Sobre «clítoris»

Olha quem fala


      A cineasta Raquel Freire aconselhou no programa Este Tempo, da Antena 1, as mulheres: «E masturbem-se.» Um ouvinte queixou-se ao provedor e este foi ouvir Cristina Ponte, professora na Universidade Nova de Lisboa, que disse: «Ouvindo a intervenção, penso que foi um texto, foi uma apresentação informativa. É um tema, realmente, é um conteúdo do qual não se fala — e até achei graça como nem se sabe como é que se escreve, onde é que é o acento.» Hã? Esqueci-me: Raquel Freire usara a palavra «clítoris», e a professora universitária afirma que «nem se sabe como é que se escreve, onde é que é o acento». Quem é que não sabe? Bem, não é vergonha não saber, mas não fica bem dizê-lo depois de ter tido oportunidade de esclarecer a dúvida.
      O provedor teve o discernimento de esclarecer: «Antes de prosseguirmos, um pequeno esclarecimento de quem não é especialista sobre a acentuação da palavra que está no centro deste problema. Pronunciamos /clitóris/, com acento no o, seguindo o que indica o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa. Mas devo acrescentar que o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, da Sociedade de Língua Portuguesa, põe o acento no [primeiro] i, /clítoris/, e que o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa aceita que se diga de uma ou de outra forma, como aliás o Houaiss. Todos eles apontam ainda, de resto, uma terceira forma de dizer o mesmo, através da palavra “clitóride”, que dizem ser mais correcta, mas menos usada.» É uma novidade para mim, esta «especialidade» na acentuação da palavra «clítoris». Recomendo a Adelino Gomes um bom curso nesta área: sobre a pronúncia do nome Houaiss.

[Post 3345]

Homília/homilia

Corria o ano de 2007


      «Folheadas as mais de 400 páginas do volume no qual o bispo do Funchal reuniu as suas homílias, mensagens e entrevistas de dois anos à frente da diocese, não se encontram denúncias nem sobressaltos com a carga e o simbolismo das proferidas pelo cónego Manuel Martins» («Em nome do Pai, do filho e de... Jardim?», Miguel Carvalho, Visão, n.º 880, 14.1.2010, p. 44).
      E quatro vezes assim escreve Miguel Carvalho — e bem. Como teria escrito bem se tivesse escrito homilia. São variantes, e se esta última é mais usada, tanto na oralidade como na escrita, nada temos a criticar. Na maior parte dos casos, a opção por uma ou por outra deriva somente do gosto pessoal. Há mais variantes prosódicas, como se sabe. Clítoris e clitóris, por exemplo. (Que até tem outra variante, se bem que não prosódica: clitóride.) Algumas variantes não estão registadas nos dicionários, e é pena. Num texto, «Prazeres da língua — 3 (com a devida vénia ao canal, o Odisseia)», publicado por Valupi em Janeiro de 2007 no blogue Aspirina B, podia ler-se: «Falamos de um documentário científico acerca do clítoris. Ou do clitóris, como se grafa no livro A História Íntima do Orgasmo, de Jonathan Margolis, em tradução de Fernando Dias Antunes.» Não se vislumbra — ou será que se vislumbra? — uma ponta de crítica ou de ironia no reparo de Valupi. Fui eu o revisor daquela obra e optei por deixar a acentuação por que Fernando Dias Antunes se decidira — tanto mais que é, ainda hoje, a que me parece ser mais usada.

[Post 3077]

«Clítoris» e «clitóris»

Variantes


      Uma leitora habitual, que não quer ser identificada, pergunta-me como prefiro: «clítoris» ou «clitóris»? Antigamente, os dicionários de língua portuguesa apenas registavam a primeira forma — clítoris. A variante brasileira, contudo, já era então a segunda — clitóris. Agora, porém, as duas variantes convivem amenamente nos dicionários publicados em Portugal, sem ofensa para ninguém nem desprimor para a excrescência. Rebelo Gonçalves, que registou «clítoris», preferia «clitóride». Eu prefiro — e sempre disse, sem ninguém se atrever a rir, fosse por receio de traumatismos, fosse por receio da minha língua afiada, que nesta matéria conta muito — clitóris.

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