Léxico: «puxanço»

Não deixaremos

      Está aqui um leitor muito preocupado porque a palavra «puxanço» está a desaparecer de todos os lados. Puxanço, «aquele golpe de raqueta violento e quase indefensável que se dava no pingue-pongue», explica-me. Teme, e com razão, que seja substituído por «um anglicismo despudorado, como smash». O Aulete regista-o, referindo-o embora apenas ao bilhar. A MorDebe regista-o. A nossa memória regista-o.

[Texto 575]

«Ventre à terre»

Não me parece

      «Hommes, mammifères ventre à terre, serpents rampants s’enfuient.»
      Estava aqui a pensar se não teremos, mas creio que não, uma expressão idiomática semelhante. Há muitas expressões iguais em várias línguas, holismos, já o temos visto. Deixar as calças, por exemplo, um sinónimo de morrer, em francês diz-se laisser ses grègues. Mas tirer ses grègues, pôr-se a milhas, não tem uma correspondência exacta.
[Texto 574]

Pontos cardeais

Não sopra daí

      «Ainda anteontem, neste Outubro levado da breca, fui um dos peixes imperadores da Praia Grande, boiando pelas vagas adentro, apontando com os dedos dos pés, como os mortos, hesitando entre o ter medo e o dar glória a Deus. O calor é estranho — meio-vento de Espanha, meio-vento de África —, ocupando os dois pontos cardeais que mais nos abafam e irritam: o Leste e o Sul» («Estação só para nós», Miguel Esteves Cardoso, Público, 12.10.2011, p. 35).
      Os hífenes no «meio» não são necessários. Quanto aos pontos cardeais, saiba Miguel Esteves Cardoso que se grafam e continuarão a grafar com minúscula inicial.

[Texto 573]

«É de pura lógica»?

De contrabando

      «Salvo en casos excepcionalísimos de absoluta flagrancia, es de pura lógica que, etc.» E os tradutores (dois)? «Salvo em casos excepcionalíssimos de absoluto flagrante, é de pura lógica que, etc.» E esta forma de dizer é portuguesa? Emparelha — até porque estamos a falar de dois tradutores — com o «logicamente» contrabandeado de Espanha de Luís Figo.
[Texto 572]

Como se escreve nos jornais

Ou será «rompente»?

      «Dos indignados que têm pernoitado em Wall Street aos protestantes das ruas de Atenas, Madrid ou Lisboa há certamente muitas semelhanças ou pontos de contacto. Em todos eles, por exemplo, se vê uma genuína raiva contra bancos e banqueiros, uma percepção de que os responsáveis permanecem à “solta”, um tom severo de caça aos ricos e poderosos, uma rompante impotência e falta de fé naquilo que o futuro nos reserva» («Do baú das ideologias», Pedro Lomba, Público, 11.10.2011, p. 32).
      Impotência precipitada? Impotência impetuosa? Impotência arrogante? Impotência orgulhosa? Desisto!

[Texto 571]

«Homilia/homília»

Falsa esdrúxula

      «“Deixai que bos fale na buossa lhéngua mirandesa; perdonai-me se nun la sei falar tan bien cumo bós”, foram as primeiras palavras em mirandês proferidas por D. José Cordeiro, durante a parte final da homília que decorreu na Sé de Miranda» («Bispo deu parte da missa em mirandês», Diário de Notícias, 10.10.2011, p. 11).
      Os leitores mais atentos viram decerto que no texto sobre o vocábulo «concatedral» foi usada a palavra «homília» e não, como é mais vulgar, «homilia». E usada quatro vezes.
      No mesmo artigo, uma caixa de texto relembra que o mirandês é desde Janeiro de 1999 a segunda língua oficial de Portugal, mas que «não existe um número rigoroso de falantes». Ah não?

[Texto 570]

«Privar da companhia»

Pois é

      «Lili Caneças usou um vestido de cores vibrantes e revelou que é uma mulher bastante atenta ao que se passa na moda. A ex-deputada Marta Rebelo, que é uma presença habitual neste evento, privou da companhia do actor Heitor Lourenço, que esteve sempre bastante divertido» («Último dia recheado de famosos e de ‘glamour’», Diário de Notícias, 10.10.2011, p. 46).
      Expressão interessante: «E decidiu que a tentativa de suicídio tivesse sido por ele se privar da companhia dela, nesse internato indecoroso dos Três Irmãos Carecas» (O Adeus às Virgens, Alexandre Pinheiro Torres. Lisboa: Editorial Caminho, 1998, p. 179). «Até 2003, Leni Riefenstahl ainda assustava como a última sobrevivente daqueles que privaram da companhia de Hitler, e que dele mereceram admiração irrestrita» (Imagem, Tempo e Movimento, Mauro Luiz Rovai. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2005, p. 91).
[Texto 569]

Léxico: «desconvidar»

Para variar

      «Na entrevista, Vasconcellos aborda o caso Bernardo Bairrão, ex-administrador delegado da Media Capital, convidado pelo Governo PSD/CDS para secretário de Estado da Administração Interna e depois desconvidado. Diz ter excelentes relações com Bairrão, com quem já teve uma ligação familiar» («Nuno Vasconcellos quer RTP toda privatizada», Filomena Araújo, Diário de Notícias, 10.10.2011, p. 51).
      Não é todos os dias que se vê o verbo desconvidar — que, além do óbvio significado de anular convite também significa não incitar, não atrair, não despertar: «Essa mulher desconvida qualquer galanteio.» (Exemplo da Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.)

[Texto 568]

Arquivo do blogue