«Estrato socioprofissional»

Já vimos isto

      Olá, o que é que aqui temos?! Um professor universitário a escrever «extractos socioprofissionais»?! Como podem estas luminárias fumegantes ensinar os alunos se não sabem para si próprios? Mas não venho aqui apenas por isto. Uma pergunta: será que os tradutores pensam que não se pode verter esta construção de outra forma? «One used to be a stoner...» «Um costumava ser pedreiro…»


[Post 4652]

Variedades de azeitona

Só conhecem a galega

      Alguém (espero que inglês) escreveu isto num motor de busca: «Variedades de maçans portuguesas». E lá veio ter ao Assim Mesmo. E hoje perguntaram-me se as variedades de azeitona se grafam com maiúscula inicial. «O azeite x é produzido com azeitonas Galega, Cobrançosa e Picual […].» Bem, se pudermos comparar (podemos?) com as castas de uvas, então grafar-se-ão com maiúscula inicial. Quanto ao título: os dicionários só registam o termo «galega» nesta acepção. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «nome comum a algumas variedades de plantas (ou os seus frutos) cultivadas em Portugal, como a oliveira, a couve, a videira, etc.».

[Post 4651]

Linguagem

Qualidade de

      Não podemos esperar que os dicionários registem todas as palavras, mesmo que a sua frequência de uso e boa formação o justifiquem e o recomendem mesmo. Contudo, destas quatro palavras — atlanticidade, edificabilidade, maritimidade, perificidade — que os dicionários não acolhem, somente a ausência de «edificabilidade» me causa estranheza (e não sou arquitecto). Se não podemos comparar, por exemplo, «atlanticidade» com «casualidade», podemos pô-la a par de «ocidentalidade» — e esta figura nos dicionários.


[Post 4650]

Tradução: «escort girl»

Acompanhe-me

      Podemos traduzir escort girl por «acompanhante», não é assim? E em que dicionário é que a acepção do vocábulo está registada? Para os nossos dicionários, acompanhante é só a pessoa que acompanha ou auxilia outra. (É o caso, senhores dicionaristas, mas explicitem-no.) Os Brasileiros souberam forjar uma expressão deliciosa: garota de programa. Senhores dicionaristas, vamos lá registar a acepção — até para os nossos escribas não pensarem que a não podem usar.

[Post 4649]

Linguagem

Há esperança

      Não sei se sou lido no Olimpo ou não, mas na sua crónica de hoje no Público Vasco Pulido Valente usa — santíssimo Senhor! — o mesmo número de aspas que eu usaria para escrever o mesmo. Temos homem. Temos génio. Para quem está afeito a zurzir em todos, muitas vezes por causa da linguagem, é, porém, um feito menor. Hoje desanca Pedro Passos Coelho e, a propósito dos «pilares», como no islão, escreve: «E, para ir abrindo o apetite à populaça, aprovou por unanimidade no PSD um documento em que definia “pilares” (“pilares”?) num calão indigno do 12.º ano, que não houve português que percebesse ou levasse a sério. De qualquer maneira, a unanimidade agradou a Passos Coelho, que desde pequeno não gosta de conflitos» («Retrato de um chefe», Vasco Pulido Valente, Público, 3.04.2010, p. 36).

[Post 4648]

Léxico: «tirolesa»

Deslizemos

      Corro o risco de alguém em Chimoio se rir, mas eu sou corajoso: até ontem, não conhecia a palavra «tirolesa» na acepção de técnica usada para transpor equipamentos ou pessoas entre um ponto e outro. Confesso. Apareceu-me aqui numa tradução do inglês para verter o termo zip line («a cable suspended above an incline to which a pulley and harness are attached for a rider», lê-se no Merriam-Webster). Não estava só nem mal acompanhado: nenhum dicionário regista o vocábulo nesta acepção. Para todos, «tirolesa» só pode ser uma de três coisas: feminino de «tirolês», canção do Tirol ou dança do Tirol. Não vou rejeitar esta forma tão expressiva de traduzir zip line.
[Post 4647]

«Acesso/acessibilidade»

Fala o autarca

      Seja este exemplo: «[…] bastando para tal que estivesse servido de uma boa rede de acessibilidades.» Escreveu o já extinto Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca: «Quanto a acessibilidade, “qualidade do que é acessível”, não é o mesmo que acesso, que não possui tal significado, pelo que estas duas palavras têm empregos distintos.» O Dicionário Houaiss (versão electrónica) regista para «acessibilidade»: «qualidade ou carácter do que é acessível; facilidade na aproximação, no tratamento ou na aquisição». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acrescenta esta acepção: «conjunto das condições de acesso a serviços, equipamentos ou edifícios destinadas a pessoas com mobilidade reduzida ou com necessidades especiais».
      O exemplo acima é claríssimo: não há «redes de acessibilidades», isso é tolice. Há redes de acessos. Há, contudo, casos de fronteira em que é difícil afirmar categoricamente se se deve usar «acessibilidade» ou «acesso». Lembro-me de Montexto ter aqui condenado o uso de «acessibilidade», mas suponho que o fez tendo em mente o seu uso indevido em vez de «acesso», e não o termo em si.

[Post 4646]

Hífen ou travessão?

O Doutor explica

      Na redacção. Na secção de desporto (ficam assim a saber que não é um desportivo), um jornalista escreveu isto na programação televisiva: «Beira-Mar—Sporting de Braga, 20.h15m. (SportTV1).» Começando pelo fim: há espaço, sim: Sport TV1. As horas já aqui vimos: escrevi (apesar de a minha opção no blogue ser outra) 20h15. E agora o princípio e o principal: «Beira-Mar—Sporting de Braga»?
      Aqui ao lado, Cláudio Moreno pontifica: «O travessão já é vinho de outra pipa; ele serve (1) para indicar, num diálogo, o início da fala de um personagem; (2) para, exatamente como os parênteses, indicar a intercalação de um elemento na frase (como eu próprio fiz, no último período do parágrafo anterior); (3) para introduzir, ao final de um argumento ou de uma enumeração, uma síntese ou conclusão (“Imagine um entardecer de domingo, escuro e frio, debaixo de uma chuva fina, numa estaçãozinha de trens do interior do estado — uma verdadeira desolação!”; (4) para indicar o ponto inicial e final de um percurso ou de um espaço de tempo: a ponte Rio — Niterói; a obra de Tobias Barreto (1839—1869).»
      Será assim (?) no Brasil, não em Portugal. Base XXXII do Acordo Ortográfico de 1945 (e o mesmo se encontra estabelecido no último acordo): «É o hífen que se emprega, e não o travessão, para ligar duas ou mais palavras que ocasionalmente se combinam, formando, não propriamente vocábulos compostos, mas encadeamentos vocabulares: a divisa Liberdade-Igualdade-Fraternidade; a estrada Rio de Janeiro-Petrópolis; o desafio de xadrez Inglaterra-França; o percurso Lisboa-Coimbra-Porto.»
      Quanto às datas, faço, e nem sempre, o mesmo (ou quase: uso meia-risca), mas, como os acordos ortográficos não focam essa questão, fica, por ora, de fora. Mas a ela voltaremos.
      Resumindo: «Beira-Mar-Sporting de Braga, 20h15 (Sport TV1). O Doutor esqueceu-se dos encontros desportivos. Mas qualquer dia chega lá.

[Post 4645]



Arquivo do blogue