«Apelar para»

Não me convencem

      Correspondendo ao apelo da leitora Cristina e aproveitando ter-me passado agora mesmo pelos olhos uma frase com a regência errada («Muitos apelam à extin­ção da RTP.»), eis mais uma vez: a regência do verbo «apelar», na acepção que a frase acima exigia, é apelar para. A mim, basta-me esta notinha de Francisco Fernandes na página 83 do seu magnífico Dicionário de Verbos e Regimes: «APELAR A ALGUÉM ou A ALGUMA COISA é regência condenada pelos mestres.» Bem podem os novíssimos linguistas de pacotilha dizer o contrário.
      Eis um mestre: «Ao final, todos, mesmo os paulistas, apelaram para a ação do Governo, seja com a abertura de crédito barato, seja mediante legislação favorável à imigração, seja por medidas que possibilitassem o emprego do trabalhador nacional» (Emancipação dos Escravos: Projeto Dantas (dos sexagenários) e o parecer que o justifica, Rui Barbosa. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988, p. VII).
[Texto 175]

Da linguagem dos magistrados

Isto tem de mudar

      A directora do Centro de Estudos Judiciários (CEJ), em comunicado, referiu que o infeliz caso do copianço se deu numa «exercitação realizada pelos auditores de Justiça do XXIX Curso Normal de Magistrados Judiciais e do Ministério Público», que envolveu 137 candidatos. Ontem, no Jornal das 9, Mário Crespo admitia que o vocábulo existia, sim senhor, mas era uma forma pouco comum de alguém se referir a um simples teste ou exame. De facto, tratando-se de um comunicado, é para toda a população, e a gíria da área ou a linguagem rebuscada não se adequam ao fim em vista: esclarecer. É uma infeliz manifestação da linguagem prescritiva, bebida nas próprias normas, dos magistrados, que não estão habituados a comunicar, pelo menos no sentido etimológico do termo, antes a discursar solipsisticamente. Quando o bastonário da Ordem dos Advogados afirma que o sistema judicial português é medieval, é também nisto que deverá estar a pensar.
      Exercitação foi termo muito da preferência de António Feliciano de Castilho: «Outra vantagem de não leve monta lhe provirá desta exercitação: acostumar-se-á desde logo a variar por muitos modos a linguagem para ocorrer às sucessivas exigências dos vários metros; extraordinário recurso que depois se aplaudirá de possuir» (Tratado de Metrificação, António Feliciano de Castilho. Lisboa: Imprensa Nacional, 1851, p. 101). (Actualização ortográfica minha.)
[Texto 174]

«Aura/áurea/auréola»

Imparável

      Avisada embora, Mafalda Lopes da Costa prossegue o seu inexacto labor linguístico: «Mas inicialmente os ídolos não tinham sequer a áurea de carne e osso que têm hoje» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, 17.06.2011).
      Anda, nos últimos tempos, tudo muito confundido: «aura», «áurea», «auréola». A atmosfera que rodeia ou parece rodear alguém ou alguma coisa tem o nome de aura. Corrigida neste sentido, porém, nem assim a frase de Mafalda Lopes da Costa me parece fazer sentido.
      «Estacou diante da grande Bíblia de bordas douradas e seixas de couro pendentes como chapelões, fechada em seu suporte de madeira lavrada e irradiando de repente uma aura mágica» (O Sorriso do Lagarto, João Ubaldo Ribeiro. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1991, p. 47).

[Texto 173]

«Educação/instrução»

Já vimos isto

      «Mas o caso mais substantivo é a “Educação e Ensino Superior”. O poder das palavras deve ser aqui bem medido. Eu, enquanto pai, agradeço penhorado, mas não preciso de nenhum ministro da Educação. Menos ainda de um ministro da Educação e do Ensino Superior (a natureza judicativa inscrita no nome da pasta não diz muito bem do restante ensino). Preciso, isso sim, de um ministro do Ensino. É que a educação deve ser dada em casa. Na escola, eu espero que instruam, que ensinem — a ler, a contar, a escrever, e depois coisas bem mais sérias, como Geografia, História ou Biologia. A existência de um Ministério da Educação demite os próprios pais do seu maior dever» («O poder da palavra», Jorge Reis-Sá, Público, 15.06.2011, p. 37).
      Já tenho escrito sobre a diferença entre «educação» e «instrução», como decerto se lembram. Mas Jorge Reis-Sá decerto não queria que o ministério se viesse a chamar Ministério dos Negócios da Instrução Pública, como no século XIX. Não, vamos mesmo ter um Ministério da Educação, do Ensino Superior e da Ciência, que terá à frente o professor catedrático de Matemática e de Estatística Nuno Crato.

[Texto 172]

«Ao deus-dará»

Não irá esquecer-se

      «O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) considerou ontem, em Fátima, que a lei que despenaliza a interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas tem sido administrada ao “Deus dará”» («Lei do aborto ao “Deus dará”, critica Igreja», Metro, 16.06.2011, p. 5).
      Até parece que D. José Policarpo invocou em vão o santo nome de Deus — mas não, a culpa é da revisora, Catarina Poderoso, que não sabe que se escreve «ao deus-dará». Agora já não vai esquecer-se.
      «A lei que despenaliza a interrupção da gravidez volta a ser alvo de críticas da Igreja Católica. “A lei não tem sido cumprida, tem sido facilitada, tem sido administrada um bocado ao deus-dará”, defendeu o cardeal-patriarca de Lisboa no final da Conferência Episcopal de três dias em Fátima» («Lei do aborto é aplicada “ao deus-dará”», Paula Carmo, Diário de Notícias, 15.06.2011, p. 17).

[Texto 171]

«Copianço»

Irão julgar-nos

      Auditores de justiça, futuros magistrados, a copiarem uns pelos outros. É a última indignidade — ou parecia ser, até ler a justificação: «Ontem, em declarações ao DN, Manuel Ramos Soares, da direcção da Associação Sindical dos Juízes, condenou o comportamento dos auditores de justiça do CEJ. “Nós falamos [sic] com os auditores e eles disseram-nos que, antes de começar a prova, trocaram umas impressões uns com os outros, não tiveram a noção de que era uma prova individual”, disse Ramos Soares, acrescentando, porém: “A associação condena tal comportamento, porque não revela compreensão dos deveres éticos. Por isso, concordamos com o despacho da directora”» («Copianço generalizado em teste na escola de magistrados», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 15.06.2011, p. 20). «Não tiveram a noção de que era uma prova individual»! A única solução decente era anular a prova, mas não foi isso que aconteceu.
      E já repararam como o termo coloquial «copianço» — desconhecido no Brasil, ao que me parece — está registado nos dicionários, ao contrário de muitos outros mais usados? Prefiro a definição do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa: «Acto ou efeito de copiar, especialmente em provas escritas escolares.»
[Texto 170]

«Após o que»

Insuspeita mas mal-amada

      Nos últimos tempos ando a ver, e em grande profusão, na imprensa e em livros, ocorrências da expressão «após o que»: «A consulta aos partidos, iniciada ontem com PCP, BE e Verdes, termina hoje com CDS, PS e PSD, após o que o Presidente da República deverá indigitar Passos Coelho (ver texto ao lado)» («Esquerda avaliza rapidez na indigitação de Passos Coelho», Nuno Sá Lourenço, Público, 15.06.2011, p. 3).
      Tanto quanto sei, não impende sobre ela nenhuma suspeita, mas não me agrada, e vejo que até foi usada pelos nossos melhores escritores: «Dizia-se que em dous sabbados consecutivos, por volta da meia-noite, se tinham visto desfechar do céu em cima dos paços solitarios da encosta duas estrellas cadentes, após o que, dous gritos fugitivos, mas terrivelmente agudos, soavam da banda do pateo, e sentia-se em seguida o tropear de passos frequentes, como em dança doudejante ou em lucta desesperada» (O Monasticon, tomo III, Alexandre Herculano. Lisboa: em Casa da Viúva Bertrand e Filhos, 1848, p. 368).

[Texto 169]

«Zona Euro»

Do incriterioso uso da maiúscula

      O Público tem um conceito mínimo de Zona Euro: «Uma nova ajuda financeira à Grécia está prestes a ser acordada entre os países da zona euro em troca de um reforço das medidas de austeridade por parte do Governo e desde que os investidores privados aceitem participar no esforço» («Alemanha defende um reescalonamento de sete anos para a dívida pública grega», Isabel Arriaga e Cunha, Público, 9.06.2011, p. 18).
      No Diário de Notícias, em contrapartida, lê-se sempre assim: «Os ministros das Finanças europeus não se entendem quanto à forma de ajudar a Grécia a sair da difícil situação em que se encontra e que está a pôr em risco outras economias fragilizadas da Zona Euro, entre as quais Portugal» («Ajuda a Atenas está a minar relações europeias», Eduarda Frommhold, Diário de Notícias, 15.06.2011, p. 31).

[Texto 168]

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