«Grosso modo»

Grosserias

      «Daí também que a região onde os Mouros se estabeleceram tenha ficado conhecida como a região saloia. E apesar de não ser muito clara nem bem delimitada, esta zona abarca por tradição, e grosso modo, Mafra, Sintra e Loures» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 30.03.2011).
      A pronúncia da expressão latina grosso modo é a peculiar do latim: /gròsso mòdo/. Se Mafalda Lopes da Costa ou quem quer que seja pretender falar em português, usará, para dizer o mesmo, «aproximadamente», «mais coisa, menos coisa», etc. Bem sei que no Prontuário Sonoro se pronuncia como a jornalista o fez. Na desgraça é sempre bom não estarmos sós, dizem os egoístas.

[Post 4636]

Sobre «banal»

Purismo vs. pureza

      Revisão de uma tradução do inglês. Demasiados «banais» por aqui. Hum... O bom Vasco, como diz Montexto, terá dito algo sobre isto? Decerto, pois, ainda que tenha escrito menos do que Enid Blyton, por exemplo, ainda assim não escreveu pouco. «A expressão artística muito ganha com a pureza. Não, porém, com o purismo. Pureza é virtude. Purismo é doença. Se as palavras tiverem artes de hipnotizar a força vernácula, que se há-de fazer?
      Uma vez registei 7 palavras portuguesas para evitar banal. Note-se bem; para “evitar”. Não para expulsar. São elas: frívolo, fútil, correntio, corriqueiro, trivial, vulgar, usual. 7 palavras, 7 virtudes da nossa língua. Mas, se há 7 virtudes, também há 7 pecados, e há quem tenha 7 fôlegos. Por exemplo, o gato, e esta palavrinha banal, que não quer sair do nosso idioma» (Vasco Botelho de Amaral, Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 423).

[Post 4635]

«Ferida assanhada»

Todos juntos

      É sempre uma surpresa ver que há formas semelhantes de dizer as coisas em línguas diferentes, quase holismos. Seja isto: «There’s just one blister, but it’s very red and angry.» «É só uma bolha, mas é muito vermelha e assanhada.» Não está em todos os dicionários recentes, mas lá o encontramos no venerando Morais: «“Ferida assanhada”, feita peyor, mais dorida.» E no Grande Dicionário de Sinônimos e Antônimos de Osmar Barbosa (Rio de Janeiro: Ediouro, 2000, p. 70) também está registado no verbete «assanhado»: «Inflamado, agravado, exacerbado: Ferida assanhada.» Os diccionarios estam cada vez peyores...

[Post 4634]

Sobre «pallbearer», de novo

Assim será

      Decerto que ainda se lembram de aqui ter referido como traduzir o inglês pallbearer. Pois hoje surgiu-me traduzida como «carregador de caixão». É como diz Francisco Agarez: só uma locução.
      «Não se trata de gente POBRE ou MISERÁVEL, nem de carregadores de caixão de defunto...» (A Linguagem dos Esportes de Massa e a Gíria no Futebol, Luiz Cesar Saraiva Feijó. Rio de Janeiro: UERJ, 1994, p. 105). «A mãe do falecido, emocionada, convida-o para carregar o caixão (informação cultural: o pallbearer do título original é isso, carregador de caixão)» (Veja, 45-48, Abril de 1996, p. 51).

[Post 4633]

Interjeições

Ena!

      Já aqui vimos mais de uma vez como as interjeições têm sido descuradas por dicionários, gramáticas e — o que é pior — pelos tradutores. Assim, nem sequer uma vez vejo a interjeição inglesa wow, aportuguesada em uau e muito usada pelos mais jovens, vertida de outra forma que não «uau». Ora temos melhor e nosso: ena, por exemplo. Exprime surpresa e admiração, como wow. Ou, pelo menos, que variem, usando ora uma ora outra.
      E já que foquei novamente esta questão, é a oportunidade ideal para sugerir que os responsáveis do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que tão atentamente, ao que me parece, seguem este blogue, comecem a referir, no verbete de cada interjeição, o que exprime, de que tipo é. Os leitores iam agradecer.

[Post 4632]

Ortografia: «strogonoff»

Língua de molho

      Caro M. L.: é com minúscula: «strogonoff». Repare, porém, como todos os dicionários registam (o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz que vem do inglês; o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que é do francês) que o étimo é stroganoff. Ora, deviam registar que é strogonoff (ou strogonov), ou os leitores menos desatentos vão achar pouco congruente. Este último dicionário e o Dicionário Houaiss acolhem também o aportuguesamento: estrogonofe.
[Post 4631]

Anglicismos

Haja ouvidos e vento

      Ontem, Miguel Esteves Cardoso levantou-se menos inglês que nunca, e pôs-se a desancar nos anglicismos mais óbvios usados na imprensa, e em especial no jornal em que publica a sua crónica diária.
      «Ontem, a Standard & Poor’s cortou o rating português para BBB-, “a apenas um passo do nível denominado como junk”, dizia o PÚBLICO online. Podia ser pior: “a agência baixou também o rating atribuído à Grécia, para BB-, três níveis abaixo do português”. O FT.com adiantava que a S&P tinha tirado Portugal “da lista creditwatch negative”, o que se presume ser coisa boa e de pouco consolo.
      O downgrading do rating para quase junk pede que se pense mais em português. Desgraduar é só uma palavra, ao contrário da inglesa, que são duas coladas. Se existe a graduação do vinho e há anos em que o grau é menor, também existirá a desgraduação. Ou degradação. Ou desvalorização. Ou, mais estupidamente, despromoção.
      O rating ainda é mais fácil: é escalão ou cotação ou, melhor, por serem four letter words: grau, nota ou furo. Afinal, é uma avaliação quantificada, como as estrelas do PÚBLICO. Junk é americano para lixo (e ultimamente calão para qualquer genitália). Também se poderia traduzir zero, já que a agência classifica a Grécia como estando a dois graus abaixo de zero, enquanto Portugal se mantém a um grau acima de zero» («Embarquemos no junco», Miguel Esteves Cardoso, Público, 30.03.2011, p. 39).
      Nos noticiários da Antena 1, nunca ouvi a palavra junk — mas também era só o que faltava. Diziam «lixo», que é junk mas é português. O aportuguesamento devia ser sempre a última opção. O ideal seria encontrar termos em português para traduzir os estrangeirismos. Assim, os termos aventados por Miguel Esteves Cardoso são tão bons como outros. O problema é que são aventados — ou seja, e etimologicamente, atirados ao vento —, não são sugeridos ou recomendados por uma entidade que vele pela língua, porque a não temos.
[Post 4630]

Elipse de «com»

Não se fala mais nisso

      Não há semana em que não veja um original inglês em que aparece uma frase com a estrutura destoutra: «[…] Ethan said, his chin set sharp as an arrowhead.» Tradução invariavelmente encontrável: «[…] disse Ethan, o queixo esticado como a ponta de uma seta.» Cheguei a focar e a increpar aqui esta via única de verter para português esta sintaxe. Aliás, honestamente, até a reputei errada. Estava enganado, mas fiz bem em mostrar aos tradutores que podem e devem variar. Ora cá está o bom Vasco a pontificar (zurzindo, de caminho, o autor da Estilística da Língua Portuguesa): «Têm-se criticado redacções como esta assim — “ela..., os olhos na mãe postos...”. Há quem julgue só correcto — ela..., com os olhos na mãe postos.
      Mostrei, com exemplos clássicos, no referido Dicionário, que a omissão de com anda abonada pelos melhores autores, e não pode considerar-se “viciosa”» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Vasco Botelho de Amaral. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 421).
[Post 4629]

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