Léxico: «vale depressionário»

Temos de aprender


      João Santos, climatologista e investigador da UTAD, foi à televisão falar destas tempestades que têm arrasado o País. Entre outras coisas, falou em ➜ vale depressionário METEOROLOGIA configuração alongada de baixa pressão atmosférica, delimitada por isóbaras que se estendem a partir de uma depressão principal e apresentam um eixo de mínimos relativos de pressão; corresponde tecnicamente ao cavado, sendo a designação comum em contextos de divulgação ou previsão meteorológica.

[Texto 22 341]

Léxico: «acenar»

Helen nodded


      «A mulher acenou a cabeça, acenou a cabeça, decerto a dizer-me “está bem”» (Estrela Polar, Vergílio Ferreira. Lisboa: Portugália Editora, 1967, p. 172). É simplesmente inacreditável o número de acepções do verbo acenar — sim, como esta do excerto que cito — que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não acolhe.

[Texto 22 340]

Léxico: «treponematose»

Então, aqui to envio


      «Les bactéries de l’espèce Treponema pallidum sont responsables de maladies appelées “tréponématoses”, qui diffèrent selon la sous-espèce à laquelle elles appartiennent. Ainsi, T. pallidum pallidum est responsable de la syphilis, alors qu’endemicum est la cause du bejel et pertenue du pian. La pinta, une maladie tropicale chronique de la peau, rare et négligée, est intégrée dans la catégorie clinique des tréponématoses. Son agent pathogène, T. carateum, ressemble à T. pallidum mais son génome n’a pas encore été déterminé» («La syphilis aux Amériques, une vieille histoire», Aurélie Coulon, Le Temps, 24.01.2026, p. 22). Porque ouvi dizer, Porto Editora, que a procuras ➜ treponematose MEDICINA qualquer de várias infecções crónicas provocadas por bactérias do género Treponema, geralmente transmitidas por contacto directo (sexual ou não), caracterizadas por lesões cutâneas e ósseas, evolução lenta e distribuição geográfica diferenciada; incluem a sífilis, o bejel, a pinta e a framboesia.

[Texto 22 339]

Pronúncia: «chanceler»

Mas que raio...


      Então, lá vou ter de dizer isto mais uma vez: o que se passa para que muitos dos nossos jornalistas não saibam pronunciar correctamente a palavra «chanceler»? A última vez que sofreu uma sonora silabada foi pela boca da jornalista Sandra Sousa, no Jornal 2, da RTP2, na segunda-feira da semana passada. Mas qual é a dificuldade? E não ouvem os outros falantes?

[Texto 22 338]

Irritações: o arenito das traduções

Pois, muita areia


      Eu só queria notas de 500 euros (pois, também não posso contentar-me com notas de 10 ou 20) como as vezes que já li, em traduções do inglês americano, referências a casas, degraus ou qualquer outro elemento arquitectónico de arenito. O brownstone transforma-se invariavelmente em «arenito castanho», quando não «arenito amarelo», como se a cor da pedra fosse mais importante do que o edifício inteiro. E, no entanto, nem é castanho nem amarelo: o brownstone original tem uma tonalidade indefinida, entre o avermelhado e o terroso (reddish-brown, como dizem os dicionários) e o que importa, verdadeiramente, não é a cor, mas o tipo de edifício que esse termo designa. Brownstone não é a pedra nem a cor: é o nome dado a um tipo de prédio urbano nova-iorquino, típico do século XIX, com fachadas revestidas de arenito (sempre aparece!) e uma escadaria frontal, o stoop, que conduz ao andar principal, elevado em relação à rua. Traduzir isso por «degraus de arenito castanho» é não perceber nem a arquitectura, nem a língua, nem o efeito pretendido na narrativa. Mas retomo o início e reformulo-o: não era notas que eu queria, mas anos com saúde. Enquanto fui imortal, não pensava assim, mas agora a história é outra.

[Texto 22 337]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Lá te esqueceste, Porto Editora, de dicionarizar «grafémico» e «grafofonémico», que aqui propus no passado dia 29. Só neste blogue andam vai para quinze anos. Já merecem ascender ao Olimpo.


Definição: «camião-grua»

É claro que não é isso


      «Ao que o JN apurou, o homem estaria a mudar um pneu de um camião-grua quando este rebentou, atingindo-o e projetando-o. A GNR tomou conta da ocorrência» («Homem morre após rebentamento de pneu», M. F., Jornal de Notícias, 30.01.2026, p. 44).

      A Porto Editora está convencida, e di-lo no Dicionário da Língua Portuguesa, de que tal veículo é um «camião que transporta uma grua». Está enganada: eu, e decerto a maioria dos leitores, já vi gruas em cima de camiões, e o conjunto não é um camião-grua. Evidentemente. É isto um ➜ camião-grua camião dotado de uma grua hidráulica incorporada, geralmente articulada, destinado ao içamento e movimentação de cargas pesadas, sendo utilizado em operações de carga e descarga, montagem ou apoio a trabalhos de construção, manutenção e instalação.

[Texto 22 336]

Confusões: «undercut/uppercut»

Só ao murro


      Claro que os desconchavos se encontram em jornais de outros países e línguas: «Con el cadáver aún caliente de la ciudadana Renee Nicole Good, acribillada a tiros por uno de sus agentes, Bovino irrumpió en las calles de Mineápolis con su corte de pelo uppercut a la moda de los años 30 y esa prenda, de verde oliva, charreteras y doble fila de botones dorados, retrotrae a las fotografías de los militares nazis de las SS llevando su offiziersmantel, de un corte similar pero en cuero negro» («Bovino: el abrigo como símbolo de autoritarismo», Alberto Rojas, El Mundo, 27.01.2026, p. 27).

      A confusão aqui é com undercut, que é um estilo de corte de cabelo associado ao período entreguerras e bastante popular nos anos 1930, até entre os militares (tanto nazis como soviéticos), caracterizado pelos lados rapados e no cimo da cabeça mais comprido. Esta acepção não estar nos dicionários bilingues só contribui para haver mais gente a dizer disparates como este, que já encontrei mais de uma vez. Bastava dizer ➜ undercut corte em que o cabelo é deixado comprido no topo da cabeça, enquanto os lados e a nuca são rapados ou cortados rentes.

[Texto 22 335]

Etimologia: «classe»

Aprofunde-se mais


      «La SNCF a récemment lancé une classe de TGV où les enfants ne sont pas admis. Le mot vient de classis, qui signifie “appel” (d’une génération pour servir dans l’armée). Il a ensuite désigné une catégorie» («Classe», Étienne de Montety, Le Figaro, 28.01.2026, p. 37). Só isto já é mais do que dizem os nossos dicionários sobre a etimologia do vocábulo «classe», mas podemos aprofundar ainda mais assim ➜ do latim classis, -is, originalmente «chamada (para o serviço militar)», passando a designar cada uma das categorias censitárias em que se dividiam os cidadãos romanos, e por extensão «divisão; categoria; grupo», incluindo também o sentido de «esquadra naval».

[Texto 22 334]

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