Definição: «capuchinha»

Porque é mesmo


      «João Farminhão alerta também para a necessidade urgente de controlar a proliferação de espécies invasoras nas arribas do Gargalo do Tejo, como as capuchinhas (Tropaeolum majus) e as canas (Arundo donax)» («Chama-se Linaria almadensis: nova planta endémica descoberta nas arribas do Tejo, em Almada», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 23.01.2026, 11h04, itálicos meus). É isto que se tem de acrescentar na definição de «capuchinha», que é uma espécie considerada invasora.

[Texto 22 301]

Definição: «inspector»

Observa com atenção


      «Mais de três mil pessoas candidataram-se ao último concurso de inspetores da Polícia Judiciária que abriu no final de dezembro do ano passado e terminou nesta quarta-feira, 21 de janeiro, revelou a PJ ao Observador. São 3.258 candidatos para um total de 150 vagas» («Concurso para inspetor da Polícia Judiciária abriu 150 vagas. Concorreram mais de 3 mil pessoas», Adriana Alves, Observador, 23.01.2026, 16h46).

      Não se pode sustentar que tal acepção de «inspector» está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Aliás, o verbete está tão desfalcado, que proponho ➔ inspector 1. indivíduo encarregado de realizar inspecções, fiscalizações ou acções de controlo em nome de uma entidade pública ou privada, com o objectivo de verificar o cumprimento de normas, regulamentos ou directrizes (ex.: inspector sanitário; inspector do trabalho; inspector tributário); 2. funcionário do Estado que integra a carreira de investigação criminal da Polícia Judiciária, com formação superior e específica, a quem compete coadjuvar as autoridades judiciárias na investigação e instrução de processos-crime, podendo realizar actos de polícia criminal, coordenar equipas, conduzir inquéritos, proceder a buscas, detenções e recolha de prova; 3. [por extensão] membro de outras entidades públicas com competências de inspecção ou auditoria sectorial (ex.: inspector da ASAE; inspector da IGEC). 

      A etimologia mais completa dirá que vem do latim inspectōre-, forma de inspicĕre, «observar com atenção, examinar».

[Texto 22 300]

Definição: «cranioplastia»

Pouco menos que nada


      «Há quem nunca mais consiga voltar a trabalhar. Suzi já estaria a trabalhar, “se já tivesse feito a cirurgia” final. Precisa de uma cranioplastia. Há que reparar a falha óssea no crânio resultante da operação de salvamento do hematoma subducal a que foi sujeita no Santo António» («Ana e Suzi tiveram de reaprender a falar e querem ajudar outros», Ana Cristina Pereira, Público, 24.01.2026, p. 27).

      A definição de «cranioplastia» da Porto Editora é simplesmente caricata: «MEDICINA operação plástica praticada sobre o crânio». Porquê «sobre»? E cuidado com aquele «plástica», as cabecinhas fracas podem não entender. Assim, proponho ➔ cranioplastia MEDICINA operação cirúrgica reconstrutiva do crânio, destinada a corrigir falhas ósseas provocadas por traumatismo, malformação congénita ou intervenção neurocirúrgica anterior, com recurso a enxertos ósseos ou a materiais sintéticos biocompatíveis; visa restaurar a forma e a integridade estrutural do crânio, podendo também ter finalidade estética.

[Texto 22 299]

Léxico: «linária»

Só na Outra Margem


      «Uma nova espécie de planta, que em todo o mundo só existe nas arribas do Gargalo do Tejo, em Almada, frente a Lisboa, foi identificada pelo investigador João Farminhão, do Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. [...] A Linaria almadensis passa agora a integrar o conjunto de cerca de 90 espécies de plantas que, em todo o mundo, só existem em Portugal continental, sublinhando a responsabilidade coletiva na sua conservação» («Chama-se Linaria almadensis: nova planta endémica descoberta nas arribas do Tejo, em Almada», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 23.01.2026, 11h04, itálicos meus).

      Apesar de não ter, tanto quanto sei, nome comum conhecido, a própria estrutura do verbete de «linária» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nos obriga a levar para lá a acepção. Assim, proponho ➔ linária BOTÂNICA (Linaria almadensis) planta herbácea endémica de Portugal, restrita a paredões e terraços arenosos das arribas do estuário do Tejo, entre o Cristo-Rei e o Mosteiro dos Jerónimos, em zonas próximas de rochas calcárias; distingue-se por folhas estreitas e flores dispostas em espigas compactas, com pétalas superiores branco-amareladas, palato amarelo-alaranjado e esporão frequentemente tingido de violeta.

[Texto 22 298]


Léxico: «electrolisável»

Ainda morremos e nada


      Oh Porto Editora, e quando teremos a satisfação de ver «electrolisável» no dicionário, quando? Sim, ➔ electrolisável QUÍMICA que pode sofrer electrólise, ou que é susceptível de se decompor por acção de uma corrente eléctrica.

[Texto 22 297]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Estás a deixar várias pelo caminho, Porto Editora. «Distributário», «delta» também como adjectivo (ou não compreenderemos coisas como «variante delta»), etc.


Léxico: «governante»

Fora da política


      No último episódio do documentário Hotéis XXI, na RTP2, falaram dos vários ofícios num hotel actualmente. Entrevistaram pessoas que ocupam esses cargos. Um, que os nossos dicionários omitem, é o de governante, que se encontra nos hotéis mais luxuosos, algo entre as governantas das casas senhoriais de outrora e os mordomos que até recentemente se encontravam nesses hotéis. Assim, proponho ➔ governante HOTELARIA profissional responsável pela supervisão dos andares de um hotel, coordenando o trabalho das equipas de limpeza e arrumação; assegura que os quartos e áreas comuns se encontram perfeitamente limpos antes da chegada dos hóspedes, cuidando dos últimos pormenores de apresentação e garantindo o cumprimento dos padrões estéticos e de hospitalidade da unidade hoteleira.

[Texto 22 296]


Léxico: «géstica»

O gesto é tudo


      «A géstica do maestro não cria som, mas influencia decisivamente o som. O estilo de cada um dos maestros pode alterar-se. E há uns que são mais espalhafatosos, outros menos [afirma Rui Massena, em entrevista]» («Rui Massena. “Estou mais elitista do que alguma vez estive. É preciso defender os bons valores”», José Cabrita Saraiva, «Versa»/Nascer do Sol, 2.01.2026, p. 28). 

      Pode intuir-se do que se trata, mas temos de a levar para os dicionários, pelo que proponho ➔ géstica MÚSICA conjunto de gestos usados pelo maestro para dirigir uma orquestra ou coro, correspondendo a uma linguagem corporal codificada e expressiva que transmite indicações de tempo, dinâmica, carácter e entradas, sem produzir som mas influenciando decisivamente a interpretação musical por parte dos executantes.

[Texto 22 295]


Definição: «bogie»

Ou fica-se com uma ideia muito errada


      O acidente com um comboio de alta velocidade em Adamuz, Espanha, no dia 18, veio chamar a atenção para esta peça essencial da engenharia ferroviária. Um dos bogies, com um peso estimado de 10 toneladas, saltou da via e foi parar a um ribeiro a cerca de 300 metros do local. A definição da Porto Editora, que o descreve apenas como «elemento de um vagão ou carruagem», como se fosse um puxador de uma porta ou um botão, é manifestamente insuficiente e induz em erro. Por isso mesmo, proponho ➔ bogie FERROVIA subchassi metálico giratório sob cada carruagem, vagão ou locomotiva, geralmente com dois eixos e quatro rodas, integrando sistemas de suspensão, travagem e, por vezes, tracção; articula-se com a caixa do veículo por meio de rótula, permitindo a inscrição em curva, a absorção de vibrações e a estabilidade; cada comboio integra vários bogies, normalmente dois por carruagem, pesando cada um até cerca de 10 toneladas, consoante o modelo.

[Texto 22 294]

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P. S.: Era justamente para estes casos que interessava que a Porto Editora ilustrasse o verbete com uma imagem, como faz com alguns vocábulos — pouquíssimos, tão poucos, imagino, que raros serão os leitores que sabem que o faz —, como é o caso de «algodão». Temos então aqui a imagem de um bogie de um comboio moderno.

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