Léxico: «café comprido»

Curto ou comprido


      «Cheio e escuro» para long black é claramente invencionice, disparate, da tradutora. Black aqui significa tão-somente que não leva leite. Bem, uma das formas de o traduzir é por «café cheio» ou «café comprido», como também se ouve habitualmente, mas que a Porto Editora só regista num bilingue.

[Texto 22 323]


Definição: «capturar | capturável»

Grandes lacunas


      António José Seguro insiste: «Não sou capturável.» E que diz a Porto Editora na definição deste adjectivo? Pois «que se pode captar». Ora bolas! Já era dizer pouco se dissesse «que se pode capturar», porque depois neste verbete falta o sentido figurado correspondente, mas assim é infinitamente pior. Perante isto, proponho ➜ capturar verbo transitivo 1. apoderar-se de (alguém ou algo), geralmente por força ou astúcia; prender, apreender (ex.: capturar o inimigo; capturar um animal em fuga); 2. figurado exercer domínio ou influência sobre (alguém ou alguma instituição), geralmente com vista a interesses próprios ou particulares (ex.: grupos económicos que procuram capturar o Estado; políticos capturados pelo sistema). Quanto a ➜ capturável adjectivo de dois géneros 1. que pode ser capturado; susceptível de ser preso ou apreendido; 2. figurado susceptível de ser dominado ou instrumentalizado por interesses alheios, nomeadamente em contextos políticos ou institucionais (ex.: juiz capturável; sistema regulador capturável).

[Texto 22 322]

Léxico: «semiurgia»

Pois se o usamos


      «O livro tornou-se uma espécie de refém, algo que não tem já qualquer ação em si mesmo, que foi ocupado e soçobrou ao destino da mercadoria, incapaz de mover os ânimos e lhe opor qualquer resistência. Nesse movimento de estetização do mundo, o texto desagrega-se facilitando a sua transformação em imagens, a sua organização semiológica. Como nos avisava Baudrillard, “o que estamos a testemunhar, para além do materialismo mercantil, é uma semiurgia de todas as coisas através da publicidade, dos meios de comunicação social, das imagens. Até o mais marginal e o mais banal, inclusive o mais obsceno, é estetizado, culturalizado, museificado”» («Rentrée. O mutismo dos livros frente à orgia publicitária editorial», Diogo Vaz Pinto, «Versa»/Nascer do Sol, 26.09.2025, p. 16). 

      Podemos encontrá-lo em várias obras e por isso acho que está na hora de o dicionarizarmos. Assim, proponho ➜ semiurgia LINGUÍSTICA, SEMIÓTICA, TEORIA DA COMUNICAÇÃO actividade de produção de sentido mediante signos; operação discursiva, mediática ou simbólica que cria ou organiza um universo de significação próprio, por vezes autonomizado em relação à realidade empírica; processo através do qual discursos, imagens ou códigos constroem regimes de sentido e modelam a percepção do mundo.

[Texto 22 321]

Léxico: «falerística | farologia»

Outro perdido nas mudanças


      «Atualmente, além das reuniões dos associados nas secções de cada tema (Geografia, Cartografia, Migrações, História, Genealogia, Heráldica e Falerística, Ciências Militares, Estudos de Património, entre outras), das conferências, debates e almoços no restaurante que funciona nas instalações da SGL, pouco mais se sabe da atividade da Sociedade» («A casa que o tempo esqueceu», Christiana Martins, «Revista E»/Expresso, 31.10.2025, p. 29). 

      Mais uma lacuna nos nossos dicionários, pelo que, sem arrazoados ou delongas, proponho ➜ falerística HISTÓRIA, HERÁLDICA estudo sistemático das ordens honoríficas, condecorações, medalhas e demais distinções honoríficas, civis ou militares, quanto à sua origem, evolução histórica, simbolismo, critérios de atribuição e valor iconográfico. 

      Sem relação alguma com a anterior, mas importada do francês e bem implantada é ➜ farologia estudo técnico, histórico e patrimonial dos faróis, da sua arquitectura, funcionamento, evolução tecnológica e papel na navegação marítima.

[Texto 22 320]

Léxico: «bóia-torpedo»

Tão característica


      No Portugal em Rede, na RTP1, de segunda-feira, um nadador-salvador falou nos vários tipos de bóias que usa para realizar salvamentos, e entre elas estava a tão característica ➜ bóia-torpedo NÁUTICA, SOCORRISMO dispositivo de salvamento individual, geralmente de forma alongada e hidrodinâmica, fabricado em material plástico flutuante (como polietileno de alta densidade), com correias ou cordas para fixação ao corpo do nadador-salvador; é utilizado sobretudo em intervenções rápidas no mar ou em piscinas para alcançar e rebocar vítimas conscientes, permitindo ao socorrista manter as mãos livres para nadar e proporcionando estabilidade e flutuabilidade à vítima durante o resgate.

[Texto 22 319]

Definição: «urso-pardo | urso-negro-asiático»

Voltamos aqui


      Porto Editora, ainda manténs as definições de «urso-pardo» e de «urso-negro-asiático»? Então, repara nas incoerências: o urso-pardo é descrito como podendo «atingir cerca de 2,8 metros de comprimento e 1,5 metros de altura». Já o urso-negro-asiático, bem mais pequeno, «pode atingir cerca de 1,8 metros de altura». A questão impõe-se: estão ambas as alturas a referir-se à mesma posição corporal? E por que razão indicam comprimento e altura no primeiro caso, mas apenas altura no segundo? Se o urso-negro tem 1,8 metros de altura, o urso-pardo não pode ter apenas 1,5, a não ser que as medidas não estejam a ser usadas de forma coerente, o que parece ser o caso. Fica ainda por esclarecer se os 2,8 metros de comprimento atribuídos ao urso-pardo não reflectem apenas os maiores espécimes de subespécies como a Kodiak, pouco representativos da espécie no seu conjunto. A maioria das fontes aponta para um comprimento médio entre 1,8 e 2,1 metros. Assim, tanto os valores indicados como os critérios de medição carecem de revisão.

[Texto 22 318]

Léxico: «às boas ou às más»

Metade ficou no tinteiro


      «Trump dice que logrará Groenlandia “por las buenas o por las malas”» (María-Paz-López, La Vanguardia, 11.01.2026, p. 4). Às boas ou às más. Infelizmente, o dicionário da Porto Editora apenas acolhe, no verbete «bom», a locução às boas («amigavelmente»), esquecendo de registar o antónimo, às más, no verbete «mau». Não sei se não se devia registar também «às boas ou às más», porque é assim que normalmente se usa.

[Texto 22 317]

Como se pontua por aí

Um mal ibérico


      «En una tertulia televisiva se burlan de Kiko Rivera porque le ha escrito a una mujer con la que mantiene una relación sentimental una carta sin faltas de ortografía, “incluso con tildes”, lo que atribuyen a que se ayudó de la inteligencia artificial. Mientras los ortógrafos del corazón charlan, en la parte inferior de la imagen aparece este rótulo: “Kiko Rivera, enamora con la IA”. La coma entre el sujeto y el verbo confirma la validez del dicho “No escupas hacia arriba, que te puede caer en la cara”. Y que tire la primera piedra el que nunca haya sido reo de cacografía» («La ortografía у el amor», Francisco Ríos, La Voz de Galicia, 24.01.2026, p. 18). 

      Como hoje mesmo já vi (e corrigi) este erro, tão frequente, num texto, nunca é em vão que aqui, e em português ou em castelhano, se fala nestes erros crassos. Eles são bons é em matérias complexas; em coisas assim comezinhas espalham-se com vergonhosa frequência.

[Texto 22 316]

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