Uso das aspas

Não valia a pena

      «Desavenças relacionadas com um divórcio levaram dois homens a envolver-se numa luta corpo a corpo. Um deles, que está separado da mulher que agora vive com o outro, serviu-se de um chicote de couro e “alma de alumínio” de 60 centímetros. Mas foi ele quem apanhou mais. O segundo conseguiu tirar-lhe o objecto e acabou por lhe dar uma sova» («Um chicote de couro é uma arma cuja posse é proibida ou é um objecto decorativo?», José António Cerejo, Público, 14.10.2011, p. 14).
      É mais uma catacrese — e as aspas mostram o receio do jornalista (e dos juízes?) de que se confunda o interior do chicote com a parte imaterial do ser humano.
      Quanto à substância da questão jurídica: podeis chicotear quem vos aprouver (há sempre quem mereça), porque, segundo os desembargadores, se trata de um «objecto cujo “uso foi desviado” da sua finalidade originária de “fustigar cavalos”». Pelo menos do crime de detenção de arma proibida ficam absolvidos. Quanto ao resto, logo se verá.
[Texto 579]

Como se escreve nas revistas

Ai, Jasus!

      Montexto, veja esta: na página 3 da edição desta semana da revista Sábado, ficamos a saber por uma legenda que Marta Ortega, filha do dono da Zara, vai casar-se — «com um cavaleiro hípico»! Com os ricos é tudo assim, redundante, excessivo, perdulário.

[Texto 578]

Métrica

Actualização ortográfica

      Na edição da poesia dos clássicos, há ou pode haver actualizações ortográficas desde que a métrica não saia prejudicada. Por exemplo, a célebre canção camoniana «Junto de um seco, fero e estéril monte». Ou será «Junto de hum seco» ou «Junto dum seco»? Estou a pensar em voz alta... (E, embora sem consequência para a métrica, o aborrecido — «Da Natureza em tudo aborrecido» — não seria, e já aqui falámos de tais alterações ortográficas — aborrescido»? Que acha, Fernando?)

[Texto 577]

«Falir»

Falências linguísticas

      «Mas enquanto o antigo secretário de Estado das Obras Públicas, o inimitável Paulo Campos, o homem do Aeroporto de Beja, se passeia por aí com a sua conhecida displicência, seria bom que tudo isto fosse muito bem escrutinado e investigado, desde logo na sede própria que é o Parlamento, visto que não é porque o homem saiu do governo que não tem de prestar contas sobre a forma como negociou a revisão das concessões de auto-estrada. Esta gente inconcebível andou a brincar com o nosso dinheiro. E assim se faliu um país» («A factura», Pedro Lomba, Público, 13.10.2011, p. 32).
      «E assim se faliu um país»? Não há melhores formas de dizer o mesmo? Se não nos falir a vontade, sim: «E assim se levou um país à falência.»

[Texto 576]

Léxico: «puxanço»

Não deixaremos

      Está aqui um leitor muito preocupado porque a palavra «puxanço» está a desaparecer de todos os lados. Puxanço, «aquele golpe de raqueta violento e quase indefensável que se dava no pingue-pongue», explica-me. Teme, e com razão, que seja substituído por «um anglicismo despudorado, como smash». O Aulete regista-o, referindo-o embora apenas ao bilhar. A MorDebe regista-o. A nossa memória regista-o.

[Texto 575]

«Ventre à terre»

Não me parece

      «Hommes, mammifères ventre à terre, serpents rampants s’enfuient.»
      Estava aqui a pensar se não teremos, mas creio que não, uma expressão idiomática semelhante. Há muitas expressões iguais em várias línguas, holismos, já o temos visto. Deixar as calças, por exemplo, um sinónimo de morrer, em francês diz-se laisser ses grègues. Mas tirer ses grègues, pôr-se a milhas, não tem uma correspondência exacta.
[Texto 574]

Pontos cardeais

Não sopra daí

      «Ainda anteontem, neste Outubro levado da breca, fui um dos peixes imperadores da Praia Grande, boiando pelas vagas adentro, apontando com os dedos dos pés, como os mortos, hesitando entre o ter medo e o dar glória a Deus. O calor é estranho — meio-vento de Espanha, meio-vento de África —, ocupando os dois pontos cardeais que mais nos abafam e irritam: o Leste e o Sul» («Estação só para nós», Miguel Esteves Cardoso, Público, 12.10.2011, p. 35).
      Os hífenes no «meio» não são necessários. Quanto aos pontos cardeais, saiba Miguel Esteves Cardoso que se grafam e continuarão a grafar com minúscula inicial.

[Texto 573]

«É de pura lógica»?

De contrabando

      «Salvo en casos excepcionalísimos de absoluta flagrancia, es de pura lógica que, etc.» E os tradutores (dois)? «Salvo em casos excepcionalíssimos de absoluto flagrante, é de pura lógica que, etc.» E esta forma de dizer é portuguesa? Emparelha — até porque estamos a falar de dois tradutores — com o «logicamente» contrabandeado de Espanha de Luís Figo.
[Texto 572]

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