Acordo Ortográfico

Genocídio cultural, estético, racional e político

      Miguel Esteves Cardoso escreveu mais uma vez (e, com sorte, não será a última) sobre o Acordo Ortográfico na sua crónica no Público: «Muitas coisas pedimos ao Verão e a Agosto, que o Acordo Ortográfico (AO) já despromoveu para verão e agosto. Para tomarmos banho, exigimos calor, sol e mar manso. É uma coincidência muito rara e uma desculpa muito boa para ficar na esplanada, a beber Água das Pedras ou, se calhar, na volta, água das pedras.
      Foto-reportagem passa a ser fotorreportagem (com um érre a mais, que não pertence nem a “fotor” nem a “rreportagem”) e mini-saia exige, pela perda do hífen, um ésse a mais: minissaia. Que artigo de vestuário é que é mini? É a “ssaia”, pois claro. Embora defenda o hífen, não sou totalmente sectário. Escrevemos “hás-de” e o AO manda, com razão, esquecer o hífen. “Hás de” é mais bem grafado do que “hás-de” e, na volta, é capaz de remover o incentivo analfabeto para dizer “há-des”.
      Mesmo assim, apesar de menos de uma mão-cheia de mudanças que fazem sentido, o AO é um acto de genocídio cultural, estético, racional e político. O AO é como querermos unir, à força, os verões e os climas brasileiros, portugueses e cabo-verdianos, procurando semelhanças superficiais e despromovendo diferenças profundas, só para chegarmos à conclusão que todos sentimos frio e calor e que todos somos molhados pela chuva.
      Por muito que aceditemos [sic] no contrário, os nossos tempos, como as nossas línguas — e as maneiras como as escrevemos graficamente — são parecidos de mais para fingirmos que somos diferentes. Mergulhamos no conhecido e aprendemos como deve ser» («Calor e mar bravo», Miguel Esteves Cardoso, Público, 12.08.2011, p. 33).
      É impressão minha ou o último parágrafo também poderia rematar qualquer texto de um paladino (ou fanático, segundo outros) do Acordo Ortográfico como Fernando dos Santos Neves? Que acha, Fernando Venâncio?
[Texto 389]

Regência: «precisar»

Apesar de Camilo e de Bocage

      A autora quis que a frase ficasse sem a preposição, porque, alegava, com preposição era, tinha aprendido, errado se se lhe seguia um verbo no infinitivo, mas já não quando seguido de substantivo ou pronome. «E então, *** despediu-se com o pretexto de que precisava urgentemente beber água.» O Dicionário Houaiss resume bem, creio, a questão: «Na actual norma portuguesa da língua, este verbo, quando na acep. de ‘ter necessidade de’, pede objecto indirecto; há, porém, bom número de abonações de autores portugueses clássicos, como Camilo e Bocage, que o empregaram com transitividade directa; na verdade, na língua, a regência deste verbo oscila entre uma coisa e outra, com peso maior para o objecto indirecto, tanto no Brasil como em Portugal, excepto quando a ele se segue outro verbo no infinitivo, caso em que, em Portugal, se usa sempre seguido de preposição (preciso de fazer, precisava de sair, precisou de se explicar), enquanto, no Brasil, tal emprego tem vindo a rarear (preciso fazer, precisava sair, precisou explicar-se).»
[Texto 388]

Sobre «motim»

Talvez tenha razão, Sr.ª Abbott

      «A palavra motins não é correcta para descrever os saques na Inglaterra. Anteontem a BBC ralhou com Diane Abbott, a deputada por Hackney North e Stoke Newington, por ter falado em “pilhagens recreativas”. Abbott, uma mulher desde sempre de esquerda, defendeu-se bem, dizendo que a pilhagem era roubo e tanto a pilhagem como o roubo eram crimes. A pilhagem era recreativa — não só porque dava lucro e prazer, mas, sobretudo, porque nada tinha de sério ou de político, no sentido altruísta e, por conseguinte, ideológico» («Uma questão de tempo», Miguel Esteves Cardoso, Público, 11.08.2011, p. 31).
Por coincidência, ao ouvir hoje, mais uma vez, a palavra num noticiário da Antena 1, também me pus a reflectir se está a ser usada com propriedade neste caso. Mas talvez, pois motim é, como se lê, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «rebelião, geralmente organizada, contra a autoridade estabelecida, tumulto popular, sublevação, revolta, arruaça».
[Texto 387]

Léxico: «claustrim»

Novidades e coisas velhas

      Lê-se na página na internet da RTP que «o Museu Nacional do Azulejo [o MNAz, lê-se por aí] dedica um programa à “multiculturalidade”, que vai desde uma visita orientada ao azulejo como “reflexo multicultural”, às 18h30, passando por um “recital dos oceanos” no claustrim, às 19:45, seguindo-se uma “missa criolla” composta pelo argentino Ariel Ramirez (1921-2010) na Igreja da Madre Deus, às 21:00, e finalmente uma noite de fado de Lisboa e de Coimbra no Jardim de Inverno, às 22:15». (Misa Criolla, na verdade, composta na década de 1960, quando o Concílio Vaticano II passou a permitir a celebração da missa em vernáculo. E Ramírez é assim que se escreve.)
      Não está registada em nenhum dicionário — mais uma —, mas está correcto: é um claustro pequeno. Com recurso ao sufixo -im, formámos outros, poucos, vocábulos, como cornetim, espadim, farolim, flautim, fortim...

[Texto 386]

Tradução: «marronage»

Serve

      «E assim a marronagem histórica...» É cópia do francês marronage, que designa o acto de os escravos se evadirem (a que, actualmente, se acrescentou a acepção de resistência à cultura dominante). O Dicionário Francês-Português da Porto Editora dá como tradução de marronage «exercício ilegal de uma profissão», «fuga, evasão de escravos». Marron é, em francês, castanho, como sabem, mas pelo mesmo vocábulo também se designava o fugitivo, o gentio, o ilegal e o clandestino. Ora, não é raro ver, em especial em autores brasileiros, para referir a mesma realidade, a palavra, que a maioria dos dicionários não regista, «quilombolismo».
[Texto 385]

Como se fala na televisão

É da pura emoção

      Nos tumultos na Grã-Bretanha, disse a jornalista Margarida Neves de Sousa, que estava ontem em Croydon, a sul de Londres, morreu um homem de 26 anos. «Mas há uma segunda pessoa, que está neste momento em perigo de vida no hospital, eu falo do homem na casa dos seus 60 anos, com graves lesões na cabeça por ter sido, digamos assim, batido com um bastão de metal quando tentava proteger também a sua loja.»
      Agora todos sofrem: as crianças abusadas e os homens batidos. E sofre a gramática, como escreveu Monteiro Lobato nas Cidades Mortas, umas tantas marradas.
       Vejam se vislumbram alguma semelhança com este «batido»: «Era ministro do Interior um militar, homem façanhudo, que, por hábito profissional e ainda por ter sido batido na guerra de Marrocos, só na fôrça acreditava» (A Curva da Estrada, Ferreira de Castro. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1960, 1960, p. 90).
[Texto 384]

Linguagem

Essa é boa

      Disse-lhe que Úrano (ou Urano, como alguns querem) tem 27 luas, todas com nomes retirados da obra de Shakespeare, como Cordélia, Ofélia, Bianca, Puck, Rosalinda, Desdémona, etc. Surpresa e pergunta: «E Shakespeare foi buscar esses nomes às luas?» E aqui alguém, traduzindo, escreveu: «Charon era o barqueiro que transportava as almas através do rio Styx

[Texto 383]

Acordo Ortográfico

Pois parece

      Fernando dos Santos Neves, criador da primeira licenciatura portuguesa de Ciência Política, tem na edição de hoje do Público as «Onze Teses contra os inimigos do Acordo Ortográfico». Eis a segunda «tese»: «O “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa” quer ser isso mesmo e nada mais: um acordo sobre a ortografia e não um acordo sobre o vocabulário, a sintaxe, a pronúncia, a literatura e tudo o resto (que é, indubitavelmente, o mais importante) que constitui uma língua viva e, ainda por cima, uma língua potencialmente universal como a língua portuguesa e até uma das pouquíssimas línguas potencialmente universais do século XXI, como já Fernando Pessoa anteviu nos princípios do século XX.»
      Parece mentira, mas há quem — mesmo professores, a um mês de terem de ensinar a nova ortografia — não saiba isto. Claro que, ao contrário do que parece decorrer do texto, não é isso, ser «meramente» um acordo ortográfico, que o torna inócuo. E por mentiras: afirmar-se que vai contribuir para a unificação da língua portuguesa é uma grande mentira, que só o tempo, e não será decerto o nosso, vai desmascarar.

[Texto 382]

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