Léxico: «motosserrista»

Já aqui os temos de dentes afiados


      «O Exército, conforme fez questão de revelar em comunicado, tem ainda em prontidão três destacamentos de engenharia, oito módulos de energia, capacidade de mil alojamentos distribuída por 10 unidades militares, 17 equipas de limpeza e desobstrução, dois módulos de alojamento (100 pessoas cada), um módulo de alimentação (para 100 pessoas) e nove equipas de motosserristas» («Protecção Civil só pediu ao Exército ajuda de quatro militares no dia a seguir à tempestade», Helena Pereira, Público, 1.02.2026, 7h01).

[Texto 22 344]

Irritações: véspera e dia anterior

Esta deixa-me doente


      Não sei se já disse isto nos vinte anos de blogue, mas, como todos os dias nascem tradutores, não fará mal, pelo contrário: por favor, não escrevam tantas vezes «no dia anterior». De certeza que conhecem, já ouviram da boca de pais, avós (mas devia ser «avôs), vizinhos, a palavra «véspera». Usem-na.

[Texto 22 343]

Léxico: «matemático»

Imitemo-los


      «“É um estilo de Papa completamente diferente do Papa Francisco”, afirma, explicando que Bergoglio era um Papa “discursivo”, “emotivo” e “efusivo” – enquanto Prevost, “um Papa americano”, é “muito racional”, com “ideias muito organizadas” e “mais matemático”. Leão XIV é para o Presidente da República “uma pessoa superiormente inteligente”, mas “fala curto” e, por isso mesmo, Marcelo preparou uma intervenção que se compatibilizasse com tal estilo. Foram 25 minutos a sós, na Biblioteca privada papal, situada no segundo piso do Palácio Apostólico» («O Papa americano, “mais matemático”, recebeu convite para Fátima em 2027», João Maldonado, Rádio Renascença, 2.02.2026, 15h08). Curto foi, desta vez, o nosso quase, quase ex-presidente, que não explicou o que pretendia dizer com aquele «matemático». A não ser que a curteza se deva toda, não ao PR, mas ao enviado especial da RR. Seja como for, certo é que há dicionários que atribuem — e bem! — mais acepções a «matemático».

[Texto 22 342]

Léxico: «vale depressionário»

Temos de aprender


      João Santos, climatologista e investigador da UTAD, foi à televisão falar destas tempestades que têm arrasado o País. Entre outras coisas, falou em ➜ vale depressionário METEOROLOGIA configuração alongada de baixa pressão atmosférica, delimitada por isóbaras que se estendem a partir de uma depressão principal e apresentam um eixo de mínimos relativos de pressão; corresponde tecnicamente ao cavado, sendo a designação comum em contextos de divulgação ou previsão meteorológica.

[Texto 22 341]

Léxico: «acenar»

Helen nodded


      «A mulher acenou a cabeça, acenou a cabeça, decerto a dizer-me “está bem”» (Estrela Polar, Vergílio Ferreira. Lisboa: Portugália Editora, 1967, p. 172). É simplesmente inacreditável o número de acepções do verbo acenar — sim, como esta do excerto que cito — que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não acolhe.

[Texto 22 340]

Léxico: «treponematose»

Então, aqui to envio


      «Les bactéries de l’espèce Treponema pallidum sont responsables de maladies appelées “tréponématoses”, qui diffèrent selon la sous-espèce à laquelle elles appartiennent. Ainsi, T. pallidum pallidum est responsable de la syphilis, alors qu’endemicum est la cause du bejel et pertenue du pian. La pinta, une maladie tropicale chronique de la peau, rare et négligée, est intégrée dans la catégorie clinique des tréponématoses. Son agent pathogène, T. carateum, ressemble à T. pallidum mais son génome n’a pas encore été déterminé» («La syphilis aux Amériques, une vieille histoire», Aurélie Coulon, Le Temps, 24.01.2026, p. 22). Porque ouvi dizer, Porto Editora, que a procuras ➜ treponematose MEDICINA qualquer de várias infecções crónicas provocadas por bactérias do género Treponema, geralmente transmitidas por contacto directo (sexual ou não), caracterizadas por lesões cutâneas e ósseas, evolução lenta e distribuição geográfica diferenciada; incluem a sífilis, o bejel, a pinta e a framboesia.

[Texto 22 339]

Pronúncia: «chanceler»

Mas que raio...


      Então, lá vou ter de dizer isto mais uma vez: o que se passa para que muitos dos nossos jornalistas não saibam pronunciar correctamente a palavra «chanceler»? A última vez que sofreu uma sonora silabada foi pela boca da jornalista Sandra Sousa, no Jornal 2, da RTP2, na segunda-feira da semana passada. Mas qual é a dificuldade? E não ouvem os outros falantes?

[Texto 22 338]

Irritações: o arenito das traduções

Pois, muita areia


      Eu só queria notas de 500 euros (pois, também não posso contentar-me com notas de 10 ou 20) como as vezes que já li, em traduções do inglês americano, referências a casas, degraus ou qualquer outro elemento arquitectónico de arenito. O brownstone transforma-se invariavelmente em «arenito castanho», quando não «arenito amarelo», como se a cor da pedra fosse mais importante do que o edifício inteiro. E, no entanto, nem é castanho nem amarelo: o brownstone original tem uma tonalidade indefinida, entre o avermelhado e o terroso (reddish-brown, como dizem os dicionários) e o que importa, verdadeiramente, não é a cor, mas o tipo de edifício que esse termo designa. Brownstone não é a pedra nem a cor: é o nome dado a um tipo de prédio urbano nova-iorquino, típico do século XIX, com fachadas revestidas de arenito (sempre aparece!) e uma escadaria frontal, o stoop, que conduz ao andar principal, elevado em relação à rua. Traduzir isso por «degraus de arenito castanho» é não perceber nem a arquitectura, nem a língua, nem o efeito pretendido na narrativa. Mas retomo o início e reformulo-o: não era notas que eu queria, mas anos com saúde. Enquanto fui imortal, não pensava assim, mas agora a história é outra.

[Texto 22 337]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Lá te esqueceste, Porto Editora, de dicionarizar «grafémico» e «grafofonémico», que aqui propus no passado dia 29. Só neste blogue andam vai para quinze anos. Já merecem ascender ao Olimpo.


Arquivo do blogue