«Tranquilizador»/«tranquilizante»

Mas cada um

      «O primeiro-ministro, um ou outro ministro e vários comentadores voltaram a manifestar preocupação de que a crise pudesse degenerar em violência como na Grécia. Não há segurança nenhuma de que não degenere, mas talvez seja tranquilizante pensar que a Grécia é um país novo (até ao princípio do século XIX fazia parte do império turco), que recentemente sofreu uma invasão alemã (o que não o tornou muito germanófilo) e passou depois por uma resistência generalizada ao nazismo, por uma guerra civil e por uma ditadura militar» («Violência?», Vasco Pulido Valente, Público, 8.10.2011, p. 36).
      Há outros pares de adjectivos («contagioso»/«contagiante», v. g.) à primeira vista intermutáveis, mas depois verifica-se que cada um tem um uso mais específico. No caso, eu usaria «tranquilizador» e não «tranquilizante» (que, como substantivo, também é o medicamento de acção neurossedativa usado nas situações de ansiedade e de emotividade).
[Texto 559]

Garrett

Digam-lhe, que ela é nova

      «No Cartaxo, [o Presidente da República] citou uma conversa de Almeida Garrett com o dono do café da terra para deixar um aviso.» E a repórter da RTP, Daniela Santiago, quis que o nome do escritor rimasse com café: Garré. Este bem dizia que escrevia com dois tt para pelo menos lhe lerem um, mas a ironia não chegou a todos os ouvidos modernos.

[Texto 558]

Tradução

Omissões e comissões

      Ne sutor ultra crepidam, claro, bem sei — mas o original não está igualmente mal escrito? Um exemplo: «la comisión de una conducta punible, etc.». «Comissão de uma conduta»? Não deveria antes ser «comisión de un hecho punible»? É que, assim, nem tradutores bons fazem obra razoável, quanto mais maus tradutores. E agora, corrijo o original (oh sacrilégio!) ou vou à praia?
[Texto 557]

Tradução: «gnocca»

Por aí

      «Povo da Liberdade, o nome do partido de Silvio Berlusconi, já não satisfaz. “Vamos mudar o nome, as pessoas não gostam. Aceitamos sugestões”, disse o primeiro-ministro de Itália. Depois acrescentou: “Dizem-me que teríamos sucesso com ‘Forza Gnocca’”, termo coloquial que pode ser traduzido como “Força, boas”» («Mais uma piada sexista de Silvio Berlusconi», Público, 7.10.2011, p. 38).
      Estes apontamentos linguísticos têm sempre a sua utilidade. «Boas» parece-me fraco. Gnocca é uma «bella ragazza, sensuale e procace». E também é — preparem-se! — «cona». (Aos 110 leitores em simultâneo das 23h24 de ontem já lhes cheirava...)
[Texto 556]

«Linguagem criminal»

Eh lá

      «O culpado tem um rosto e uma voz, pois deu logo a cara e reclamou logo, com irrepremível orgulho, que era ele. Alegou até, usando linguagem criminal, ter actuado em “legítima defesa”, pois “eles ainda nos tiravam mais dinheiro se andássemos a mostrar o jogo”» («O carnaval madeirense», Carlos Fiolhais, Público, 7.10.2011, p. 38).
      «Linguagem criminal?» Valha-o Deus, homem! Isto é, senhor professor doutor.

[Texto 555]

Pontos cardeais

Quando empregados absolutamente

      A revista Lux já usa a nova ortografia e fá-lo, pois claro, como sabe e pode. Mas não chega. Título da capa da edição desta semana: «Toda a história da relação do ‘conde’ com empresário do norte envolvido em orgias». Rapaziada, vejam lá de novo as regras, não sejam tão alegremente incompetentes.

[Texto 554]

Anglicismo: «incumbente»

Por terra

      «A morte de Steve Jobs proporcionou uma excelente oportunidade para revisitar a sua vida e legado e, também, para ver ou rever muitos dos seus vídeos hoje disponíveis na Internet. Entre os que revi ontem quero destacar um: é do final de 1983 e mostra um jovem de menos de 30 anos a anunciar não o novo, e revolucionário, Macintosh, mas o spot publicitário de lançamento. Trata-se do memorável filme que glosa o conceito do 1984 de Orwell para destacar a coragem dos que desafiam a hegemonia dos incumbentes. No caso, a poderosa IBM, como Steve sublinha» («Notas soltas: Steve Jobs, ERC e Alberto João Jardim», José Manuel Fernandes, Público, 7.10.2011, p. 39).
      Ultimamente não se pode falar de estrangeirismos — mas eu arrisco mais uma vez. Incumbente não é, na frase, um anglicismo semântico? Para nós, «incumbente» é quase só o que está inclinado para baixo. Adjectivo. Em inglês, é «one that occupies a particular position or place». O leitor pode sentir-se um tudo-nada atrapalhado, mas não faz mal — passa à frente.
[Texto 553]

«Entra por uma orelha, etc.»

Disparates oficiais

      «O discurso oficial da direita e da esquerda, à força de se repetir, deixou de ser ouvido. Entra por uma orelha e sai por outra. E nem o acordo piedoso dos partidos ditos “democráticos” aumenta a confiança no Governo ou no futuro» («O realejo»,Vasco Pulido Valente, Público, 7.10.2011, p. 44).
      É mais vulgar entra por um ouvido e sai pelo outro. Vasco Pulido Valente começa por falar de outro discurso, o do Presidente da República no 5 de Outubro, em que S. Exa. disse — leu — «pese os avisos que foram feitos». A Presidência da República não tem dinheiro para contratar os serviços de um revisor.

[Texto 552]

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