se revelam, e o realizador franco-tunisino Abdellatif Kechiche serve(-nos), para esse efeito, pratadas de couscous. A barriga, diz-se, é o mais próximo do coração» («Uma pratada de couscous em Veneza», Vasco Câmara, Público/P2, 4.09.2007, p. 10). O vocábulo couscous aparece quatro vezes no caderno P2, mas a forma registada nos dicionários da língua portuguesa, e aquela que o jornalista deveria ter usado, é «cuscuz». Mais: o vocábulo entrou primeiro na língua portuguesa, no século XV, e só depois, no início do século XVI, na língua francesa. O equivalente espanhol não prescindiu do artigo definido árabe al: alcuzcuz. Pouco usado e com etimologia no francês, o espanhol também regista cuscús.

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Léxico: cecograma

Chega uma carta

A leitora Luísa Pinto pergunta-me o que são cecogramas. O termo (do latim caecus, «cego», e do grego γράμμα, «carácter») foi adoptado pelo Congresso de Viena de 1964 e é um neologismo que designa as impressões em relevo para uso dos cegos e a própria remessa da correspondência que usa esse tipo de impressão. Os cecogramas, que podem ter até 7 quilogramas, estão isentos de taxas postais.

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Glossário: dos muçulmanos

Almacave m. Ant. Cemitério dos mouros.
Almádena f. Torre alta das mesquitas.
Almançor m. Ant. Epíteto muçulmano; vitorioso, invencível.
Almuadem m. Mouro que, no alto das almádenas, chama os muçulmanos à oração. (Ver muezim.)
Alquibia f. Ponto do horizonte para onde os muçulmanos se voltam quando rezam.
Axá m. Oração que os muçulmanos fazem antes de se deitarem.
Bismela f. Cerimónia árabe, invocação de Alá antes de se empreender algum acto, ou de matar um animal para comer.
Cádi m. Magistrado civil e religioso entre os muçulmanos.
Dadá m. Prelado do convento, entre os muçulmanos.
Daroês m. Religioso muçulmano que faz parte de uma comunidade.
Faqui m. Jurisconsulto muçulmano.
Hacer m. Oração que os muçulmanos fazem a Deus antes do nascer do Sol.
Hafiz m. Entre os muçulmanos, título dado aos teólogos que sabem o Alcorão de cor.
Hagi m. O muçulmano que fez uma peregrinação a Meca, cidade santa do Islão — acto religioso que cada verdadeiro crente deve realizar ao menos uma vez na vida, a não ser que seja menor, louco, ou escravo.
Hanifita m. Membro de uma das quatro seitas, consideradas ortodoxas, da religião muçulmana.
Háquimo m. Médico entre os muçulmanos.
Hatama m. Lugar do Inferno, onde, segundo o Alcorão, capítulo 104, são lançados os difamadores.
Huri f. Mulher formosa do paraíso de Mafoma, destinada na vida futura a desposar o muçulmano fiel ao culto.
Imã m. Um dos títulos que os califas se atribuíram como chefes supremos dos povos muçulmanos.│Cada um dos chefes das quatro seitas ortodoxas do islamismo.│Oficiante das orações diárias na mesquita.
Mirabe f. Pequeno compartimento ou edícula sem imagem, dentro de uma mesquita, destinado a orientar os crentes na direcção de Meca.
Moade m. Sacerdote muçulmano.│O m. q. moádi.
Moçafe ou moçafo m. O m. q. Alcorão.│Torre de onde os muçulmanos chamam os fiéis à oração.
Mocamo m. Entre os mouros, mesquita ou lugar sagrado.
Muezim m. Gal. O m. q. almuadem.
Mufti m. Nome dado aos doutores principais da lei do Alcorão, no Próximo e Médio Oriente.
Namaz ou namazi m. Oração que os muçulmanos são obrigados a fazer cinco vezes ao dia.
Salaio m. Imposto indirecto sobre o pão cozido a que eram obrigados os mouros, depois da conquista de Lisboa pelos Portugueses.
Tabi m. Nome dado, na literatura muçulmana, aos transmissores de tradições que viveram imediatamente depois dos companheiros do profeta.
Zebil f. Fonte nas mesquitas onde os muçulmanos fazem as suas abluções.
Zecate f. Esmola que todo o muçulmano é obrigado a dar.
Zeilis m. pl. Seita religiosa árabe, contrária ao islamismo, cuja lei, diz, será abolida com a vinda de um novo profeta, escolhido por Deus entre os Persas.
Zemis m. pl. Indivíduos não muçulmanos submetidos à autoridade osmanli e às leis civis e penais do islamismo.
Zendique m. Ímpio, homem sem fé religiosa, na linguagem dos muçulmanos.

[Glossário em construção] [33 entradas]

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