Plural dos apelidos

A propósito de grotesco

      «Pelo menos é esta a opinião da jornalista, escritora e especialista em assuntos ligados à família real, Pilar Eyre, que no livro Segredos e Mentiras da Família Real Espanhola, editado agora em Portugal pela Esfera dos Livros, desvenda e analisa o percurso dos Borbón ao longo de três gerações, desde D. Alfonso XIII até D. Felipe e sua polémica mulher Letizia» (“Há coisas grotescas na família real”», Joana Emídio Marques, «DN Gente»/Diário de Notícias, 19.02.2011, p. 92).
      Hã? «Dos Borbón»? Mas isso nem é espanhol, língua em que se pluraliza Borbones, nem português, em que se pluraliza de desvairadas maneiras, mas Borbons não estará mal. E aqueles dons não são devidos.

[Post 4460]


Plural dos apelidos

Por exemplo


      «The war had left the Morrises…» E o tradutor verteu assim: «A guerra deixou os Morris...» Vejam como Camilo pluralizou um apelido que termina em s: «Tinha meninas para conservar a raça dos Queiroses e Meneses; mas a casta varonil iria pelas gerações além menos sujeita a reparos de genealógicos» (Novelas do Minho, 2.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação do texto e nota preliminar pelo Prof. Dr. Jacinto do Prado Coelho. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971, p. 131).

[Post 4155]

Plural dos apelidos

Estava quem interessa


      Bruce Chatwin convidou Howard Hodgkin e Cary Welch e as mulheres destes para um jantar em sua casa. «Uma noite, os Hodgkins e os Welches vieram jantar e lembro-me de Howard às voltas na sala e a arrastar os pés, registando tudo o que via na memória com aquele olhar fixo que agora tão bem conheço» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 90). Muito bem: estavam lá os Hodgkins e os Welches. E só não estavam os Chatwins, anfitriões, porque Bruce era solteiro. Felizmente, não foram convidados os tradutores e os revisores que não pluralizam os apelidos, essas melgas. Ficaram lá fora, a planar por Hyde Park Corner.

[Post 3467]

Plural dos apelidos

Discriminação!


      Caro Público: porque escreves «os McCann» se escreves «os Médicis»? «Foi Cosimo I (1519-1574), o primeiro grão-duque de Florença e fundador da dinastia de Médicis que governou a cidade até ao século XVIII, quem encomendou ao arquitecto Giorgio Vasari (1511-1574) a construção dos Uffizi, onde originalmente funcionariam os escritórios das 13 magistraturas florentinas» («Guardiã dos tesouros dos Médicis», Ana Filipa Gaspar, Público, 29.1.2010, p. 43). «McCann enfrentam em tribunal polícia que os incriminou» (Paula Torres de Carvalho, 13.1.2010, p. 7).
      McCann não é plural em português nem em inglês. Médici já é plural em italiano. Tira tu as conclusões, que eu agora vou tomar o pequeno-almoço (e ainda tenho de ir à padaria da D. Narcisa comprar um cacete galego).


[Post 3075]

Pluralização dos antropónimos

Cinco estrelas

      Há dias, um leitor, também ele revisor e tradutor, escreveu-me a lamentar-se por ver que se está a abandonar a pluralização de antropónimos estrangeiros. Confessou que um dos últimos casos lhe estragou o almoço. Bem, não só antropónimos estrangeiros, também com portugueses se deve observar a mesma regra. Mas há bons exemplos. Na última Pública, foi publicada uma entrevista a José Avillez, chefe do Tavares a quem foi atribuída uma estrela Michelin. À pergunta sobre se o apelido Avillez era do pai ou da mãe, respondeu: «Da mãe. Eu sou Ereira. Tenho 20 primos direitos Avillezes. No râguebi, nos escuteiros, nem me tratavam por Zé. Era o Avillez. Fiquei o Avillez. Agora, o meu filho vai nascer e vou ressuscitar um José Ereira. Do lado do meu pai morreu toda a gente. Os tios, os avós; só tenho dois primos. O meu filho vai ser Zezinho Ereira» («No dia seguinte, a minha ideia era: “Vamos trabalhar para a segunda estrela Michelin”», Anabela Mota Ribeiro, 13.12.2009, p. 33). Vejam se ele disse *os Avillez. É o disse.

[Post 2911]

Plural dos apelidos

Finalmente!

      Pensavam que já me tinha esquecido? Pois não. «Kate e Gerry McCann utilizaram o “fundo Madeleine”, criado por amigos e parentes para financiar a busca da menina desaparecida em Portugal, para pagar a hipoteca da casa em Leicestershire, centro da Inglaterra, denunciou ontem o jornal Daily Mail» («McCanns usaram fundo para pagar casa», Jornal do Brasil, 31.10.2007, p. A23).


Pluralização dos apelidos

Só com Mossos d’Esquadra


      Ora vejam aqui os Bourbons pluralizados em espanhol e em catalão, como também se deve fazer em português. «Posteriormente, la manifestación, encabezada por dos pancartas contra los Borbones, ha cortado varias calles céntricas de Girona hasta uno de los puentes que da acceso al Pabellón de Fontajau, donde el Don Rey Juan Carlos I preside un acto con unos mil empresarios gerundenses» («Centenares de personas queman fotos de los Reyes en la plaza del Ayuntamiento de Girona», El País, 14.09.2007). «Posteriorment, la manifestació, encapçalada per dues pancartes contra els Borbons, ha tallat diverses carrers cèntrics de Girona fins a un dels ponts que dóna accés al Pavelló de Fontajau, on el Rei Joan Carles I presideix un acte amb uns mil empresaris gironins» («Centenars d´independentistes es manifesten en contra de la presència del Rei a Girona», Diari de Girona, 14.09.2007). Mas depois vieram os Mossos d’Esquadra e barraram o caminho aos manifestantes, coisa que eu não posso fazer aos jornalistas portugueses que escrevem, todos os dias, «os McCann».


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