Definição: «poupa-eurasiática»

Morte súbita


      Alguma coisa de grave terá acontecido quando a Porto Editora definiu assim «poupa-eurasiática»: «ORNITOLOGIA (Upupa epops) ave da família dos Upupídeos». Vamos lá acabar o trabalho propondo ➜ poupa-eurasiática ORNITOLOGIA (Upupa epops) ave da família dos Upupídeos, de plumagem alaranjada com asas listadas de preto e branco, crista eréctil e bico longo e curvo; distribui-se pela Europa, Norte de África e Ásia Ocidental; é maioritariamente insectívora, com especial apetite pelas pupas da processionária-dos-pinhos (Thaumetopoea pityocampa), mas pode também ingerir pequenos vertebrados ou sementes; nidifica em cavidades e distingue-se pelo chamamento repetitivo que inspirou o nome comum.

[Texto 22 308]


Definição: «removedor»

A prova do algodão


      «Acontece que o pragmatismo de Otis e da respectiva familia também é muito norte-americano, pelo que as sucessivas tentativas do fantasma de Lord Canterville em assustá-los esbarram numa parede: os filhos gémeos atacam o fantasma com almofadas, o senhor Otis oferece lubrificante ao fantasma para aplicar nas suas correntes e, assim, não fazer barulho quando se desloca pelos corredores do castelo, as manchas de sangue que reaparecem todos os dias junto à lareira são limpas com um removedor trazido dos Estados Unidos» («O conflito cultural EUA-Europa de Oscar Wilde nos Primeiros Sintomas», Gonçalo Frota, Público, 15.01.2026, p. 28). 

      Removedor trazido dos Estados Unidos. Para a Porto Editora, o removedor é todo trazido do Brasil, vá-se lá saber porquê. Sabotagem?

[Texto 22 307]


Definição: «gringo»

Também adjectivo


      Estou para dizer isto há anos, de que só me voltei a lembrar agora que o leio aqui num texto que não posso citar: «gringo» também é adjectivo, o que os nossos dicionários ignoram, além de que nem sempre é pejorativo. Assim, proponho ➔ gringo nome masculino, adjectivo Brasil informal, depreciativo indivíduo estrangeiro, sobretudo de aparência nórdica ou origem anglófona, geralmente percebido como culturalmente alheio ou economicamente privilegiado; pode também designar, em certas regiões do Brasil, mercador ambulante de outra nacionalidade; usa-se ainda adjectivalmente para caracterizar elementos percebidos como estrangeiros ou importados (comida gringa, música gringa, turista gringo). Quanto à etimologia, vem do castelhano gringo (séc. XVIII), segundo Joan Corominas, deformação de griego no sentido de «grego» (> grigo > gringo, por nasalização), associado a língua incompreensível (originalmente em relação ao latim); na Península Ibérica, aplicava-se apenas à linguagem, mas na América passou a designar estrangeiros cujo falar não se entendia.

[Texto 22 306]

Definição: «crisopa»

No país do vinho


      Pela sua importância na viticultura, importa também definir melhor ➔ crisopa ZOOLOGIA insecto neuróptero do género Chrysopa e géneros próximos, de corpo verde e asas translúcidas com nervuras reticuladas, cujas larvas são predadoras vorazes de afídeos, cochonilhas, ácaros e outros pequenos invertebrados, sendo amplamente usadas no controlo biológico de pragas agrícolas; o grupo inclui espécies morfologicamente idênticas, apenas distinguíveis por genética ou vocalizações vibratórias, e com importância crescente em culturas economicamente relevantes como a vinha.

[Texto 22 305]


Léxico: «osmol | miliosmol | osmolalidade»

Porque os especialistas já sabem


      Tenho aqui à minha frente a bula do Atyflor Hydra. No verso, indica: «Osmularidade: 234 mOsm/L». A Porto Editora define assim o termo: «FÍSICA, QUÍMICA concentração osmótica de uma solução expressa em osmoles, da substância dissolvida no soluto, por litro de solução». É em «osmole», porém, que tudo se torna mais obscuro para o simples leigo que consulta o dicionário: «FÍSICA, QUÍMICA peso molecular de um soluto, em gramas, dividido pelo número de iões ou partículas dissociadas na solução». Certo de que se pode simplificar, proponho ➔ osmole/osmol MEDICINA, BIOQUÍMICA unidade que mede a quantidade de partículas dissolvidas com efeito osmótico numa solução; é usada no cálculo da osmolaridade ou da osmolalidade, permitindo avaliar a compatibilidade da solução com os fluidos corporais. 

      Por exemplo, valores próximos ou ligeiramente inferiores à osmolaridade do plasma sanguíneo (c. 285-295 mOsm/L) indicam segurança e eficácia na reidratação oral.

[Texto 22 304]


⋅ ── ✩ ── ⋅

P. S.: Aproveito, naturalmente, para propor a dicionarização de ➔ miliosmol MEDICINA, BIOQUÍMICA submúltiplo do osmol, equivalente a um milésimo desta unidade (1 mOsm = 0,001 osmol); usado para exprimir a osmolaridade ou a osmolalidade de soluções, designando a quantidade de partículas dissolvidas com efeito osmótico por litro de solução ou por quilo de solvente. Todos os dicionários contêm erros, e, neste ponto, o Houaiss está errado. Vá, embrulhem.


Léxico: «interfonia»

Senhores passageiros


      No terceiro episódio («Linhas proletárias») da série documental Passagem de Nível, na RTP2, uma revisora, Carla Lima, entrevistada a bordo de um comboio da linha de Cascais, disse que a marcou especialmente a última passagem de ano, em que estava de serviço na linha de Sintra e o colega maquinista, quando passavam pelo túnel do Rossio, ao dar as doze badaladas, «desejar aos passageiros, através da interfonia, um feliz ano novo».

[Texto 22 303]

Léxico: «fibrado»

Pouco a pouco, chegamos lá


      Numa reportagem que vi na televisão sobre o combate ao narcotráfico nas costas portuguesas, um major-general da GNR dizia que actualmente muitas das narcolanchas são fibradas e mesmo cabinadas. Ora, «cabinado» já nós levámos para o dicionário em Abril do ano passado. Agora só falta ➔ fibrado adjectivo 1. que é feito ou revestido com fibra de vidro ou outro material compósito de fibras, geralmente por motivos de leveza, resistência ou aerodinâmica; 2. que apresenta aspecto ou estrutura de fibras, especialmente em contextos técnicos ou industriais.

[Texto 22 302]

Definição: «capuchinha»

Porque é mesmo


      «João Farminhão alerta também para a necessidade urgente de controlar a proliferação de espécies invasoras nas arribas do Gargalo do Tejo, como as capuchinhas (Tropaeolum majus) e as canas (Arundo donax)» («Chama-se Linaria almadensis: nova planta endémica descoberta nas arribas do Tejo, em Almada», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 23.01.2026, 11h04, itálicos meus). É isto que se tem de acrescentar na definição de «capuchinha», que é uma espécie considerada invasora.

[Texto 22 301]

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